{"id":7207,"date":"2026-05-13T12:33:23","date_gmt":"2026-05-13T15:33:23","guid":{"rendered":"https:\/\/www2.uepg.br\/elos\/?p=7207"},"modified":"2026-05-13T12:35:12","modified_gmt":"2026-05-13T15:35:12","slug":"pretos-velhos-resistem-13-de-maio-marca-a-luta-viva-e-ancestral-das-religioes-de-matriz-africana","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www2.uepg.br\/elos\/pretos-velhos-resistem-13-de-maio-marca-a-luta-viva-e-ancestral-das-religioes-de-matriz-africana\/","title":{"rendered":"Pretos Velhos resistem: 13 de maio marca a luta viva e ancestral das religi\u00f5es de matriz africana"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center\"><em><span style=\"font-weight: 400\">A data simb\u00f3lica para a resist\u00eancia dos povos escravizados \u00e9 tamb\u00e9m comemorada nas religi\u00f5es que cultuam a ancestralidade africana do Brasil<\/span><\/em><\/p>\n<pre><span style=\"font-weight: 400\">Por Ana Lu\u00edsa Runho e Lucas Barbato\r\n<\/span><\/pre>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Desde 2025, Ponta Grossa comemora em 13 de maio o Dia Municipal das Religi\u00f5es de Matriz Africana. A data foi inclu\u00edda no calend\u00e1rio municipal em 2024, institu\u00edda pela <\/span><a href=\"https:\/\/leismunicipais.com.br\/a\/pr\/p\/ponta-grossa\/lei-ordinaria\/2024\/1525\/15248\/lei-ordinaria-n-15248-2024-institui-o-dia-das-religioes-de-matriz-africana-no-ambito-do-municipio-de-ponta-grossa\"><span style=\"font-weight: 400\">lei n\u00ba 15.248\/2024<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400\">. A resist\u00eancia destas religi\u00f5es \u00e9 intensa e viva no munic\u00edpio h\u00e1 muito antes; diariamente, pessoas lutam para exercer sua liberdade religiosa plenamente, e enfrentam no caminho julgamentos, intoler\u00e2ncia, ataques e viol\u00eancia.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">De acordo com o IBGE, em 2022, cerca de 0,69% dos habitantes de Ponta Grossa faziam parte de religi\u00f5es de matriz africana, aproximadamente 2.470 pessoas, mas este n\u00famero pode ser subnotificado frente \u00e0 intoler\u00e2ncia de credos. No Brasil, entre 2018 e 2023, foi constatado atrav\u00e9s do Disque 100, Servi\u00e7o de den\u00fancias do Governo Federal, que os casos de intoler\u00e2ncia religiosa aumentaram em 140%. Estes dados indicam n\u00e3o apenas o aumento do preconceito, mas tamb\u00e9m a intensifica\u00e7\u00e3o da resist\u00eancia contra ele a partir de den\u00fancias.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">O Terreiro de Umbanda Pai Ant\u00f4nio de Angola (T.U.P.A.A.) foi fundado em Ponta Grossa em 2019 e o espa\u00e7o foi erguido no dia 17 de fevereiro de 2024. Na \u00e9poca, o terreiro era simples, com somente um atabaque; j\u00e1 em 2026,\u00a0 possui quatros atabaques, com quatros Og\u00e3s para tocar. A M\u00e3e de Santo Berbiane Pereira de Souza explica o significado do dia 13 de Maio em sua casa: \u201cA celebra\u00e7\u00e3o do dia em que o povo preto se libertou no papel, depois de apanharem no tronco, no chicote, principalmente na alma. E mesmo com dor, sangrando, continuaram de p\u00e9, com a cabe\u00e7a erguida, lutando e resistindo. \u00c9 isso que a gente firma no nosso terreiro, na nossa corrente, que tem como representante da casa o Preto Velho\u201d, pontua.<\/span><\/p>\n<div id=\"attachment_7208\" style=\"width: 778px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-7208\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-7208 size-large\" src=\"https:\/\/www2.uepg.br\/elos\/wp-content\/uploads\/sites\/285\/2026\/05\/foto-1-768x1024.jpg\" alt=\"\" width=\"768\" height=\"1024\" srcset=\"https:\/\/www2.uepg.br\/elos\/wp-content\/uploads\/sites\/285\/2026\/05\/foto-1-768x1024.jpg 768w, https:\/\/www2.uepg.br\/elos\/wp-content\/uploads\/sites\/285\/2026\/05\/foto-1-225x300.jpg 225w, https:\/\/www2.uepg.br\/elos\/wp-content\/uploads\/sites\/285\/2026\/05\/foto-1-1152x1536.jpg 1152w, https:\/\/www2.uepg.br\/elos\/wp-content\/uploads\/sites\/285\/2026\/05\/foto-1-810x1080.jpg 810w, https:\/\/www2.uepg.br\/elos\/wp-content\/uploads\/sites\/285\/2026\/05\/foto-1.jpg 1200w\" sizes=\"(max-width: 768px) 100vw, 768px\" \/><p id=\"caption-attachment-7208\" class=\"wp-caption-text\">Altar de Pai Ant\u00f4nio de Angola, chefe da linha dos Pretos Velhos no T.U.P.A.A, de M\u00e3e Berbiane. (Foto: Lucas Barbato)<\/p><\/div>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">\u00a0A m\u00e3e Berbiane crava a import\u00e2ncia da linha\u00a0 dos Pretos Velhos em seu terreiro: \u201cSem meus Pretos Velhos, minha casa n\u00e3o seria nada. N\u00e3o existiria corrente. Eles foram uma das primeiras entidades que incorporei. S\u00e3o o amor da minha vida. Aqui quem tem o comando s\u00e3o eles. O chefe do meu terreiro \u00e9 o Pai Ant\u00f4nio de Angola. \u00c9 ele que manda e desmanda aqui. Ele \u00e9 o chefe da Linha inteira, da direita e da esquerda. Na linha dos Pretos Velhos, tem Pai Ant\u00f4nio de Angola, V\u00f3 Benedita da Senzala e Tia Maria da Mesa Redonda. Todos s\u00e3o importantes porque mant\u00eam meu terreiro em p\u00e9.\u201d<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A adepta Camila Freitas Mathias, que frequenta o Terreiro de Umbanda Pai Ant\u00f4nio de Angola, destaca sua perspectiva dos ensinamentos que o chefe espiritual transmite: \u201cH\u00e1 um ano, o Preto Velho, esp\u00edrito de luz, vem me conduzindo para que eu seja uma pessoa melhor, atrav\u00e9s dos aprendizados para que cada dia eu evolua mais. Ele \u00e9 um exemplo de resist\u00eancia, al\u00e9m de ser uma lembran\u00e7a do tempo triste que foi a escravid\u00e3o. A escravid\u00e3o foi um per\u00edodo de muito \u00f3dio e rancor, mas os Pretos Velhos lutaram e ainda continuam lutando, transmitindo na f\u00e9 a\u00a0 alegria, amor e simplicidade de um esp\u00edrito acolhedor\u201d.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">O Terreiro de Umbanda Pai Jos\u00e9 de Aruanda (T.U.P.J.A.) tem origem na Sociedade Esp\u00edrita Caboclo 7 Estrelas, fundada em 1960, e passou a se chamar assim em homenagem \u00e0 atual entidade-chefe da casa, o Preto Velho Pai Jos\u00e9. Sua m\u00e3e pequena, Alana Batista Costa, \u00e9 um exemplo de luta pela liberdade religiosa da Umbanda em Ponta Grossa. Ela \u00e9 a idealizadora do projeto <\/span><a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/aumbandapg?igsh=MTc0NWxmbXNiOXdmNg==\"><span style=\"font-weight: 400\">\u201cUma Fam\u00edlia do Ax\u00e9\u201d<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400\">, que tem como objetivo levar, por meio das redes sociais, a informa\u00e7\u00e3o e valoriza\u00e7\u00e3o da cultura afro-brasileira, e soma mais de 130 mil seguidores. A sacerdote enfatiza a import\u00e2ncia da luta e resist\u00eancia das religi\u00f5es de matriz africana e afroamer\u00edndia na cidade e sua rela\u00e7\u00e3o com a ancestralidade cultuada: \u201cOs Pretos Velhos, Caboclos e demais entidades representam hist\u00f3rias de dor, for\u00e7a e sabedoria de povos que resistiram \u00e0 escravid\u00e3o, ao apagamento cultural e \u00e0 marginaliza\u00e7\u00e3o. Manter estes cultos vivos tamb\u00e9m \u00e9 preservar a hist\u00f3ria do povo negro e fortalecer a luta contra o racismo e a intoler\u00e2ncia religiosa\u201d, explica Alana.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Ela ainda destaca a import\u00e2ncia de trazer esta luta \u00e0s cidades do interior, onde os povos de terreiro enfrentam uma invisibiliza\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica mais profunda. Ela relata que o Terreiro do Pai Jos\u00e9 sofre um intenso preconceito na cidade e nas redes sociais: \u201cEnfrentamos amea\u00e7as, xingamentos, racismo e intoler\u00e2ncia religiosa, muitas vezes disfar\u00e7ada de opini\u00e3o\u201d. A dirigente tamb\u00e9m ressalta a invisibiliza\u00e7\u00e3o e a dificuldade que esse e outros terreiros t\u00eam em ocupar espa\u00e7os sociais, culturais e pol\u00edticos no munic\u00edpio.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Um dos principais movimentos de resist\u00eancia das religi\u00f5es de matriz africana em Ponta Grossa \u00e9 o Benzimento na Rua, que ocorreu pela segunda vez em 21 de mar\u00e7o de 2026, no Cal\u00e7ad\u00e3o do centro da cidade. O projeto \u00e9 da autoria de Alana, e foi realizado pelo Terreiro Pai Jos\u00e9 de Aruanda com o apoio do Terreiro de Umbanda Boiadeira 7 Porteiras, o Instituto Sorriso Negro dos Campos Gerais, o Grupo Muzenza de Capoeira, o Conselho Municipal de Promo\u00e7\u00e3o da Igualdade Racial de Ponta Grossa, o Conselho Municipal dos Direitos da Pessoa LGBT de Ponta Grossa e a Secretaria Municipal da Cultura de Ponta Grossa. Ap\u00f3s uma roda de capoeira, foram distribu\u00eddos mais de 400 banhos de ervas e benzimentos no local, feitos pelos membros dos terreiros participantes, em um ato que representou a ancestralidade e f\u00e9. O evento teve o objetivo de levar \u00e0s ruas as pr\u00e1ticas de acolhimento e a limpeza espiritual por meio das ervas, fundamento presente na Umbanda.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><b>O 13 de Maio dentro da Umbanda<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">\u00a0Em 13 de maio, a Umbanda homenageia os pretos velhos, ancestrais que, em vida, foram africanos ou seus descendentes escravizados no Brasil. Os pretos velhos s\u00e3o a figura da resist\u00eancia. S\u00e3o pessoas que foram violentadas, mortas, retiradas de suas terras e que tiveram suas vidas roubadas pelos senhores, tendo inclusive suas pr\u00e1ticas religiosas e culturais reprimidas e apagadas at\u00e9 hoje, com o racismo religioso. A aboli\u00e7\u00e3o da escravid\u00e3o n\u00e3o marcou o fim da viol\u00eancia contra os povos pretos no Brasil, e o racismo ainda est\u00e1 enraizado nas rela\u00e7\u00f5es sociais.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Para coroar o 13 de Maio, M\u00e3e Berbiane faz uma festa com feijoada no terreiro. Ela \u00e9 divulgada nas redes sociais, para toda a comunidade em torno, das crian\u00e7as at\u00e9 os mais velhos. A feijoada, que nasceu da fome dos escravizados, hoje alimenta quem ainda resiste \u00e0 intoler\u00e2ncia religiosa e ao preconceito. \u201cAqui todo mundo se ajuda na prepara\u00e7\u00e3o da feijoada, alimentamos o corpo e principalmente a nossa alma\u201d, afirma a sacerdote. Ela lembra que o prato nasceu da sobra: \u201cOs senhores comiam o fil\u00e9 e jogavam o resto pros cativos. O que era uma humilha\u00e7\u00e3o na \u00e9poca, a gente transformou em resist\u00eancia. A Feijoada hoje \u00e9 mem\u00f3ria e representatividade para a Umbanda\u201d, pontua. A dirigente refor\u00e7a a mem\u00f3ria coletiva que o alimento representa: \u201cTodo brasileiro tem um pezinho na ancestralidade. Tem parente negro descendente de escravos, de africanos. A feijoada \u00e9 prova disso, todo brasileiro carrega a \u00c1frica no sangue e o seu legado\u201d. J\u00e1 no Terreiro do Pai Jos\u00e9, os dirigentes preparam o \u2018Virado dos Pretos Velhos\u2019 e uma oferenda coletiva com a corrente, em homenagem \u00e0 mem\u00f3ria da ancestralidade cultuada na Umbanda. \u00c9 compartilhado um momento de descontra\u00e7\u00e3o entre a corrente e os guias espirituais, que se re\u00fanem para comer juntos os elementos da oferenda.<\/span><\/p>\n<div id=\"attachment_7209\" style=\"width: 465px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-7209\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-7209 size-full\" src=\"https:\/\/www2.uepg.br\/elos\/wp-content\/uploads\/sites\/285\/2026\/05\/foto-2.jpg\" alt=\"\" width=\"455\" height=\"607\" srcset=\"https:\/\/www2.uepg.br\/elos\/wp-content\/uploads\/sites\/285\/2026\/05\/foto-2.jpg 455w, https:\/\/www2.uepg.br\/elos\/wp-content\/uploads\/sites\/285\/2026\/05\/foto-2-225x300.jpg 225w\" sizes=\"(max-width: 455px) 100vw, 455px\" \/><p id=\"caption-attachment-7209\" class=\"wp-caption-text\">Registro da oferenda para os Pretos Velhos realizada em 2025, no Terreiro de Umbanda Pai Jos\u00e9 de Aruanda. (Foto: Acervo do T.U.P.J.A.)<\/p><\/div>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">\u00a0<\/span><span style=\"font-weight: 400\">Nos terreiros, o dia \u00e9 relembrado n\u00e3o como a liberta\u00e7\u00e3o dos povos escravizados \u2013 que ainda estava longe de acontecer de fato em 13 de maio de 1888 \u2013, mas como um momento dedicado para valorizar a luta destas pessoas pelo direito de ocupar seu lugar na sociedade. \u201cPara al\u00e9m da ideia de \u2018aboli\u00e7\u00e3o\u2019, a data representa a continuidade da luta do povo preto por dignidade, respeito e reconhecimento\u201d, informa Alana. A figura do preto velho transforma a dor em reza, traz acolhimento, preenche o sil\u00eancio com pontos cantados e, principalmente, enfrenta a invisibilidade religiosa que apaga a f\u00e9 dos livros, da hist\u00f3ria e das pol\u00edticas p\u00fablicas.\u00a0<\/span><\/p>\n<pre><span style=\"font-weight: 400\">\u00a0<\/span><\/pre>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A data simb\u00f3lica para a resist\u00eancia dos povos escravizados \u00e9 tamb\u00e9m comemorada nas religi\u00f5es que cultuam a ancestralidade africana do Brasil Por Ana Lu\u00edsa Runho e Lucas Barbato Desde 2025, Ponta Grossa comemora em 13 de maio o Dia Municipal das Religi\u00f5es de Matriz Africana. 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