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Cultura de Paz na pós-pandemia (2)

TEXTO 2

Breves notas reflexivas sobre como pensar a Cultura de Paz em tempos de Covid-19 (*)

No texto anterior falamos sobre o vácuo que o coronavírus trouxe para o século XXI. Neste momento todas as nossas certezas são relativizadas. A dita “normalidade” não serve mais e ela não voltará igual! Do lavar as mãos à utilização de máscaras, passando por adaptações no trabalho, educação, relacionamentos interpessoais tudo ganha novos ingredientes e contornos. Por isso falamos anteriormente que o primeiro ponto de reflexão era: “deixar a incerteza chegar“. Com ela, chegam as dúvidas, angústias, medos e, ao mesmo tempo a criação, reinvenção, redimensionamento de muitas questões de nossa vida. As perguntas objetivas nesse momento são: Continuaremos pensando a vida da mesma forma? Depois de alguns “meses diferentes” voltaremos aos mesmos padrões? Aprendemos algo novo, diferente, necessário ao ver a fragilidade da humanidade diante de um vírus? Como a pandemia afetou nossa percepção sobre a vida, sobre as pessoas, a sociedade, a economia e o planeta? Ou, no final das contas, colocamos tudo dentro de nossos padrões e certezas, mesmo tendo receio de respirar perto dos outros?

Neste contexto vale ressaltar o paradigma da Cultura de Paz, presente já faz algumas décadas na discussão internacional, mas ainda sem muita credibilidade na sociedade do “conhecimento, tecnologia e certezas”. A ideia de paz ainda é tratada como especulação, espiritualidade ou algo menor no sentido pejorativo. Interessante notar que a Cultura de Paz tem seu significado difundido historicamente pela Organização das Nações Unidas (ONU), a mesma entidade que abriga a Organização Mundial da Saúde (OMS) que tem sido valorizada mundialmente e conta com a credibilidade de pessoas sérias e responsáveis. Curioso: porque não valorizar a discussão da Cultura de Paz, que já reúne tantas experiências importantes ao redor do mundo? A cultura da violência é tão “normal”? Voltaremos a esta “normalidade” depois do vírus?

Bem, vamos ao que diz a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO): a Cultura de Paz está “intrinsecamente relacionada à prevenção e à resolução não-violenta de conflitos” e fundamenta-se nos princípios de tolerância, solidariedade, respeito à vida, aos direitos individuais e ao pluralismo. Essas questões ficam mais fortes na entrada do século XXI, a partir do aprofundamento das pesquisas e experiências de milhares de organizações ao redor do mundo, que atuam na prevenção de situações de ameaça à paz como : desrespeito aos direitos humanos, discriminação e intolerância, exclusão social, pobreza extrema e degradação ambiental entre tantas. Para David Adams, cientista e ativista da Cultura de Paz (vale procurar mais sobre ele!) a Cultura de Paz tem oito dimensões fundamentais: educação para uma cultura de paz; solidariedade e tolerância; participação democrática; fluxo de informações; desarmamento; direitos humanos; desenvolvimento sustentável e igualdade de gêneros. Lembramos que estes pontos não são mero “achismo” do autor, mas sim, evidências científicas relacionadas aos estudos sobre as múltiplas formas de violência, dos processos de entendimento dos conflitos e sobre as ações da paz (análise de dados, perspectivas da neurociência e da psicologia, interpretação sociológica, reflexão filosófica, pensamentos educacional – tudo isso também é ciência!).

Traçado um brevíssimo panorama sobre a Cultura de Paz, como fazer a relação com a pandemia? Ou, como processo, o que podemos aprender sobre a Cultura de Paz para a pós-pandemia? Vejamos algumas palavras que aparecem ao falar do tema: PREVENÇÃO, DIREITOS HUMANOS, TOLERÂNCIA, POBREZA, DEGRADAÇÃO AMBIENTAL, DEMOCRACIA entre outras. Com isso chamamos a atenção que a Cultura de Paz, em sua vertente baseada em evidencias teóricas e experiências práticas, entende a PAZ como desenvolvimento humano e social, dignidade humana, preservação da vida e do planeta. Considerando essas questões, perguntamos: 1) Antes da pandemia estávamos próximos ou distantes desta perspectiva de Cultura de Paz? 2) Durante a pandemia, algo está mudando em direção à Cultura de Paz? 3) O que podemos avançar, em termos de Cultura de Paz na pós-pandemia?

Já afirmamos em outro momento: “Construir uma Cultura de Paz não é só pensar no contrário de guerras e tragédias, é reconstruir melhores condições também nas situações não ideais, na retomadas dos direitos humanos, no esclarecimento sobre a necessidade de transmutar  violências em não-violências, em garantir aspectos fundamentais de sobrevivência e de convivências das populações (SALLES FILHO, 2019, p.117)(1).

Pense nisso, reflita sobre estes parágrafos e no alcance que eles podem ter para o mundo. Enfim, pondere sobre estas relações na sua vida e avalie se precisamos e podemos falar mais sobre a construção de uma Cultura de Paz!

(…continua …)

Att. Prof. Dr. Nei Alberto Salles Filho (NEP/UEPG)

(*) as questões aqui propostas compõe as discussões do Núcleo de Educação para a Paz da UEPG/PR e destinam-se unicamente ao contexto da reflexão pedagógica da Cultura de Paz e da Educação para a Paz neste momento da pandemia da Covid-19. O texto não podem ser utilizado em outros contextos como tentativa de desvirtuamento de seus objetivos originais.

(1) SALLES FILHO, N.A. Cultura de Paz e Educação para a Paz: olhares a partir da complexidade. Campinas, SP: Papirus, 2019. (400p.)