{"id":4651,"date":"2022-06-29T09:03:19","date_gmt":"2022-06-29T12:03:19","guid":{"rendered":"https:\/\/elos.sites.uepg.br\/?p=4651"},"modified":"2022-06-29T09:03:19","modified_gmt":"2022-06-29T12:03:19","slug":"entrevista-dia-do-orgulho-lgbtqia-e-racialidade-com-nick-nagari","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www2.uepg.br\/elos\/entrevista-dia-do-orgulho-lgbtqia-e-racialidade-com-nick-nagari\/","title":{"rendered":"Entrevista: Dia do Orgulho LGBTQIA+ e racialidade com Nick Nagari"},"content":{"rendered":"<p><i><span style=\"font-weight: 400\">Nick Nagari (25 anos) escreve, cria conte\u00fados e palestra sobre bissexualidade e transgeneridade de uma perspectiva negra, gorda e n\u00e3o-bin\u00e1ria. Criador do \u201cQuem bindera\u201d, um projeto que amplia a qualidade de vida de pessoas transg\u00eanero. Cria conte\u00fado h\u00e1 sete anos e h\u00e1 dois virou seu foco de trabalho principal (@nicknagari).<\/span><\/i><br \/>\n<img loading=\"lazy\" class=\"size-medium wp-image-4652 aligncenter\" src=\"https:\/\/elos.sites.uepg.br\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/WhatsApp-Image-2022-06-29-at-08.55.50-300x300.jpeg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"300\" \/><br \/>\n<b>Qual a import\u00e2ncia de aliar a pauta racial \u00e0 discuss\u00e3o da comunidade LGBTQIA+?<\/b><br \/>\n<span style=\"font-weight: 400\">Quando a gente pensa em sociedade, a gente entende que a ra\u00e7a n\u00e3o tem como se desvencilhar de nada, nosso processo hist\u00f3rico, em qualquer categoria, foi muito relacionado a ra\u00e7a. Ent\u00e3o, quando a gente fala de pessoas LBTQIA+ a gente tem que pensar que cada pessoa est\u00e1 vivendo algo. Mesmo que a gente tenha coisas em comum, a gente tamb\u00e9m vive coisas em paralelo que muitas vezes se interseccionam com essas opress\u00f5es. Ent\u00e3o, se falamos de mulheres bissexuais brancas, isso v\u00e3o ter certos efeitos que elas v\u00e3o experienciar mais, se falamos de mulheres bissexuais negras, v\u00e3o ter outros efeitos diferentes desses que elas v\u00e3o experienciar mais porque a bifobia vai estar aliada ao racismo, assim como o que vai acontecer com as outras letras da sigla. Quando a gente fala das opress\u00f5es, do que a gente sofre e da nossa pr\u00f3pria viv\u00eancia, isso vai se mostrar diferente, a gente vai ter outras constru\u00e7\u00f5es de sexualidade, porque tem ali a constru\u00e7\u00e3o racial no meio. \u00c9 muito importante que a gente fale, tanto quando a gente fala de viv\u00eancia, quanto quando a gente fala de opress\u00e3o, essas duas pautas est\u00e3o muito relacionadas. Ent\u00e3o \u00e9 importante a gente enquanto pessoas LGBTs negras tenham visibilidade tanto na comunidade LGBTQUIA+ quanto da comunidade negra tamb\u00e9m.\u00a0<\/span><br \/>\n<b>Como essas pautas raciais s\u00e3o apresentadas durante o m\u00eas do orgulho LGBTQIA+?<\/b><br \/>\n<span style=\"font-weight: 400\">N\u00e3o s\u00e3o. Em geral, elas s\u00e3o muito apagadas. Eu n\u00e3o necessariamente preciso tocar no ponto sobre em que momento o racismo se mostra e o que me afeta enquanto pessoa negra, s\u00f3 a minha perspectiva toda de uma pessoa negra, tudo que eu falo em rela\u00e7\u00e3o a nossa comunidade parte de um princ\u00edpio de uma pessoa negra. O que eu vejo muito s\u00e3o pautas que eu n\u00e3o me identifico, est\u00e1 longe de ser minha maior prioridade. Enquanto tem pessoas LGBTQIA+ brancas e de classe m\u00e9dia, muitas vezes com certos acessos que \u00e9 prioridade delas. \u00c9 s\u00f3 a gente ver que a pauta que \u00e9 mais difundida dentro do nosso movimento \u00e9 casar, todo mundo quer amar, todo mundo quer casar. Se voc\u00ea pensa em pessoas LGBTQUIA+ negras, principalmente travestis negras, a gente est\u00e1 tentando existir, sabe? A gente est\u00e1 tentando ter um trabalho digno, poder sobreviver com qualidade de vida. Acho que no fundo \u00e9 muito sobre prioridade: Quais s\u00e3o as pautas que levam o nome do movimento e quais s\u00e3o mais urgentes?<\/span><br \/>\n<b>Como \u00e9 para voc\u00ea, sendo uma pessoa negra, ser uma das principais figuras no que diz respeito \u00e0 comunidade LGBTQUIA+ atual?\u00a0\u00a0<\/b><br \/>\n<span style=\"font-weight: 400\">Eu acho que \u00e9 um grande desafio, porque eu sinto que dentro do movimento negro essas pautas muitas vezes s\u00e3o abafadas. Existe toda uma coisa de \u201ca ra\u00e7a vem primeiro\u201d, estou cansado de ouvir esse tipo de jarg\u00e3o que eu n\u00e3o concordo, acredito que a gente tem que pensar em todas as pautas de forma interseccional, porque todas elas se cruzam. Eu n\u00e3o sou negro e depois sou uma pessoa trans, essas duas coisas est\u00e3o relacionadas. Ent\u00e3o, \u00e9 um assunto que eu sinto que a gente precisa conquistar esse espa\u00e7o, porque ele n\u00e3o \u00e9 dado nem dentro das comunidades que deveriam acolher a gente. Enquanto pessoa negra, eu sou uma pessoa trans e bissexual e enquanto uma pessoa bissexual eu sou uma pessoa negra, me coloco nesse lugar de fazer essas duas comunidades darem um destaque para a gente na marra, porque n\u00e3o \u00e9 uma coisa que \u00e9 dada geralmente. No dia 20 de novembro eu at\u00e9 postei um v\u00eddeo falando disso, sobre essa quest\u00e3o de prioridades que eu enxergava na minha milit\u00e2ncia e no meu movimento que eu n\u00e3o via em outros movimentos, ent\u00e3o naquele momento, dia da consci\u00eancia negra, nenhuma das p\u00e1ginas, nenhum dos ativistas que n\u00e3o s\u00e3o LGBTs mencionam a gente. Fica naquilo de falar sobre a viv\u00eancia do homem negro como se todos os homens negros fossem cis-heteros, n\u00e3o se fala da viv\u00eancia da bicha negra, n\u00e3o se fala da viv\u00eancia da sapat\u00e3o negra ou do bissexual negro, eles sempre partem desse princ\u00edpio de que todos n\u00f3s somos heteronormativos. Assim como o movimento LGBTQUIA+ faz a mesma coisa, parte da viv\u00eancia do homem trans sempre branco. Tem v\u00e1rias quest\u00f5es a\u00ed que s\u00e3o colocadas fora disso, principalmente no movimento trans, carece muito disso, parece que tudo se resume \u00e0 passibilidade, sendo que quando a gente fala sobre pessoas trans negras, a nossa leitura mudar, \u00e9 algo que muda toda a opress\u00e3o do racismo. Se eu hoje fosse lido como uma mulher negra eu sofreria algumas coisas, mas se eu passar a ser lido como um homem negro eu sofreria outras coisas e n\u00e3o n\u00e3o necessariamente eu vou sofrer menos que homens trans brancos. Na verdade, muitas vezes, esse \u00e9 o sonho \u201cah, se eu passar a ser lido como homem cis branco, acabaram os problemas\u201d, o que na verdade eu nem acredito que seja verdade, mas muita gente lida desse jeito. A\u00ed se fala muito dessa tal passabilidade de homem sem pensar que para uma galera, como eu, isso n\u00e3o resolve nenhum problema, isso no m\u00e1ximo fecha um e abre outros. Ent\u00e3o, quando a gente racializa nossas an\u00e1lises, come\u00e7amos a ter no\u00e7\u00f5es que n\u00e3o t\u00ednhamos se fingirmos que isso n\u00e3o afeta.<\/span><br \/>\n<b>O que voc\u00ea acredita que os meios de comunica\u00e7\u00e3o, principalmente o jornalismo, podem fazer pelo m\u00eas do Orgulho LGBTQIA+?<\/b><br \/>\n<span style=\"font-weight: 400\">Eu acho que usar esse espa\u00e7o para ecoar as vozes que t\u00eam pouco espa\u00e7o. Vamos dar uma olhada historicamente, de dez anos para c\u00e1, quais s\u00e3o as pautas que sempre aparecem? Todo ano se fala de casamento, todo ano \u00e9 <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">#LoveIsLove<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, por que a gente n\u00e3o pode avan\u00e7ar nesse debate? Eu sinto que \u00e0s vezes a m\u00eddia acabando falando sempre para quem est\u00e1 chegando, ent\u00e3o ela vai falar \u201cvoc\u00ea querido homof\u00f3bico, n\u00e3o seja homof\u00f3bico, as pessoas s\u00f3 querem amar\u201d, mas a gente pode encarar o papel da m\u00eddia como um pouco mais desafiador que isso, podendo questionar um pouco mais, tocando na ferida mais funda, ou ent\u00e3o fazer mat\u00e9rias para as pr\u00f3prias pessoas do meio LGBT, como, por exemplo, o que uma pessoa que est\u00e1 se descobrindo, ou em outra fase, cansada, gostaria de ouvir.<\/span><br \/>\n<b>Tem mais alguma coisa que voc\u00ea ache importante trazer para o debate estabelecido?<\/b><br \/>\n<span style=\"font-weight: 400\">Eu acho importante trazer a quest\u00e3o da bissexualidade tamb\u00e9m, j\u00e1 que \u00e9 focada na viv\u00eancia das pessoas bissexuais brancas. Ent\u00e3o, eu sinto que \u00e9 um pouco superficial, por exemplo, a sexualiza\u00e7\u00e3o da pessoa bissexual, que tamb\u00e9m \u00e9 importante, mas n\u00e3o atinge o cerne da quest\u00e3o, de como que a estrutura da nossa sociedade ajuda com o apagamento bissexual. Coisas que v\u00e3o um pouco mais al\u00e9m de como a sociedade me v\u00ea, j\u00e1 que isso \u00e9 muito pessoal e de um ponto de vista de uma pessoa mais padr\u00e3o, h\u00e1 outras \u00f3ticas e viv\u00eancias que tamb\u00e9m precisam ser faladas, no fundo \u00e9 necess\u00e1rio pluralizar as narrativas. E tem a quest\u00e3o da socializa\u00e7\u00e3o, quando a gente cresce com caracter\u00edsticas demarcadas como LGBTs, muitas vezes a gente j\u00e1 sofre desde a inf\u00e2ncia com isso, mesmo que a gente n\u00e3o saiba direito o que est\u00e1 acontecendo, j\u00e1 estamos sendo oprimidos com base nisso. Quando se fala de socializa\u00e7\u00e3o LGBT ligada \u00e0 socializa\u00e7\u00e3o das pessoas negras, se percebe que a ra\u00e7a \u00e9 uma quest\u00e3o important\u00edssima, j\u00e1 que mulheres brancas e negras s\u00e3o tratadas de forma diferentes. Eu fui socializado como uma mulher negra, mas hoje lido como n\u00e3o-bin\u00e1rio negro tenho outras formas de socializa\u00e7\u00e3o, assim como uma mulher trans branca vai ter a fragilidade concedida a ela, coisa que n\u00e3o acontece com uma mulher trans negra.\u00a0<\/span><br \/>\n<b>Partindo de outra \u00f3tica, como voc\u00ea encara as publicidades do M\u00eas do Orgulho que geralmente trazem apenas LGBTs brancos?<\/b><br \/>\n<span style=\"font-weight: 400\">Isso chega a ser at\u00e9 engra\u00e7ado, porque fica muito na cara. Mas acredito que seja por uma quest\u00e3o de ser um rosto que as pessoas heteronormativas querem ver. J\u00e1 est\u00e1 se falando de uma pauta marginalizada, ent\u00e3o v\u00e3o tentar colocar uma pessoa mais \u201chigienizada\u201d poss\u00edvel para que a fam\u00edlia tradicional veja e pense \u201cah, isso a\u00ed at\u00e9 passa\u201d. Estendo isso a marcas que querem criar publicade na internet, eles v\u00e3o querer colocar rostos que as pessoas querem ver, e isso \u00e9 at\u00e9 um dos meus desafios enquanto criador de conte\u00fado negro, porque eu falo sobre um assunto que as pessoas n\u00e3o querem ouvir e sou um rosto que as pessoas n\u00e3o querem ver. Cabe tamb\u00e9m \u00e0s pessoas que realizam esse tipo de campanha se isso realmente vai ser uma ajuda, se realmente vai ser revolucion\u00e1rio, porque de certa forma vai ser s\u00f3 pessoas brancas padr\u00f5es aceitando outras pessoas brancas padr\u00e3o, se muda muito disso j\u00e1 \u00e9 muito afeminado, muito negro, entre outros problemas que v\u00e3o querer achar.<\/span><br \/>\n<em><span style=\"font-weight: 400\">De um confronto entre policiais e frequentadores de Stonewall Inn. em Nova York, em 28 de junho de 1969, surgiu a data\u00a0 que se comemora o Dia Internacional do Orgulho LGBTQIA+. O bar sofria invas\u00f5es recorrentes de policiais por ser um \u201clocal de promiscuidade\u201d, mas naquele dia as pessoas l\u00e1 presentes se mobilizaram contra a viol\u00eancia sofrida. O ato \u00e9 lembrado como Revolu\u00e7\u00e3o de Stonewall e marca o in\u00edcio da Parada do Orgulho de Nova York, a mais antiga do mundo. As comemora\u00e7\u00f5es e reivindica\u00e7\u00f5es LGBTs se estendem a todo o m\u00eas de junho, sendo este o M\u00eas do Orgulho.<\/span><\/em><br \/>\n&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nick Nagari (25 anos) escreve, cria conte\u00fados e palestra sobre bissexualidade e transgeneridade de uma perspectiva negra, gorda e n\u00e3o-bin\u00e1ria. Criador do \u201cQuem bindera\u201d, um projeto que amplia a qualidade de vida de pessoas transg\u00eanero. Cria conte\u00fado h\u00e1 sete anos e h\u00e1 dois virou seu foco de trabalho principal (@nicknagari). 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