{"id":2364,"date":"2025-11-22T14:18:39","date_gmt":"2025-11-22T17:18:39","guid":{"rendered":"https:\/\/www2.uepg.br\/nuntiare\/?p=2364"},"modified":"2025-11-22T22:57:49","modified_gmt":"2025-11-23T01:57:49","slug":"a-vida-continua-em-outro-corpo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www2.uepg.br\/nuntiare\/a-vida-continua-em-outro-corpo\/","title":{"rendered":"A vida continua em outro corpo"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center\"><em>Quase cinco mil paranaenses aguardam na lista de espera por um transplante de \u00f3rg\u00e3o<\/em><\/p>\n<div>O som do monitor card\u00edaco marca o tempo, a espera. Em um quarto silencioso de um hospital em Curitiba, uma m\u00e3e contava os minutos ao lado da filha. Era outubro de 2020, no auge da pandemia de Covid-19, quando Giovana de Andrade ouviu dos m\u00e9dicos que a filha, a pequena Gabi, de apenas 12 anos, precisaria de um novo cora\u00e7\u00e3o. Bailarina, ginasta e apaixonada por v\u00f4lei, Gabi parecia carregar mais energia do que o corpo comportava. At\u00e9 que uma virose, confundida no in\u00edcio com sintomas de depress\u00e3o, mostrou o contr\u00e1rio. O quadro viral, relativamente simples e comum entre crian\u00e7as, atingiu o cora\u00e7\u00e3o e causou uma cardiopatia grave.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>\u201cGabi foi uma verdadeira guerreira, lutando pela vida at\u00e9 o \u00faltimo minuto\u201d, relembra Giovana. A m\u00e3e n\u00e3o demonstrava fraqueza para a filha, era a fortaleza da menina, mas tinha medo. \u201cNos momentos em que a fragilidade e a dor me alcan\u00e7avam, eu dizia que iria ao banheiro, tomar \u00e1gua. Era ali que eu chorava, lavava o rosto e, em seguida, voltava para o leito com um sorriso no rosto, para que ela sempre sentisse for\u00e7a e esperan\u00e7a\u201d, relata.<\/div>\n<div>Gabi n\u00e3o resistiu \u00e0 espera de um novo cora\u00e7\u00e3o. Ela se foi enquanto aguardava em uma fila que, hoje, no Paran\u00e1, ainda carrega milhares de nomes.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>De acordo com os dados mais recentes da Central Estadual de Transplantes, referentes a agosto de 2025, 4.847 pessoas est\u00e3o cadastradas aguardando por um \u00f3rg\u00e3o ou tecido. S\u00e3o 2.342 pacientes \u00e0 espera de um rim, 267 esperam por um f\u00edgado e 26 por um cora\u00e7\u00e3o. Cada um desses n\u00fameros representa uma hist\u00f3ria.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Um transplante de \u00f3rg\u00e3o s\u00f3 pode ser realizado quando a equipe m\u00e9dica constata a morte cerebral, que \u00e9 a aus\u00eancia irrevers\u00edvel de atividade neurol\u00f3gica. A partir disso e ap\u00f3s a autoriza\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia, os \u00f3rg\u00e3os podem ser destinados aos pacientes que aguardam na fila de transplante. Duas equipes atuam nesse processo, a de capta\u00e7\u00e3o e de implanta\u00e7\u00e3o. Segundo a perfusionista Vera L\u00facia Martins, a primeira equipe \u00e9 formada por um m\u00e9dico cirurgi\u00e3o, um instrumentador, um t\u00e9cnico de enfermagem e um enfermeiro. J\u00e1 no grupo da implanta\u00e7\u00e3o, atuam um m\u00e9dico cirurgi\u00e3o, um anestesista, um instrumentador e um perfusionista.<\/div>\n<div>O perfusionista \u00e9 um profissional respons\u00e1vel por operar a m\u00e1quina de circula\u00e7\u00e3o extracorp\u00f3rea e demais acess\u00f3rios. Dessa forma, durante um transplante de \u00f3rg\u00e3os, \u00e9 ele que mant\u00eam as fun\u00e7\u00f5es cardiorrespirat\u00f3rias e o equil\u00edbrio bioqu\u00edmico do paciente. Atua exclusivamente em transplantes card\u00edacos e pulmonares, j\u00e1 que s\u00e3o procedimentos em que estes \u00f3rg\u00e3os n\u00e3o conseguem se manter em funcionamento durante a cirurgia.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Para Vera L\u00facia, o profissional da \u00e1rea da sa\u00fade aprende a lidar com as situa\u00e7\u00f5es estressantes e trabalhar para que o resultado seja o melhor poss\u00edvel e os pacientes tenham uma recupera\u00e7\u00e3o plena. \u201cAo mesmo tempo em que voc\u00ea sente uma press\u00e3o em saber que a vida e a integridade f\u00edsica de uma pessoa est\u00e3o sob sua responsabilidade, isso \u00e9 um est\u00edmulo para que a gente coloque o que aprendeu em pr\u00e1tica da melhor maneira poss\u00edvel\u201d, explica. Ela afirma que, para os profissionais, \u00e9 extremamente gratificante ver que um transplante foi bem sucedido e que aquela cirurgia significa um recome\u00e7o para o paciente. \u201cMesmo que envolva a morte de algu\u00e9m, voc\u00ea est\u00e1 diretamente ligado com a sobrevida de outra pessoa. \u00c9 uma sensa\u00e7\u00e3o muito reconfortante\u201d, conclui.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Em outra regi\u00e3o do estado, h\u00e1 11 anos, o bombeiro militar Osni Santos, na \u00e9poca com 36 anos, descobriu por acaso que precisaria de um transplante de rim. Ele estava feliz, em um momento bom da vida e fazia exames obrigat\u00f3rios para uma especializa\u00e7\u00e3o em primeiros socorros. E foi nesse momento que recebeu o diagn\u00f3stico: uma doen\u00e7a renal cr\u00f4nica. \u201cNo in\u00edcio, achei que os exames estavam errados. Afinal, eu sempre fui uma pessoa saud\u00e1vel, sem sintomas aparentes\u201d, recorda. Mas n\u00e3o estavam. \u201cNeguei a doen\u00e7a e, por um tempo, negligenciei os tratamentos, mas logo compreendi que se tratava de algo s\u00e9rio e que eu precisava iniciar o tratamento o quanto antes\u201d, enfatiza.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>No in\u00edcio, o tratamento era a hemodi\u00e1lise, que o deixou fr\u00e1gil e cansado. Santos n\u00e3o estava sozinho, enquanto lutava contra a doen\u00e7a, a esposa, Patricia dos Santos, pensava em alternativas. O rim, de que ele tanto precisava, estava mais perto do que poderia imaginar. \u201cA decis\u00e3o foi tranquila, como se eu j\u00e1 soubesse que o rim certo era o meu\u201d, relembra com serenidade. \u201cMuitas pessoas se ofereceram para doar, mas algo dentro de mim dizia, desde o primeiro dia, que seria eu\u201d, afirma. E algumas palavras se tornaram comuns nas conversas do casal: \u201cFique tranquilo, o seu novo rim est\u00e1 aqui do seu lado\u201d, dizia Patricia. E estava mesmo.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>O processo foi longo, repleto de exames e testes at\u00e9 a confirma\u00e7\u00e3o da compatibilidade. No dia do transplante, os dois foram levados juntos ao centro cir\u00fargico. Foram mais de dez horas e, mesmo com a complexidade e delicadeza da cirurgia, correu tudo bem. Mas, poucas horas depois veio o susto. \u201cJ\u00e1 est\u00e1vamos juntos novamente, quando meu marido come\u00e7ou a passar mal. A equipe m\u00e9dica foi chamada \u00e0s pressas. Ele n\u00e3o estava bem. Acabou voltando para o centro cir\u00fargico e passou por uma nova cirurgia no mesmo dia. Depois, foi encaminhado para a UTI\u201d, recorda Patr\u00edcia. \u201cPor um momento, achei que ele tinha morrido ali, do meu lado. Lembro tamb\u00e9m de ter chorado muito e, em seguida, come\u00e7ado a rezar\u201d, relembra.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Ele sobreviveu. Depois de tr\u00eas dias em um coma induzido, ao acordar, pensou na esposa e apesar de ainda ter uma longa recupera\u00e7\u00e3o pela frente, se sentiu grato. Quarenta dias depois, Santos voltou para casa, para perto da esposa e dos filhos, com um rim novo. O transplante, para eles, significou reafirmar o amor intenso que j\u00e1 sentiam um pelo outro. \u201cHoje entendo que nossos caminhos se cruzaram para al\u00e9m do amor e do desejo f\u00edsico. Acredito que a espiritualidade tamb\u00e9m nos aproximou, como se o universo j\u00e1 soubesse que eu precisaria dela, n\u00e3o apenas como esposa, mas como doadora, como como for\u00e7a\u201d, afirma.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Hoje, mais de uma d\u00e9cada depois, o transplante continua a funcionar perfeitamente. O bombeiro retornou a rotina, trabalha, viaja e vive intensamente a cada dia. Patr\u00edcia, que teve uma recupera\u00e7\u00e3o r\u00e1pida e sem intercorr\u00eancias, garante que o \u00f3rg\u00e3o doado n\u00e3o faz falta. \u201cA doa\u00e7\u00e3o de um \u00f3rg\u00e3o \u00e9 uma entrega de alma. E quem doa um \u00f3rg\u00e3o, doa esperan\u00e7a, presen\u00e7a e continuidade. Ter ele conosco \u00e9 uma d\u00e1diva. Agradecemos diariamente\u201d, conta Patr\u00edcia.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>O Paran\u00e1 \u00e9 refer\u00eancia nacional em transplantes de \u00f3rg\u00e3os. De acordo com dados do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, o estado possui o maior n\u00famero de doa\u00e7\u00f5es de \u00f3rg\u00e3os no Brasil e o maior \u00edndice de aceita\u00e7\u00e3o familiar. Segundo dados da Secretaria de Estado da Sa\u00fade, em\u00a0 \u00a02025, foram 831 notifica\u00e7\u00f5es de mortes cerebrais e 315 doa\u00e7\u00f5es efetivas.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Os procedimentos relacionados \u00e0 doa\u00e7\u00e3o de \u00f3rg\u00e3os s\u00e3o feitos integralmente pelo Sistema \u00danico de Sa\u00fade (SUS), com acompanhamento rigoroso e transparente. O diretor-geral da Secretaria de Estado da Sa\u00fade do Paran\u00e1, C\u00e9sar Neves, destaca que o estado tem a menor taxa de recusa familiar do Brasil. O diretor credita o resultado \u00e0s equipes que fazem abordagem com as fam\u00edlias. \u201cS\u00e3o profissionais da \u00e1rea da sa\u00fade que passam por capacita\u00e7\u00f5es para abordar as fam\u00edlias de forma delicada, humanizada e principalmente mostrando que essa \u00e9 uma a\u00e7\u00e3o de imensa solidariedade e que, \u00e0s vezes, uma pessoa pode salvar diversas vidas\u201d, declara.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Giovana de Andrade, m\u00e3e de Gabi, conhece o outro lado dessa realidade. O da espera que n\u00e3o termina em vida, mas se transforma em luta. Na missa de s\u00e9timo dia da filha, ela decidiu criar o projeto \u201cGabi Vive\u201d, que nasceu de um gesto simb\u00f3lico. Para a missa, Giovana pediu que, em vez de flores, as pessoas levassem alimentos para doa\u00e7\u00e3o. \u201cNo meio da dor, nasceu uma corrente de amor e partilha, que se transformou no in\u00edcio do projeto, levando esperan\u00e7a e solidariedade a muitas pessoas\u201d, diz. A partir daquele momento, a aus\u00eancia da filha poderia se transformar em presen\u00e7a, n\u00e3o presen\u00e7a f\u00edsica, mas na mem\u00f3ria. A hist\u00f3ria de Gabi foi o combust\u00edvel para ajudar outras centenas de pessoas.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>O projeto \u201cGabi Vive\u201d, j\u00e1 promoveu campanhas solid\u00e1rias de conscientiza\u00e7\u00e3o sobre a doa\u00e7\u00e3o de \u00f3rg\u00e3os e de sangue. Giovana planeja retom\u00e1-lo em 2026, com foco em informa\u00e7\u00e3o e desmistifica\u00e7\u00e3o. \u201cA doa\u00e7\u00e3o de \u00f3rg\u00e3os ainda \u00e9 cercada de muitos mitos e nosso prop\u00f3sito \u00e9 justamente contribuir para mudar essa realidade, levando informa\u00e7\u00e3o,\u00a0 \u00a0 conscientiza\u00e7\u00e3o e esperan\u00e7a para tantas vidas que podem ser transformadas\u201d, comenta Giovana. Ela utiliza as redes sociais como uma ferramenta para contar a hist\u00f3ria de Gabi e explicar detalhes sobre a doa\u00e7\u00e3o de \u00f3rg\u00e3os. Al\u00e9m disso, entre as campanhas solid\u00e1rias, j\u00e1 foram realizadas diversas arrecada\u00e7\u00f5es, incluindo doa\u00e7\u00f5es de doces, roupas de inverno e materiais de higiene. Giovana de Andrade transformou o luto em luta: \u201csempre com o intuito de ajudar quem mais precisava\u201d, diz.<\/div>\n<div><\/div>\n<div><strong>Entre o fim e o recome\u00e7o<\/strong><\/div>\n<div>Em uma sala iluminada pela manh\u00e3, Santos prepara o caf\u00e9 enquanto o aroma da bebida se espalha pela casa. \u00c9 um ritual simples, mas cheio de significado. A fam\u00edlia se re\u00fane. \u201cEle n\u00e3o faz por obriga\u00e7\u00e3o, faz porque entendeu o que realmente tem valor na vida\u201d, garante Patr\u00edcia. E para ele, o que vale a pena \u00e9 acordar todos os dias, ao lado da esposa, e ver o crescimento dos filhos. Para o casal, a vida est\u00e1 nas coisas mais simples; respirar o ar fresco da manh\u00e3, sentir o calor do sol ou tomar um caf\u00e9 quentinho em um dia de chuva.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Giovana, por sua vez, guarda o sorriso de Gabi em molduras e mem\u00f3rias. \u201cQuero que a hist\u00f3ria dela se torne uma semente de esperan\u00e7a, capaz de inspirar outras pessoas a compreenderem a import\u00e2ncia desse gesto. O impacto que buscamos \u00e9 ver o n\u00famero de doadores crescer, menos fam\u00edlias sofrendo na fila de espera e mais hist\u00f3rias de renascimento acontecendo\u201d, finaliza.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Em cada doa\u00e7\u00e3o de \u00f3rg\u00e3o existe uma ponta invis\u00edvel: a da generosidade. No Paran\u00e1, ela pulsa todos os dias, silenciosa, mas constante. Em cada transplante realizado, em cada sim dito na hora mais dif\u00edcil e em cada vida que come\u00e7a onde outra se despede.<\/div>\n<p><b>Reportagem: <\/b>Ana Beatriz Paiva<\/p>\n<p><strong>Arte: <\/strong>Victor Schinato<\/p>\n<p><b>Edi\u00e7\u00e3o e Publica\u00e7\u00e3o:<\/b> Radmila Baranoski e Joyce Clara<\/p>\n<p><b>Supervis\u00e3o de produ\u00e7\u00e3o:<\/b>\u00a0Manoel Moabis e Aline Rios<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quase cinco mil paranaenses aguardam na lista de espera por um transplante de \u00f3rg\u00e3o O som do monitor card\u00edaco marca o tempo, a espera. Em um quarto silencioso de um hospital em Curitiba, uma m\u00e3e contava os minutos ao lado da filha. 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