{"id":6508,"date":"2025-05-02T17:09:25","date_gmt":"2025-05-02T20:09:25","guid":{"rendered":"https:\/\/elos.sites.uepg.br\/?p=6508"},"modified":"2025-05-02T17:09:25","modified_gmt":"2025-05-02T20:09:25","slug":"sangue-raro-distopia-brasileira-denuncia-exclusao-social-atraves-da-fantasia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www2.uepg.br\/elos\/sangue-raro-distopia-brasileira-denuncia-exclusao-social-atraves-da-fantasia\/","title":{"rendered":"Sangue Raro: distopia brasileira denuncia exclus\u00e3o social atrav\u00e9s da fantasia"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center\"><span style=\"font-weight: 400\">Livro de Lucas Santana \u00e9 um grito contra a repress\u00e3o e foi contemplado nos editais da Lei Paulo Gustavo de Pernambuco, por meio da Secretaria de Cultura do Estado<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A literatura fant\u00e1stica brasileira ganha novo f\u00f4lego com<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\"> Sangue Raro<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, obra de estreia de Lucas Santana, autore n\u00e3o bin\u00e1rie pernambucane que transforma uma distopia urbana em um grito po\u00e9tico contra a repress\u00e3o, a marginaliza\u00e7\u00e3o e a viol\u00eancia estatal. Ao construir um mundo onde pessoas com \u201csangue raro\u201d s\u00e3o perseguidas e exploradas, Santana cria uma potente met\u00e1fora sobre o controle social, o autoritarismo e a resist\u00eancia das minorias. O livro \u00e9 resultado de um projeto contemplado nos editais da Lei Paulo Gustavo de Pernambuco, realizado atrav\u00e9s da Secretaria de Cultura do Estado com recursos da Lei Paulo Gustavo, direcionada pelo Minist\u00e9rio da Cultura \u2014 um marco que refor\u00e7a o papel da pol\u00edtica p\u00fablica no incentivo \u00e0 produ\u00e7\u00e3o art\u00edstica comprometida com a diversidade e a cr\u00edtica social.<\/span><br \/>\n<div id=\"attachment_6509\" style=\"width: 706px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/elos.sites.uepg.br\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/Foto_-Arquivo-pessoal-de-Lucas-Santana-scaled.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-6509\" loading=\"lazy\" class=\"size-large wp-image-6509\" src=\"https:\/\/elos.sites.uepg.br\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/Foto_-Arquivo-pessoal-de-Lucas-Santana-1024x683.jpg\" alt=\"\" width=\"696\" height=\"464\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-6509\" class=\"wp-caption-text\">Autore do livro Sangue Raro, Lucas Santana. Foto: Arquivo pessoal de Lucas Santana<\/p><\/div><br \/>\n<span style=\"font-weight: 400\">Na entrevista concedida para o Elos, Santana compartilhou como as ditaduras latino-americanas, a manipula\u00e7\u00e3o religiosa e as pr\u00e1ticas contempor\u00e2neas de higieniza\u00e7\u00e3o social influenciaram diretamente sua fic\u00e7\u00e3o. \u201cO sistema discrimina essas pessoas, mas ao mesmo tempo precisa delas. Isso \u00e9 o que acontece com as minorias no capitalismo: somos bode expiat\u00f3rio e mat\u00e9ria-prima\u201d, elucida.<\/span><br \/>\n<b>Fantasia dist\u00f3pica como cr\u00edtica \u00e0 opress\u00e3o estrutural<\/b><br \/>\n<i><span style=\"font-weight: 400\">Sangue Raro<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> se passa em um Brasil alternativo onde um Estado militarizado utiliza a m\u00eddia e a religi\u00e3o para construir um imagin\u00e1rio hostil contra indiv\u00edduos com um sangue especial \u2014 raro, precioso e ao mesmo tempo temido. A persegui\u00e7\u00e3o promovida pelo governo n\u00e3o \u00e9 apenas p\u00fablica: ela acontece nos bastidores, com sequestros, experimenta\u00e7\u00f5es e tortura. Esses corpos, marcados como perigosos, s\u00e3o tamb\u00e9m os que fornecem a for\u00e7a vital para o pr\u00f3prio regime.<\/span><br \/>\n<span style=\"font-weight: 400\">Essa ambival\u00eancia \u2014 rejei\u00e7\u00e3o e explora\u00e7\u00e3o \u2014 reflete din\u00e2micas vividas por pessoas negras, LGBTQIAP+ e perif\u00e9ricas na sociedade brasileira. \u201cA met\u00e1fora do sangue raro serve para falar do que fazem com a gente: marginalizam, mas nos usam para sustentar o sistema\u201d, afirma o autore.<\/span><br \/>\n<b>Uma hist\u00f3ria marcada por dor, poder e resist\u00eancia<\/b><br \/>\n<span style=\"font-weight: 400\">No centro da narrativa est\u00e1 Caetano, morador do Morro da Concei\u00e7\u00e3o, em Recife, que desde a adolesc\u00eancia sente algo estranho crescer dentro de si \u2014 uma energia inomin\u00e1vel que se espalha pelo corpo como uma febre silenciosa. Ele \u00e9 um sangue-raro: seu sangue possui habilidades especiais, como localizar pessoas, tornando-se alvo do Estado. Em meio a uma ditadura que busca exterminar bruxos e sangue-raros em nome da \u201cpurifica\u00e7\u00e3o nacional\u201d, Caetano \u00e9 capturado e utilizado como instrumento do governo, for\u00e7ado a ajudar na persegui\u00e7\u00e3o de opositores pol\u00edticos.<\/span><br \/>\n<span style=\"font-weight: 400\">Ap\u00f3s passar dez anos preso, ele consegue fugir. Do lado de fora, encontra um Brasil colapsado, em que o ex\u00e9rcito j\u00e1 n\u00e3o governa e o povo foi deixado \u00e0 deriva \u2014 cidades alagadas, a natureza em f\u00faria, o medo ainda presente. Ele cruza o caminho de Jorge, um bruxo que busca desesperadamente sua filha desaparecida \u2014 outra sangue-raro, poderosa como ele. Juntos, os dois encaram os escombros de um pa\u00eds destru\u00eddo pela opress\u00e3o, tentando decidir se vale a pena reconstruir ou apenas vingar. Caetano precisa confrontar sua culpa, seu passado e o pr\u00f3prio corpo \u2014 um corpo que o sistema tentou transformar em arma, mas que ele agora tenta reivindicar como territ\u00f3rio de luta e reexist\u00eancia.<\/span><br \/>\n<b>Corpo, territ\u00f3rio e divindade: interse\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e existenciais<\/b><br \/>\n<span style=\"font-weight: 400\">O livro tamb\u00e9m prop\u00f5e uma reflex\u00e3o sens\u00edvel sobre o corpo como campo de disputa. \u201cO corpo da gente \u00e9 um territ\u00f3rio\u201d, diz Santana. \u201cQuerem dizer que corpo pode existir, que corpo tem valor. Isso vale para pessoas LGBTQIAP+, mulheres e pessoas negras. Nosso corpo est\u00e1 sempre em disputa, como a pr\u00f3pria Am\u00e9rica Latina.\u201d<\/span><br \/>\n<span style=\"font-weight: 400\">A repress\u00e3o descrita na narrativa se entrela\u00e7a com as estrat\u00e9gias de controle exercidas pela religi\u00e3o institucionalizada, especialmente em comunidades vulner\u00e1veis. A cr\u00edtica \u00e0 moralidade imposta aparece de forma contundente. \u201cIgrejas se infiltram onde o Estado falhou, e oprimem os corpos que deveriam acolher. Isso \u00e9 ferramenta de domina\u00e7\u00e3o\u201d, comenta.<\/span><br \/>\n<b>Carnaval como resist\u00eancia: arte e comunidade contra o autoritarismo<\/b><br \/>\n<span style=\"font-weight: 400\">Em contraste com a viol\u00eancia e a opress\u00e3o, <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Sangue Raro <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">exalta a arte popular como forma de resist\u00eancia e sobreviv\u00eancia. A presen\u00e7a do carnaval, especialmente o de rua nordestino, simboliza a for\u00e7a coletiva. \u201cNo livro, o ala\u00fa\u00e7a \u00e9 s\u00edmbolo de poder popular. O carnaval aqui \u00e9 democr\u00e1tico. \u00c9 um lugar onde corpos dissidentes podem existir com liberdade.\u201d<\/span><br \/>\n<span style=\"font-weight: 400\">Lucas enxerga na arte um espa\u00e7o de reconstru\u00e7\u00e3o da identidade e de acolhimento. \u201cQuando eu era adolescente, n\u00e3o via personagens LGBTQIAP+ em livros ou filmes. A literatura precisa oferecer esses espelhos. Quero que leitores se sintam acolhidos e empoderados.\u201d<\/span><br \/>\n<b>Entre a fic\u00e7\u00e3o e o espelho: o Recife de <\/b><b><i>Sangue Raro<\/i><\/b><b> \u00e9 distopia ou realidade encenada?<\/b><br \/>\n<span style=\"font-weight: 400\">A distopia apresentada em <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Sangue Raro<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> n\u00e3o soa distante \u2014 ao contr\u00e1rio, evoca um Brasil que j\u00e1 se reconhece em muitos aspectos da narrativa. O Recife criado por Lucas Santana, embora fant\u00e1stico, ecoa elementos concretos da sociedade brasileira: repress\u00e3o estatal, controle religioso, exclus\u00e3o de corpos dissidentes e desigualdade estrutural. A fantasia torna-se, assim, uma lente de aumento sobre viv\u00eancias reais de popula\u00e7\u00f5es historicamente marginalizadas.<\/span><br \/>\n<span style=\"font-weight: 400\">A persegui\u00e7\u00e3o aos sangue-raros, que possuem um sangue precioso e temido, ressoa como met\u00e1fora para o modo como o Estado lida com pessoas negras, LGBTQIAP+ e perif\u00e9ricas \u2014 rejeitando suas exist\u00eancias enquanto extrai delas for\u00e7a e produ\u00e7\u00e3o. A distopia do livro se aproxima perigosamente da realidade: se n\u00e3o h\u00e1 ainda um regime declarado, h\u00e1 pol\u00edticas e discursos que operam com l\u00f3gica semelhante, usando o medo como ferramenta de domina\u00e7\u00e3o.<\/span><br \/>\n<span style=\"font-weight: 400\">Ao colocar em cena um Brasil colapsado e um povo deixado \u00e0 deriva, a narrativa convida \u00e0 reflex\u00e3o sobre o presente. As tens\u00f5es que o livro exp\u00f5e \u2014 entre poder e resist\u00eancia, entre religi\u00e3o e controle, entre arte e sobreviv\u00eancia \u2014 j\u00e1 fazem parte do cotidiano de muitas comunidades. Nesse sentido, <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Sangue Raro<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> denuncia, mas tamb\u00e9m convoca: aponta para a import\u00e2ncia da coletividade, da arte como ref\u00fagio e da resist\u00eancia como forma de luta.<\/span><br \/>\n<b>Representatividade e esperan\u00e7a para juventudes marginalizadas<\/b><br \/>\n<span style=\"font-weight: 400\">O protagonista de <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Sangue Raro<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, Caetano, vive um apagamento for\u00e7ado de sua identidade. Antes mesmo de descobrir seu sangue raro, ele j\u00e1 enfrentava exclus\u00e3o por ser LGBTQIAP+. \u201cA opress\u00e3o come\u00e7a cedo. Aprendemos a disfar\u00e7ar quem somos com medo da viol\u00eancia\u201d, explica o autore.<\/span><br \/>\n<span style=\"font-weight: 400\">Mas o livro tamb\u00e9m \u00e9 sobre pertencimento. \u201cMesmo em um mundo que te nega, h\u00e1 caminhos de afeto e resist\u00eancia. Espero que quem j\u00e1 sofreu exclus\u00e3o leia o livro e sinta que existe um lugar seguro para si\u201d.<\/span><br \/>\n<span style=\"font-weight: 400\">Com <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Sangue Raro<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, Lucas Santana entrega uma fantasia dist\u00f3pica que n\u00e3o apenas emociona e entret\u00e9m, mas tamb\u00e9m questiona, denuncia e acolhe. Sua escrita evoca um Brasil real por meio do fant\u00e1stico \u2014 um pa\u00eds marcado por desigualdades e resist\u00eancias, onde a imagina\u00e7\u00e3o \u00e9 ferramenta de den\u00fancia e esperan\u00e7a.<\/span><br \/>\n<span style=\"font-weight: 400\">\u00c9 uma obra que mostra que, mesmo quando tudo ao redor tenta apagar quem somos, h\u00e1 for\u00e7a na arte, na coletividade e na reinven\u00e7\u00e3o de si mesmo. O reconhecimento atrav\u00e9s da Lei Paulo Gustavo amplia ainda mais o alcance desta narrativa transformadora, destacando a import\u00e2ncia de pol\u00edticas culturais que valorizam vozes dissidentes e hist\u00f3rias que desafiam o status quo.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: right\"><span style=\"font-weight: 400\">Por Maria Gallinea<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Livro de Lucas Santana \u00e9 um grito contra a repress\u00e3o e foi contemplado nos editais da Lei Paulo Gustavo de Pernambuco, por meio da Secretaria de Cultura do Estado A literatura fant\u00e1stica brasileira ganha novo f\u00f4lego com Sangue Raro, obra de estreia de Lucas Santana, autore n\u00e3o bin\u00e1rie pernambucane que transforma uma distopia urbana em&nbsp;&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":846,"featured_media":6509,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[40,48,39],"tags":[195,44,45,268,202],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/elos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6508"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/elos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/elos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/elos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/846"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/elos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6508"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/elos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6508\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/elos\/wp-json\/"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/elos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6508"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/elos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6508"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/elos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6508"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}