{"id":761,"date":"2022-08-24T13:49:31","date_gmt":"2022-08-24T16:49:31","guid":{"rendered":"https:\/\/www2.uepg.br\/nuntiare\/?p=761"},"modified":"2022-08-24T13:49:31","modified_gmt":"2022-08-24T16:49:31","slug":"pichacao-arte-no-sentido-estetico-da-subversao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www2.uepg.br\/nuntiare\/pichacao-arte-no-sentido-estetico-da-subversao\/","title":{"rendered":"Picha\u00e7\u00e3o: arte no sentido est\u00e9tico da subvers\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center\"><em>Criatividade e ousadia denunciam o abandono dos locais<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">As noites de Ponta Grossa s\u00e3o bonitas para alguns, mas para outros \u00e9 um ambiente\u00a0 para fazer desenhos, riscos e outros registros nos muros e fachadas. Al\u00e9m do prazer, existe o perigo do enquadro da pol\u00edcia ou de algum seguran\u00e7a que impe\u00e7a a produ\u00e7\u00e3o de grafites e picha\u00e7\u00f5es. Mesmo com a coibi\u00e7\u00e3o, \u00e9 inevit\u00e1vel que de um dia para o outro uma parede rec\u00e9m-pintada, como a fachada do campus central da UEPG, apare\u00e7a com as marcas da noite. Em Ponta Grossa, grafitar \u00e9 ousadia para os fortes.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">\u201cCara, vou contar duas hist\u00f3rias. A primeira \u00e9 mais engra\u00e7ada. Um dia, eu e um amigo est\u00e1vamos dando um rol\u00ea pelo centro da cidade e, por algum motivo, come\u00e7amos &#8211; a gente tava b\u00eabado, na real &#8211; escrever frases que n\u00e3o tinham nada ver, tipo a gente pichou S\u00e9rgio Reis, \u201cport\u00e3o\u201d num port\u00e3o e, na frente de um col\u00e9gio particular da cidade, pichamos um \u201cvamos estuda\u201d. Virou um meme entre os alunos do col\u00e9gio. Um conhecido que trabalha l\u00e1 nos contou que os alunos usavam essa imagem como um motivacional, sabe?! \u2018Ah, tem que estudar pra n\u00e3o fazer isso\u2019. Nesse dia a gente acabou perdendo algumas latas porque no meio do rol\u00ea encontramos a pol\u00edcia. Tivemos a m\u00e3o e o bra\u00e7o inteiro pichado, eles jogaram fora nossas latas. Mas s\u00e3o coisas que acontecem, \u00e9 mais rotineiro do que parece. Como n\u00e3o nos pegaram em flagrante, n\u00e3o podiam fazer nada al\u00e9m disso.\u201d<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Esses flagrantes comuns do relato do pichador FLD conversam com a origem da cultura hip hop nos EUA e o conflito hist\u00f3rico com o poder p\u00fablico, como mostra o document\u00e1rio &#8220;Style Wars&#8221;(1983). Na m\u00fasica, na dan\u00e7a ou nos registros em grandes letras coloridas, esses embates se repetem. Seja na realidade exterior ou na pontagrossense, como narra a pr\u00f3xima hist\u00f3ria ocorrida nos trilhos dos trens que o pichador nos conta.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Na chuva para se molhar<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">\u201cUma vez a gente foi fazer um rol\u00ea nos trilhos do trem da ALL, normal aqui em Ponta Grossa que tem muito trilho e trens parados; famoso rol\u00ea andante. Tinhamos uma c\u00e2mera Gopro gravando de um lado e eu fotografando pra recorda\u00e7\u00e3o, \u00e9 sempre uma hist\u00f3ria.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">As empresas de trem t\u00eam uns seguran\u00e7as que s\u00e3o armados e a gente deu azar de dois nos acharem quando est\u00e1vamos indo embora. Foi esculachado, real, com tapa na cara, perda das tintas e eles s\u00f3 n\u00e3o levaram as c\u00e2meras porque a gente podia denunciar. Mas quebraram os cart\u00f5es de mem\u00f3ria. Foram uns quarenta, cinquenta minutos tomando tapa na chuva. Mas acontece, n\u00e9? A gente t\u00e1 na chuva pra se molhar, literalmente.\u201d<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Picho \u00e9 arte<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">FLD, um pseud\u00f4nimo, n\u00e3o cita seu nome de batismo, mas come\u00e7ou a pichar em 2009 aos 17 anos por influ\u00eancia dos amigos do hip-hop. O pichador relata que a fam\u00edlia nunca soube de sua atividade art\u00edstica, e que alguns amigos achavam besteira perder tempo fazendo registros em muros e fachadas.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Sobre os objetivos das letras pichadas pela cidade, \u201c\u00e9 para ser reconhecido. Tanto que existe diferen\u00e7a entre os pichos das cidades: o de Ponta Grossa \u00e9 diferente do picho de Curitiba, de S\u00e3o Paulo, de Belo Horizonte, do Rio de Janeiro ou de Porto Alegre. Cada regi\u00e3o tem uma forma diferente de se expressar\u201d.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">\u201cO picho de Ponta Grossa se assemelha muito ao de S\u00e3o Paulo, um tra\u00e7o mais reto, mais fino e agressivo. Na real, ele \u00e9 uma mistura do picho de S\u00e3o Paulo e de Curitiba, que s\u00e3o cidades que a galera tem muita envolv\u00eancia por causa do hip-hop e tal. S\u00e3o Paulo \u00e9 o ber\u00e7o do hip-hop nacional e Curitiba n\u00e3o se influencia pela proximidade. S\u00e3o pichos mais retos, com spray normal, um ou outro que usa o fat cap, um com o spray mais aberto na ponta. Para pichar em Ponta Grossa, geralmente vamos na parte mais alta do pr\u00e9dio ou na parte mais baixa, como uma esquina\u201d.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">O pichador complementa que, al\u00e9m das siglas, h\u00e1 frases que podem indicar letras de m\u00fasicas, declara\u00e7\u00f5es ou protestos. \u201cUma muito conhecida \u00e9 a do Rappa: \u2018todo cambur\u00e3o tem um pouco de navio negreiro\u2019, que se usa para expor essa realidade\u201d. O pichador comenta que a criminaliza\u00e7\u00e3o \u00e9 apenas pela est\u00e9tica. \u201cMostra que o pessoal n\u00e3o entende o que \u00e9\u201d.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Pode ser considerado arte?<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Segundo \u00c1lvaro da Fonseca, professor de arte, \u00e9 muito dif\u00edcil defini-la. Ela pode abranger uma imensa gama de manifesta\u00e7\u00f5es e muitos artistas j\u00e1 a demarcaram pluralmente. Fonseca acredita que arte \u00e9 uma linguagem instrumentalizada para a express\u00e3o. \u201c\u00c9 uma necessidade do ser humano se comunicar, deixar s\u00edmbolos, fazer pinturas e desenhos. Ent\u00e3o, se utiliza a arte como uma ferramenta de comunica\u00e7\u00e3o\u201d.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Para o professor, a picha\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 considerada arte pela maioria da popula\u00e7\u00e3o porque n\u00e3o \u00e9 convencional. \u201cN\u00f3s aprendemos na escola o que \u00e9 arte atrav\u00e9s de exemplos gregos e europeus. Isso nos faz pensar de modo geral que ela \u00e9 algo que entendemos como esteticamente belo e compreens\u00edvel\u201d.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Fonseca ainda afirma que o objetivo da arte vai al\u00e9m da beleza, ela tira as pessoas do comodismo. \u201cA picha\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m pode ser uma arte mesmo que incompreendida, e deve estar inserida em determinados contextos\u201d.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">De acordo com o professor, a picha\u00e7\u00e3o vai estar em lugares que as pessoas n\u00e3o querem que ela esteja, como a Esta\u00e7\u00e3o Arte, pichada devido ao abandono. \u201cEla \u00e9 uma v\u00e1lvula de escape e tamb\u00e9m uma agress\u00e3o \u00e0 sociedade, um dedo na ferida. Se voc\u00ea n\u00e3o quer que ela apare\u00e7a, cuide dos lugares. Por exemplo, se voc\u00ea tiver um lugar grafitado, ele n\u00e3o vai ser pichado, pois \u00e9 respeitado dentro de uma linguagem entendida pela periferia\u201d.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Grafite<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Carlos Leandro de Freitas, de 41 anos, trabalha com grafite desde 2001. Quando come\u00e7ou, a fam\u00edlia ficou apreensiva. Acreditavam que aquilo n\u00e3o valia a pena, mas hoje aceitam tranquilamente. \u201c<\/span><span style=\"font-weight: 400\">Sempre tem pessoas que confundem a arte com algo que n\u00e3o importa, que \u00e9 de bandido\u201d.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Assinando como Leboard, seus grafites t\u00eam como carater\u00edstica rostos de pessoas. Ele alega grafitar apenas em locais com autoriza\u00e7\u00e3o e interessantes para visualiza\u00e7\u00e3o, por onde passam diversas pessoas.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Para ele, falta apoio para a arte do grafite em Ponta Grossa. \u201cO grafite n\u00e3o tem apoio; se voc\u00ea quiser pintar na rua, vai gastar do teu bolso, n\u00e9? S\u00f3 quando tem algum evento que trocam uma ideia com a gente, a secretaria de Cultura ou o pessoal da prefeitura. De vez em quando, isso acontece\u201d.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Ficha t\u00e9cnica:<\/strong><\/p>\n<p><strong>Reportagem e fotos:<\/strong> Ana Paula Almeida<\/p>\n<p><strong>Edi\u00e7\u00e3o:<\/strong>\u00a0Yuri A.F. Marcinik<\/p>\n<p><strong>Supervis\u00e3o de produ\u00e7\u00e3o:<\/strong>\u00a0Marcos Zibordi<\/p>\n<p><strong>Supervis\u00e3o de publica\u00e7\u00e3o:<\/strong>\u00a0Candida de Oliveira e Muriel E. P. Amaral<\/p>\n\n\t\t<style type=\"text\/css\">\n\t\t\t#gallery-1 {\n\t\t\t\tmargin: auto;\n\t\t\t}\n\t\t\t#gallery-1 .gallery-item {\n\t\t\t\tfloat: left;\n\t\t\t\tmargin-top: 10px;\n\t\t\t\ttext-align: center;\n\t\t\t\twidth: 33%;\n\t\t\t}\n\t\t\t#gallery-1 img {\n\t\t\t\tborder: 2px solid #cfcfcf;\n\t\t\t}\n\t\t\t#gallery-1 .gallery-caption {\n\t\t\t\tmargin-left: 0;\n\t\t\t}\n\t\t\t\/* see gallery_shortcode() in wp-includes\/media.php *\/\n\t\t<\/style>\n\t\t<div id='gallery-1' class='gallery galleryid-761 gallery-columns-3 gallery-size-thumbnail'><dl class='gallery-item'>\n\t\t\t<dt class='gallery-icon landscape'>\n\t\t\t\t<a href='https:\/\/www2.uepg.br\/nuntiare\/pichacao-arte-no-sentido-estetico-da-subversao\/img_20220624_172036905\/'><img width=\"150\" height=\"150\" src=\"https:\/\/www2.uepg.br\/nuntiare\/wp-content\/uploads\/sites\/236\/2022\/08\/IMG_20220624_172036905-150x150.jpg\" class=\"attachment-thumbnail size-thumbnail\" alt=\"\" \/><\/a>\n\t\t\t<\/dt><\/dl><dl class='gallery-item'>\n\t\t\t<dt class='gallery-icon landscape'>\n\t\t\t\t<a href='https:\/\/www2.uepg.br\/nuntiare\/pichacao-arte-no-sentido-estetico-da-subversao\/img_20220624_172015392\/'><img width=\"150\" height=\"150\" src=\"https:\/\/www2.uepg.br\/nuntiare\/wp-content\/uploads\/sites\/236\/2022\/08\/IMG_20220624_172015392-150x150.jpg\" class=\"attachment-thumbnail size-thumbnail\" alt=\"\" \/><\/a>\n\t\t\t<\/dt><\/dl><dl class='gallery-item'>\n\t\t\t<dt class='gallery-icon landscape'>\n\t\t\t\t<a href='https:\/\/www2.uepg.br\/nuntiare\/pichacao-arte-no-sentido-estetico-da-subversao\/img_20220621_171435017-copy\/'><img width=\"150\" height=\"150\" src=\"https:\/\/www2.uepg.br\/nuntiare\/wp-content\/uploads\/sites\/236\/2022\/08\/IMG_20220621_171435017-Copy-150x150.jpg\" class=\"attachment-thumbnail size-thumbnail\" alt=\"\" \/><\/a>\n\t\t\t<\/dt><\/dl><br style=\"clear: both\" \/>\n\t\t<\/div>\n\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Criatividade e ousadia denunciam o abandono dos locais &nbsp; As noites de Ponta Grossa s\u00e3o bonitas para alguns, mas para outros \u00e9 um ambiente\u00a0 para fazer desenhos, riscos e outros registros nos muros e fachadas. 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