{"id":6114,"date":"2024-11-29T18:44:46","date_gmt":"2024-11-29T21:44:46","guid":{"rendered":"https:\/\/elos.sites.uepg.br\/?p=6114"},"modified":"2024-11-29T18:44:46","modified_gmt":"2024-11-29T21:44:46","slug":"ainda-estou-aqui-para-que-nunca-mais-se-esquecam","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www2.uepg.br\/elos\/ainda-estou-aqui-para-que-nunca-mais-se-esquecam\/","title":{"rendered":"Ainda estou aqui, para que nunca mais se  esque\u00e7am"},"content":{"rendered":"<p>21 anos, 5 mandatos, 210 desaparecidos, 191 mortos e 33 corpos localizados. Estes s\u00e3o alguns dos dados Levantados, que registram um dos mais importantes marcos da hist\u00f3ria do Brasil e da luta pelos direitos humanos, a Ditadura Militar. O filme \u201cAinda Estou Aqui\u201d de Walter Salles, baseado no livro de Marcelo Rubens Paiva que leva o mesmo nome do filme, \u00e9 o recorte fiel desse per\u00edodo que marcou a identidade do nosso pa\u00eds. O longa, que estreou em 7 novembro, conta a hist\u00f3ria da fam\u00edlia Paiva. Rubens Paiva, pol\u00edtico, engenheiro, pai e marido, foi um desaparecido pol\u00edtico, preso pelos militares durante a ditadura e morto. Em um dia comum, os oficiais da Doi-Codi (Destacamento de Opera\u00e7\u00f5es de Informa\u00e7\u00f5es &#8211; Centro de Opera\u00e7\u00f5es de Defesa Interna), \u00f3rg\u00e3o subordinado ao ex\u00e9rcito, de intelig\u00eancia e repress\u00e3o do governo brasileiro durante a ditadura militar, invadiram a casa dos Paiva e Rubens foi levado para nunca mais voltar.<br \/>\nSalles cria o retrato perfeito da fam\u00edlia, ele consegue trazer aquele sentimento de pertencimento e sensa\u00e7\u00e3o de casa sempre cheia. As m\u00fasicas, as cores, o envolvimento entre os atores e atrizes e tudo o que comp\u00f5e a cinematografia do filme \u00e9 capaz de te levar de volta para o Brasil da d\u00e9cada de 60 e 70. Assim como a ang\u00fastia que se perpetua ao decorrer do filme, caracterizada pelo problema que \u00e9 ter um desaparecido na fam\u00edlia: a incerteza. Quantas vezes um desaparecido morre, at\u00e9 ser comprovado que, de fato, ele morreu? Este sentimento de familiaridade, constru\u00eddo durante a evolu\u00e7\u00e3o do filme, nos possibilita entender a dor e indigna\u00e7\u00e3o de cada um desses personagens, que, invadidos pela repress\u00e3o, tem parte de sua hist\u00f3ria marcada pela brutalidade. E, tem arrancados de si, aqueles que, por algum motivo, mostraram-se contr\u00e1rios a aquilo que, um dia, viria a os matar.<br \/>\n\u00c9 imposs\u00edvel n\u00e3o falar de Eunice Paiva, que soa como um grito de resist\u00eancia, de quem tende sempre a continuar a escrever sua hist\u00f3ria. Ela \u00e9 a pe\u00e7a central que representa as pelo menos 434 fam\u00edlias que viveram o mesmo que a sua. Eunice luta e vive o luto em sil\u00eancio, a cena em que ela est\u00e1 chorando no escrit\u00f3rio ao descobrir a morte de Paiva, e sua filha ca\u00e7ula entra chorando falando que o irm\u00e3o arrebentou o bra\u00e7o da boneca, reflete a for\u00e7a de Eunice Paiva, ao perceber que a preocupa\u00e7\u00e3o da filha \u00e9 a boneca, e ela tem o direito da sua preocupa\u00e7\u00e3o ser s\u00f3 e apenas aquela. Eunice luta por seu filho e filhas, luta para que nunca mais se esque\u00e7am e para que nunca mais se repita. Eunice \u00e9 aquela que Ainda Est\u00e1 Aqui.<br \/>\nN\u00e3o se pode ignorar o trabalho de atua\u00e7\u00e3o de Fernanda Torres e Selton Mello. Fernanda e Selton s\u00e3o o elo que amarra uma trama sens\u00edvel e real a um trabalho de dire\u00e7\u00e3o igualmente afetivo e verdadeiro. Cada um que est\u00e1 presente no elenco cumpre com maestria seu papel, mesmo aqueles que s\u00e3o pe\u00e7as sutis da trama, fazem parte de um todo que imp\u00f5em uma experi\u00eancia e talento que s\u00f3 complementam ainda mais a qualidade da obra. A rela\u00e7\u00e3o criada pela intera\u00e7\u00e3o de cada um dos personagens \u00e9 capaz de transmitir um carinho que ultrapassa as telas e o tempo. Dentre tantos nomes de renome, como: Humberto Carr\u00e3o, Valentina Herszage, Marjorie Estiano, Ol\u00edvia Torres, quem n\u00e3o pode passar batida \u00e9 Fernanda Montenegro, que faz um trabalho excepcional. A atua\u00e7\u00e3o de Fernanda \u00e9 algo impressionante, a maior atriz do Brasil mostra apenas com o olhar o motivo desse t\u00edtulo pertencer a ela. As atrizes de primeira m\u00e3o, B\u00e1rbara Luz e Luiza Kosovski, que fazem duas das filhas mais velhas dos Paiva, entregam um papel sensacional que contribui ainda mais para a constru\u00e7\u00e3o da sensibilidade que \u00e9 palp\u00e1vel a qualquer um que assiste ao filme.<br \/>\n<div id=\"attachment_6105\" style=\"width: 310px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-6105\" loading=\"lazy\" class=\"size-medium wp-image-6105\" src=\"https:\/\/elos.sites.uepg.br\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/172511940466d33bac214ef_1725119404_3x2_md-300x169.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"169\" \/><p id=\"caption-attachment-6105\" class=\"wp-caption-text\">Fernanda Montenegro, interpretando Eunice Paiva na fase final de sua vida. Imagem: Reprodu\u00e7\u00e3o<\/p><\/div><br \/>\nO que nos resta ap\u00f3s assistir a Ainda Estou Aqui, \u00e9 o que Fernanda Montenegro nos revela em seus poucos minutos de tela: um grito de sil\u00eancio, pesando em seus olhos e em seu quase sorriso. Um grito de liberdade, que ultrapassa o tempo e a hist\u00f3ria, para relembrar o que nunca mais pode se repetir.<br \/>\n<strong>Entenda quem foi Rubens Paiva e o que o levou a ser um preso e desaparecido pol\u00edtico\u00a0<\/strong><br \/>\n*A hist\u00f3ria de Rubens foi escrita tendo como base o cap\u00edtulo 7 \u201cAs v\u00e1rias mortes de Rubens Paiva\u201d do Livro \u201cHabeas Corpus que se apresente o corpo\u201d<br \/>\n<img loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-medium wp-image-6110\" src=\"https:\/\/elos.sites.uepg.br\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/Rubens-Paiva-1200x630-1-300x158.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"158\" \/><br \/>\nEngenheiro civil e ex deputado federal, Rubens Paiva morava no Rio de Janeiro com sua esposa Eunice e seus 5 filhos. Foi eleito deputado federal em 1962, 2 anos antes do in\u00edcio do regime ditatorial. Participou da CPI sobre o Instituto Brasileiro de A\u00e7\u00e3o Democr\u00e1tica (IBAD), que promovia propagandas anticomunista e conspirava a favor da queda de Jo\u00e3o Goulart.<br \/>\n<strong>Resultado da CPI<\/strong><br \/>\nA CPI descobriu, naquele ano, que o IBAD, junto com o seu bra\u00e7o eleitoral, A A\u00e7\u00e3o Democr\u00e1tica Popular (ADEP), movimentaram entre 12 a 20 milh\u00f5es de d\u00f3lares em suas atividades conspirativas.<br \/>\nPaiva foi um dos deputados que ajudou a identificar a origem e o destino do dinheiro, que vinha de empresas como Shell, Coca-Cola, Bayer, IBM. Descobriu tamb\u00e9m o envolvimento de militares da direita favor\u00e1veis ao golpe. Ap\u00f3s a comprova\u00e7\u00e3o das descobertas, o IBAD e a ADEP foram dissolvidos por ordem da justi\u00e7a em dezembro de 1963.<br \/>\n<strong>A Cassa\u00e7\u00e3o de Paiva\u00a0<\/strong><br \/>\nQuatro meses ap\u00f3s a CPI e oito dias ap\u00f3s o golpe de abril de 1964, Paiva foi cassado. Exilou-se na embaixada da Iugosl\u00e1via e depois seguiu para o leste europeu.<br \/>\n<strong>A volta para o Brasil\u00a0<\/strong><br \/>\nAntes do fim do ano, Paiva retornou ao Brasil, foi quando se mudaram para o Rio de Janeiro. No livro \u201cHabeas Corpus que se apresente o corpo\u201d, cap\u00edtulo sete, existem relatos dos filhos de Rubens, onde contam que no final da d\u00e9cada de 60, com o endurecimento do regime, a casa da fam\u00edlia serviu de abrigo para diversos militantes da ditadura, e Paiva fazia a movimenta\u00e7\u00e3o de cartas dos exilados. \u201cEle fazia essa ponte entre o Partido Comunista Brasileiro (PCB) e essas organiza\u00e7\u00f5es clandestinas. Conhecia as famosas rotas de fuga que o PCB tinha. Ent\u00e3o, a partir da\u00ed, se envolveu com o pessoal para ajud\u00e1-los a sair do Brasil. A\u00ed ele caiu\u201d. Conta Marcelo Rubens Paiva no livro.<br \/>\n<strong>A Pris\u00e3o<\/strong><br \/>\n20 de janeiro de 1971. Seis homens invadiram a casa de Rubens e o levaram para o quartel da 3\u00aa Zona A\u00e9rea. A partir disso, tudo o que existe pelas pr\u00f3ximas duas d\u00e9cadas e meia seguintes s\u00e3o relatos de pessoas que dizem o ter visto.<br \/>\nO m\u00e9dico do DOI, Am\u00edlcar Lobo, que acompanhava as v\u00edtimas de tortura, na madrugada do dia 21 para o 22, relatou para a revista Veja, 15 anos depois, ter sio acordado em casa e levado para o quartel, quando chegou na cela viu um preso deitado e sem roupa. \u2018\u201cEra uma equimose s\u00f3. Estava roxo da ponta dos cabelos \u00e0 ponta dos p\u00e9s. Ele havia sido torturado, mas, quando fui examin\u00e1-lo, verifiquei que seu abd\u00f4men estava endurecido. (&#8230;) Suspeitei de que houvesse uma ruptura do f\u00edgado ou do ba\u00e7o, pois elas provocam uma brutal hemorragia interna\u2019, O preso s\u00f3 repetia o nome: Rubens Paiva. \u201cEu nunca havia presenciado um quadro desse tipo. Aquele homem levara uma surra como eu nunca vira\u201d, disse o m\u00e9dico. Ao sair, aconselhou um oficial que o levassem para o hospital. No dia seguinte foi avisado de que o paciente falecera.<br \/>\n<strong>O atestado de \u00d3bito<\/strong><br \/>\nDepois de quase 25 anos, no dia 4 de dezembro de 1995, o atestado de \u00f3bito de Rubens Paiva foi finalmente expedido. Nunca foi comprovado como, quando e onde Rubens Paiva Morreu, ningu\u00e9m jamais foi punido por sua morte.<br \/>\n*Os dados do in\u00edcio do texto s\u00e3o da comiss\u00e3o nacional da verdade<br \/>\n&nbsp;<br \/>\nPor Natalia Almeida e Julia Almeida<br \/>\n&nbsp;<br \/>\n&nbsp;<br \/>\n&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>21 anos, 5 mandatos, 210 desaparecidos, 191 mortos e 33 corpos localizados. Estes s\u00e3o alguns dos dados Levantados, que registram um dos mais importantes marcos da hist\u00f3ria do Brasil e da luta pelos direitos humanos, a Ditadura Militar. 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