{"id":1075,"date":"2023-02-08T09:28:33","date_gmt":"2023-02-08T12:28:33","guid":{"rendered":"https:\/\/www2.uepg.br\/nuntiare\/?p=1075"},"modified":"2023-02-08T09:37:23","modified_gmt":"2023-02-08T12:37:23","slug":"a-casa-de-todas-as-mulheres","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www2.uepg.br\/nuntiare\/a-casa-de-todas-as-mulheres\/","title":{"rendered":"A casa de todas as mulheres"},"content":{"rendered":"<p><i><span style=\"font-weight: 400\">Em dois meses, Casa da Mulher atendeu 94 mulheres, mais de uma por dia<\/span><\/i><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Carla, nome fict\u00edcio, como o de todas as mulheres desta reportagem, sofreu por anos agress\u00f5es de sua m\u00e3e. Os ataques come\u00e7aram na inf\u00e2ncia da jovem: toda vez que a m\u00e3e se estressava com alguma coisa, por mais insignificante que fosse, descontava as frustra\u00e7\u00f5es na filha. Com o passar do tempo, as agress\u00f5es foram aumentando. Carla n\u00e3o aguentava tanto sofrimento e denunciou a m\u00e3e, mas, infelizmente, n\u00e3o acreditaram em sua palavra. Mesmo assim, ela n\u00e3o perdeu as esperan\u00e7as de um dia ficar longe da agressora. \u201cFiquei com estresse p\u00f3s-traum\u00e1tico, e olha que fui forte. A vida toda aguentando isso e n\u00e3o percebia quanto minha fam\u00edlia toda \u00e9 t\u00f3xica\u201d.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Os casos de viol\u00eancia f\u00edsica s\u00e3o os mais percept\u00edveis entre as mulheres, pois envolvem agress\u00f5es e condutas que colocam em risco a sua integridade f\u00edsica e as les\u00f5es ficam evidentes. Esta categoria de viol\u00eancia n\u00e3o \u00e9 apenas praticada pelos parceiros, mas pode ser cometida por um membro da fam\u00edlia, como no caso de Carla.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">De acordo com a Pol\u00edcia Civil do Paran\u00e1 (PCPR), a viol\u00eancia dom\u00e9stica e familiar \u00e9 configurada quando ocorre qualquer a\u00e7\u00e3o contra a mulher que cause morte, les\u00e3o, sofrimento f\u00edsico, sexual ou psicol\u00f3gico, dano moral ou patrimonial. Com isso, h\u00e1 cinco formas\u00a0 de viol\u00eancia, decorrentes dessas a\u00e7\u00f5es: f\u00edsica, psicol\u00f3gica, sexual, patrimonial e moral.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Com Marta aconteceu viol\u00eancia psicol\u00f3gica. Ela estava em um relacionamento h\u00e1 tr\u00eas anos. No in\u00edcio, seu companheiro era am\u00e1vel e carinhoso. Ap\u00f3s um ano, come\u00e7aram as agress\u00f5es, e como consequ\u00eancia a diminui\u00e7\u00e3o de sua autoestima atrav\u00e9s de chantagens e manipula\u00e7\u00f5es. O parceiro dizia que se ela n\u00e3o ficasse com ele, n\u00e3o namoraria com mais ningu\u00e9m. O agressor alegava que, por estar acima do peso, nenhum homem se interessaria por Marta. A situa\u00e7\u00e3o fez com que ela deixasse de se amar e n\u00e3o acreditasse que outra pessoa poderia am\u00e1-la do jeito que \u00e9.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Al\u00e9m da viol\u00eancia f\u00edsica e psicol\u00f3gica, como aconteceu com Carla e Marta, existe a viol\u00eancia patrimonial. Ela se configura como qualquer conduta que subtraia parcial ou totalmente os objetos da mulher, instrumentos de trabalho, documentos pessoais, entre outros pertences. Esta situa\u00e7\u00e3o aconteceu com Francine. Ela estava casada h\u00e1 cinco anos, mas com o passar do tempo, o casamento n\u00e3o era mais como no in\u00edcio. O companheiro gentil, carinhoso e educado deu lugar a um homem ocupado e mentiroso.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Francine percebeu que ele n\u00e3o era mais o mesmo. Certo dia, precisou assinar alguns documentos. O que ela n\u00e3o sabia era que, no meio daqueles pap\u00e9is, seu marido tinha colocado um documento no qual ela solicitava um empr\u00e9stimo. Ao confront\u00e1-lo sobre a situa\u00e7\u00e3o, ele disse que devolveria o dinheiro, mas isso n\u00e3o aconteceu.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">H\u00e1 tamb\u00e9m casos em que a v\u00edtima passa por situa\u00e7\u00f5es que envolvem todos os tipos de viol\u00eancia, como aconteceu com L\u00facia, que suportou um relacionamento de dez anos de sofrimento. No in\u00edcio, as viol\u00eancias eram sutis, e junto vinha a justificativa do agressor: isso s\u00f3 ocorria porque ele era uma pessoa nervosa e teve uma vida sofrida na inf\u00e2ncia, fazendo com que ela se sentisse culpada.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">L\u00facia tentou ajud\u00e1-lo, pois ele n\u00e3o aceitava o fim do relacionamento, mas as tentativas n\u00e3o surtiram o efeito esperado. Ent\u00e3o come\u00e7aram as agress\u00f5es. Al\u00e9m de n\u00e3o deix\u00e1-la dormir, o agressor passava o dia todo ingerindo bebidas alco\u00f3licas com o dinheiro que emprestava dela, dinheiro que prometeu devolver, mas n\u00e3o o fez.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Certo dia, ela estava trabalhando e, quando chegou em casa, viu seus pertences todos destru\u00eddos por ele. Com vergonha das situa\u00e7\u00f5es que vinha passando com seu marido, se afastou de amigos e familiares. Al\u00e9m disso, a viol\u00eancia sexual era constante. Como forma de coagir L\u00facia, amea\u00e7ava sua fam\u00edlia.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Ap\u00f3s dez anos sofrendo, conseguiu pedir ajuda a entidades de apoio a v\u00edtimas de viol\u00eancia dom\u00e9stica Atualmente, possui tr\u00eas medidas protetivas contra o ex-companheiro e oito boletins de ocorr\u00eancia. \u201cHoje estou tentando refazer minha vida em paz. Fa\u00e7o terapia, mas sei que o caminho \u00e9 longo. Ainda tenho muito medo, desenvolvi transtorno de ansiedade generalizada e tenho v\u00e1rios traumas\u201d.<\/span><\/p>\n<p><b>Acolhimento em casa<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Com os princ\u00edpios de autonomia, humaniza\u00e7\u00e3o e livre de preconceitos, a Casa da Mulher foi inaugurada em mar\u00e7o deste ano em Ponta Grossa. O objetivo \u00e9 realizar o acolhimento e o atendimento de v\u00edtimas de viol\u00eancia dom\u00e9stica. Pretende-se que a Casa seja o local de onde mulheres possam sair da situa\u00e7\u00e3o de opress\u00e3o, rompendo os ciclos de agress\u00f5es sofridas.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A Casa oferta um servi\u00e7o humanizado, principalmente com atendimento psicossocial, e realiza os direcionamentos necess\u00e1rios para a rede de prote\u00e7\u00e3o \u00e0 mulher. Tamb\u00e9m faz encaminhamento jur\u00eddico das v\u00edtimas. Com a pandemia de Covid-19, os casos de viol\u00eancia se agravam, pois as pessoas ficaram mais tempo em casa. As mulheres come\u00e7aram a conviver diariamente com os seus agressores.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Por isso, a Casa iniciou suas atividades como uma forma de promover o rompimento da viol\u00eancia familiar, tornando-se um ponto de refer\u00eancia para que as v\u00edtimas tenham um acolhimento humanizado e qualificado &#8211; e, principalmente, n\u00e3o sejam julgadas.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Segundo Camila Kalisto Sanches, coordenadora da Casa da Mulher, muitas mulheres chegam ao local sem saber que foram v\u00edtimas de viol\u00eancia dom\u00e9stica, por acreditarem que apenas a viol\u00eancia f\u00edsica configura o ataque sofrido. O funcionamento de duas maneiras, por livre demanda, ou seja, de forma espont\u00e2nea, ou por encaminhamento, atrav\u00e9s da rede de prote\u00e7\u00e3o \u00e0 mulher.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Independente da forma, as v\u00edtimas s\u00e3o inicialmente atendidas pelo Centro de Refer\u00eancia e Atendimento \u00e0 Mulher (CRAM), \u00f3rg\u00e3o da Funda\u00e7\u00e3o Municipal de Assist\u00eancia Social.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">O atendimento come\u00e7a com psic\u00f3logas ou assistentes sociais, que fazem a primeira escuta ativa com essa mulher. A partir da conversa, as profissionais definem os encaminhamentos na \u00e1rea de sa\u00fade, assist\u00eancia ou educa\u00e7\u00e3o. &#8220;Se essa mulher necessitar de atendimento psicossocial e tamb\u00e9m de grupos de conversas, n\u00f3s disponibilizamos na Casa rodas de conversas focadas no empoderamento dessa mulher\u201d, destaca a coordenadora.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Ap\u00f3s o atendimento inicial, a mulher pode escolher fazer um boletim de ocorr\u00eancia e solicitar a medida protetiva contra o agressor, que ser\u00e1 realizada no Juizado de Viol\u00eancia Dom\u00e9stica. Com o deferimento, o juiz pode solicitar o acompanhamento da Patrulha Maria da Penha, que realiza o monitoramento e fiscaliza\u00e7\u00e3o. Para que a mulher seja monitorada pela Patrulha, ela deve desejar a supervis\u00e3o e realizar um pedido oficial no processo.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Para que o amparo seja realizado, a Casa conta com uma rede de apoio \u00e0s mulheres, como o N\u00facleo Maria da Penha (NUMAPE), da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), Ordem dos Advogados e do Projeto Dona de Mim, que promove aulas de empreendedorismo \u00e0s mulheres v\u00edtimas de viol\u00eancia para poderem ter a independ\u00eancia financeira e romper com os ciclos de viol\u00eancia.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">\u201cTemos v\u00e1rias parcerias com outros \u00f3rg\u00e3os da rede de prote\u00e7\u00e3o, para que a mulher tenha o mais qualificado atendimento. Quando \u00e9 um caso de viol\u00eancia mais grave ou que precise de interven\u00e7\u00e3o, n\u00f3s fazemos reuni\u00f5es com a rede e com os \u00f3rg\u00e3os necess\u00e1rios para que seja feito um plano de interven\u00e7\u00e3o de forma conjunta\u201d, conta Camila.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Como a Casa fornece os atendimentos iniciais \u00e0s mulheres, e fazem o encaminhamento para outras institui\u00e7\u00f5es, n\u00e3o h\u00e1 necessidade de fornecer abrigo \u00e0s v\u00edtimas, pois na cidade h\u00e1 dois locais que fazem o acolhimento. \u00c9 o caso da casa de acolhimento Corina Portugal, que atende mulheres em risco de morte. Por isso, elas n\u00e3o podem sair do abrigo e nem usar celular, com perigo de os agressores localiz\u00e1-las. As v\u00edtimas podem permanecer na casa por at\u00e9 seis meses.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">O outro espa\u00e7o que oferece acolhimento \u00e9 o Abrigo da Fam\u00edlia, onde a mulher possui mais liberdade de ir e vir; por\u00e9m, com algumas regras e exce\u00e7\u00f5es como, por exemplo, compromisso de dizer o hor\u00e1rio que ir\u00e1 sair e voltar, podendo ficar alojada por at\u00e9 90 dias.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Ficha T\u00e9cnica<\/strong><\/p>\n<p><strong>Reportagem<\/strong>: Larissa Godoi<\/p>\n<p><strong>Edi\u00e7\u00e3o e Publica\u00e7\u00e3o<\/strong>: Yasmin Orlowsk<\/p>\n<p><strong>Supervis\u00e3o de produ\u00e7\u00e3o<\/strong>: Muriel E.P. Amaral<\/p>\n<p><strong>Supervis\u00e3o de publica\u00e7\u00e3o<\/strong>: C\u00e2ndida de Oliveira e Carlos Alberto de Sousa<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em dois meses, Casa da Mulher atendeu 94 mulheres, mais de uma por dia Carla, nome fict\u00edcio, como o de todas as mulheres desta reportagem, sofreu por anos agress\u00f5es de sua m\u00e3e. 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