Nesta seção, reunimos os principais artigos científicos desenvolvidos pelo Laboratório de Microbiologia da UEPG, fruto de projetos de iniciação científica, trabalhos de conclusão de curso e dissertações de mestrado. Cada publicação representa o compromisso do LMA-UEPG com a produção de conhecimento de qualidade, a formação de novos pesquisadores e a busca por soluções inovadoras e sustentáveis para os desafios da microbiologia ambiental e aplicada.
Explore os conteúdos disponíveis e descubra como nossas pesquisas têm contribuído para o avanço científico e tecnológico na área de microbiológica.
2026
O eixo microbiota-epigenoma na longevidade saudável: o papel dos metabólitos microbianos e gerobióticos — uma revisão narrativa exploratória
Por Ana Paolla Protachevicz, Angelica Beate Winter Boldt, Marcos Pileggi.

Você já conheceu alguém com 100 anos ou quase isso?
Pessoas que atravessam um século de vida costumam despertar admiração e também curiosidade. Qual será o segredo da longevidade? A ciência ainda busca respostas, e uma das pistas mais fascinantes pode estar em um lugar surpreendente: o nosso intestino.
Dentro do trato gastrointestinal vive um verdadeiro universo microscópico, formado por trilhões de bactérias. Esse conjunto é chamado de microbiota intestinal. Não são apenas “micróbios passageiros”: eles vivem ali, se alimentam, interagem entre si e produzem inúmeras substâncias.
E é aí que a história fica ainda mais interessante: Essas bactérias liberam compostos que entram em uma espécie de “conversa química” com o nosso organismo. Essa comunicação pode influenciar a forma como nossos genes se expressam, ajudar no funcionamento do metabolismo, fortalecer o sistema imunológico e até participar de processos ligados à prevenção de doenças, incluindo alguns tipos de câncer.
Mas a microbiota não é fixa. Ela muda ao longo da vida e é fortemente influenciada por diversos fatores do nosso cotidiano, como: os alimentos que consumimos, a prática de atividade física, o uso de antibióticos e outros medicamentos e o estilo de vida em geral
Curiosamente, pesquisas realizadas em regiões do mundo com grande número de centenários revelaram algo surpreendente: muitas dessas pessoas apresentam uma microbiota intestinal extremamente diversa, com mais variedade de espécies bacterianas do que indivíduos mais jovens. Essa diversidade pode aumentar o repertório de substâncias e enzimas produzidas pela microbiota, que por sua vez parecem favorecer a ativação de genes protetores. O resultado pode ser uma menor probabilidade de desenvolver doenças crônicas, como diabetes e obesidade, além de uma resposta imunológica mais eficiente.
Em outras palavras, um intestino saudável pode ajudar o organismo a lidar melhor com o passar do tempo, contribuindo para um envelhecimento mais equilibrado. Ainda não existe uma fórmula mágica para viver 100 anos. Mas cada vez mais a ciência sugere que cuidar da saúde intestinal pode ser uma peça importante no quebra-cabeça da longevidade.
E isso levanta uma pergunta instigante:
como estamos selecionando as bactérias que vivem dentro de nós?
Modulação da virulência de Clostridioides difficile por metabólitos derivados de consórcios probióticos e linhagens geneticamente editadas
Por Luana Macedo Nogueira, Eduardo César Meurer, Marcos Pileggi.

Neste estudo, foi explorada uma nova forma de lidar com infecções causadas por Clostridioides difficile, uma bactéria associada a infecções intestinais recorrentes e de difícil tratamento. Em vez de focar apenas em eliminar a bactéria com antibióticos, o trabalho discute estratégias que buscam modular o microrganismo, reduzindo sua capacidade de causar doença. A partir da análise de diversos estudos recentes, foi possível mostrar que o equilíbrio da microbiota intestinal desempenha um papel central no controle dessa bactéria. Metabólitos produzidos por bactérias benéficas, como ácidos graxos de cadeia curta e derivados de ácidos biliares, podem interferir diretamente em processos importantes da virulência, como a produção de toxinas, a formação de biofilmes e a germinação de esporos. Além disso, mecanismos de comunicação bacteriana, conhecidos como quorum sensing, também foram identificados como alvos importantes para reduzir a atividade do patobionte. O estudo também destaca o avanço de abordagens biotecnológicas mais modernas, como o uso de probióticos modificados geneticamente e consórcios bacterianos projetados. Essas estratégias permitem desenvolver microrganismos capazes de atuar de forma direcionada no intestino, interferindo na comunicação e no metabolismo de C. difficile, sem causar os efeitos colaterais associados ao uso de antibióticos tradicionais. De forma geral, o trabalho reforça uma mudança de paradigma no tratamento de infecções intestinais: sair da lógica de eliminar bactérias e avançar para estratégias mais precisas, que modulam o ambiente intestinal e reduzem a virulência dos patógenos de maneira mais sustentável e eficaz.

Autora: Luana Macedo Nogueira
2025
A adaptação de Enterobacter sp. a herbicidas está correlacionada com padrões distintos de moléculas de sinalização de quorum
Por Juliane Gabriele Martins et al.

Neste estudo, foi investigado o sistema de resposta bacteriana via moléculas de sinalização de quorum sensing (QS) produzidas por uma cepa de Enterobacter isolada de um ambiente com condições seletivas para sobrevivência. O herbicida saflufenacil, presente no local de isolamento, e o glifosato, ausente, foram utilizados como agentes estressores em um sistema in vitro para avaliar a formação de biofilme. Esses mecanismos adaptativos são regulados por QS, que modula comportamentos coletivos em comunidades bacterianas e inicia respostas ao estresse por meio da liberação de moléculas autoindutoras. As moléculas C6-HSL, C7-HSL e C8-HSL foram analisadas por cromatografia líquida acoplada à espectrometria de massas. Essas moléculas estão principalmente envolvidas na maturação do biofilme, na formação do biofilme e na proteção contra o estresse oxidativo, respectivamente. Observou-se que a formação de biofilme exibiu duas estratégias diferentes em Enterobacter sp. CMA55A. Uma estratégia, possivelmente coordenada pelas três moléculas de QS, foi associada à presença de saflufenacil no meio de cultura, em concentrações semelhantes às do local de isolamento da cepa. A segunda estratégia, sem essa coordenação de QS, foi observada em resposta ao glifosato e à maior concentração de saflufenacil, condições não presentes no local de isolamento. Futuros estudos genômicos e transcriptômicos comparativos podem fornecer informações sobre essas respostas plásticas e facilitar a exploração de potenciais aplicações na biorremediação de vários xenobióticos em diferentes concentrações em ecossistemas contaminados.
2024
Probióticos e a redução da infecção por SARS-Cov-2 por meio da regulação da dinâmica de cálcio nas células do hospedeiro
Por Hugo Massami Endo et al.

Você sabia que o cálcio não serve apenas para os ossos? Dentro das nossas células, ele funciona como um mensageiro que controla processos vitais, como o transporte de proteínas. O problema é que o vírus da COVID-19, o SARS-CoV-2, pode explorar esse mecanismo a seu favor, desregulando os canais de cálcio para facilitar sua entrada na célula, sua multiplicação e, em seguida, sua disseminação pelo organismo. Esse desequilíbrio leva ao aumento excessivo da concentração de cálcio dentro da célula, podendo ativar enzimas que causam danos ao nosso DNA e até levar a morte celular.
Como os probióticos podem ajudar? O estudo destaca que o uso de microrganismos específicos chamados de Probióticos de Próxima Geração e Produtos Bioterapêuticos Vivos podem ser a chave para manter o equilíbrio (homeostase) do cálcio. Diferente dos remédios comuns que bloqueiam o cálcio e podem ter efeitos colaterais no coração, os probióticos agem de forma mais natural e menos agressiva.
O artigo explica que: a manutenção de um intestino saudável pode contribuir para a proteção dos pulmões, fenômeno conhecido como eixo intestino-pulmão. Nesse contexto, certas bactérias, como as do gênero Lactobacillus, podem interagir com as células do hospedeiro e dificultar o uso dos canais de cálcio pelo vírus durante o processo de infecção. Além disso, alguns tipos de Lactobacillus demonstraram, em testes, a capacidade de reduzir a replicação viral em até 60% e de atenuar a resposta inflamatória exacerbada observada nos casos graves da doença.
O que vem por aí? Embora as vacinas sejam essenciais, o artigo reforça que cuidar da nossa microbiota é uma estratégia poderosa e sustentável para prevenir e tratar doenças virais. O próximo passo da ciência é definir exatamente quais combinações de bactérias são as mais eficazes para manter nossas células protegidas contra os vírus, mantendo o cálcio no nível certo.
2023
- Atividade antitumoral e antibacteriana de metabólitos do endofítico Colletotrichum siamense isolado do café (Coffea arabica L. cv IAPAR‑59)
- A adaptação bacteriana ao solo da rizosfera é independente da pressão seletiva exercida pelo herbicida saflufenacil, por meio da modulação da catalase e da glutationa S transferase.
2020
- Ensaios baseados em LAMP para indicadores quantitativos em tempo real e íon-metal para detecção rápida de Sclerotinia sclerotiorum
- Estruturando comunidades de biofilme vivendo em água contaminada com pesticidas
- COVID-19: A questão da diversidade genética e abordagens de intervenção terapêutica
- Moléculas específicas de sinalização quórum estão possivelmente associadas às respostas à toxicidade de herbicidas em uma cepa de Pseudomonas
2007
- A síntese de prolina induzida por estresse confere tolerância ao déficit hídrico em trigo transgênico
- Seleção de fungos endofíticos de confrei (Symphytum officinale L.) para o controle biológico in vitro do fitopatógeno Sclerotinia sclerotiorum (Lib.)
- Degradação do herbicida 2,4-D por microrganismos isolados de solo contaminado do Brasil
