{"id":5421,"date":"2023-11-08T17:51:46","date_gmt":"2023-11-08T20:51:46","guid":{"rendered":"https:\/\/elos.sites.uepg.br\/?p=5421"},"modified":"2025-06-12T12:45:40","modified_gmt":"2025-06-12T15:45:40","slug":"duas-maes-e-uma-bebe-a-termo-ou-quando-os-desejos-se-encontram-em-uma-clinica-de-fertilizacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www2.uepg.br\/elos\/duas-maes-e-uma-bebe-a-termo-ou-quando-os-desejos-se-encontram-em-uma-clinica-de-fertilizacao\/","title":{"rendered":"Duas m\u00e3es e uma beb\u00ea a termo ou quando os desejos se encontram em uma cl\u00ednica de fertiliza\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>Escrevo este texto no momento anterior ao grande encontro. Daqui no m\u00e1ximo dez dias nossa filha Rita chega ao mundo, embora sua exist\u00eancia j\u00e1 vibre em n\u00f3s h\u00e1 pouco mais de nove meses. Essa poderia ser uma hist\u00f3ria de um amor que gerou frutos, mas prefiro pensar em uma hist\u00f3ria sobre descobertas de desejos escondidos, de um longo caminho m\u00e9dico e farmacol\u00f3gico, de um embri\u00e3o que teve as primeiras c\u00e9lulas multiplicadas fora de nossos corpos, de duas mulheres empenhadas na vontade de ser m\u00e3es e vivendo em um pa\u00eds que h\u00e1 pouco saiu do completo abismo. E olha que o abismo est\u00e1 sempre ali, um passo de dist\u00e2ncia. Poderia ser a hist\u00f3ria tamb\u00e9m de maternidades pol\u00edticas e fora dos padr\u00f5es ou at\u00e9 sobre uma cachorra mimada que vai ganhar uma irm\u00e3 humana e at\u00e9 o momento nada se sabe sobre seu comportamento posterior. Essas s\u00e3o apenas algumas possibilidades entre tantas formas de significar o que nos ocorre no momento.<br \/>\nDecidimos que quer\u00edamos ser m\u00e3es e essa foi uma decis\u00e3o muito f\u00e1cil. Dif\u00edcil foi escolher como ser\u00edamos m\u00e3es, o que funcionaria melhor para n\u00f3s, para onde nos levava o desejo. De antem\u00e3o afirmo que nos levou a um complexo caminho em que a gente achava saber tudo o que de fato a gente desconhecia. Eu embarquei nesse processo certa de que queria engravidar, queria viver o ciclo grav\u00eddico-puerperal como a grande aventura da minha vida. Ap\u00f3s uma tentativa de transfer\u00eancia de embri\u00e3o para o meu \u00fatero sem sucesso e um longo tempo de reflex\u00e3o, quase um ano, percebi que a gravidez n\u00e3o era o que eu queria viver, mas a maternidade ao lado da minha esposa. Um erro bastante compreens\u00edvel quando costumamos socialmente associar a gesta\u00e7\u00e3o com o processo de se tornar m\u00e3e. Eu estava minimamente advertida sobre isso, mas mesmo assim ca\u00ed na armadilha.<br \/>\nInfelizmente, essa associa\u00e7\u00e3o me custou muitas noites mal dormidas at\u00e9 conseguir formular que minha vontade era outra, pois a ideia da gesta\u00e7\u00e3o s\u00f3 me gerava ang\u00fastia. Curiosamente, minha esposa viveu um movimento oposto de descoberta. A gravidez era impensada para ela, pois parecia autom\u00e1tico que corpos que performam feminilidade gestem beb\u00eas e sua performatividade de g\u00eanero pode ser lida como mais masculina do que a minha. Quase ca\u00edmos em uma nova armadilha, desta vez de g\u00eanero.<br \/>\nA gesta\u00e7\u00e3o antes impensada come\u00e7ou a se tornar um desejo expl\u00edcito para ela, um desejo que quando foi pronunciado gerou alegria e al\u00edvio para n\u00f3s duas. E assim retornamos \u00e0 cl\u00ednica de fertiliza\u00e7\u00e3o, invertendo os corpos, mas firmes no nosso prop\u00f3sito. A partir da\u00ed foram meses de novidades, de sustos, de enjoos, de consultas de pr\u00e9-natal, de fotos de uma barriga que cresce a cada dia, de prepara\u00e7\u00f5es que nos fizeram sentir muitas vezes mais despreparadas ainda, de risadas sobre as fantasias e expectativas que criamos. Em resumo, tudo o que comumente as gesta\u00e7\u00f5es envolvem e demandam. Um pouco de medo e um tanto de sonho envolvido.<br \/>\nMas como ter uma filha sendo n\u00f3s duas m\u00e3es? Aqui entra um tanto de sorte e de privil\u00e9gio por ter tido uma rede de pessoas que n\u00e3o apenas reconheceram nossa maternidade como v\u00e1lida, mas que demonstraram a todo tempo a alegria com que esperam juntos de n\u00f3s a chegada desta crian\u00e7a. \u00c9 l\u00f3gico que nem tudo s\u00e3o flores, pois quando penso em nossa filha nessa sociedade confusa, pe\u00e7o for\u00e7as para conseguir mediar os sentimentos que nossa fam\u00edlia pode causar em pessoas que se sentem afrontadas com a nossa exist\u00eancia. Sei que n\u00e3o conseguiremos proteg\u00ea-la de todos esses sentimentos, alguns deles dif\u00edceis de serem traduzidos sem que nos tornemos seres desesperan\u00e7osos. Mas sei que enfrentaremos n\u00f3s tr\u00eas juntas qualquer questionamento sobre essa configura\u00e7\u00e3o familiar, afinal, n\u00e3o nos foi dado o direito de n\u00e3o lutar pelo m\u00ednimo. Al\u00e9m disso, a luta pode ser boa.<br \/>\nLutar pelo que acreditamos e nos unirmos com outras pessoas que acreditam que as coisas podem ser diferentes \u00e9 uma das grandes alegrias da vida. \u00c9 um ato n\u00e3o s\u00f3 de amor como de esperan\u00e7a. E talvez seja esse tipo de esperan\u00e7a em que acredito, a esperan\u00e7a coletiva. N\u00e3o existe salva\u00e7\u00e3o individual nesse mundo e seja qual for a luta da nossa filha, ela ter\u00e1 o nosso apoio. Faltando poucos dias para esse encontro, penso em como enfrentar esse mundo com um ser que acabou de chegar nele, ainda t\u00e3o desprovido de linguagem, e que nem imagina como \u00e9 a vida fora do calor do \u00fatero. Para esses rec\u00e9m-bem-vindos e bem-vindas, diria: criem n\u00facleos de prote\u00e7\u00e3o com pessoas que dialogam com seus ideais, compartilhe amizades e afetos, s\u00e3o eles que nos salvam todos os dias.<br \/>\nSe chegamos at\u00e9 aqui, poucos dias antes de conhecer a beb\u00ea que ir\u00e1 marcar definitivamente a nossa exist\u00eancia, foi porque seguimos nesse caminho muito bem acompanhadas, uma da outra, n\u00f3s com os outros entes queridos. A psicanalista Vera Iaconelli, em seu livro Manifesto Antimaternalista, cita o percurso de Cory Silverberg na escrita de um livro para crian\u00e7as sobre a origem dos beb\u00eas de uma forma que abarcasse as diferentes composi\u00e7\u00f5es familiares e meios de concep\u00e7\u00e3o e maternidade. Ele escreve que todos os beb\u00eas surgem a partir do encontro de um \u00f3vulo com o espermatoz\u00f3ide, seguido da concep\u00e7\u00e3o e uma gesta\u00e7\u00e3o levada a termo. Ponto. Assim surgem os beb\u00eas. Todos os beb\u00eas. Mas s\u00f3 isso importa? N\u00e3o, para o autor duas perguntas importam mais: \u201cQuem ansiava por nosso nascimento?\u201d e \u201cQuem nos aguardava ao nascer?\u201d. \u00c9 no desejo de duas m\u00e3es e na alegria compartilhada por seus amigos e familiares que uma beb\u00ea pode vir ao mundo.<\/p>\n<p>Por Jessica Gustafson<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Escrevo este texto no momento anterior ao grande encontro. Daqui no m\u00e1ximo dez dias nossa filha Rita chega ao mundo, embora sua exist\u00eancia j\u00e1 vibre em n\u00f3s h\u00e1 pouco mais de nove meses. 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