{"id":2330,"date":"2025-09-01T17:28:17","date_gmt":"2025-09-01T20:28:17","guid":{"rendered":"https:\/\/www2.uepg.br\/nuntiare\/?p=2330"},"modified":"2025-09-01T17:29:39","modified_gmt":"2025-09-01T20:29:39","slug":"duplamente-penalizadas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www2.uepg.br\/nuntiare\/duplamente-penalizadas\/","title":{"rendered":"Duplamente penalizadas"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center\"><em><span style=\"font-weight: 400\">Al\u00e9m do c\u00e1rcere, o abandono familiar afeta mulheres privadas de liberdade<\/span><\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">| Por Eduarda Macedo, L\u00edvia Maria Hass e Loren Leuch<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Da Am\u00e9rica Latina, o Brasil \u00e9 o maior pa\u00eds em popula\u00e7\u00e3o carcer\u00e1ria feminina. Segundo dados do 5\u00ba relat\u00f3rio &#8220;World Female Imprisonment List&#8221; (2022), a quantidade de mulheres privadas de liberdade era de 42.694. No Paran\u00e1, atualmente, \u00e9 de 2.321 mulheres, enquanto a regional de Ponta Grossa tem 179 em c\u00e1rcere. No segundo semestre de 2024, de acordo com o Relat\u00f3rio de Informa\u00e7\u00f5es Penais (RELIPEN), a popula\u00e7\u00e3o carcer\u00e1ria feminina era de 2.378. O n\u00famero de visita\u00e7\u00f5es no entanto se difere. Nas alas femininas, com exce\u00e7\u00e3o do sistema penitenci\u00e1rio federal, apenas 1.613 visitas foram registradas. Enquanto na masculina 67.489 visitas est\u00e3o registradas no relat\u00f3rio. O Paran\u00e1 tamb\u00e9m aparece como segundo maior estado com registros de visitas aos c\u00e1rceres masculinos.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Na perspectiva do chefe regional das cadeias p\u00fablicas de Ponta Grossa e Pol\u00edcia Penal, William Daniel de Lima Ribas, existe uma rela\u00e7\u00e3o desigual entre visitas para homens e mulheres no sistema carcer\u00e1rio. &#8220;O p\u00fablico masculino continua sendo acompanhado pela esposa, pelos filhos e pela m\u00e3e. Mas quando a mulher est\u00e1 em c\u00e1rcere, muitas vezes o companheiro j\u00e1 est\u00e1 cumprindo pena e \u00e9 raro quando n\u00e3o h\u00e1 um abandono&#8221;, afirma. O mesmo afirma o chefe regional do Escrit\u00f3rio Social da Pol\u00edcia Penal, Jean Carlos Foga\u00e7a. &#8220;A mulher encarcerada \u00e9 abandonada. Dificilmente ela recebe visita. Se recebe ou \u00e9 do pai, do filho ou da m\u00e3e. O marido, esquece. E muitas dessas mulheres, elas s\u00e3o presas por causa de quem?&#8221;, questiona. O policial ainda afirma que as mulheres privadas de liberdade s\u00e3o abandonadas por maridos ou companheiros.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">J\u00e1 o artigo &#8220;O abandono da popula\u00e7\u00e3o carcer\u00e1ria feminina brasileira e seus impactos na ressocializa\u00e7\u00e3o&#8221; publicado por Oliveira, Gutierrez, Foga\u00e7a e Rodrigues (2024), na revista cient\u00edfica &#8220;Revista FT&#8221;, discorre sobre a possibilidade do abandono da popula\u00e7\u00e3o carcer\u00e1ria feminina ser fruto de uma pena moral, que quebra a imagem feminina moldada h\u00e1 s\u00e9culos. &#8220;A concep\u00e7\u00e3o de fragilidade feminina constituiu a mulher na sociedade como filha e esposa, passando a ser vista atrav\u00e9s de sua rela\u00e7\u00e3o com um homem. A transgress\u00e3o da mulher no \u00e2mbito penal, mas tamb\u00e9m deste papel pr\u00e9-estipulado, gera penas que v\u00e3o al\u00e9m da perspectiva jur\u00eddica, passando as mulheres encarceradas a cumprirem penas tamb\u00e9m no setor moral, visto que se entende a pr\u00e1tica do crime como violador da sua posi\u00e7\u00e3o na sociedade&#8221;, afirmam as autoras. Dessa forma, um dos efeitos dessa &#8220;pena moral&#8221; \u00e9 o abandono emocional, que ocorre por parte da fam\u00edlia imediata: marido, filhos, irm\u00e3os e pais. &#8220;O afastamento familiar se caracteriza como uma forma de corre\u00e7\u00e3o para as mulheres que n\u00e3o se mantiveram no seu papel social .&#8221;<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">De acordo com o artigo 41\u00b0, inciso X da Lei 7.210\/94 que diz respeito \u00e0 execu\u00e7\u00e3o penal, \u00e9 direito da pessoa privada de liberdade receber visitas de c\u00f4njuge, companheiro(a) e parentes em dias determinados. Em Ponta Grossa n\u00e3o \u00e9 diferente, todos t\u00eam direito a receber visitas aos fins de semana. O familiar precisa apenas agendar um hor\u00e1rio, se dirigir \u00e0 penitenci\u00e1ria no s\u00e1bado ou no domingo e passar pelo processo padr\u00e3o de revista. O visitante pode ficar at\u00e9 tr\u00eas horas com o familiar, conversando e aproveitando o tempo com a pessoa privada de liberdade. Ainda segundo regras da Pol\u00edcia Penal, cada encarcerado pode ter cadastrado at\u00e9 oito visitantes, e obrigatoriamente, devem ser familiares. Por\u00e9m, em casos onde o abandono familiar acontece, \u00e9 poss\u00edvel cadastrar um amigo. A figura do amigo \u00e9 a forma de garantir um apoio social para aqueles que n\u00e3o possuem visitas familiares. O cadastro de amigos, segundo William, \u00e9 &#8220;uma pol\u00edtica para aproximar as pessoas privadas de liberdade da sociedade, e uma forma de n\u00e3o deix\u00e1-los desamparados&#8221; recurso utilizado majoritariamente por mulheres.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>O abandono afeta os homens?<\/b><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Durante 10 anos, dona Olinda Aparecida Raitsa ligou e agendou semanalmente a visita \u00e0 Cadeia P\u00fablica Hildebrando de Souza. Com a companhia de seu filho mais novo o ca\u00e7ula da fam\u00edlia a diarista entrava \u00e0s duas horas da tarde de um s\u00e1bado, ou um domingo qualquer, sentava-se em uma das mesas no p\u00e1tio e aguardava seu filho privado de liberdade. &#8220;Eu levava um lanche com p\u00e3o, bolo ou uma salada de frutas, n\u00f3s com\u00edamos juntos, conversando e depois o que sobrava do lanche era levado de volta pra casa. Quando meu filho [o ca\u00e7ula] ia junto, na \u00e9poca ele tinha uns seis ou sete anos, ele sentava com a gente na mesinha, lanchava e ficava brincando no p\u00e1tio&#8221;, relata.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A m\u00e3e n\u00e3o teve apenas a rotina afetada enquanto o filho cumpria a pena. A aus\u00eancia dele a impactava emocional e economicamente. No entanto, durante o processo de ressocializa\u00e7\u00e3o, o filho dela teve oportunidade de estudo e emprego. Ambas as alternativas diminu\u00edram a pena e colaboraram financeiramente, j\u00e1 que parte do sal\u00e1rio era destinado a Olinda. Hoje, a m\u00e3e n\u00e3o frequenta mais as instala\u00e7\u00f5es visto que o filho est\u00e1 em liberdade. Mas acredita que o apoio dela e do restante da fam\u00edlia ajudou o filho no processo de ressocializa\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Para William, a presen\u00e7a da fam\u00edlia, principalmente no processo de ressocializa\u00e7\u00e3o da pessoa privada de liberdade, \u00e9 essencial. &#8220;A gente procura, dentro do sistema, ofertar oportunidades relacionadas ao trabalho, qualifica\u00e7\u00e3o profissional e estudo, porque a gente sabe que quando o preso retorna para o ambiente familiar, ele precisa retornar diferente para n\u00e3o incorrer nos mesmos erros que o trouxeram para dentro do sistema prisional. O acompanhamento da fam\u00edlia \u00e9 predominante, inclusive, para que ele receba essas oportunidades.&#8221;, explica. O processo de ressocializa\u00e7\u00e3o \u00e9 encaminhado por uma comiss\u00e3o que fica respons\u00e1vel por avaliar se a pessoa privada de liberdade est\u00e1 apta a realizar atividades de acesso ao ambiente externo. Al\u00e9m disso, segundo William, o apoio da fam\u00edlia \u00e9 uma pe\u00e7a chave para a ressocializa\u00e7\u00e3o da pessoa privada de liberdade.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Abandono estatal<\/b><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Fora das unidades prisionais, o cen\u00e1rio \u00e9 mais complexo: &#8220;Observa-se uma s\u00e9rie de falhas na comunica\u00e7\u00e3o entre as unidades prisionais e os familiares dos detentos, o que aumenta ainda mais a dificuldade de relacionamento j\u00e1 prevista em lei&#8221;, afirma o psic\u00f3logo Ariel Santos. O cen\u00e1rio se estende para complexidades sociais e estruturais do sistema prisional.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A pessoa privada de liberdade \u00e9 afetada diretamente pela falta de atua\u00e7\u00e3o interdisciplinar na assist\u00eancia social e psicol\u00f3gica. O psic\u00f3logo afirma que \u00e9 comum ouvir depoimentos de familiares que n\u00e3o t\u00eam not\u00edcias daqueles que est\u00e3o no sistema carcer\u00e1rio. O pr\u00f3prio detento tamb\u00e9m n\u00e3o recebe informa\u00e7\u00f5es sobre os familiares, o que provoca sofrimento para ambos. Para Santos, o Estado n\u00e3o investe na contrata\u00e7\u00e3o de servidores suficientes, o que torna a demanda maior do que a capacidade das equipes em atend\u00ea-la adequadamente.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Como agendar visitas<\/b><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Em Ponta Grossa, as visitas ocorrem aos s\u00e1bados e domingos, \u00e0s 9h e 13h. O segundo fim de semana do m\u00eas \u00e9 reservado para crian\u00e7as, e a \u00faltima sexta-feira para visitas virtuais. Na Cadeia Hildebrando de Souza, a visita infantil \u00e9 da quinta ao domingo da segunda semana do m\u00eas. Visitas virtuais s\u00e3o agendadas conforme a demanda.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<ul>\n<li style=\"font-weight: 400\"><span style=\"font-weight: 400\">Penitenci\u00e1ria Estadual de Ponta Grossa I: (42) 3219-7402\u00a0<\/span><\/li>\n<li style=\"font-weight: 400\"><span style=\"font-weight: 400\">Unidade de Progress\u00e3o de Ponta Grossa: (42) 99157-8894\u00a0<\/span><\/li>\n<li style=\"font-weight: 400\"><span style=\"font-weight: 400\">Penitenci\u00e1ria Estadual de Ponta Grossa II: (42) 3219-7442\u00a0<\/span><\/li>\n<li style=\"font-weight: 400\"><span style=\"font-weight: 400\">Cadeia P\u00fablica Hildebrando de Souza: (42) 3229-2030<\/span><\/li>\n<\/ul>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Reportagem: <\/b><span style=\"font-weight: 400\">Eduarda Macedo, L\u00edvia Maria Hass e Loren Leuch<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Foto: <\/b><span style=\"font-weight: 400\">Annelise dos Santos<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Edi\u00e7\u00e3o e Publica\u00e7\u00e3o:<\/b><span style=\"font-weight: 400\"> Livia Maria Hass, Mariana Borba, Ana Beatriz, Eduarda Macedo.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Supervis\u00e3o de produ\u00e7\u00e3o:<\/b><span style=\"font-weight: 400\"> Manoel Moabis e Aline Rios<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Al\u00e9m do c\u00e1rcere, o abandono familiar afeta mulheres privadas de liberdade &nbsp; | Por Eduarda Macedo, L\u00edvia Maria Hass e Loren Leuch &nbsp; Da Am\u00e9rica Latina, o Brasil \u00e9 o maior pa\u00eds em popula\u00e7\u00e3o carcer\u00e1ria feminina. 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