{"id":3224,"date":"2021-04-22T10:35:00","date_gmt":"2021-04-22T13:35:00","guid":{"rendered":"https:\/\/elos.sites.uepg.br\/?p=3224"},"modified":"2021-04-22T10:35:00","modified_gmt":"2021-04-22T13:35:00","slug":"coordenador-de-historia-do-museu-do-holocausto-de-curitiba-fala-sobre-memorias-do-nazismo-e-paralelos-com-a-atualidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www2.uepg.br\/elos\/coordenador-de-historia-do-museu-do-holocausto-de-curitiba-fala-sobre-memorias-do-nazismo-e-paralelos-com-a-atualidade\/","title":{"rendered":"Coordenador de Hist\u00f3ria do Museu do Holocausto de Curitiba fala sobre mem\u00f3rias do Nazismo e paralelos com a atualidade"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"font-weight: 400\">O Brasil tem mais de 334 c\u00e9lulas neonazistas em atividade, segundo um levantamento da antrop\u00f3loga Adriana Dias, da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). Desde o in\u00edcio do Governo do presidente Jair Bolsonaro em janeiro de 2019, v\u00e1rias personalidades ligadas ao mandato foram acusadas de promoverem gestos, mensagens e discursos ligados aos supremacistas brancos. A equipe de reportagem do Elos conversou com Michel Ehrlich, coordenador do departamento de Hist\u00f3ria e mediador educativo no <\/span><a href=\"https:\/\/www.museudoholocausto.org.br\/\"><span style=\"font-weight: 400\">Museu do Holocausto de Curitiba<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400\">, sobre o cen\u00e1rio politico social brasileiro em rela\u00e7\u00e3o a atos supremacistas. Ehrlich \u00e9 mestre em Hist\u00f3ria pela Universidade Federal do Paran\u00e1 (UFPR) com a disserta\u00e7\u00e3o \u201cFilhos da Shoah: Mem\u00f3rias e significa\u00e7\u00f5es na comunidade judaica paranaense do p\u00f3s-guerra\u201d. Desenvolve pesquisas nas \u00e1reas de autoritarismo, mem\u00f3ria, educa\u00e7\u00e3o e identidades. \u00c9 autor de &#8220;O Macabeu: imigra\u00e7\u00e3o e identidade judaica&#8221;, publicado em 2017. A entrevista tamb\u00e9m trata sobre o trabalho realizado pelo Museu do Holocausto de Curitiba, primeiro e \u00fanico no Brasil. <\/span><br \/>\n<b>Em 24 de mar\u00e7o, o Museu do Holocausto de Curitiba <\/b><a href=\"https:\/\/twitter.com\/MuseuHolocausto\/status\/1374881743279390722\"><b>twittou que<\/b><\/a><b> &#8220;\u00e9 estarrecedor que n\u00e3o haja uma semana que o Museu do Holocausto de Curitiba n\u00e3o tenha que denunciar, reprovar ou repudiar um discurso antissemita, um s\u00edmbolo nazista ou ato supremacista. No Brasil, em pleno 2021&#8221;. Como voc\u00ea avalia o cen\u00e1rio pol\u00edtico social do Brasil atualmente em rela\u00e7\u00e3o a atos supremacistas?<\/b><br \/>\n<span style=\"font-weight: 400\">Esse tweet foi por ocasi\u00e3o do gesto feito pelo ex-assessor Filipe Martins. N\u00e3o foi o \u00fanico caso que o Museu se posicionou via Twitter recentemente, mas foi o que teve maior repercuss\u00e3o, provavelmente por ser o mais grave. \u00c9 preciso diferenciar dois fen\u00f4menos que se relacionam mas s\u00e3o distintos. Um deles \u00e9 a deturpa\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria do Holocausto, que \u00e9 alega\u00e7\u00f5es como uma que tamb\u00e9m o Museu se posicionou no Twitter, comparando o <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Lockdown<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> em Araraquara com um campo de concentra\u00e7\u00e3o. Nesse caso, \u00e9 uma deturpa\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria. Transforma o Holocasuto e o Nazismo como o s\u00edmbolo m\u00e1ximo do mal e associado \u00e0quilo com o qual n\u00e3o se est\u00e1 concordando. E essas compara\u00e7\u00f5es t\u00eam sido recorrentes. O outro fen\u00f4meno, ainda mais grave, em que se enquadra o caso do Filipe Martins, se trata efetivamente de apologias ao Nazismo e a Supremacia Branca. No caso do ex-assessor, foi o gesto que nos \u00faltimos anos foi apropriado por grupos Supremacistas Brancos, como diversas not\u00edcias e estudos mostram. Diante disso, o Museu, como uma institui\u00e7\u00e3o que se volta para a constru\u00e7\u00e3o de uma mem\u00f3ria do Holocausto, se v\u00ea na obriga\u00e7\u00e3o de se posicionar perante a esses acontecimentos. Adorar\u00edamos n\u00e3o gastar nosso tempo com esse tipo de coisa. A fun\u00e7\u00e3o do Museu n\u00e3o \u00e9 ficar respondendo pessoas que fazem esse tipo de apologia. N\u00f3s gostar\u00edamos de estar focados 100% em uma educa\u00e7\u00e3o de Direitos Humanos, combate ao racismo e apoio \u00e0 democracia. Mas infelizmente, diante dessas situa\u00e7\u00f5es, o Museu se v\u00ea na obriga\u00e7\u00e3o \u00e9tica de se poscionar e deixar claro n\u00e3o s\u00f3 o rep\u00fadio, mas quais s\u00e3o as rela\u00e7\u00f5es desses gestos com o passado com o qual o Museu do Holocausto lida, quais os vinculos que se estabelecem, o que significa, qual a hist\u00f3ria desse gestoe porqu\u00ea foi apropriado pelos supremacistas brancas. <\/span><br \/>\n<b>E em qual contexto esses gestos, declara\u00e7\u00f5es e mensagens supremacistas est\u00e3o inseridas?<\/b><br \/>\n<span style=\"font-weight: 400\">V\u00e1rias pesquisas em Ci\u00eancias Pol\u00edticas demonstram que se inserem em uma estrat\u00e9gia chamada <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">dog whistle<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, ou em portugu\u00eas, apito de cachorro. Que \u00e9 quando um pol\u00edtico ou personalidade famosa emite alguma mensagem, seja um gesto ou express\u00e3o, que para maior parte das pessoas n\u00e3o significa nada, mas que inflama e empodera grupos espec\u00edficos que s\u00e3o os receptores dessas mensagens. No caso do ex-assessor Filipe Martins, sequer foi o primeiro gesto feito por ele. J\u00e1 tivemos uma publica\u00e7\u00e3o dele de um trecho do poema que abria o manifesto do terrorista que abriu fogo contra uma mesquita na Nova Zel\u00e2ndia, Brenton Terrant. O poema \u00e9 anterior ao ataque, mas colocando no contexto, as quantidades de coincid\u00eancias mostra o que significa. Isso se enquadra no conceito do <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">dog whistle<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, porque s\u00e3o situa\u00e7\u00f5es em que facilmente \u00e9 f\u00e1cil alegar \u201cmas veja bem, n\u00e3o \u00e9 isso que quis dizer\u201d. E os casos de Martins n\u00e3o s\u00e3o isolados no governo. A mais expl\u00edcita delas, que at\u00e9 deixa de ser um<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\"> dog whistle<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, porque quase todos perceberam, foi o caso do ent\u00e3o Secret\u00e1rio Especial de Cultura, Roberto Alvim, em janeiro de 2020. Em um pronunciamento, ele copiou as palavras e a est\u00e9tica de Joseph Goebbels, ministro da propaganda nazista. O pr\u00f3prio discurso dele foi compat\u00edvel com tudo o que Goebbels afirmava. Esse tipo de fen\u00f4meno est\u00e1 mais recorrente na atualidade e \u00e9 preciso deixar claro que \u00e9 preocupante que qualquer pessoa fa\u00e7a um gesto desses, mas \u00e9 ainda mais grave quando \u00e9 algu\u00e9m que tem um cargo no governo ou uma pessoa influente em redes sociais. <\/span><br \/>\n&nbsp;<br \/>\n<img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter wp-image-3225\" src=\"https:\/\/elos.sites.uepg.br\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/IMG-20180906-WA0007-300x201.jpg\" alt=\"\" width=\"496\" height=\"331\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><em><span style=\"font-weight: 400\">Espa\u00e7o no Museu do Holocausto de Curitiba exp\u00f5e propagandas do Governo Nazista, \u00e1rea chefiada por Joseph Goebbels. <\/span><\/em><em>Foto: C\u00e1ssio Murilo<\/em><\/p>\n<p><b>Como voc\u00eas mesmo destacaram, nos \u00faltimos meses tivemos v\u00e1rios exemplos de atos supremacistas e xen\u00f3fobos por parte de membros do governo e famosos. Por que voc\u00ea acha que isso acontece?<\/b><br \/>\n<span style=\"font-weight: 400\">Eu acredito que v\u00e1rios fatores provocam esse fen\u00f4meno. Um deles \u00e9 uma forma como a mem\u00f3ria do Holocausto passou a ser representada como o Nazismo sendo o simbolo m\u00e1ximo do mal. Ent\u00e3o, aquilo que n\u00e3o gosto eu passo a dizer que \u00e9 nazista. O que n\u00e3o significa que paralelos e rela\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas n\u00e3o devam ser feitas, pelo contr\u00e1rio, n\u00e3o podemos tratar o Holocausto e Nazismo como algo completamente separado da humanidade. N\u00e3o \u00e9 um fen\u00f4meno hist\u00f3rico, mas um fen\u00f4meno humano. Um segundo fator relevante, como mostram estudos como o da antrop\u00f3loga Adriana Dias da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), \u00e9 um aumento de sites e c\u00e9lulas neonazistas e de supremacistas brancos. Muitas delas surgem no ambiente ambiental e depois saem de l\u00e1. Elas permanecem marginais na sociedade como um todo, mas crescem em uma velocidade alarmante. Estamos em um ambiente pol\u00edtico que tem se mostrado prop\u00edcio para esse tipo de a\u00e7\u00e3o, marcado por ataques \u00e0quilo que \u00e9 entendido como diferente. Ainda existe um certo recha\u00e7o social a s\u00edmbolos como a su\u00e1stica, por\u00e9m, quando um grupo neonazista ou supremacista branco emite uma mensagem que \u00e9 completamente coerente com o ideal deles, mas sem esses s\u00edmbolos que deixam expl\u00edcito o v\u00ednculo com essas ideias racistas, xen\u00f3fobas, homof\u00f3bicas etc, que encontram uma certa resson\u00e2ncia social e que s\u00e3o vistas como mensagens leg\u00edtimas no debate pol\u00edtico. N\u00f3s temos que ver como algo preocupante o fen\u00f4meno de concordar com certas afirma\u00e7\u00f5es, mas tamb\u00e9m a normaliza\u00e7\u00e3o dessas afirma\u00e7\u00f5es. Quando digo \u201cn\u00e3o concordo, mas isso faz parte do debate pol\u00edtico\u201d, eu estou admitindo que esse \u00e9 um discurso aceit\u00e1vel e do qual podemos concordar em discordar. Quando estamos em discursos de \u00f3dio, n\u00e3o existe concordar e n\u00e3o discordar, eles n\u00e3o podem existir! E um terceiro fator que \u00e9 efetivamente a penetra\u00e7\u00e3o dessas ideias em pessoas por forte influ\u00eancia no governo e na m\u00eddia. \u00c9 muito preocupante que vemos isso em deputados, assessores e secret\u00e1rios que reverberam essas ideias, sobretudo no c\u00edrculo em torno dos filhos do Presidente Jair Bolsonaro. N\u00f3s temos muito essas teses que n\u00e3o s\u00e3o de fato exclusivas dos supremacistas brancos neonazistas, mas s\u00e3o compartilhadas por esses grupos pol\u00edticos e por isso estabelecem certos v\u00ednculos. N\u00e3o \u00e9 uma rela\u00e7\u00e3o t\u00e3o evidente, por isso nem todas as pessoas que reproduzem essas mensagens s\u00e3o filiados a grupos neonazistas e supremacistas, mas demonstram ideias iguais, que fazem com exista essa proximidade entre os grupos.\u00a0 <\/span><br \/>\n<b>Como podemos reconhecer e identificar um discurso supremacista?<\/b><br \/>\n<span style=\"font-weight: 400\">Evidentemente \u00e9 mais f\u00e1cil \u00e0 medida que ele deixa de ser o <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">dog whistle<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. Ent\u00e3o quando n\u00f3s vemos diretamente men\u00e7\u00f5es a s\u00edmbolos e falas completamente preconceituosas, \u00e9 f\u00e1cil identificar. Muito mais dif\u00edcil, \u00e9 justamente essa estrat\u00e9gia empregada pelas mensagens acobertadas. N\u00e3o tem uma f\u00f3rmula que eu possa dizer \u201cassim n\u00f3s identificamos\u201d. Eu que estudo esse tema, tem coisas que me passam batido, porque eu n\u00e3o conhe\u00e7o todas as simbologias e express\u00f5es usadas por esses grupos, que se modificam muito rapidamente. O que eu diria \u00e9 que quando surge alguma suspeita, devemos ficar de olho. Obviamente n\u00e3o \u00e9 clavar que algo \u00e9 isso, se n\u00e3o entramos em outras teorias da conspira\u00e7\u00e3o, mas \u00e9 considerar o contexto e as coincid\u00eancias que acontecem. Quando uma mesma pessoa faz um gesto que supostamente est\u00e1 ajeitando o palet\u00f3, mas \u00e9 um gesto que os supremacistas brancos fazem, e a mesma pessoa j\u00e1 twittou um poema e citou uma express\u00e3o em latim usada por neonazistas, come\u00e7a a ser coincid\u00eancias demais. Ent\u00e3o \u00e9 preciso reparar nisso e termos os cuidados necess\u00e1rios, principalmente n\u00e3o achar que esse tipo de ideia desapareceu e que se limita aos s\u00edmbolos. Infelizmente, n\u00e3o precisamos da su\u00e1stica para afirmar que algo \u00e9 pr\u00f3ximo ao Nazismo, mas sim, analisar qual o conte\u00fado da mensagem.<\/span><br \/>\n<b>Qual o trabalho desenvolvido pelo Museu do Holocausto de Curitiba?<\/b><br \/>\n<span style=\"font-weight: 400\">O Museu do Holocausto de Curitiba foi criado no final de 2011 e surge por iniciativa de integrantes da comunidade Judaica de Curitiba. Ele \u00e9 o primeiro e \u00fanico Museu dedicado ao tema no Brasil. Temos o espa\u00e7o expositivo, que em um contexto normal \u00e9 o principal atrativo. Fora de pandemia, recebemos anualmente cerca de 20 mil visitantes, dos quais, a maioria s\u00e3o grupos escolares. As visitas s\u00e3o mediadas por uma narrativa coerente da exposi\u00e7\u00e3o e do projeto do Museu. Temos alguns pilares fundamentais que estruturam o funcionamento, n\u00e3o s\u00f3 da exposi\u00e7\u00e3o, mas de tudo o que fazemos. N\u00e3o \u00e9 um Museu sobre a morte, mas que fala sobre a vida das pessoas que passaram pelo Holocausto. Evitamos trabalhar o Holocausto como um acontecimento quantitifado, os n\u00fameros n\u00e3o s\u00e3o o foco, mas as pessoas, rostos, nomes e trajet\u00f3rias individuais, porque \u00e9 a hist\u00f3ria delas que permite gerar uma empatia entre visitante e o tema que est\u00e1 sendo abordado. Um terceiro elemento \u00e9 que o Holocausto n\u00e3o \u00e9 tratado como um evento fora da hist\u00f3ria e como se os nazistas fossem demonios que simplesmente por serem malvados, fizeram um genocidio. Isso n\u00e3o significa que o que aconteceu tenha sido menos grave, mas a quest\u00e3o \u00e9 que n\u00e3o precisamos de monstros para praticar monstruosidades. O Holocausto foi um ato humano. E \u00e9 justamente isso que permite que relacionamos o Holocausto com o nosso presente. Tudo aconteceu a menos de 80 anos e a forma como n\u00f3s pensamos como humanidade e nos relacionamos n\u00e3o \u00e9 radicalmente diferente do que permitiu o Holocausto. Por isso, o aprendizado serve para pensarmos sobre intoler\u00e2ncia religiosa, racismo, homofobia, machismo, entre outros. No sentido de pensar que os fatores que fizeram o Holocausto ser possivel, s\u00e3o fatores que est\u00e3o fazendo agress\u00f5es hoje em dia serem poss\u00edveis. A medida que entedemos o que foi o Holocausto como um fen\u00f4meno hist\u00f3rico e humano, podemos entender melhor o nosso presente. E um melhor conhecimento, nos d\u00e1 melhores ferramentas para combatermos o que est\u00e1 acontecendo.<\/span><br \/>\n&nbsp;<br \/>\n<img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter wp-image-3226\" src=\"https:\/\/elos.sites.uepg.br\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/IMG-20180906-WA0005-300x201.jpg\" alt=\"\" width=\"502\" height=\"335\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><em><span style=\"font-weight: 400\">\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 Estudantes de jornalismo da UEPG em visita mediada ao Museu do Holocausto de Curitiba em 2018. <\/span><\/em><em><span style=\"font-weight: 400\">Foto:C\u00e1ssio Murilo<\/span><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: left\"><b>Qual \u00e9 a import\u00e2ncia de preservarmos a hist\u00f3ria e a mem\u00f3ria?<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Quando estamos falando em mem\u00f3ria, falamos em algo que est\u00e1 em constante constru\u00e7\u00e3o, ent\u00e3o n\u00e3o podemos dizer que preservarmos a mem\u00f3ria. O passado n\u00e3o se modifica, mas a forma como nos relacionamos com esse passado sim. Ent\u00e3o a mem\u00f3ria n\u00e3o \u00e9 o passado, mas como nos relacionamos com ele no presente. Estamos constantemente construindo a mem\u00f3ria, porque acreditamos que \u00e9 relevante para os dilemas que enfrentamos na atualidade. Espero que chegue um dia, apesar de n\u00e3o ser otimista, em que se modifique radicalmente a forma como nos ligamos ao passado e possamos dizer que n\u00e3o tem nada a ver com o presente, mas ainda n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel. Acreditamos que o passado do Holocausto nos dizer muito sobre hoje em dia. Ent\u00e3o a forma como queremos lembrar esse passado \u00e9 de uma forma que nos d\u00ea ferramentas para a promo\u00e7\u00e3o dos Direitos Humanos, para a constru\u00e7\u00e3o de uma cultura democr\u00e1tica e para o combate das intoler\u00e2ncias e preconceitos. N\u00e3o \u00e9 que os nazistas est\u00e3o nos ensinando algo, mas somos n\u00f3s que estamos nos relacionando ao passado e atribuindo essa no\u00e7\u00e3o \u00e0 mem\u00f3ria. <\/span><br \/>\n<b>E quais os paralelos que podemos fazer entre o passado do Holocausto e do nosso presente?<\/b><br \/>\n<span style=\"font-weight: 400\">Infelizmente s\u00e3o muitos. Uma coisa importante \u00e9 lembrarmos que o Holocausto \u00e9 parte da hist\u00f3ria e, como qualquer outro genocidio, \u00e9 um processo. Por isso, sempre temos que ter em mente em que momento do processo hist\u00f3rico estamos falando. Por exemplo, quando falamos sobre o Holocausto estamos falando sobre queima de livros e censura? Sim, podemos e devemos relacionar isso a censuras de informa\u00e7\u00f5es que ocorrem hoje em dia. Isso n\u00e3o significa que qualquer censura seja um Holocausto, at\u00e9 porque quando se queimava livro na Alemanha Nazista, ningu\u00e9m falava em genocidio naquele momento. Por\u00e9m, olhando agora, sabemos que foi um momento importante para possibilitar o genocidio. E \u00e9 assim que podemos fazer paralelos, como o controle de informa\u00e7\u00e3o e tamb\u00e9m casos de racismo e intoler\u00e2ncia religiosa. Outro paralelo s\u00e3o os projetos e pr\u00e1ticas autorit\u00e1rias, que n\u00e3o precisam chegar ao nivel do controle autorit\u00e1rio nazista para que possamos, a partir do passado, refletir sobre o presente. At\u00e9 em casos mais explicitos, de pr\u00e1ticas efetivamente genocidias, porque o Holocausto n\u00e3o foi o primeiro e nem o \u00faltimo. Ent\u00e3o, \u00e9 poss\u00edvel fazer paralelos em diferentes momentos hist\u00f3ricos e camadas, se pensarmos em todos os processos que comuniram no Holocausto, desde as primeiras falas autoritarias do Partido Nazista, passando pela censura at\u00e9 chegar ao Genocidio. <\/span><br \/>\n<b>Como o Museu est\u00e1 atuando durante o momento de pandemia?<\/b><br \/>\n<span style=\"font-weight: 400\">O Museu do Holocausto de Curitiba est\u00e1 fechado desde mar\u00e7o de 2020 e n\u00e3o tem uma previs\u00e3o, em curto prazo, de reabrir. Mesmo em momentos que legalmente poder\u00edamos abrir nosso espa\u00e7o f\u00edsico com adapta\u00e7\u00f5es, escolhemos n\u00e3o abrir, por conta do perigo representado pelo v\u00edrus. O Museu s\u00f3 ir\u00e1 reabrir em um momento que sentimos que existe seguran\u00e7a para os visitantes e para a equipe. Mas isso n\u00e3o significa que o trabalho parou. Por ser um Museu, a exposi\u00e7\u00e3o \u00e9 sempre a parte mais vis\u00edvel, mas existem outros trabalhos, como constru\u00e7\u00e3o de acervo, pesquisa hist\u00f3rica e cataloga\u00e7\u00e3o de hist\u00f3rias de sobreviventes do Holocausto, que permanecem sendo feitas, mesmo com a equipe em <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">home office<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. Al\u00e9m disso, o Museu na pandemia intensificou as atividades nas redes sociais. Antes do v\u00edrus, elas j\u00e1 eram mais do uma rede de divulga\u00e7\u00e3o e m\u00e9todo de atrair visitantes, mas um meio para compartilhar nossas mensagens e ideais. Durante a pandemia, elas se tornaram a principal rede de contato entre Museu e p\u00fablico, com publica\u00e7\u00f5es regulares que seguem as diretrizes educativas da nossa equipe. Temos tamb\u00e9m uma s\u00e9rie de eventos online realizados, tanto organizados pelo Museu, como por institui\u00e7\u00f5es parceiras. Existe\u00a0 <\/span><a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/LAESred\"><i><span style=\"font-weight: 400\">La Red Latinoamericana para la Ense\u00f1anza de la Sho\u00e1<\/span><\/i><\/a> <span style=\"font-weight: 400\">(LAE), ou Rede Latinoamericana para o Ensino da Sho\u00e1 em portugu\u00eas, que \u00e9 uma rede formada por diferentes museus mem\u00f3riais na regi\u00e3o que tratam sobre o Holocausto e que promovem uma s\u00e9rie de eventos online. O Museu do Holocausto de Curitiba continua ativo de diferentes formas, o que est\u00e1 fechado \u00e9 a exposi\u00e7\u00e3o.\u00a0<\/span><br \/>\n&nbsp;<br \/>\n<b>Acompanhe o Museu do Holocausto de Curitiba online:<\/b><br \/>\n<span style=\"font-weight: 400\">Site: <\/span><a href=\"https:\/\/www.museudoholocausto.org.br\/\"><span style=\"font-weight: 400\">https:\/\/www.museudoholocausto.org.br\/<\/span><\/a><br \/>\n<span style=\"font-weight: 400\">Facebook: <\/span><a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/MuseuShoaCuritiba\/\"><span style=\"font-weight: 400\">https:\/\/www.facebook.com\/MuseuShoaCuritiba\/<\/span><\/a><br \/>\n<span style=\"font-weight: 400\">Instagram: <\/span><a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/museudoholocausto\/\"><span style=\"font-weight: 400\">https:\/\/www.instagram.com\/museudoholocausto\/<\/span><\/a><br \/>\n<span style=\"font-weight: 400\">Twitter: <\/span><a href=\"https:\/\/twitter.com\/MuseuHolocausto\"><span style=\"font-weight: 400\">https:\/\/twitter.com\/MuseuHolocausto<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400\">\u00a0<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Brasil tem mais de 334 c\u00e9lulas neonazistas em atividade, segundo um levantamento da antrop\u00f3loga Adriana Dias, da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). Desde o in\u00edcio do Governo do presidente Jair Bolsonaro em janeiro de 2019, v\u00e1rias personalidades ligadas ao mandato foram acusadas de promoverem gestos, mensagens e discursos ligados aos supremacistas brancos. 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