{"id":4567,"date":"2022-03-21T09:14:12","date_gmt":"2022-03-21T12:14:12","guid":{"rendered":"https:\/\/elos.sites.uepg.br\/?p=4567"},"modified":"2022-03-21T09:14:12","modified_gmt":"2022-03-21T12:14:12","slug":"entrevista-dia-da-mulher-em-pg-com-jennifer-dias","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www2.uepg.br\/elos\/entrevista-dia-da-mulher-em-pg-com-jennifer-dias\/","title":{"rendered":"Entrevista Dia da Mulher em PG com Jennifer Dias"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"font-weight: 400\">Na \u00faltima semana foi comemorado o dia da mulher, que para muitos representa uma comemora\u00e7\u00e3o, mas que para o movimento feminista significa luta e resist\u00eanica. A entrevistada desta semana \u00e9 Jennifer Dias, graduada em hist\u00f3ria pela Universidade Estadual de Ponta Grossa e integrante da Frente Ampla Democr\u00e1tica da cidade. Ela discorre sobre a movimenta\u00e7\u00e3o em PG e sobre os \u00faltimos acontecimentos nacionais.\u00a0<\/span><br \/>\n&nbsp;<br \/>\n<strong>1) O que o dia da mulher, que foi na \u00faltima semana , representa para a luta feminina?<\/strong><br \/>\n<span style=\"font-weight: 400\"><strong>Jennifer:<\/strong> Acredito que existem duas leituras que mais se sobressaem. A primeira delas, enormemente difundida, \u00e9 a de um dia da mulher comemorativo, em que se exalta qualidades como &#8220;for\u00e7a&#8221; e &#8220;empoderamento&#8221;. Os locais de trabalho preparam um caf\u00e9 diferenciado ou entregam algumas caixas de bombom, o marido entrega flores, e por a\u00ed vai. O grande problema dessa leitura vendida pelo mercado \u00e9 de estabelecer qual o padr\u00e3o de mulher que deve ser exaltado. E geralmente \u00e9 a mulher que nos outros 364 dias do ano, precisa mover moinhos e enfrentar todas as dificuldades estruturalmente impostas para sobreviver. O conceito de empoderamento \u00e9 muito perigoso, pois surgiu a partir de um contexto onde as mulheres precisavam individualmente se responsabilizar por quest\u00f5es de sa\u00fade ou de pol\u00edtica p\u00fablica. Ent\u00e3o, nesse sentido, quem \u00e9 a mulher forte? \u00c9 aquela que, pela aus\u00eancia de pol\u00edticas p\u00fablicas, enfrenta duplas ou triplas jornadas de trabalho para dar conta daquilo que uma sociedade n\u00e3o \u00e9 capaz de se responsabilizar. \u00c9 a mulher trabalhadora, m\u00e3e, que cuida da fam\u00edlia e que passa por uma vida absurdamente dif\u00edcil. Mas ser\u00e1 que realmente deveria ser assim? A vida sempre precisar\u00e1 ser mais dif\u00edcil para as mulheres para que em apenas um dia do ano, n\u00f3s tenhamos a dec\u00eancia de se importar com as mulheres? \u00c9 claro que n\u00e3o existe apenas um padr\u00e3o de mulher, somos muito diferentes entre n\u00f3s e cada uma sabe o que enfrenta dia ap\u00f3s dia. Mas meu ponto sobre essa leitura romantizada do sofrimento \u00e9 de que (e a\u00ed entra na segunda leitura, mais cr\u00edtica, sobre o dia da mulher), \u00e9 muito danoso para a mulher. Pois a vende uma narrativa de que ser forte faz parte do seu &#8220;instinto maternal&#8221; e de que ela deve continuar lutando sempre, muito mais do que os homens, para conseguir viver tranquila. <\/span><span style=\"font-weight: 400\">O verdadeiro significado do 8m \u00e9 de que 129 oper\u00e1rias estadunidenses de uma f\u00e1brica t\u00eaxtil que morreram carbonizadas, v\u00edtimas de um inc\u00eandio intencional no dia 8 de mar\u00e7o de 1957, em Nova York. E o mercado propositalmente dissociou o dia da mulher desse evento. Justamente para continuar construindo esteri\u00f3tipos em cima de quem deve ser a mulher numa sociedade desigual.\u00a0<\/span><br \/>\n<strong>2) O que voc\u00ea achou da cobertura local sobre o dia da mulher?<\/strong><br \/>\n<span style=\"font-weight: 400\"><strong>Jennifer:<\/strong> Acredito que al\u00e9m da m\u00eddia hegem\u00f4nica, houve muitos movimentos buscando construir uma leitura do dia 8 mais voltada pra esse lado cr\u00edtico que citei na primeira quest\u00e3o. Mas creio que muito do que vi se refere ao pr\u00f3prio meio que convivo e as rela\u00e7\u00f5es que nutro. No geral, mais do mesmo, comemora\u00e7\u00f5es irris\u00f3rias que n\u00e3o levam a conscientiza\u00e7\u00e3o real da luta feminista.<\/span><br \/>\n<strong>3) O que voc\u00ea acha sobre a transforma\u00e7\u00e3o do feminismo em com\u00e9rcio na cidade?\u00a0<\/strong><br \/>\n<span style=\"font-weight: 400\"><strong>Jennifer:<\/strong> O 8M que \u00e9 vendido pelo mercado n\u00e3o \u00e9 feminista. \u00c9 no m\u00e1ximo um liberalismo mesquinho disfar\u00e7ado de feminismo, que vende ins\u00edgnias prontas, com uma ou outra imagem completamente esvaziada de seu real sentido. \u00c9 o caso, por exemplo, da Frida Kahlo, que acredito que grande parte do p\u00fablico que consome produtos ligados \u00e0 ela, n\u00e3o tem real dimens\u00e3o de quem foi essa grande mulher. \u00c9 aquela imagem do empoderamento que citei tamb\u00e9m na primeira quest\u00e3o, em que muitas vezes o famigerado &#8220;meu corpo minhas regras&#8221; \u00e9 vendido, mas sem nenhuma proposta concreta de liberta\u00e7\u00e3o humana. Enfim, cabe a n\u00f3s estarmos sempre conscientes desses movimentos que s\u00e3o realizados pelo mercado, pela m\u00eddia, e buscar abertura para dialogar com mulheres que acreditam em si mesmas, que constroem uma imagem de si positiva, e traz\u00ea-las mais pr\u00f3xima das lutas coletivas que buscam sobretudo construir uma sociedade em que todas sejamos livres. \u00c9 tamb\u00e9m fundamental criarmos espa\u00e7os em que mulheres reais falem sobre pautas reais. O feminismo n\u00e3o \u00e9 uma cria\u00e7\u00e3o acad\u00eamica que deve chegar pronto \u00e0s mulheres, mas sim uma luta constru\u00edda a partir das nossas pr\u00f3prias demandas e que deve ser transformado em um conjunto de transforma\u00e7\u00f5es que nos garantam equidade de g\u00eanero e liberdade.<\/span><br \/>\n<strong>4) Quais a\u00e7\u00f5es a cidade de Ponta Grossa deveria tomar para que as mulheres tenham seus direitos garantidos?\u00a0<\/strong><br \/>\n<span style=\"font-weight: 400\"><strong>Jennifer:<\/strong> Eu acredito que essa \u00e9 uma quest\u00e3o bem complexa, mas acredito que em n\u00edvel institucional, seria important\u00edssimo o foco nas pol\u00edticas p\u00fablicas pautadas democraticamente, que n\u00e3o se reduzissem apenas ao m\u00eas de mar\u00e7o. Existem in\u00fameros movimentos sociais que est\u00e3o constantemente cobrando dos poderes p\u00fablicos pol\u00edticas efetivas para assistir mulheres com suas in\u00fameras quest\u00f5es, que sofrem as mais variadas viol\u00eancias de g\u00eanero. \u00c9 o caso, por exemplo, de ampliar e valorizar espa\u00e7os como o conselho municipal dos direitos da mulher, que est\u00e1 ativamente pensando nessa quest\u00e3o.<\/span><br \/>\n<strong>5) Falando um pouquinho sobre o caso do Arthur do Val, como que ter deputados ou pessoas no poder que pensam dessa forma pode afetar a sociedade e principalmente as mulheres?<\/strong><br \/>\n<span style=\"font-weight: 400\"><strong>Jennifer:<\/strong> Arthur do Val \u00e9 um homem que mobiliza in\u00fameros sentimentos enraizados na sociedade. Ele n\u00e3o \u00e9 uma ferida ou um sintoma, mas sim o sistema patriarcal de sua forma mais pura e cristalina. Ele representa o que grande parte dos homens pensam sobre n\u00f3s. O impacto disso \u00e9 muito grave, pois estamos falando de homens que se sentem autorizados a ditar como n\u00f3s mulheres devemos viver, pensar e agir. E se n\u00e3o seguirmos as regras, eles se sentem autorizados a nos violar, nos matar. Ver um homem como esse na pol\u00edtica institucional, assim como ver o governo de Bolsonaro como um todo, \u00e9 algo que precisamos derrotar atrav\u00e9s da nossa luta.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na \u00faltima semana foi comemorado o dia da mulher, que para muitos representa uma comemora\u00e7\u00e3o, mas que para o movimento feminista significa luta e resist\u00eanica. A entrevistada desta semana \u00e9 Jennifer Dias, graduada em hist\u00f3ria pela Universidade Estadual de Ponta Grossa e integrante da Frente Ampla Democr\u00e1tica da cidade. 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