{"id":4403,"date":"2021-11-29T09:35:55","date_gmt":"2021-11-29T12:35:55","guid":{"rendered":"https:\/\/elos.sites.uepg.br\/?p=4403"},"modified":"2021-11-29T09:35:55","modified_gmt":"2021-11-29T12:35:55","slug":"coluna-cancelem-o-carnaval-uma-preocupacao-seletiva-e-racista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www2.uepg.br\/elos\/coluna-cancelem-o-carnaval-uma-preocupacao-seletiva-e-racista\/","title":{"rendered":"Coluna: \u201cCancelem o carnaval\u201d: uma preocupa\u00e7\u00e3o seletiva e racista"},"content":{"rendered":"\n<p style=\"font-size:17px\"><\/p>\n\n\n<p style=\"font-size:17px\">As redes sociais observam (ainda sem saber de onde v\u00eam) uma escalada de postagens (algumas delas at\u00e9 mesmo patrocinadas) pedindo o cancelamento do carnaval de 2022 por prefeitos e governadores, apoiando-se numa perspectiva apocal\u00edptica em rela\u00e7\u00e3o a futuros casos de COVID-19 com a manuten\u00e7\u00e3o da programa\u00e7\u00e3o das festividades. Nosso di\u00e1logo aqui n\u00e3o est\u00e1 interessado em advogar a favor da realiza\u00e7\u00e3o do carnaval passando por cima da ci\u00eancia, uma vez que entendemos que quem garantir\u00e1 ou n\u00e3o a realiza\u00e7\u00e3o da festa s\u00e3o os estudos e pesquisas de viabilidade e seguran\u00e7a sanit\u00e1ria. Somos provocados a recha\u00e7ar o oportunismo de muitos pol\u00edticos e celebridades conservadoras em atacar uma manifesta\u00e7\u00e3o popular cultural, pol\u00edtica e comercial.<\/p>\n\n\n<p style=\"font-size:17px\">O carnaval \u00e9 brincado de maneiras distintas Brasil afora, por isso, pe\u00e7o licen\u00e7a para refletir a partir das escolas de samba. Sobre elas, lembre-se que as comunidades n\u00e3o desfilaram em 2021 e muitos baluartes levantaram a voz e pediram respeito \u00e0 ci\u00eancia quando as autoridades buscavam encontrar algum \u201cjeitinho\u201d para realizar o evento.<\/p>\n\n\n<p style=\"font-size:17px\">Observem que a manifesta\u00e7\u00e3o anticarnaval vem, majoritariamente, de uma parcela da popula\u00e7\u00e3o que se op\u00f4s \u00e0 maioria das medidas de combate ao coronav\u00edrus ao longo da pandemia. Desde o uso da m\u00e1scara, o isolamento, o distanciamento, a vacina\u00e7\u00e3o e, mais recentemente, o passaporte de vacina. Fato que nos leva a olhar essa manifesta\u00e7\u00e3o por outra lente, percebe-se que nada mais \u00e9 do que um posicionamento racista, intolerante e conservador. Utilizam-se da solidariedade pelos mortos para justificar que \u201cn\u00e3o h\u00e1 clima para festa\u201d. Os mesmos que outrora diziam que a vida n\u00e3o podia parar. O carnaval vem justamente para celebrar a vida, vida que \u00e9 dura, n\u00e3o idealizada como prega o capitalismo e as redes sociais. Celebrar a vida tamb\u00e9m daqueles que se foram, o samba perdeu figuras ilustres e an\u00f4nimas nos \u00faltimos anos, inclusive para o coronav\u00edrus e, tamb\u00e9m, n\u00e3o p\u00f4de despedir-se do seus, os desfiles de 2022 ser\u00e3o um grande gurufim em mem\u00f3ria dos bambas que nos deixaram: La\u00edla, Dominguinhos do Est\u00e1cio, Tantinho da Mangueira, Nelson Sargento, Mestre MUG, David Corr\u00eaa, Dona Nen\u00e9m, Djalma Sabi\u00e1, entre tantos outros. Ainda sobre a vida dura e a necessidade de celebra\u00e7\u00e3o, Luiz Ant\u00f4nio Simas, historiador das culturas e manifesta\u00e7\u00f5es mi\u00fadas e populares, diz que o povo faz festa n\u00e3o porque a vida est\u00e1 boa, justamente pelo contr\u00e1rio. A Unidos de Vila Isabel, ao homenagear Martinho da Vila, tem um verso no seu samba que resume bem o esp\u00edrito do carnaval p\u00f3s-pandemia: \u201cT\u00e3o bom cantarolar, porque o mundo renasceu&#8230; Me abra\u00e7ar com esse povo todo seu\u201d.<\/p>\n\n\n<p style=\"font-size:17px\">Voltemos \u00e0 compreens\u00e3o que fundamenta a campanha racista e intolerante \u201cCancelem o carnaval\u201d: as escolas de samba e o carnaval de rua, na sua g\u00eanese, s\u00e3o obras do povo preto, marginalizado, perif\u00e9rico. Evoca liberdade do corpo e de express\u00e3o, contra a domina\u00e7\u00e3o e domestica\u00e7\u00e3o. \u00c9 uma campanha que aciona a intoler\u00e2ncia religiosa visto que o pentecostalismo n\u00e3o aceita uma manifesta\u00e7\u00e3o que n\u00e3o nasce dentro dos seus fundamentos, veja as escolas de samba surgindo dos terreiros de Candombl\u00e9, saudando seu Orix\u00e1 nos toques da bateria, que traz toda ancestralidade na saia da Baiana, que ensina, aprende e se estrutura com as sabedorias de \u00c1frica. Ou seja, uma festa que uma sociedade racista, escravocrata e fundamentalista n\u00e3o suporta.<\/p>\n\n\n<p style=\"font-size:17px\">Dos 26 enredos que est\u00e3o sendo preparados para tomar a Sapuca\u00ed, no m\u00ednimo 16 tem liga\u00e7\u00e3o expl\u00edcita com o povo negro. Figuras como Milton Gon\u00e7alves, Chica Xavier, M\u00e3e Stella de Ox\u00f3ssi, Besouro Mangang\u00e1, Candeia, Cartola, mestre Delegado e Jamel\u00e3o ser\u00e3o homenageados. 2022 ser\u00e1 um ano para \u201cempretecer o pensamento\u201d, como defender\u00e1 na Avenida a Beija-Flor de Nil\u00f3polis.<\/p>\n\n\n<p style=\"font-size:17px\">O que se nota \u00e9 uma preocupa\u00e7\u00e3o pand\u00eamica seletiva, justa para aqueles que sempre defenderam as medidas de prote\u00e7\u00e3o e combate ao v\u00edrus e tamb\u00e9m uma preocupa\u00e7\u00e3o nossa, t\u00e3o nossa que h\u00e1 meses, dirigentes, autoridades e cientistas v\u00eam discutindo como e com quais indicadores o Rio de Janeiro poder\u00e1 receber os foli\u00f5es. Preocupa\u00e7\u00e3o nossa, pois o carnaval n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 festa, \u00e9 ancestralidade, cultura, hist\u00f3ria, pedag\u00f3gico, e tamb\u00e9m turismo, emprego. Cuidar dos nossos, de quem faz e curte a festa \u00e9 primordial.&nbsp;<\/p>\n\n\n<p style=\"font-size:17px\">Com essa preocupa\u00e7\u00e3o, a Comiss\u00e3o Especial de Carnaval da C\u00e2mara dos Vereadores acredita que o Rio est\u00e1 perto de atingir os crit\u00e9rios estabelecidos para que as festividades aconte\u00e7am em 2022, \u00edndices que observam desde a estrutura e disponibilidade da Sa\u00fade da cidade para atender a popula\u00e7\u00e3o at\u00e9 a porcentagem de cariocas vacinados. Prev\u00ea-se que na \u00e9poca do carnaval quase metade da popula\u00e7\u00e3o e 70% dos adultos estar\u00e3o vacinados com a terceira dose. Recomendam ainda o passaporte da vacina\u00e7\u00e3o para turistas brasileiros e do exterior, medida que ainda n\u00e3o foi implementada pelo governo Bolsonaro e muito atacada por seus seguidores que evocam o \u201cdireito de ir e vir\u201d.<\/p>\n\n\n<p style=\"font-size:17px\">Sabemos que n\u00e3o \u00e9 proveitoso deslocarmos o debate para olhar o quintal ao lado, mas \u00e9 uma reflex\u00e3o que fica guardada as devidas propor\u00e7\u00f5es: est\u00e1dios, teatros, shows, igrejas, aut\u00f3dromos est\u00e3o funcionando com 100% da capacidade de p\u00fablico e n\u00e3o h\u00e1 oposi\u00e7\u00e3o pelos cr\u00edticos do Carnaval. R\u00e9veillon, Futebol, Rock in Rio, F\u00f3rmula 1 e rodeios s\u00e3o medidos com a mesma r\u00e9gua? O carnaval com grandes aglomera\u00e7\u00f5es s\u00f3 acontece em alguns pontos do pa\u00eds. As festividades natalinas, por exemplo, n\u00e3o. Pelo contr\u00e1rio, ocorrem em todos os cantos do Brasil, desde cidades pequenas do interior at\u00e9 grandes metr\u00f3poles. Haver\u00e1 cancelamento das festas de fim de ano?&nbsp;<\/p>\n\n\n<p style=\"font-size:17px\">\u201cCancelem o carnaval\u201d \u00e9 uma manifesta\u00e7\u00e3o racista, intolerante e de classe. O capitalismo imp\u00f4s que milhares de pessoas pegassem transporte p\u00fablico lotados todo dia durante a pandemia e no auge da contamina\u00e7\u00e3o (como foi em mar\u00e7o de 2021), para que n\u00e3o houvesse mortes de CNPJ. Hoje, querem o contr\u00e1rio, justamente quando a ci\u00eancia sinaliza a queda na transmiss\u00e3o, no n\u00famero de casos ativos e no de v\u00edtimas. \u00c9 escancarar e reafirmar a postura antici\u00eancia que levou a mais de 600 mil mortes no Brasil. Estavam contra ela no come\u00e7o da pandemia e continuam jogando contra a ci\u00eancia no seu processo de supera\u00e7\u00e3o.&nbsp;<\/p>\n\n\n<p style=\"font-size:17px\">Outro fato importante, celebra-se a retomada do turismo no pa\u00eds. A m\u00eddia capitalista sinaliza os \u201chot\u00e9is lotados\u201d para os feriados e festas de final de ano. Carnaval \u00e9 um ramo de trabalho que emprega diretamente pessoas o ano inteiro, como \u00e9 o caso dos barrac\u00f5es das escolas de samba, mas tamb\u00e9m criam postos de trabalho tempor\u00e1rios, veja os comerciantes de bebida nos blocos \u201ccerveja 3 por 10\u201d, por exemplo, gerando e injetando um montante consider\u00e1vel de dinheiro na economia do pa\u00eds. Mas, aparentemente, n\u00e3o \u00e9 um trabalho necess\u00e1rio? Visto que n\u00e3o se valoriza, nem reconhece, tampouco legitimam.<\/p>\n\n\n<p style=\"font-size:17px\">Para finalizar, o jornalismo hegem\u00f4nico comprou a ideia. Exploram o fato de que mais de 70 cidades paulistas, por exemplo, j\u00e1 cancelaram a festa. Mas de maneira pouco cr\u00edtica observam qual a densidade e penetra\u00e7\u00e3o do carnaval nesses munic\u00edpios. Quais cidades s\u00e3o essas? Havia Carnaval antes da pandemia? Em que propor\u00e7\u00e3o? Qual posi\u00e7\u00e3o pol\u00edtico-ideol\u00f3gica da gest\u00e3o da Prefeitura? Muitos pequenos munic\u00edpios v\u00eam h\u00e1 anos cancelando as festividades carnavalescas por motivos financeiros. Festividades que se resumem, na grande maioria, a um \u201cshow\u201d na pra\u00e7a p\u00fablica. Ser\u00e1 que est\u00e3o preocupados em cancelar aquilo que realmente aglomera gente em seus munic\u00edpios: rodeios, shows sertanejos, cultos, eventos gospel, etc?<\/p>\n\n\n<p style=\"font-size:17px\">Fato \u00e9 que, gra\u00e7as \u00e0 vacina\u00e7\u00e3o, o que se vivencia \u00e9 um ambiente mais seguro e poss\u00edvel de realizar a festa. Caso as autoridades cient\u00edficas e sanit\u00e1rias apontem a necessidade do cancelamento, n\u00e3o tenham d\u00favidas que as escolas, os sambistas e os foli\u00f5es v\u00e3o respeitar como respeitaram em 2021, pois t\u00eam compromisso com a vida, com a arte e a cultura.<\/p>\n\n\n<p style=\"font-size:17px\">Fica o desejo que em 2022 celebremos a vida, a cultura popular, a arte negra e perif\u00e9rica e coloquemos nossos corpos (vacinados) na rua em movimento.\u00a0\u00a0<\/p>\n\n\n<p><\/p>\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\">Colunista: Felipe Collar Berni\u00a0<\/p>\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\">\u00e9 jornalista, professor, pesquisador e educado pelas escolas de samba<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As redes sociais observam (ainda sem saber de onde v\u00eam) uma escalada de postagens (algumas delas at\u00e9 mesmo patrocinadas) pedindo o cancelamento do carnaval de 2022 por prefeitos e governadores, apoiando-se numa perspectiva apocal\u00edptica em rela\u00e7\u00e3o a futuros casos de COVID-19 com a manuten\u00e7\u00e3o da programa\u00e7\u00e3o das festividades. 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