{"id":4024,"date":"2021-09-23T14:07:03","date_gmt":"2021-09-23T17:07:03","guid":{"rendered":"https:\/\/elos.sites.uepg.br\/?p=4024"},"modified":"2021-09-23T14:07:03","modified_gmt":"2021-09-23T17:07:03","slug":"entrevista-dia-da-visibilidade-bissexual-com-danieli-klidzio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www2.uepg.br\/elos\/entrevista-dia-da-visibilidade-bissexual-com-danieli-klidzio\/","title":{"rendered":"Entrevista: Dia da Visibilidade Bissexual com Danieli Klidzio"},"content":{"rendered":"\n<p><\/p>\n\n\n<p><strong>Entrevista com Danieli Klidzio, licenciada e mestranda em Ci\u00eancias Sociais na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), e administradora (juntamente com a pesquisadora Helena Monaco) do perfil @bi_blioteca no Instagram.<\/strong><\/p>\n\n\n<p><strong>Nos \u00faltimos anos voc\u00ea tem percebido distor\u00e7\u00e3o do verdadeiro significado da bissexualidade? Afinal, qual \u00e9 a defini\u00e7\u00e3o mais adequada para ela?<\/strong><strong><\/strong><\/p>\n\n\n<p>\u00c9 dif\u00edcil falarmos em um \u201cverdadeiro significado\u201d de uma sexualidade ou identidade, assim como talvez n\u00e3o seja ideal que busquemos \u201ca origem\u201d de tudo, mas sim, \u00e9 importante pensarmos nas constru\u00e7\u00f5es sociais, culturais e pol\u00edticas de uma identidade. Nesse sentido, destaco que compreendo a bissexualidade como possibilidade de atra\u00e7\u00e3o sexual e\/ou afetiva sem distin\u00e7\u00e3o de g\u00eanero ou por todos os g\u00eaneros. Portanto, \u00e9 importante dizer que n\u00e3o se trata apenas da atra\u00e7\u00e3o por homens e mulheres, pois essa seria uma defini\u00e7\u00e3o bin\u00e1ria e distorcida que nunca foi a colocada pelo movimento social bissexual (nem no Brasil nem no mundo).<\/p>\n\n\n<p><strong>Quais os principais estere\u00f3tipos que as pessoas t\u00eam a respeito dos bissexuais? Como isso interfere na visibilidade da sexualidade?<\/strong><strong><\/strong><\/p>\n\n\n<p>\u00c9 comum que pessoas bissexuais sejam percebidas e tratadas a partir de um olhar de desconfian\u00e7a, como se fossem indecisas ou impuras e traidoras, porque, justamente, n\u00e3o est\u00e3o dentro do par\u00e2metro de desejo e comportamento que foi constru\u00eddo como ideal. Em fun\u00e7\u00e3o disso, bissexuais tamb\u00e9m sofrem constantemente uma imposi\u00e7\u00e3o externa para que \u201cse decidam\u201d porque a bissexualidade \u00e9 vista como apenas uma fase de experimenta\u00e7\u00e3o ou de necessidade de amadurecimento da sexualidade. Isso se d\u00e1 porque a percep\u00e7\u00e3o sobre a sexualidade que temos compreende a sexualidade de forma bin\u00e1ria, como se quem n\u00e3o se identifica como heterossexual s\u00f3 possa ser, ent\u00e3o, gay ou l\u00e9sbica. A bissexualidade n\u00e3o \u00e9 tomada como pressuposto, e com os estere\u00f3tipos sobre ela, o que se tem \u00e9 um refor\u00e7o de um \u201cn\u00e3o-lugar\u201d para a bissexualidade.<\/p>\n\n\n<p>Existe um apagamento ativo sobre a bissexualidade. Tamb\u00e9m \u00e9 importante lembrar que o problema n\u00e3o s\u00e3o os estere\u00f3tipos em si, mas a forma como eles servem para retroalimentar apagamentos e viol\u00eancias sobre as subjetividades de pessoas bissexuais. A bissexualidade n\u00e3o diz respeito e n\u00e3o pode ser definida em fun\u00e7\u00e3o da roupa e apar\u00eancia que a pessoa tem, muito menos em fun\u00e7\u00e3o de com quem a pessoa se relaciona afetiva e\/ou sexualmente.<\/p>\n\n\n<p><strong>A partir de que ponto a bifobia come\u00e7a? Ela \u00e9 naturalizada\/apagada na sociedade?<\/strong><strong><\/strong><\/p>\n\n\n<p>A bifobia pode come\u00e7ar de muitas formas e pode ser dif\u00edcil de ser identificada e mais ainda de ser denunciada, justamente por conta do apagamento. Ent\u00e3o, acho que poder\u00edamos dizer que a bifobia come\u00e7a (e tamb\u00e9m termina) com atitudes de apagamento e invisibiliza\u00e7\u00e3o, seja sobre as lutas hist\u00f3ricas de bissexuais junto ao movimento LGBTQIAP+ e das pautas pol\u00edticas da bissexualidade, ou tamb\u00e9m sobre as pessoas cotidiana e intimamente nas rela\u00e7\u00f5es sociais\/sexuais quando a bissexualidade \u00e9 desconsiderada\/apagada\/violentada. Com isso, digo que al\u00e9m do apagamento ser o ponto onde a bifobia come\u00e7a, \u00e9 tamb\u00e9m onde ela termina. Isso se d\u00e1 porque existe um c\u00edrculo vicioso: com o apagamento da bissexualidade \u00e9 refor\u00e7ada a percep\u00e7\u00e3o de que n\u00e3o existem bissexuais na sociedade, de que bissexuais n\u00e3o s\u00e3o parte da comunidade LGBTQIAP+, de que n\u00e3o existem movimentos sociais bissexuais e, consequentemente, a bifobia \u00e9 naturalizada ou n\u00e3o \u00e9 percebida como al\u00e9m de uma fal\u00e1cia porque mesmo existindo espa\u00e7os de debate e acolhimento, eles n\u00e3o s\u00e3o encontrados por bissexuais. H\u00e1 uma tend\u00eancia ao isolamento das pautas e das pessoas bissexuais.<\/p>\n\n\n<p><strong>Voc\u00ea pode citar exemplos das situa\u00e7\u00f5es mais comuns que afetam a sa\u00fade mental de bissexuais? As pessoas t\u00eam dado aten\u00e7\u00e3o para o assunto?<\/strong><strong><\/strong><\/p>\n\n\n<p>Existe uma grande vari\u00e1vel para pensarmos o que pode afetar a sa\u00fade mental de bissexuais, mas um dos principais fatores acredito que seja o isolamento e a falta de amparo e compreens\u00e3o acerca do mais primordial que \u00e9 a exist\u00eancia da bissexualidade. Duvida-se da exist\u00eancia da bissexualidade. \u00c9 extremamente adoecedor que pessoas bissexuais sejam questionadas constantemente e tenham sua sexualidade policiada por conta de estere\u00f3tipos e de viol\u00eancias e micro viol\u00eancias que v\u00eam, inclusive, de dentro de ambientes considerados de acolhimento para pessoas LGBTQIAP+. D\u00f3i muito mais quando voc\u00ea n\u00e3o \u00e9 reconhecida e precisar impor-se para dizer \u201ceu existo, sim!\u201d em ambientes que se colocam como acolhedores de diversidades.<\/p>\n\n\n<p><strong>\u201cD\u00f3i muito mais quando voc\u00ea n\u00e3o \u00e9 reconhecida e precisar impor-se para dizer \u201ceu existo, sim!\u201d em ambientes que se colocam como acolhedores de diversidades.\u201d<\/strong><strong><\/strong><\/p>\n\n\n<p>A grande quest\u00e3o \u00e9 que precisamos tratar mais sobre outras orienta\u00e7\u00f5es sexuais dentro da comunidade LGBTQIAP+, porque somente a homossexualidade \u00e9 vista. Por exemplo: pouco se pensa que bissexuais tamb\u00e9m s\u00e3o LGBTs, independentemente de com quem est\u00e3o se relacionando. Pessoas trans e travestis tamb\u00e9m encontram pouco reconhecimento em meio \u00e0 comunidade LGBTQIAP+ em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s suas sexualidades, afinal, pessoas trans e travestis tamb\u00e9m podem existir enquanto bissexuais, por exemplo.<\/p>\n\n\n<p>Al\u00e9m disso, a preocupa\u00e7\u00e3o com o adoecimento psicossocial e o reconhecimento de pessoas bissexuais n\u00e3o pode ser resumida a quando bissexuais est\u00e3o em relacionamentos com algu\u00e9m do mesmo g\u00eanero. Bissexuais n\u00e3o existem como uma parte h\u00e9tero e uma parte homossexual. A bissexualidade \u00e9 em si uma identidade espec\u00edfica com demandas espec\u00edficas e por isso a bifobia precisa ser primeiramente reconhecida, pra que tenhamos pol\u00edticas p\u00fablicas que se preocupem com as demandas de bissexuais.<\/p>\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p><strong>\u201cBissexuais n\u00e3o existem como uma parte h\u00e9tero e uma parte homossexual. A bissexualidade \u00e9 em si uma identidade espec\u00edfica com demandas espec\u00edficas e por isso a bifobia precisa ser primeiramente reconhecida\u201d<\/strong><\/p><\/blockquote>\n\n\n<p><strong>Quais atitudes podem combater a bifobia?<\/strong><strong><\/strong><\/p>\n\n\n<p>Para combater a bifobia, assim como quando se trata de outras formas de preconceito, \u00e9 preciso buscar conhecer o que as pessoas bissexuais t\u00eam dito sobre suas demandas e enfrentamentos. Entender as condi\u00e7\u00f5es que uma identidade social e as pessoas que com ela se identificam dizem e denunciam \u00e9 fundamental. \u00c9 na medida em que aprendemos a respeito e nos aproximamos das discuss\u00f5es, que temos condi\u00e7\u00f5es de estranhar atitudes de discrimina\u00e7\u00e3o\/silenciamento que eventualmente podemos ter. Afinal, nenhuma pessoa \u00e9 isenta de reproduzir preconceitos, mesmo em meio \u00e0 comunidade LGBTQIAP+ e \u00e9 fundamental entendermos isso para que possamos avan\u00e7ar coletivamente e produzir espa\u00e7os de acolhimento e escuta de verdade, e n\u00e3o apenas de toler\u00e2ncia de determinados corpos e identidades. Buscar conhecer mais sobre o assunto \u00e9 sempre a melhor sa\u00edda, em fontes confi\u00e1veis: a partir de pessoas de movimentos sociais e pessoas bissexuais que fazem pesquisas acad\u00eamicas, por exemplo, mas tamb\u00e9m entendendo que s\u00e3o debates em constru\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n<p><strong>\u00c9 poss\u00edvel que os bissexuais tenham mais voz e tenham mais apoio na quest\u00e3o da sa\u00fade mental em meio \u00e0s opress\u00f5es vividas e a sociedade em que nos encontramos? Como podemos lutar para melhorar nessas quest\u00f5es?<\/strong><strong><\/strong><\/p>\n\n\n<p>\u00c9 totalmente poss\u00edvel que bissexuais tenham mais voz. Ali\u00e1s, bissexuais h\u00e1 muito tempo est\u00e3o \u201cfalando\u201d, mas \u00e9 necess\u00e1rio que suas vozes sejam ouvidas. Essa \u00e9 a quest\u00e3o. Como a pr\u00f3pria exist\u00eancia da bissexualidade \u00e9 questionada parece que ca\u00edmos em um c\u00edrculo vicioso de demanda para que bissexuais sempre afirmem o b\u00e1sico. H\u00e1 uma solid\u00e3o com a falta de outras refer\u00eancias bissexuais, seja em suas localidades ou em personagens na m\u00eddia e na literatura. Por isso acredito que uma das formas de melhorarmos nessa quest\u00e3o \u00e9 n\u00f3s bissexuais buscarmos saber mais sobre nossa hist\u00f3ria, sobre o movimento bissexual brasileiro, sobre as pesquisas acad\u00eamicas. \u00c9 importante buscarmos refer\u00eancias bissexuais em nosso cotidiano, mas n\u00e3o para que possamos nos ver como iguais porque \u00e9 dif\u00edcil que exista isso na bissexualidade t\u00e3o flu\u00edda e diversa em si, mas \u00e9 preciso buscarmos apoio na coletividade e construirmos espa\u00e7os sociais de acolhimento e escuta, pois \u00e9 assim que nos fortalecemos. Ali\u00e1s, foi por isso que eu e Helena Monaco criamos a Bi-blioteca &#8211; um perfil de divulga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica sobre bissexualidade no Instagram, e dentro da Bi-blioteca tamb\u00e9m criamos o Clu-bi &#8211; um clube de leitura com encontros mensais para lermos e discutirmos sobre literatura brasileira com protagonismo bissexual. S\u00e3o caminhos essenciais para que possamos nos unir e nos fortalecer, mas visamos e consideramos extremamente importante apoiar e receber o apoio de outros grupos e de outras lutas coletivas, porque as pautas se interseccionam e para que ningu\u00e9m fique sempre falando sozinho. As articula\u00e7\u00f5es bissexuais brasileiras t\u00eam forjado espa\u00e7os e h\u00e1 muito conte\u00fado de qualidade sendo produzido sobre a bissexualidade. Para quem tem conta no Instagram recomendo os perfis: @bi__blioteca &#8211;<a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/bi__blioteca\"> <\/a><a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/bi__blioteca\">https:\/\/www.instagram.com\/bi__blioteca<\/a>; @gaebi_pa &#8211;<a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/gaebi_pa\"> <\/a><a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/gaebi_pa\">https:\/\/www.instagram.com\/gaebi_pa<\/a>; @entreinvisibilidades &#8211;<a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/entreinvisibilidades\/?hl=pt-br\"> <\/a><a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/entreinvisibilidades\/?hl=pt-br\">https:\/\/www.instagram.com\/entreinvisibilidades<\/a>; @binamidia &#8211;<a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/binamidia\/?hl=pt-br\"> <\/a><a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/binamidia\/?hl=pt-br\">https:\/\/www.instagram.com\/binamidia<\/a>; e o perfil da Frente Bissexual Brasileira &#8211;<a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/frentebissexualbr\/\"> <\/a><a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/frentebissexualbr\/\">https:\/\/www.instagram.com\/frentebissexualbr\/<\/a> que est\u00e1 organizando o II Festival Bi+ nos dias 25 e 26 de Setembro, que ser\u00e1 transmitido no canal do Youtube chamado \u201cFrente Bissexual Brasileira\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Entrevista com Danieli Klidzio, licenciada e mestranda em Ci\u00eancias Sociais na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), e administradora (juntamente com a pesquisadora Helena Monaco) do perfil @bi_blioteca no Instagram. 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