{"id":1427,"date":"2023-06-12T16:47:19","date_gmt":"2023-06-12T19:47:19","guid":{"rendered":"https:\/\/www2.uepg.br\/nuntiare\/?p=1427"},"modified":"2023-06-13T13:48:16","modified_gmt":"2023-06-13T16:48:16","slug":"universidade-como-espaco-de-identificacao-de-todes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www2.uepg.br\/nuntiare\/universidade-como-espaco-de-identificacao-de-todes\/","title":{"rendered":"Universidade como espa\u00e7o de identifica\u00e7\u00e3o de todes*"},"content":{"rendered":"<p><i><span style=\"font-weight: 400\">Contato com a diversidade e estudos sobre g\u00eanero e sexualidade auxiliam no processo de autoidentifica\u00e7\u00e3o de pessoas n\u00e3o-bin\u00e1rias<\/span><\/i><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Esta reportagem apresenta a hist\u00f3ria de duas pessoas n\u00e3o-bin\u00e1rias (NB), que iniciaram os primeiros movimentos para a autoidentifica\u00e7\u00e3o durante a gradua\u00e7\u00e3o. Por isso n\u00e3o se espante com os pronomes utilizados nesta mat\u00e9ria. S\u00e3o elus: \u00c1dria e Nadjagley. Nos dois casos, o ambiente universit\u00e1rio oportunizou o contato, por meio de grupos de pesquisa e movimento estudantil, com diversos estudos e comunidades que tratam sobre sexualidade e g\u00eanero, os quais a partir de conversas contribu\u00edram para a autoidentifica\u00e7\u00e3o delus. Algo mais flu\u00eddo.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">No caso de \u00c1dria Gelinski, 33 anos, bacharel em Geografia e doutorande pela Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), a identifica\u00e7\u00e3o e express\u00e3o verbal como NB aconteceu h\u00e1 cerca de um ano. Dry, como gosta de ser chamade, teve contato com a comunidade LGBTQIAP+ durante o terceiro ano de gradua\u00e7\u00e3o, ao participar do <\/span><a href=\"http:\/\/www.gete.net.br\"><span style=\"font-weight: 400\">Grupos de Estudos Territoriais (GETE),<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400\"> que\u00a0 realiza pesquisas sobre temas e aspectos\u00a0 marginalizados na ci\u00eancia geogr\u00e1fica brasileira.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Dry entrou no grupo para estudar religiosidade e fez inicia\u00e7\u00e3o cient\u00edfica nesta \u00e1rea, sob orienta\u00e7\u00e3o de uma ge\u00f3grafa feminista. Devido \u00e0 pesquisa, passou a se relacionar com outros grupos, como o Renascer, em que conheceu outras feministas e pessoas LGBTQIAP+. \u201cN\u00e3o poderia imaginar a potencialidade da minha pesquisa. At\u00e9 ent\u00e3o, n\u00e3o tinha tido contato com mulheres trans e travestis, principalmente pelo estigma passado pelos discursos da igreja que costumava ir\u201d, conta.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Na \u00e9poca, Dry participava de uma igreja evang\u00e9lica, que come\u00e7ou a frequentar aos 14 anos, em fun\u00e7\u00e3o de um time de futsal feminino. Elu conta que sofria press\u00f5es da igreja sobre seu comportamento, o que ficou mais n\u00edtido na pesquisa. \u201cAtendi ao que era colocado por muito tempo, mesmo n\u00e3o me sentindo confort\u00e1vel. Seguia \u00e0 risca os ensinamentos, quanto ao que era esperado de um corpo considerado feminino\u201d, analisa. Dry permaneceu nos cultos at\u00e9 o \u00faltimo ano da gradua\u00e7\u00e3o, pois seu TCC era referente \u00e0 religi\u00e3o, por\u00e9m j\u00e1 n\u00e3o seguia as normas religiosas. Em 2014, ao concluir a gradua\u00e7\u00e3o, saiu da igreja e em 2015 ajudou a fundar o coletivo feminista Resist\u00eancia Amapo, que atuou em Ponta Grossa por dois anos.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">No mesmo per\u00edodo, fez mestrado tamb\u00e9m em Geografia e teve como objeto de estudo igrejas inclusivas LGBTQIAP +. Dry conta que esse foi um dos momentos mais importantes para o processo de autoidentifica\u00e7\u00e3o, j\u00e1 que havia sa\u00eddo da igreja evang\u00e9lica. No programa de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o, obteve a oportunidade de conhecer pessoas que passaram pela mesma situa\u00e7\u00e3o. L\u00e1, \u00c1dria deu os primeiros passos para se identificar como uma pessoa n\u00e3o h\u00e9tero, permitindo se conhecer de outras formas. \u201cJ\u00e1 entendia que tinha alguma coisa, s\u00f3 n\u00e3o sabia direito o que era e n\u00e3o queria lidar com aquilo, o que me gerava muita ang\u00fastia\u201d, ressalta.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Apenas em 2020, Dry conheceu o termo NB a partir de algumas leituras para a tese de doutorado em Geografia, mantendo a linha de pesquisa sobre religi\u00e3o. Durante as entrevistas realizadas, teve contato com outras pessoas que se identificam desta forma. Na pandemia, come\u00e7ou a olhar para si e se incomodar com o que via. \u201cSempre tinham algumas d\u00favidas e nada se encaixava\u201d. Ent\u00e3o, compreendeu porque sente ang\u00fastia desde aquele per\u00edodo. H\u00e1 apenas um ano, come\u00e7ou a verbalizar a n\u00e3o binariedade, seguindo o processo de autoconhecimento. Dry ressalta no \u00e1udio abaixo sobre a exist\u00eancia de pessoas NB.<\/span><\/p>\n<!--[if lt IE 9]><script>document.createElement('audio');<\/script><![endif]-->\n<audio class=\"wp-audio-shortcode\" id=\"audio-1427-1\" preload=\"none\" style=\"width: 100%;\" controls=\"controls\"><source type=\"audio\/mpeg\" src=\"https:\/\/www2.uepg.br\/nuntiare\/wp-content\/uploads\/sites\/236\/2023\/06\/audio-Dry.mp3?_=1\" \/><a href=\"https:\/\/www2.uepg.br\/nuntiare\/wp-content\/uploads\/sites\/236\/2023\/06\/audio-Dry.mp3\">https:\/\/www2.uepg.br\/nuntiare\/wp-content\/uploads\/sites\/236\/2023\/06\/audio-Dry.mp3<\/a><\/audio>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Embora esse processo tenha acontecido no meio universit\u00e1rio, nem tudo s\u00e3o flores. Ainda que a universidade possibilite, em alguma medida, um olhar mais voltado \u00e0 diversidade e acolhimento aos diferentes identidades de pessoas, n\u00e3o se pode generalizar. A autoidentifica\u00e7\u00e3o de Dry aconteceu devido aos contatos que teve no ambiente acad\u00eamico, mas elu conta que sofreu discrimina\u00e7\u00e3o mesmo assim, inclusive de professores.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Nem todas as pessoas NB passam pela experi\u00eancia negativa no ambiente universit\u00e1rio. \u00c9 o caso de Nadjagley de Oliveira, 26 anos, gerente de vendas, tamb\u00e9m pessoa NB que se identificou como tal durante a gradua\u00e7\u00e3o. Elu \u00e9 formade em Educa\u00e7\u00e3o F\u00edsica pela Universidade Estadual do Centro Oeste (Unicentro), em Irati, e tamb\u00e9m iniciou Servi\u00e7o Social na mesma institui\u00e7\u00e3o, em Guarapuava, mas n\u00e3o finalizou. Ao come\u00e7ar a primeira gradua\u00e7\u00e3o teve d\u00favidas quanto \u00e0 sexualidade. Primeiro se entendia como mulher h\u00e9tero, depois como mulher l\u00e9sbica e, agora, se compreende como pessoa NB, que pode se relacionar com os mais diversos g\u00eaneros.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Elu relata que quando iniciou a gradua\u00e7\u00e3o, conheceu mulheres l\u00e9sbicas que fizeram questionar sua pr\u00f3pria sexualidade e passou a se relacionar com mulheres. \u201cQuando me identifiquei como l\u00e9sbica, mudei todo meu guarda roupa para expressar a minha posi\u00e7\u00e3o, era quase uma cobran\u00e7a, as pessoas esperavam que eu fosse assim. Por mais que fizesse sentido no momento, por vezes eu n\u00e3o me sentia contemplade no meu pr\u00f3prio discurso\u201d, comenta.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Em 2019, na segunda gradua\u00e7\u00e3o, conheceu a m\u00fasica <\/span><a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=npGrq2lFmls\"><span style=\"font-weight: 400\">\u201cEleva\u00e7\u00e3o Mental\u201d<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400\"> de Triz, cantore NB. A letra da m\u00fasica trata sobre a n\u00e3o-binariedade e promoveu inquieta\u00e7\u00f5es quanto ao g\u00eanero de Nadjagley. Elu integrou o Movimento Estudantil de Servi\u00e7o Social e tamb\u00e9m participou de coletivos femininos, em que conheceu pessoas trans. \u201cEm meio a isso, eu tive muito contato com pessoas trans, mas eu mantive essa quest\u00e3o de lado, estava focade em outras coisas. E ter que explicar para todo mundo essas coisas \u00e9 muito complicado, como eu explico algo que nem eu entendo ainda?\u201d, questiona.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Nadjagley fala de suas leituras sobre feminismo, mulheres transexuais, mas revela que n\u00e3o se identificava com essas refer\u00eancias, o que gerava confus\u00e3o em sua cabe\u00e7a. Um dia, foi pesquisar sobre g\u00eanero flu\u00eddo, que \u00e9 uma identidade que transita entre g\u00eaneros ao longo do tempo, funcionando com um espectro que flui em toda a extens\u00e3o dos diferentes g\u00eaneros. Aos poucos, passou a entender sobre a n\u00e3o-binariedade. Em raz\u00e3o de crises de ansiedade e de p\u00e2nico durante a pandemia de COVID-19, buscou atendimento psicol\u00f3gico e optou por uma profissional trans NB. A terapia acalmava Nadjagley e organizava sua cabe\u00e7a e a partir deste acompanhamento, passou a se identificar com a n\u00e3o-binariedade. Ou\u00e7a Nadjagley falando sobre o processo de reconhecimento como pessoa transexual.<\/span><\/p>\n<audio class=\"wp-audio-shortcode\" id=\"audio-1427-2\" preload=\"none\" style=\"width: 100%;\" controls=\"controls\"><source type=\"audio\/mpeg\" src=\"https:\/\/www2.uepg.br\/nuntiare\/wp-content\/uploads\/sites\/236\/2023\/06\/audio-Nadjagley.mp3?_=2\" \/><a href=\"https:\/\/www2.uepg.br\/nuntiare\/wp-content\/uploads\/sites\/236\/2023\/06\/audio-Nadjagley.mp3\">https:\/\/www2.uepg.br\/nuntiare\/wp-content\/uploads\/sites\/236\/2023\/06\/audio-Nadjagley.mp3<\/a><\/audio>\n<p>*Na linguagem neutra o <strong>E<\/strong> e o <strong>U<\/strong> s\u00e3o utilizados para substituir a norma bin\u00e1ria de identifica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Ficha T\u00e9cnica<\/b><\/p>\n<p><b>Reportagem:<\/b><span style=\"font-weight: 400\"> Ana Moraes\u00a0<\/span><\/p>\n<p><b>\u00c1udios\/ilustra\u00e7\u00e3o: <\/b><span style=\"font-weight: 400\">Ana Moraes<\/span><\/p>\n<p><b>Edi\u00e7\u00e3o e Publica\u00e7\u00e3o:<\/b><span style=\"font-weight: 400\"> Vinicius Sampaio<\/span><\/p>\n<p><b>Supervis\u00e3o de produ\u00e7\u00e3o: <\/b><span style=\"font-weight: 400\">Luiza Carolina dos Santos<\/span><\/p>\n<p><b>Supervis\u00e3o de publica\u00e7\u00e3o: <\/b><span style=\"font-weight: 400\">C\u00e2ndida de Oliveira e Muriel E.P. Amaral<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Contato com a diversidade e estudos sobre g\u00eanero e sexualidade auxiliam no processo de autoidentifica\u00e7\u00e3o de pessoas n\u00e3o-bin\u00e1rias Esta reportagem apresenta a hist\u00f3ria de duas pessoas n\u00e3o-bin\u00e1rias (NB), que iniciaram os primeiros movimentos para a autoidentifica\u00e7\u00e3o durante a gradua\u00e7\u00e3o. Por isso n\u00e3o se espante com os pronomes utilizados nesta mat\u00e9ria. 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