{"id":1021,"date":"2022-12-20T11:25:40","date_gmt":"2022-12-20T14:25:40","guid":{"rendered":"https:\/\/www2.uepg.br\/nuntiare\/?p=1021"},"modified":"2022-12-20T11:54:22","modified_gmt":"2022-12-20T14:54:22","slug":"na-valsa-da-morte-o-rito-e-essencial-para-todos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www2.uepg.br\/nuntiare\/na-valsa-da-morte-o-rito-e-essencial-para-todos\/","title":{"rendered":"Na valsa da morte, o rito \u00e9 essencial para todos"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center\"><em><span style=\"font-weight: 400\">Est\u00e9tica e ritual\u00edstica funer\u00e1ria sempre atuam como mediadora entre a vida e a morte<\/span><\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Ao redor do globo, ritos funer\u00e1rios sempre est\u00e3o ligados como s\u00edmbolos de transi\u00e7\u00e3o em uma viagem, seja para os vivos com o luto ou para os que fizeram a passagem. Na mitologia grega, a passagem ganha contornos did\u00e1ticos na figura de Caronte, o barqueiro do submundo, encarregado de levar os rec\u00e9m mortos para o julgamento final. Possivelmente, o primeiro agente funer\u00e1rio que temos conhecimento.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A tribo dos Boror\u00f3s entende o processo como um rito de passagem de gera\u00e7\u00f5es de forma emp\u00e1tica com o legado do morto. Na tribo do Mato Grosso, a morte \u00e9 seguida de um primeiro enterro e de uma exuma\u00e7\u00e3o, que deixa o corpo em uma cova rasa, em destaque na aldeia. A entidade Bope &#8211; delegada das transforma\u00e7\u00f5es primordiais de nascimento, puberdade e morte &#8211; toma o corpo de um animal e este deve ser ca\u00e7ado por um menino da aldeia, que durante a ca\u00e7a \u00e9 tratado como da mesma posi\u00e7\u00e3o do falecido para simbolizar sua luta contra a aniquila\u00e7\u00e3o. Quando a ca\u00e7ada \u00e9 conclu\u00edda, o menino passa a ser o homem de voz na aldeia. O morto possui os ossos envolvidos por acess\u00f3rios em um novo enterro e se torna parte da natureza, vencendo a morte.\u00a0\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A rela\u00e7\u00e3o entre os n\u00facleos de mem\u00f3ria, identidade, paz e luto s\u00e3o inerentes dentro de um rito funer\u00e1rio. A organiza\u00e7\u00e3o situa a imagem de algu\u00e9m outrora vivo e caracterizado de forma espec\u00edfica em roupas e maquiagem em um ponto de f\u00e1cil identifica\u00e7\u00e3o e contempla\u00e7\u00e3o pelos demais durante 24 horas, \u00e9 mordaz na est\u00e9tica. O termo, de origem grega &#8211; <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">aisthesis:<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> conhecimento sens\u00edvel &#8211; foi pensado por Plat\u00e3o como forma de aprender pelos sentidos e de associar o bom ao belo. Por\u00e9m, o que caracteriza essa beleza e sua qualidade para quem participa? Como ele une o protagonista do ritual com os presentes? Perguntas que, uma pandemia e mais de quase 700 mil mortos no Brasil (OMS), s\u00e3o quase que espasmos de meu inconsciente curioso e compadecido.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Come\u00e7o a expurgar esses espasmos conversando com o agente funer\u00e1rio Victor Sweeney. Intrigantemente, com exce\u00e7\u00e3o de alguns detalhes, descobri que o rito da morte \u00e9 uma necessidade universal. O agente participou de quatro quadros da revista online <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Wired <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">&#8211; com mais de meio milh\u00e3o de visualiza\u00e7\u00f5es no Youtube, onde conheci seu trabalho. Morador do estado de Minnesota, Estados Unidos, ele atua h\u00e1 mais de 12 anos no ramo e comenta sobre o poder que os elementos est\u00e9ticos possuem em um ritual funer\u00e1rio.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A est\u00e9tica tem o papel de fornecer paz visual ao ritual j\u00e1 que, muitas vezes, as pessoas em seus \u00faltimos momentos, est\u00e3o com olhos e bocas abertos; traumatizante. \u201cVer, por exemplo, o seu pai ou m\u00e3e vestidos como eles costumavam se vestir, com uma postura pac\u00edfica e intacta, em um ambiente seguro, como em casa<\/span><span style=\"font-weight: 400\"> ou em uma capela, auxilia na decorr\u00eancia do luto enquanto a realidade da perda se instaura progressivamente\u201d, explica Sweeney.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Em segunda inst\u00e2ncia, o ritual funer\u00e1rio e sua est\u00e9tica s\u00e3o essenciais aos vivo, que n\u00e3o podem ser ignorados. Sweeney comenta que, observando o costume comum de guardar para si os sentimentos, n\u00e3o s\u00e3o raras as demonstra\u00e7\u00f5es emocionais extremas. \u201cNa minha experi\u00eancia, \u00e9 sempre melhor demonstrar e converter express\u00f5es em luto do que deixar os sentimentos engarrafados. Se torna um peso ainda maior para carregar durante um evento que j\u00e1 \u00e9 naturalmente denso em termos de demanda emocional. Um vel\u00f3rio \u00e9 um ritual para se curar, n\u00e3o adoecer mais\u201d.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Pergunto a Sweeney como ele se v\u00ea enquanto mediador entre a paz da partida para os falecidos e o consolo dos enlutados. A resposta me faz pensar que poucas profiss\u00f5es dependem tanto da empatia como a dos agentes funer\u00e1rios. \u201cA habilidade de servir adequadamente a uma fam\u00edlia est\u00e1 diretamente relacionada ao quanto consigo me p\u00f4r a parte de mim mesmo. Seja os escutando, resolvendo uma necessidade ou em a\u00e7\u00f5es simples, como vindo ao leito de um amado que faleceu \u00e0s tr\u00eas da manh\u00e3\u201d. Sweeney explica que se demonstra compaix\u00e3o com o falecido, os familiares tamb\u00e9m se sentem acolhidos e podem embarcar na jornada do luto com mais paz.\u00a0<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>O rito dentro da psique<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A conversa com Sweeney me instigou a adentrar no campo das implica\u00e7\u00f5es subjetivas, efeitos simb\u00f3licos e contradi\u00e7\u00f5es da psique humana atrelados ao tema. O que tal contato ritualizado com a morte nos desperta? A pot\u00eancia ritual\u00edstica de um vel\u00f3rio e suas implica\u00e7\u00f5es est\u00e9ticas sob a consci\u00eancia s\u00f3 tomaram forma quando a psic\u00f3loga Fernanda Bahena Soares organizou o tema em minha mente.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A vis\u00e3o da morte, por vezes, \u00e9 reprimida em nosso inconsciente por ser compreendida de modo negativo. Mas, o acontecimento \u00e9 capaz de transformar o indiv\u00edduo. \u201cEssa mudan\u00e7a sugere alguns comportamentos dos indiv\u00edduos para reequilibrar conflitos e seus efeitos no seu mundo externo e interno, como quando um ente pr\u00f3ximo vem a falecer\u201d.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A psic\u00f3loga comenta que muitas vezes o ritual se torna uma forma de expressar sentimentos e\u00a0 ideias que n\u00e3o acham meios entre os verbais j\u00e1 que, como todo o tempo ap\u00f3s a morte de um ente \u00e9 valioso para quem o perdeu, um funeral pode se tornar a \u00faltima chance de oferecer um tributo digno. \u201cToda a elabora\u00e7\u00e3o desse processo \u00e9 significativa para a fam\u00edlia e amigos. Tudo aquilo que comp\u00f5e o rito tem valor simb\u00f3lico e muitas das vezes os quais n\u00e3o conseguem ser expressados verbalmente\u201d.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Isso ocorre muitas vezes, pois a perda de algu\u00e9m implica, al\u00e9m do in\u00edcio do processo de luto, reorganiza\u00e7\u00e3o do que a pessoa entendia como sua personalidade e fun\u00e7\u00e3o social. Ela aponta para a carga simb\u00f3lica do ritual, a tormenta de ressignifica\u00e7\u00e3o dos sentidos e sinaliza para mudan\u00e7as que ir\u00e3o ocorrer. \u201cSe houve a perda de um pai, por exemplo, \u00e9 preciso ressignificar todo o papel e fun\u00e7\u00e3o de um pai para o filho e de um filho para o pai\u201d.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">O que Fernanda fala que pode vir de uma participa\u00e7\u00e3o ativa dentro da elabora\u00e7\u00e3o est\u00e9tica de um funeral. \u201cTodo esse processo demanda determinado tempo combinado com diversas emo\u00e7\u00f5es em conflito. Mas, ele se inicia desde a escolha das flores, do caix\u00e3o, da maquiagem e vai at\u00e9 a prepara\u00e7\u00e3o de um almo\u00e7o meses depois com um ingrediente que lembra o falecido\u201d, aponta.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Soares explica que a est\u00e9tica empregada suaviza a partida e faz da passagem do falecido um modo de encarar o real com elementos familiares. \u201cPrezar pela apar\u00eancia para que se pare\u00e7a o mais pr\u00f3ximo poss\u00edvel de quando vivo, \u00e9 tentar buscar por uma fei\u00e7\u00e3o amig\u00e1vel que possa representar um estado de paz. Afinal, ser\u00e1 uma das \u00faltimas imagens impressas na psique dos familiares e amigos\u201d, afirma a psic\u00f3loga.<\/span><\/p>\n<div id=\"attachment_1028\" style=\"width: 1034px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-1028\" class=\"size-large wp-image-1028\" src=\"https:\/\/www2.uepg.br\/nuntiare\/wp-content\/uploads\/sites\/236\/2022\/12\/WhatsApp-Image-2022-12-20-at-11.21.00-1024x678.jpeg\" alt=\"\" width=\"1024\" height=\"678\" srcset=\"https:\/\/www2.uepg.br\/nuntiare\/wp-content\/uploads\/sites\/236\/2022\/12\/WhatsApp-Image-2022-12-20-at-11.21.00-1024x678.jpeg 1024w, https:\/\/www2.uepg.br\/nuntiare\/wp-content\/uploads\/sites\/236\/2022\/12\/WhatsApp-Image-2022-12-20-at-11.21.00-300x199.jpeg 300w, https:\/\/www2.uepg.br\/nuntiare\/wp-content\/uploads\/sites\/236\/2022\/12\/WhatsApp-Image-2022-12-20-at-11.21.00-768x508.jpeg 768w, https:\/\/www2.uepg.br\/nuntiare\/wp-content\/uploads\/sites\/236\/2022\/12\/WhatsApp-Image-2022-12-20-at-11.21.00-1232x815.jpeg 1232w, https:\/\/www2.uepg.br\/nuntiare\/wp-content\/uploads\/sites\/236\/2022\/12\/WhatsApp-Image-2022-12-20-at-11.21.00.jpeg 1280w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><p id=\"caption-attachment-1028\" class=\"wp-caption-text\">Psic\u00f3loga Clinica Fernanda Bahena Soares CRP 08\/35016 Abordagem Junguiana.<br \/>Foto: Divulga\u00e7\u00e3o<\/p><\/div>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Voltando ao mito de Caronte, \u00e9 revelador ver como a jornada mutante do luto, via a est\u00e9tica funer\u00e1ria, encontra paralelos com a pr\u00f3pria jornada dos rec\u00e9m mortos. Pois o percurso pelo rio Aqueronte em dire\u00e7\u00e3o ao tribunal do ju\u00edzo final, presidido pelos magistrados \u00c9aco, Radamante e Minos &#8211; com a supervis\u00e3o do pr\u00f3prio Hades, senhor do submundo &#8211; era povoado por vis\u00f5es conflitantes dos horizontes do T\u00e1rtaro &#8211; inferno Grego &#8211; dos Campos Asf\u00f3delos &#8211; destino das almas med\u00edocres &#8211; e os Campos El\u00edseos &#8211; para\u00edso &#8211; logo atr\u00e1s do tribunal. Essas vis\u00f5es amplificafvm a ansiedade dos passageiros pela vis\u00e3o das almas perdidas condenadas \u00e0 eterna deriva por n\u00e3o se encaixarem em nenhum dos tr\u00eas destinos. Contudo, a viagem era segura, tranquila e suave devido \u00e0 maestria do barqueiro, que proporciona aos rec\u00e9m falecidos momentos de reflex\u00e3o\/lamenta\u00e7\u00e3o sobre sua vida antes do des\u00edgnio final. Um processo dif\u00edcil, mas amenizado pelos poderes dos ritos e pela paz transformadora que a est\u00e9tica oferece.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Mat\u00e9ria dedicada a todos que passaram pelo Caminho de Caronte nos \u00faltimos anos.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Ficha T\u00e9cnica<\/strong><\/p>\n<p><strong>Reportagem<\/strong>: Yuri A.F. Marcinik<\/p>\n<p><strong>Edi\u00e7\u00e3o e Publica\u00e7\u00e3o<\/strong>: C\u00e1ssio Murilo<\/p>\n<p><strong>Supervis\u00e3o de produ\u00e7\u00e3o<\/strong>: Muriel E.P. Amaral<\/p>\n<p><strong>Supervis\u00e3o de publica\u00e7\u00e3o<\/strong>: C\u00e2ndida de Oliveira e Carlos Alberto de Sousa<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Est\u00e9tica e ritual\u00edstica funer\u00e1ria sempre atuam como mediadora entre a vida e a morte &nbsp; Ao redor do globo, ritos funer\u00e1rios sempre est\u00e3o ligados como s\u00edmbolos de transi\u00e7\u00e3o em uma viagem, seja para os vivos com o luto ou para os que fizeram a passagem. 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