{"id":5724,"date":"2024-08-30T10:28:34","date_gmt":"2024-08-30T13:28:34","guid":{"rendered":"https:\/\/elos.sites.uepg.br\/?p=5724"},"modified":"2024-08-30T10:28:34","modified_gmt":"2024-08-30T13:28:34","slug":"vivencias-cruzadas-o-contraste-na-paternidade-atipica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www2.uepg.br\/elos\/vivencias-cruzadas-o-contraste-na-paternidade-atipica\/","title":{"rendered":"Viv\u00eancias cruzadas, o contraste na paternidade at\u00edpica"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center\"><i><span style=\"font-weight: 500\">Diferentes experi\u00eancias mostram a import\u00e2ncia da figura paterna na vida de pessoas com defici\u00eancia<\/span><\/i><\/p>\n<p>&nbsp;<br \/>\n<span style=\"font-weight: 500\">Com o m\u00eas dos pais, se torna inevit\u00e1vel refletir sobre o papel dessa figura na forma\u00e7\u00e3o de um indiv\u00edduo. De acordo com dados da Associa\u00e7\u00e3o Nacional dos Registradores de Pessoas Naturais (Arpen), o Brasil registra mais de 91 mil crian\u00e7as sem o nome do pai em cart\u00f3rio. Para al\u00e9m da presen\u00e7a paterna, fundamental no desenvolvimento de uma crian\u00e7a, uma parte dessa popula\u00e7\u00e3o necessita de um apoio a mais, como no tratamento de uma defici\u00eancia.<\/span><br \/>\n<span style=\"font-weight: 500\">Nesta reportagem ser\u00e3o contadas duas hist\u00f3rias complementares e opostas: a de Kletson, pai solo de Greta*, uma garota de cinco anos no espectro autista; e de Nic**, uma mulher com defici\u00eancia visual que cresceu sem a presen\u00e7a de seu pai. Atrav\u00e9s do contraste dessas hist\u00f3rias, ser\u00e1 ressaltada a import\u00e2ncia da figura paterna e retratada a viv\u00eancia de quem n\u00e3o teve o mesmo privil\u00e9gio.<\/span><br \/>\n&nbsp;<br \/>\n<b>\u201cMeu foco hoje \u00e9 criar minha menina\u201d<\/b><br \/>\n<span style=\"font-weight: 500\">Pai solo de uma menina de cinco anos com grau 2 de autismo, Kletson Filip conta que descobriu o diagn\u00f3stico da filha quando ela tinha um ano e meio de vida e, naquela mesma \u00e9poca, sua esposa faleceu. Filip narra que no come\u00e7o da vida de pai tentava ajustar seus hor\u00e1rios de trabalho com a rotina de sua filha, algo indicado para o tratamento de pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA). \u201cEu falo que ela tem um rel\u00f3gio escondido\u201d, diz ao comentar sobre a necessidade de rotina para Greta. \u201cSe eu passo poucos minutos do hor\u00e1rio de buscar ela na escola, j\u00e1 come\u00e7a a perguntar para as professoras \u2018cad\u00ea o papai?\u2019\u201d. Ele explica que entrava mais tarde e saia no hor\u00e1rio combinado com a escola para busc\u00e1-la, para que assim n\u00e3o comprometesse a rotina da filha.<\/span><br \/>\n<span style=\"font-weight: 500\">Com o passar dos anos e uma necessidade maior de cuidar da filha, o pai travou diversos argumentos com a empresa para mudar seus hor\u00e1rios de trabalho para ter mais tempo de cuidado com ela. \u201cFalei que poderia trabalhar menos e receber menos\u201d, comentou ele, complementando que tentou uma redu\u00e7\u00e3o da jornada, \u201cmas a empresa, nessa parte, n\u00e3o foi flex\u00edvel\u201d. Assim, entrou em acordo com a empresa, onde trabalhava no setor de qualidade dos produtos de usinagem, para que n\u00e3o ficasse desamparado financeiramente.\u00a0<\/span><br \/>\n<span style=\"font-weight: 500\">Kletson, como pai solo, j\u00e1 passou por situa\u00e7\u00f5es em que se sentiu discriminado pela sua situa\u00e7\u00e3o familiar. Ap\u00f3s o desligamento de seu antigo trabalho,\u00a0 um determinado vizinho sugeriu que ele se casasse novamente, pois, supostamente, as tarefas dom\u00e9sticas n\u00e3o deveriam ser de um homem. O pai fala ainda que brinca com coment\u00e1rios do tipo, especialmente quando questionam sobre a capacidade de criar sua filha sozinho.\u00a0 \u201cMeu foco hoje \u00e9 criar minha menina\u201d, diz, ao mencionar tudo que precisou reajustar em sua vida para atender \u00e0s necessidades de Greta, tanto como crian\u00e7a em fase de crescimento, como de pessoa no espectro autista.<\/span><br \/>\n<span style=\"font-weight: 500\">Kletson relembra que, antes da morte da esposa, ela o preparou para cuidar sozinho de Greta, ensinando-o como ajudar uma crian\u00e7a em suas necessidades b\u00e1sicas, como dar banho e fazer a mamadeira. \u201cN\u00e3o sei se pode falar que foi um pressentimento do que estava para vir, mas ela sempre estava me treinando para isso\u201d.<\/span><br \/>\n<span style=\"font-weight: 500\">Nostalgicamente, Kletson relembra sobre os planejamentos que teve com sua esposa para que num futuro pudessem criar uma fam\u00edlia. \u201cA gente sempre planejou que ter\u00edamos filhos depois que constru\u00edssemos nossa casa, cas\u00e1ssemos, fiz\u00e9ssemos tudo certo, n\u00e3o na loucura\u201d. No final, ele revela que em casos em que se v\u00ea perdido na cria\u00e7\u00e3o de Greta, ele pensa: \u201cO que minha esposa faria?\u201d.\u00a0<\/span><br \/>\n<span style=\"font-weight: 500\">A dedica\u00e7\u00e3o \u00e9 quase uma devo\u00e7\u00e3o. \u201cEu tento o m\u00e1ximo que posso me moldar para ela\u201d. O pai narra que seu tempo \u00e9 praticamente todo voltado a cuidar de sua filha, seus momentos distantes dela s\u00e3o somente aqueles em que Greta est\u00e1 estudando.\u00a0 \u201cO que eu tenho hoje \u00e9 minha menina; ela\u00a0 \u00e9 meu alicerce\u201d.<\/span><br \/>\n&nbsp;<br \/>\n<b>\u201cA rela\u00e7\u00e3o com meu pai s\u00f3 me prejudicaria\u201d<\/b><br \/>\n<span style=\"font-weight: 500\">Nic descobriu sua defici\u00eancia a partir de exames ainda rec\u00e9m nascida. Seu pai n\u00e3o participou do processo de diagn\u00f3stico. A princ\u00edpio, pensava-se tratar apenas de uma catarata que n\u00e3o progrediria facilmente. Por decis\u00e3o da fam\u00edlia, sob influ\u00eancia da av\u00f3, foi conclu\u00eddo que n\u00e3o fariam a menina passar por nenhum procedimento e ela obteria a cura a partir da f\u00e9: \u201cfoi decidido que Deus ia me curar, e \u00e9 isso\u201d, conta a mulher com um sorriso conformado.<\/span><br \/>\n<span style=\"font-weight: 500\">\u201cEu decidi correr atr\u00e1s, aos dez anos\u201d, discorre a mulher sobre sua vida. \u201cEu n\u00e3o me sentia bem, sofria muito bullying e coisas do tipo\u201d. A m\u00e3e buscou aux\u00edlio m\u00e9dico ap\u00f3s a equipe pedag\u00f3gica da escola alertar sobre a defici\u00eancia, \u201cmas, em nenhum momento meu pai participou\u201d.<\/span><br \/>\n<span style=\"font-weight: 500\">Infelizmente, aos 10 anos, o tratamento j\u00e1 n\u00e3o seria efetivo e, al\u00e9m de submeter uma crian\u00e7a a uma cirurgia sem chances de sucesso, o risco da condi\u00e7\u00e3o afetar o olho restante era uma amea\u00e7a real, e o tratamento foi deixado de lado. \u201cMinha m\u00e3e ainda se sente culpada por ter deixado isso acontecer\u201d, relata, \u201cfoi uma decis\u00e3o delas de n\u00e3o seguir com o tratamento (enquanto ainda era poss\u00edvel)\u201d.<\/span><br \/>\n<span style=\"font-weight: 500\">Houve um momento de paz e relativa aproxima\u00e7\u00e3o, aos 14 anos, quando o pai de Nic ofertou pagar uma lente colorida para ela, visto que sua defici\u00eancia afetava sua autoestima. \u201cMeu pai sempre teve uma vida financeira bem melhor que a da minha m\u00e3e, e eu pedi ajuda a ele porque eu queria esconder\u201d. No entanto, ela n\u00e3o se adaptou ao uso da lente e decidiu n\u00e3o utiliz\u00e1-la.<\/span><br \/>\n<span style=\"font-weight: 500\">\u201cEu tinha colocado na minha cabe\u00e7a que eu ia conseguir fazer uma cirurgia, arrancar todo meu olho e colocar outro\u201d, relata a estudante. \u201cEu estava tentando ver a burocracia para me inscrever num site de doa\u00e7\u00e3o, mas o m\u00e9dico me explicou que seria imposs\u00edvel\u201d.\u00a0 Nic afirma que ap\u00f3s constatar que suas op\u00e7\u00f5es estavam esgotadas, recorreu ao tratamento psicol\u00f3gico para se aceitar como ela \u00e9.<\/span><br \/>\n<span style=\"font-weight: 500\">Atualmente, Nic estuda na Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG) e sua vis\u00e3o foi permanentemente comprometida por conta da decis\u00e3o de sua fam\u00edlia de afastar a crian\u00e7a do tratamento. Ao ser convidada para dar a entrevista sobre sua viv\u00eancia com seu pai, disse que n\u00e3o haveria muito a falar, visto que aquele homem n\u00e3o foi muito presente em sua vida. \u201cQuase nada, pra falar a verdade\u201d, complementa a mulher ao final da frase, entre um riso descontra\u00eddo.<\/span><br \/>\n<span style=\"font-weight: 500\">Ao tentar resumir sua rela\u00e7\u00e3o com seu pai em poucas palavras, a resposta foi \u201cela \u00e9 complexa, e cheia de turbul\u00eancias\u201d. Ele n\u00e3o estava presente na cria\u00e7\u00e3o de sua filha: \u201cmeu padrasto foi mais pr\u00f3ximo que ele\u201d, diz. Ainda assim, Nic fala que sempre tentou manter o contato, por mais que os la\u00e7os n\u00e3o fossem t\u00e3o fortes.<\/span><br \/>\n<span style=\"font-weight: 500\">\u201cEu n\u00e3o teria tantos problemas psicol\u00f3gicos, n\u00e3o tentaria me agarrar em outras pessoas para conseguir suprir a falta que ele me fez\u201d, responde ao se indagar sobre como seria sua vida caso seu pai tivesse estado presente na inf\u00e2ncia. \u201cSe ele tivesse ficado perto de mim, eu tenho certeza de que seria mais independente\u201d.<\/span><br \/>\n<span style=\"font-weight: 500\">\u201cN\u00e3o falo com ele h\u00e1 anos\u201d, relata a estudante sobre seu pai. Ao ser perguntada sobre o motivo do afastamento, ela fala sobre o ac\u00famulo de brigas que resultou na ruptura. \u201cA gente brigava muito, eu e ele falamos muitas coisas pesadas\u201d. Nic diz que foi at\u00e9 seu pai in\u00fameras vezes para pedir perd\u00e3o, mas n\u00e3o obteve sucesso.<\/span><br \/>\n<span style=\"font-weight: 500\">Durante a entrevista nos corredores da universidade, Nic interrompeu sua fala sempre que outras pessoas se aproximavam, e pediu para que fosse utilizado um nome fantasia. O assunto \u00e9 marca de uma cria\u00e7\u00e3o com diversas faltas, e a aus\u00eancia paterna \u00e9 uma delas. No entanto, \u00e9 not\u00f3ria a resili\u00eancia da garota e a leveza com que ela respondeu a entrevista, salpicando com risos e piadas sempre que p\u00f4de. Al\u00e9m disso, ela possui consci\u00eancia da responsabilidade do pai em sua educa\u00e7\u00e3o. \u201cUma rela\u00e7\u00e3o p\u00e9ssima com meu pai n\u00e3o iria me ajudar, s\u00f3 me prejudicaria\u201d.<\/span><br \/>\n&nbsp;<br \/>\n<b>Paralelas, mas diferentes<\/b><br \/>\n<span style=\"font-weight: 500\">As hist\u00f3rias acima retratam uma realidade muito frequente. A aus\u00eancia do pai de Nic \u00e9 um fator fundamental para a constru\u00e7\u00e3o de sua vida como ela \u00e9 hoje, e apesar dos traumas gerados por essa falta, a mulher se mostra pronta para tra\u00e7ar seus objetivos e seguir a vida, com sua m\u00e3e e padrasto como apoio. Enquanto isso, Greta ter\u00e1 um pai que dedica a vida para garantir que suas necessidades espec\u00edficas sejam atendidas.<\/span><br \/>\n&nbsp;<br \/>\n<span style=\"font-weight: 500\">*Pseud\u00f4nimo criado para preservar a identidade da crian\u00e7a a pedido do pai<\/span><br \/>\n<span style=\"font-weight: 500\">**Nome fantasia escolhido pela fonte para manter sua identidade em segredo<br \/>\n<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: right\">Texto por Gabriel Aparecido e Victor Schinato<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Diferentes experi\u00eancias mostram a import\u00e2ncia da figura paterna na vida de pessoas com defici\u00eancia &nbsp; Com o m\u00eas dos pais, se torna inevit\u00e1vel refletir sobre o papel dessa figura na forma\u00e7\u00e3o de um indiv\u00edduo. 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