{"id":6940,"date":"2026-02-02T12:29:20","date_gmt":"2026-02-02T15:29:20","guid":{"rendered":"https:\/\/www2.uepg.br\/elos\/?p=6940"},"modified":"2026-02-02T12:31:36","modified_gmt":"2026-02-02T15:31:36","slug":"a-raiva-como-heranca-e-resistencia-aicha-transforma-mito-em-denuncia-historica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www2.uepg.br\/elos\/a-raiva-como-heranca-e-resistencia-aicha-transforma-mito-em-denuncia-historica\/","title":{"rendered":"A raiva como heran\u00e7a e resist\u00eancia: Aicha transforma mito em den\u00fancia hist\u00f3rica"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center\"><em><span style=\"font-weight: 400\">Romance de Soraya Bouazzaoui revisita a coloniza\u00e7\u00e3o portuguesa no Magrebe e exp\u00f5e viola\u00e7\u00f5es de direitos humanos que atravessam o tempo<\/span><\/em><\/p>\n<pre>  \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0      \u00a0        Por Maria Gallinea<\/pre>\n<div id=\"attachment_6941\" style=\"width: 310px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-6941\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-6941 size-medium\" src=\"https:\/\/www2.uepg.br\/elos\/wp-content\/uploads\/sites\/285\/2026\/02\/Credito-da-foto_-Arquivo-pessoal-de-Soraya-Bouazzaoui-300x284.png\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"284\" srcset=\"https:\/\/www2.uepg.br\/elos\/wp-content\/uploads\/sites\/285\/2026\/02\/Credito-da-foto_-Arquivo-pessoal-de-Soraya-Bouazzaoui-300x284.png 300w, https:\/\/www2.uepg.br\/elos\/wp-content\/uploads\/sites\/285\/2026\/02\/Credito-da-foto_-Arquivo-pessoal-de-Soraya-Bouazzaoui.png 648w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><p id=\"caption-attachment-6941\" class=\"wp-caption-text\">Mulher de cabelos cacheados e \u00f3culos segura o pr\u00f3prio livro \u00e0 frente do corpo e sorri para a c\u00e2mera. A capa mostra uma mulher negra com uma espada. O fundo \u00e9 claro e neutro.\/\/ Foto: Arquivo pessoal de Soraya Bouazzaoui.<\/p><\/div>\n<p><i><span style=\"font-weight: 400\">Aicha<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, romance da escritora marroquina Soraya Bouazzaoui, que ser\u00e1 lan\u00e7ado em 24 de mar\u00e7o deste ano,\u00a0 n\u00e3o se limita a revisitar um epis\u00f3dio hist\u00f3rico. A obra confronta o leitor com as estruturas de domina\u00e7\u00e3o colonial que seguem moldando corpos, cren\u00e7as e territ\u00f3rios at\u00e9 hoje. Inspirado em um mito marroquino ancestral e ambientado na ocupa\u00e7\u00e3o portuguesa no Magrebe, o livro se constr\u00f3i como um romance hist\u00f3rico que opera tamb\u00e9m como den\u00fancia pol\u00edtica. O ELOS teve acesso antecipado \u00e0 obra e \u00e0 entrevista com a autora.<\/span><\/p>\n<h3><b>Mito, mem\u00f3ria e a recusa do apagamento hist\u00f3rico<\/b><\/h3>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A personagem Aicha nasce do encontro entre mito e hist\u00f3ria. Inspirada na figura folcl\u00f3rica de Aicha Kandicha, frequentemente representada de forma distorcida por leituras orientalistas, a protagonista ganha, no romance, uma origem pol\u00edtica e territorial clara. Segundo Soraya Bouazzaoui, a decis\u00e3o de ancorar a narrativa no per\u00edodo da ocupa\u00e7\u00e3o portuguesa n\u00e3o foi arbitr\u00e1ria.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Em entrevista ao ELOS via o aplicativo Zoom, a autora afirmou que o mito de Aicha j\u00e1 estava historicamente situado naquele contexto. Ela explica que existem vers\u00f5es conflitantes sobre a origem da personagem, mas que muitos relatos, especialmente os de tradi\u00e7\u00e3o oral, indicam que Aicha era marroquina e amazigh. A partir disso, Bouazzaoui decidiu ambientar o romance no fim da coloniza\u00e7\u00e3o portuguesa.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A autora relata que buscou refer\u00eancias hist\u00f3ricas em artigos e estudos sobre a ocupa\u00e7\u00e3o portuguesa, mas tamb\u00e9m sobre per\u00edodos posteriores da coloniza\u00e7\u00e3o francesa e espanhola no Marrocos. Ao optar por uma cidade fict\u00edcia inspirada em El Jadida, \u00faltimo porto portugu\u00eas a cair, ela afirma ter encontrado liberdade para ser \u201cbrutalmente honesta\u201d na forma de narrar a viol\u00eancia colonial. Segundo Bouazzaoui, essa honestidade s\u00f3 foi poss\u00edvel porque contou com editoras que apoiaram essa abordagem sem suaviza\u00e7\u00f5es.<\/span><\/p>\n<h3><b>Coloniza\u00e7\u00e3o como viola\u00e7\u00e3o cont\u00ednua de direitos humanos<\/b><\/h3>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Em <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Aicha<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, a coloniza\u00e7\u00e3o n\u00e3o aparece apenas como ocupa\u00e7\u00e3o territorial, mas como um sistema que infiltra a vida cotidiana. A l\u00edngua, a religi\u00e3o, o direito ao corpo e at\u00e9 o acesso \u00e0 \u00e1gua e ao alimento s\u00e3o controlados. Para a autora, era fundamental evitar uma leitura da coloniza\u00e7\u00e3o como algo encerrado no passado.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Bouazzaoui afirma que leu extensivamente sobre outros contextos coloniais e cita, entre eles, a Arg\u00e9lia, a \u00c1frica do Sul durante o apartheid e a Palestina. Ela observa que a domina\u00e7\u00e3o colonial se reinventa, assumindo formas menos vis\u00edveis, mas igualmente eficazes. Como exemplo, menciona o controle econ\u00f4mico exercido por empresas francesas no Marrocos contempor\u00e2neo, que, segundo ela, limita a autonomia individual da popula\u00e7\u00e3o mesmo ap\u00f3s a independ\u00eancia formal.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Na entrevista, a autora afirma que a coloniza\u00e7\u00e3o \u201cse enterra profundamente\u201d e que, por isso, optou por tornar essas din\u00e2micas expl\u00edcitas no romance. Ela diz que quis \u201cquase bater na cabe\u00e7a do leitor\u201d para evitar qualquer romantiza\u00e7\u00e3o ou neutraliza\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia imperial.<\/span><\/p>\n<h3><b>F\u00e9 sob vigil\u00e2ncia e a criminaliza\u00e7\u00e3o do cotidiano<\/b><\/h3>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Um dos eixos centrais do livro \u00e9 a criminaliza\u00e7\u00e3o da pr\u00e1tica religiosa. Em <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Aicha<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, professar a f\u00e9 isl\u00e2mica \u00e9 um ato clandestino, vivido sob constante amea\u00e7a. Para Bouazzaoui, era importante mostrar a liberdade religiosa n\u00e3o como um direito abstrato, mas como uma experi\u00eancia cotidiana atravessada pelo medo.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Ela explica que os personagens desenvolvem comportamentos autom\u00e1ticos de vigil\u00e2ncia, como verificar janelas e ruas antes de rezar, sem sequer refletir sobre isso. Segundo a autora, esse tipo de hipervigil\u00e2ncia n\u00e3o \u00e9 uma escolha racional, mas um instinto moldado pela ocupa\u00e7\u00e3o. S\u00f3 durante o processo de edi\u00e7\u00e3o, afirma, percebeu o quanto isso dialogava diretamente com debates contempor\u00e2neos sobre direitos humanos.<\/span><\/p>\n<h3><b>O corpo feminino como territ\u00f3rio ocupado<\/b><\/h3>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A viol\u00eancia colonial retratada no romance \u00e9 profundamente marcada por g\u00eanero. O corpo de Aicha est\u00e1 sob vigil\u00e2ncia constante, tanto das autoridades coloniais quanto das normas patriarcais internas \u00e0 comunidade. Bouazzaoui afirma que essa escolha narrativa foi consciente.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Na entrevista, a autora diz que as mulheres s\u00e3o sempre as maiores v\u00edtimas da guerra e da coloniza\u00e7\u00e3o, e que seus corpos se tornam campos de disputa. Ainda assim, ela optou por n\u00e3o detalhar cenas de viol\u00eancia sexual. Segundo Bouazzaoui, a viol\u00eancia contra mulheres j\u00e1 \u00e9 excessivamente explorada de forma sensacionalista na literatura e no audiovisual, e repetir isso n\u00e3o contribui para a compreens\u00e3o do trauma.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Ela destaca que, justamente por isso, a \u00fanica cena sexual expl\u00edcita do livro \u00e9 consensual. Para a autora, oferecer \u00e0 personagem um momento de prazer foi uma decis\u00e3o pol\u00edtica. Bouazzaoui afirma que, em um mundo de viola\u00e7\u00f5es constantes, Aicha merecia experimentar desejo e autonomia sobre o pr\u00f3prio corpo.<\/span><\/p>\n<h3><b>Raiva feminina como heran\u00e7a e resist\u00eancia<\/b><\/h3>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A raiva de Aicha \u00e9 um dos elementos mais marcantes do romance. Persistente, indom\u00e1vel e frequentemente punida, essa raiva n\u00e3o \u00e9 tratada como falha moral, mas como for\u00e7a pol\u00edtica. Bouazzaoui explica que v\u00ea a raiva da protagonista como algo herdado, acumulado ao longo de gera\u00e7\u00f5es de viol\u00eancia e perda.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Segundo a autora, essa f\u00faria \u00e9, ao mesmo tempo, a maior for\u00e7a e a maior fragilidade da personagem. Ela afirma que a queda de Aicha era necess\u00e1ria para o desfecho do livro e para a vit\u00f3ria contra os invasores, porque hist\u00f3rias de resist\u00eancia quase nunca acontecem sem perdas devastadoras.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Bouazzaoui tamb\u00e9m reconhece um componente pessoal nessa constru\u00e7\u00e3o. Ela relata que vem de uma fam\u00edlia de mulheres \u201craivosas\u201d, com l\u00edngua afiada e pouca toler\u00e2ncia \u00e0 submiss\u00e3o. Para ela, essa raiva sempre foi uma ferramenta de sobreviv\u00eancia, algo a ser cultivado, n\u00e3o reprimido.<\/span><\/p>\n<h3><b>Viol\u00eancia, resist\u00eancia e o desconforto da hist\u00f3ria<\/b><\/h3>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Ao final, <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Aicha<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> se posiciona de forma clara sobre a resist\u00eancia armada. Bouazzaoui afirma que a hist\u00f3ria frequentemente apaga ou condena os aspectos violentos das lutas anticoloniais, mesmo quando eles foram fundamentais para a liberta\u00e7\u00e3o de povos inteiros.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A autora\u00a0 espera que os leitores questionem essa narrativa. Ela afirma que um opressor n\u00e3o se comove com o sofrimento do oprimido e que, historicamente, a resist\u00eancia armada foi uma ferramenta necess\u00e1ria contra o colonialismo. Bouazzaoui acrescenta que espera que o livro contribua para debates contempor\u00e2neos sobre mem\u00f3ria colonial, islamofobia e, especialmente, sobre a Palestina.<\/span><\/p>\n<p><i><span style=\"font-weight: 400\">Aicha<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> \u00e9 uma obra que recusa a neutralidade. Ao fundir mito, hist\u00f3ria e den\u00fancia, Soraya Bouazzaoui constr\u00f3i um romance que ultrapassa os limites da fic\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica e se insere no campo dos direitos humanos. O livro n\u00e3o oferece conforto, nem concilia\u00e7\u00e3o. Oferece mem\u00f3ria, raiva e a recusa em esquecer.<\/span><\/p>\n<p><b>Informa\u00e7\u00f5es sobre o livro<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Editora: Orbit<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Idioma: Ingl\u00eas<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Data de publica\u00e7\u00e3o: 24 de mar\u00e7o de 2026\u00a0\u00a0\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Valor do livro para kindle: R$ 28,87<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Valor do audiolivro: R$ 86,99<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Valor do livro f\u00edsico: Ainda sem valor<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Romance de Soraya Bouazzaoui revisita a coloniza\u00e7\u00e3o portuguesa no Magrebe e exp\u00f5e viola\u00e7\u00f5es de direitos humanos que atravessam o tempo \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 Por Maria&nbsp;&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":846,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[293,48,39],"tags":[44,52],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/elos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6940"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/elos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/elos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/elos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/846"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/elos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6940"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/elos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6940\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":6944,"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/elos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6940\/revisions\/6944"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/elos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6940"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/elos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6940"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/elos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6940"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}