{"id":3462,"date":"2021-06-22T12:21:55","date_gmt":"2021-06-22T15:21:55","guid":{"rendered":"https:\/\/elos.sites.uepg.br\/?p=3462"},"modified":"2021-06-22T12:21:55","modified_gmt":"2021-06-22T15:21:55","slug":"entrevista-com-katia-belisario-violencias-contra-as-mulheres-na-politica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www2.uepg.br\/elos\/entrevista-com-katia-belisario-violencias-contra-as-mulheres-na-politica\/","title":{"rendered":"Entrevista com K\u00e1tia Belis\u00e1rio: Viol\u00eancias contra as mulheres na Pol\u00edtica"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"font-weight: 400\">Professora da Faculdade de Comunica\u00e7\u00e3o, <\/span><span style=\"font-weight: 400\">Katia Maria Belis\u00e1rio da Universidade de Bras\u00edlia (UnB), em entrevista ao Elos, discute as viol\u00eancias contra as mulheres na pol\u00edtica brasileira.\u00a0<\/span><br \/>\n<span style=\"font-weight: 400\">Graduada em 1983 em Comunica\u00e7\u00e3o Social com habilita\u00e7\u00e3o em Publicidade e Propaganda pela Faculdade de Filosofia Ci\u00eancias e Letras da Universidade Federal de Minas Gerais (FAFICH-UFMG), K\u00e1tia \u00e9 mestre em Agronomia pela <\/span><span style=\"font-weight: 400\">California Polytechnic State University, nos Estados Unidos, doutora em Jornalismo e Sociedade pela UnB e p\u00f3s-doutora\u00a0 pela Universidade de Leicester na Inglaterra. A professora, que \u00e9 l\u00edder do grupo de pesquisa &#8220;G\u00eanero, Comunica\u00e7\u00e3o e Sociabilidade&#8221; do CNPq, coordena pesquisas que discutem quest\u00f5es de desigualdades de g\u00eanero presentes nos meios de comunica\u00e7\u00e3o e difundidas na sociedade, principalmente em setores como pol\u00edtica.\u00a0<\/span><br \/>\n<img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter wp-image-3464\" src=\"https:\/\/elos.sites.uepg.br\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/Katia.jpg\" alt=\"\" width=\"276\" height=\"276\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: left\">\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 <span style=\"font-weight: 400\">K\u00e1tia Maria Belis\u00e1rio<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<br \/>\n<b>Entrevista:\u00a0<\/b><br \/>\n<b>Val\u00e9ria:<\/b><span style=\"font-weight: 400\"> Como e quando essa vontade de pesquisar as viol\u00eancias sofridas pelas mulheres na pol\u00edtica surgiu?<\/span><br \/>\n<b>K\u00e1tia Belis\u00e1rio:<\/b><span style=\"font-weight: 400\"> Eu sempre me interessei por pol\u00edtica, desde nova quis ver como eram as elei\u00e7\u00f5es mesmo na \u00e9poca entre dois partidos MDB e Arena do Brasil, ent\u00e3o quando iniciei meus estudos em comunica\u00e7\u00e3o, logo de in\u00edcio quis essa \u00e1rea dentro do Jornalismo.<\/span><br \/>\n<b>Val\u00e9ria:<\/b><span style=\"font-weight: 400\"> Qual era o cen\u00e1rio da \u00e9poca quando a senhora iniciou seus estudos na pol\u00edtica (desafios, perspectivas, apoio de orientadores, a pr\u00f3pria pol\u00edtica da \u00e9poca) ?\u00a0<\/span><br \/>\n<b>K\u00e1tia Belis\u00e1rio: <\/b><span style=\"font-weight: 400\">Na \u00e9poca em que entrei na faculdade, a gente ainda vivia uma ditadura, aos poucos indo para uma democracia. O brasileiro estava participando muito politicamente, reivindicando melhores condi\u00e7\u00f5es de vida, pedindo as \u201cDiretas j\u00e1\u201d, entretanto, o papel da mulher n\u00e3o era t\u00e3o abordado, havia uma lacuna na participa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica que ainda hoje n\u00e3o foi preenchida.<\/span><br \/>\n<b>Val\u00e9ria:<\/b><span style=\"font-weight: 400\"> A import\u00e2ncia de falar e pesquisar a viol\u00eancia contra as mulheres na pol\u00edtica nos dias atuais, tem se mostrado cada vez mais. A senhora enquanto pesquisadora e tamb\u00e9m professora nota um maior interesse de jovens estudantes nessa tem\u00e1tica?\u00a0<\/span><br \/>\n<b>K\u00e1tia Belis\u00e1rio:<\/b><span style=\"font-weight: 400\"> Os alunos t\u00eam muito interesse nessa pauta, esse \u00e9 um tema realmente que precisa ser estudado, \u00e9 necess\u00e1rio buscar formas de valorizar o papel da mulher.<\/span><br \/>\n<span style=\"font-weight: 400\">O Brasil ser quinto pa\u00eds que mais mata mulheres, \u00e9 uma das principais raz\u00f5es para estudarmos viol\u00eancia contra a mulher. Debater este tema \u00e9 primordial dentro do cen\u00e1rio brasileiro, temos \u00edndices alt\u00edssimos de feminic\u00eddio, de viol\u00eancia dom\u00e9stica e de ass\u00e9dio sexual e moral, vivemos em uma sociedade patriarcal com uma cultura patriarcal. A mulher n\u00e3o tem voz, tanto na participa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica quanto dentro de casa nos afazeres dom\u00e9sticos e nas divis\u00f5es de tarefas.\u00a0<\/span><br \/>\n<b>Val\u00e9ria:<\/b><span style=\"font-weight: 400\"> No ano de 2020 apenas os jornais com enfoque de g\u00eanero em sua maioria falaram sobre os ataques a mulheres durante as elei\u00e7\u00f5es. Quais barreiras ainda precisam ser quebradas pela m\u00eddia hegem\u00f4nica para que se fale dessa problem\u00e1tica?<\/span><br \/>\n<b>K\u00e1tia Belis\u00e1rio:<\/b><span style=\"font-weight: 400\"> O enfoque maior em tem\u00e1ticas de g\u00eanero est\u00e1 muito nas pessoas que estudam g\u00eanero, nas revistas especializadas. Os jornais hegem\u00f4nicos come\u00e7aram a mostrar ao longo do tempo quest\u00f5es associadas, mas divulgam casos espec\u00edficos apenas, por exemplo sobre viol\u00eancia dom\u00e9stica e feminic\u00eddio, o que precisa mudar urgentemente.\u00a0<\/span><br \/>\n<span style=\"font-weight: 400\">Eu fiz uma pesquisa muito grande em g\u00eanero e comunica\u00e7\u00e3o no meu P\u00f3s-Doutorado na Universidade de Leicester da Inglaterra comparando os jornais brasileiros e ingleses, os escolhidos foram a Folha de S\u00e3o Paulo e o <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">The Guardian<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. Percebi ao longo da pesquisa que o enfoque nas mulheres ainda \u00e9 muito pequeno, elas n\u00e3o se encontram em colunas de pol\u00edtica, sempre em colunas de crimes, colunas de vida dom\u00e9stica e sociedade. Nunca \u00e9 dado muito m\u00e9rito para o papel da mulher, elas nunca est\u00e3o nas principais p\u00e1ginas do jornal, tanto na Folha de S\u00e3o Paulo quanto no <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">The Guardian.\u00a0<\/span><\/i><br \/>\n<span style=\"font-weight: 400\">A diferen\u00e7a \u00e9 que<\/span> <span style=\"font-weight: 400\">nos jornais brasileiros os jornalistas lidam com a quest\u00e3o da viol\u00eancia dom\u00e9stica por exemplo, de forma muito mais naturalizada, o que \u00e9 prejudicial. H\u00e1 uma banaliza\u00e7\u00e3o do tema, s\u00e3o poucas as falas das v\u00edtimas que sofreram viol\u00eancia, como citado anteriormente, essas poucas mat\u00e9rias n\u00e3o s\u00e3o ligadas a um questionamento de pol\u00edticas p\u00fablicas, elas se encontram em uma parte muito pequena sobre crimes.\u00a0<\/span><br \/>\n<b>Val\u00e9ria:<\/b><span style=\"font-weight: 400\"> Quais passos precisam ser dados para que a viol\u00eancia diminua e a pol\u00edtica brasileira avance no sentido de uma maior igualdade?<\/span><br \/>\n<b>K\u00e1tia Belis\u00e1rio: <\/b><span style=\"font-weight: 400\">Primeiramente na pol\u00edtica, \u00e9 imprescind\u00edvel a presen\u00e7a de mais mulheres em cargos eletivos, desnaturalizar essa pr\u00e1tica de colocar candidatas mulheres como laranja de partidos pol\u00edticos, mais participa\u00e7\u00e3o das mulheres converge em pol\u00edticas p\u00fablicas adequadas para a nossa realidade.\u00a0<\/span><br \/>\n<span style=\"font-weight: 400\">Com rela\u00e7\u00e3o a viol\u00eancia contra mulher a primeira coisa \u00e9 denunciar, existe muito esse dilema \u201c\u00e9 meu vizinho\u201d \u00e9 \u201cmeu parente\u201d ou \u201cem briga de marido e mulher n\u00e3o se mete a colher\u201d, a quest\u00e3o \u00e9 que deve ser feita a den\u00fancia sim! Seja por parte da v\u00edtima, por parte das pessoas ao redor ou das redes de apoio.\u00a0<\/span><br \/>\n<span style=\"font-weight: 400\">Um dos passos que precisam ser dados \u00e9 a cria\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas voltadas para o desenvolvimento econ\u00f4mico da mulher, com a possibilidade de renda muitas delas podem sair do ambiente abusivo. Outro ponto que precisa ser modificado s\u00e3o as formas de den\u00fancia.\u00a0<\/span><br \/>\n<span style=\"font-weight: 400\">A educa\u00e7\u00e3o de crian\u00e7as \u00e9 um exemplo muito interessante de mudan\u00e7as mais profundas, vi muito essa quest\u00e3o quando estudei fora, o ensino com enfoque de g\u00eanero nas disciplinas escolares faz com que a crian\u00e7a j\u00e1 cres\u00e7a aprendendo sobre igualdade de g\u00eanero e respeito perante as mulheres, esse processo educativo faz uma diferen\u00e7a enorme na sociedade.\u00a0\u00a0<\/span><br \/>\n<b>Val\u00e9ria:<\/b><span style=\"font-weight: 400\"> Quais as maiores diferen\u00e7as da viol\u00eancia \u00e0 mulher na pol\u00edtica no Brasil com rela\u00e7\u00e3o a outros pa\u00edses, principalmente da am\u00e9rica latina?\u00a0 Essa linha se mant\u00e9m parecida?<\/span><br \/>\n<b>K\u00e1tia Belis\u00e1rio:<\/b><span style=\"font-weight: 400\"> Comparando o Brasil com outros pa\u00edses latino-americanos e inclusive pa\u00edses desenvolvidos, a viol\u00eancia acontece da mesma forma, \u00e9 uma quest\u00e3o de uma cultura patriarcal e de domina\u00e7\u00e3o masculina da sociedade. Entretanto, existe mais apoio para a banaliza\u00e7\u00e3o do papel da mulher e permissibilidade para que essas desigualdades aconte\u00e7am nos contextos latino-americanos. Acredito que no Brasil a viol\u00eancia seja uma das maiores, pois h\u00e1 facilitadores, um exemplo disso agora \u00e9 a possibilidade das pessoas terem armas em casa.\u00a0<\/span><br \/>\n<b>Val\u00e9ria:<\/b><span style=\"font-weight: 400\"> Entrando na realidade do governo atual, que impactos os discursos dados pelo presidente da rep\u00fablica trazem para as mulheres na pol\u00edtica?<\/span><br \/>\n<b>K\u00e1tia Belis\u00e1rio:<\/b><span style=\"font-weight: 400\"> Os discursos dados pela respons\u00e1vel pela Secretaria dos Direitos Humanos, da Fam\u00edlia e da Mulher do atual governo j\u00e1 trazem muitos impactos negativos, como por exemplo acreditar que as mulheres devem vestir rosa e homens devem vestir azul, bem como, agredir verbalmente uma crian\u00e7a que fez um aborto por ter sido estuprada.\u00a0<\/span><br \/>\n<span style=\"font-weight: 400\">Outro impacto negativo do governo \u00e9 a distor\u00e7\u00e3o dos estudos de g\u00eanero, quest\u00f5es de g\u00eanero s\u00e3o deturpadas, ningu\u00e9m pode ensinar g\u00eanero na escola, falar em g\u00eanero \u00e9 falar sobre \u201ckit gay\u201d, o feminismo \u00e9 considerado mimimi e mulheres podem ser dignas ou n\u00e3o de serem estupradas. Diante disso, n\u00e3o h\u00e1 lugar para se pensar pol\u00edticas p\u00fablicas s\u00e9rias e eficientes para coibir a viol\u00eancia contra as mulheres. Nesse cen\u00e1rio, pesquisar feminismo e g\u00eanero \u00e9 um ato de resist\u00eancia.<\/span><br \/>\n<span style=\"font-weight: 400\">Da mesma forma, existem pouqu\u00edssimas senadoras e deputadas, a mulher n\u00e3o \u00e9 valorizada e nem bem representada, o diferencial dos outros pa\u00edses sempre vai ser as pol\u00edticas p\u00fablicas espec\u00edficas e voltadas para as mulheres.\u00a0<\/span><br \/>\n&nbsp;<br \/>\n<span style=\"font-weight: 400\">A entrevista faz parte da divulga\u00e7\u00e3o do 7\u00b0 Col\u00f3quio Mulher e Sociedade, que possui como tema deste ano \u201cDesigualdades de g\u00eanero e interseccionalidade: os direitos humanos em tempos de crise\u201d, o evento acontece nos dias 28, 29 e 30 de junho, \u00e9 promovido pelo grupo de pesquisa \u201cJornalismo e G\u00eanero\u201d do Mestrado em Jornalismo da Universidade Estadual de Ponta Grossa, em parceria com o projeto de extens\u00e3o Elos &#8211; Jornalismo, Direitos Humanos e Forma\u00e7\u00e3o Cidad\u00e3 e ao Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Comunica\u00e7\u00e3o da Universidade de Bras\u00edlia, apoiado pela Parada LGBTQIA+ dos Campos Gerais.\u00a0<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Professora da Faculdade de Comunica\u00e7\u00e3o, Katia Maria Belis\u00e1rio da Universidade de Bras\u00edlia (UnB), em entrevista ao Elos, discute as viol\u00eancias contra as mulheres na pol\u00edtica brasileira.\u00a0 Graduada em 1983 em Comunica\u00e7\u00e3o Social com habilita\u00e7\u00e3o em Publicidade e Propaganda pela Faculdade de Filosofia Ci\u00eancias e Letras da Universidade Federal de Minas Gerais (FAFICH-UFMG), K\u00e1tia \u00e9 mestre&nbsp;&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":846,"featured_media":3463,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[39],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/elos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3462"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/elos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/elos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/elos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/846"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/elos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3462"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/elos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3462\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/elos\/wp-json\/"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/elos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3462"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/elos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3462"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/elos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3462"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}