{"id":652,"date":"2022-08-17T09:56:01","date_gmt":"2022-08-17T12:56:01","guid":{"rendered":"https:\/\/www2.uepg.br\/nuntiare\/?p=652"},"modified":"2022-08-17T09:56:01","modified_gmt":"2022-08-17T12:56:01","slug":"o-agro-e-pop-poluidor-organico-persistente","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www2.uepg.br\/nuntiare\/o-agro-e-pop-poluidor-organico-persistente\/","title":{"rendered":"O agro \u00e9 pop: poluidor org\u00e2nico persistente"},"content":{"rendered":"<p><em>Brasil \u00e9 o maior consumidor de agrot\u00f3xicos do planeta; apreens\u00f5es de insumos ilegais cresceram 80% neste ano<\/em><\/p>\n<div id=\"attachment_660\" style=\"width: 2570px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-660\" class=\"wp-image-660 size-full\" src=\"https:\/\/www2.uepg.br\/nuntiare\/wp-content\/uploads\/sites\/236\/2022\/08\/AT-3-scaled.jpg\" alt=\"\" width=\"2560\" height=\"1707\" srcset=\"https:\/\/www2.uepg.br\/nuntiare\/wp-content\/uploads\/sites\/236\/2022\/08\/AT-3-scaled.jpg 2560w, https:\/\/www2.uepg.br\/nuntiare\/wp-content\/uploads\/sites\/236\/2022\/08\/AT-3-300x200.jpg 300w, https:\/\/www2.uepg.br\/nuntiare\/wp-content\/uploads\/sites\/236\/2022\/08\/AT-3-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/www2.uepg.br\/nuntiare\/wp-content\/uploads\/sites\/236\/2022\/08\/AT-3-768x512.jpg 768w, https:\/\/www2.uepg.br\/nuntiare\/wp-content\/uploads\/sites\/236\/2022\/08\/AT-3-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/www2.uepg.br\/nuntiare\/wp-content\/uploads\/sites\/236\/2022\/08\/AT-3-2048x1365.jpg 2048w, https:\/\/www2.uepg.br\/nuntiare\/wp-content\/uploads\/sites\/236\/2022\/08\/AT-3-1232x821.jpg 1232w, https:\/\/www2.uepg.br\/nuntiare\/wp-content\/uploads\/sites\/236\/2022\/08\/AT-3-1620x1080.jpg 1620w, https:\/\/www2.uepg.br\/nuntiare\/wp-content\/uploads\/sites\/236\/2022\/08\/AT-3-272x182.jpg 272w\" sizes=\"(max-width: 2560px) 100vw, 2560px\" \/><p id=\"caption-attachment-660\" class=\"wp-caption-text\">Professor Renato durante a aula. Foto: Yuri A.F. Marcinik<\/p><\/div>\n<p>N\u00e3o foi dif\u00edcil definir o especialista para entrevistar: o professor Renato Alves, do departamento de Economia da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), especializado em Agronomia, havia sido minha fonte em outra reportagem sobre agrot\u00f3xicos. Desta vez, ap\u00f3s o convite, ele pediu uma semana de prazo. Eu entenderia o pedido na entrevista: ele preparou uma aula, com dura\u00e7\u00e3o de uma hora e meia, incluindo slides e a presen\u00e7a de tr\u00eas alunos auxiliares.<br \/>\nAo chegar no departamento de Economia, eles est\u00e3o no corredor. Come\u00e7amos a conversar e algu\u00e9m interrompe: o professor nos espera. Na sala, com os slides prontos, o professor de cabelos longos e \u00f3culos de lentes grossas nos sa\u00fada. O \u00fanico ind\u00edcio de formalidade da entrevista era o gravador.<\/p>\n<p><strong>Verdades t\u00f3xicas<\/strong><\/p>\n<p>O material de apresenta\u00e7\u00e3o \u00e9 robusto: 18 slides mostrando causas e consequ\u00eancias do uso de agrot\u00f3xicos. Assusto com a clareza do professor expondo a angustiante realidade da nossa sa\u00fade alimentar, que vale muito pouco para aqueles que nos fornecem alimentos.<br \/>\nCom moderado sotaque cearense, o professor exibe defini\u00e7\u00f5es jur\u00eddicas, como a lei que rege o uso de agrot\u00f3xicos, extensiva a praticamente todos os tipos de agentes \u201ccuja finalidade seja alterar a composi\u00e7\u00e3o da flora ou da fauna, a fim de preserv\u00e1-las da a\u00e7\u00e3o danosa de seres vivos considerados nocivos e subst\u00e2ncias e produtos, empregados como desfolhantes, dessecantes, estimuladores e inibidores de crescimento\u201d.<br \/>\nSem delongas, salta para defini\u00e7\u00f5es te\u00f3ricas. Recorrendo a autores como S\u00edlvio Roberto Penteado e Hasime Tokeshi, somos apresentados a conceitos de degrada\u00e7\u00e3o do solo causado pelos chamados \u201cprotetivos agr\u00edcolas\u201d &#8211; mas o professor faz quest\u00e3o de dizer que se nega a usar qualquer outro termo que n\u00e3o seja \u201cagrot\u00f3xico\u201d.<br \/>\nIsso porque exterminar pragas desbalanceia o ecossistema. Os predadores naturais, como sapos, ir\u00e3o perder alimento prim\u00e1rio, acarretando sua extin\u00e7\u00e3o, a de seu predador, a do predador do predador\u2026 Em algum momento, o problema chega ao ser humano, no topo da cadeia alimentar.<br \/>\nA explica\u00e7\u00e3o continua e o quadro s\u00f3 piora. O professor explica que a contamina\u00e7\u00e3o por agrot\u00f3xicos \u00e9 agravada quando n\u00e3o se respeita os intervalos para recomposi\u00e7\u00e3o do solo entre os plantios , tamb\u00e9m chamado de per\u00edodo de \u201ccar\u00eancia\u201d do solo &#8211; em alguns casos, a terra precisa ficar at\u00e9 dois anos sem plantio, tempo demais para as demandas da competitividade da entidade que laconicamente \u00e9 referida como \u201cmercado\u201d.<br \/>\nE mais: pelo ar e pelo solo, planta\u00e7\u00f5es vizinhas podem ser atingidas por agrot\u00f3xicos. N\u00e3o por acaso, as Diretrizes para o Padr\u00e3o de Qualidade Org\u00e2nico da IBD Certifica\u00e7\u00f5es (\u00f3rg\u00e3o privado reconhecido pelo Minist\u00e9rio da Agricultura para certifica\u00e7\u00e3o) prev\u00ea que a produ\u00e7\u00e3o org\u00e2nica deve estar a tr\u00eas quil\u00f4metros de dist\u00e2ncia de qualquer \u00e1rea de cultivo tradicional.<\/p>\n<p><img class=\"aligncenter size-full wp-image-656\" src=\"https:\/\/www2.uepg.br\/nuntiare\/wp-content\/uploads\/sites\/236\/2022\/08\/INFOGRAFICO-02.png\" alt=\"\" width=\"1080\" height=\"1080\" srcset=\"https:\/\/www2.uepg.br\/nuntiare\/wp-content\/uploads\/sites\/236\/2022\/08\/INFOGRAFICO-02.png 1080w, https:\/\/www2.uepg.br\/nuntiare\/wp-content\/uploads\/sites\/236\/2022\/08\/INFOGRAFICO-02-300x300.png 300w, https:\/\/www2.uepg.br\/nuntiare\/wp-content\/uploads\/sites\/236\/2022\/08\/INFOGRAFICO-02-1024x1024.png 1024w, https:\/\/www2.uepg.br\/nuntiare\/wp-content\/uploads\/sites\/236\/2022\/08\/INFOGRAFICO-02-150x150.png 150w, https:\/\/www2.uepg.br\/nuntiare\/wp-content\/uploads\/sites\/236\/2022\/08\/INFOGRAFICO-02-768x768.png 768w\" sizes=\"(max-width: 1080px) 100vw, 1080px\" \/><\/p>\n<p><strong>Dados que causam azias<\/strong><\/p>\n<p>A aula segue com estat\u00edsticas do Programa de An\u00e1lise de Res\u00edduos de Agrot\u00f3xicos em Alimentos da Ag\u00eancia Nacional de Vigil\u00e2ncia Sanit\u00e1ria (ANVISA). O \u00faltimo levantamento, de 2010, constatou que em \u201c15 das 20 culturas analisadas foram identificados agrot\u00f3xicos ativos e prejudiciais tanto para a sa\u00fade dos trabalhadores rurais como para a dos consumidores\u201d.<br \/>\nSubst\u00e2ncias como o endosulfan, acefato e metamidof\u00f3s, ainda permitidas no Brasil, foram encontradas em pepino, piment\u00e3o, cebola, alface e tomates. Segundo a pr\u00f3pria Anvisa, elas possuem grau elevado de toxicidade, podendo causar problemas neurol\u00f3gicos, reprodutivos, de desregula\u00e7\u00e3o hormonal e c\u00e2ncer. Nessa hora, s\u00f3 consegui pensar que talvez n\u00e3o dev\u00eassemos reprimir t\u00e3o veemente o h\u00e1bito infantil de repelir legumes e verduras\u2026<br \/>\nA apresenta\u00e7\u00e3o seguiu fornecendo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica (IBGE). Diante da tabela do Censo Agropecu\u00e1rio, tive o primeiro choque sentido fisicamente no meu corpo: 88% da produ\u00e7\u00e3o de laranja, alimento que consumo muito, usa produtos disfuncionais. Os dados est\u00e3o defasados, s\u00e3o de 2006, a pandemia prejudicou a atualiza\u00e7\u00e3o &#8211; hoje ser\u00e3o ainda piores?<br \/>\nA apresenta\u00e7\u00e3o ent\u00e3o envereda para o hist\u00f3rico de ilegalidade do agrot\u00f3xico Paraquat. Tratado como mutag\u00eanico e cancer\u00edgeno, foi classificado como ilegal pela Anvisa em 2017. Seu uso deveria ter acabado em 2020. Por\u00e9m, considerando-se que o Paraquat foi o herbicida mais apreendido pela Receita Federal no primeiro trimestre de 2022, constatamos que apenas a legisla\u00e7\u00e3o n\u00e3o basta. Mas o que move esse mercado?<\/p>\n<p><strong>Mais verdades t\u00f3xicas<\/strong><\/p>\n<p>A aula encaminha-se para o final, mas ainda vamos nos intoxicar um pouco mais de verdades indigestas. Segundo a ONG Public Eye, dos R$ 100 bilh\u00f5es movimentados pelo mercado clandestino de agrot\u00f3xicos no mundo, um ter\u00e7o foi gasto por brasileiros em 2021, crescimento de 26,4% em rela\u00e7\u00e3o ao ano anterior. Planta\u00e7\u00f5es de soja s\u00e3o as que mais recebem esses produtos ilegais. \u201cOs \u00fanicos beneficiados s\u00e3o os que o vendem\u201d, lembra o professor. Ele ainda menciona medidas alternativas aos agrot\u00f3xicos, como adubos org\u00e2nicos e aplica\u00e7\u00e3o de inimigos naturais das pragas.<br \/>\nAinda que terminemos a aula com a clara sensa\u00e7\u00e3o de que ainda havia muito a ser dito, foi interessante notar o empenho do professor Renato Alves com a conscientiza\u00e7\u00e3o, fazendo palestras e mantendo o canal <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/channel\/UCFEShG3WWxyZxI3ZlTjnEuQ\">\u201cProfessor Vegano\u201d<\/a> no Youtube.<br \/>\nVegano h\u00e1 mais de quatro anos &#8211; faz quest\u00e3o de mostrar sapatos e cinto de couro sint\u00e9tico &#8211; o professor afirma que cren\u00e7as populares devem ser combatidas com informa\u00e7\u00e3o. \u201cDesde sempre nos dizem que comer carne \u00e9 uma quest\u00e3o de prote\u00ednas. Hoje, vemos que tudo faz parte de uma narrativa para gerar um excedente de produ\u00e7\u00e3o &#8211; principalmente na cria\u00e7\u00e3o de gados &#8211; mantido unicamente para continuar o lucro de todo esse sistema que se mant\u00e9m atrav\u00e9s da intoxica\u00e7\u00e3o dos alimentos e pr\u00e1ticas danosas ao meio ambiente\u201d.<br \/>\nMe despe\u00e7o do professor lembrando da \u00faltima tirada de seu leque amplo de bom humor: \u201cO agro \u00e9 pop: poluidor org\u00e2nico persistente\u201d, defini\u00e7\u00e3o cunhada na Conven\u00e7\u00e3o de Estocolmo de 2001. \u201cO marketing pelo menos \u00e9 honesto\u201d, ironiza.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Ficha t\u00e9cnica:<\/strong><\/p>\n<p><strong>Reportagem e infogr\u00e1fico:<\/strong> Yuri A.F. Marcinik<\/p>\n<p><strong>Edi\u00e7\u00e3o e Publica\u00e7\u00e3o:<\/strong> Yuri A.F. Marcinik<\/p>\n<p><strong>Supervis\u00e3o de produ\u00e7\u00e3o:<\/strong> Marcos Zibordi<\/p>\n<p><strong>Supervis\u00e3o de publica\u00e7\u00e3o:<\/strong> Candida de Oliveira e Muriel E. P. Amaral<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Brasil \u00e9 o maior consumidor de agrot\u00f3xicos do planeta; apreens\u00f5es de insumos ilegais cresceram 80% neste ano N\u00e3o foi dif\u00edcil definir o especialista para entrevistar: o professor Renato Alves, do departamento de Economia da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), especializado em Agronomia, havia sido minha fonte em outra reportagem sobre agrot\u00f3xicos. 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