{"id":317,"date":"2025-08-06T10:38:41","date_gmt":"2025-08-06T13:38:41","guid":{"rendered":"https:\/\/www2.uepg.br\/pauta-ambiental\/?p=317"},"modified":"2026-04-29T08:17:03","modified_gmt":"2026-04-29T11:17:03","slug":"em-ponta-grossa-todo-o-processo-de-urbanizacao-e-danoso-do-ponto-de-vista-climatico-avalia-gilson-cruz","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www2.uepg.br\/pauta-ambiental\/em-ponta-grossa-todo-o-processo-de-urbanizacao-e-danoso-do-ponto-de-vista-climatico-avalia-gilson-cruz\/","title":{"rendered":"\u201cEm Ponta Grossa, todo o processo de urbaniza\u00e7\u00e3o \u00e9 danoso do ponto de vista clim\u00e1tico\u201d, avalia Gilson Cruz"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_318\" style=\"width: 310px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"https:\/\/www2.uepg.br\/pauta-ambiental\/wp-content\/uploads\/sites\/287\/2025\/08\/1000528074.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-318\" loading=\"lazy\" class=\"size-medium wp-image-318\" src=\"https:\/\/www2.uepg.br\/pauta-ambiental\/wp-content\/uploads\/sites\/287\/2025\/08\/1000528074-300x239.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"239\" srcset=\"https:\/\/www2.uepg.br\/pauta-ambiental\/wp-content\/uploads\/sites\/287\/2025\/08\/1000528074-300x239.jpg 300w, https:\/\/www2.uepg.br\/pauta-ambiental\/wp-content\/uploads\/sites\/287\/2025\/08\/1000528074-1024x817.jpg 1024w, https:\/\/www2.uepg.br\/pauta-ambiental\/wp-content\/uploads\/sites\/287\/2025\/08\/1000528074-768x612.jpg 768w, https:\/\/www2.uepg.br\/pauta-ambiental\/wp-content\/uploads\/sites\/287\/2025\/08\/1000528074-1536x1225.jpg 1536w, https:\/\/www2.uepg.br\/pauta-ambiental\/wp-content\/uploads\/sites\/287\/2025\/08\/1000528074-1232x983.jpg 1232w, https:\/\/www2.uepg.br\/pauta-ambiental\/wp-content\/uploads\/sites\/287\/2025\/08\/1000528074-1354x1080.jpg 1354w, https:\/\/www2.uepg.br\/pauta-ambiental\/wp-content\/uploads\/sites\/287\/2025\/08\/1000528074.jpg 1600w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-318\" class=\"wp-caption-text\"><strong>Prof. Gilson Cruz. Foto: Pedro Moro<\/strong><\/p><\/div>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">O professor Gilson Campos Ferreira da Cruz, do Departamento\u00a0 de Geoci\u00eancias da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), que h\u00e1 23 anos pesquisa sobre o clima, explica em entrevista exclusiva ao <\/span><b><i>Pauta Ambiental<\/i><\/b><span style=\"font-weight: 400\">\u00a0 como o processo de urbaniza\u00e7\u00e3o impacta o clima. Segundo o pesquisador, \u201cPonta Grossa \u00e9 uma cidade espalhada. Quanto mais voc\u00ea espalha a cidade, mais \u00e1reas voc\u00ea ocupa, mais voc\u00ea transforma essa paisagem. Mais voc\u00ea substitui \u00e1reas verdes por \u00e1reas constru\u00eddas. Nessa substitui\u00e7\u00e3o, a gente provoca a mudan\u00e7a do clima local. Ent\u00e3o a gente cria um clima quando a gente constr\u00f3i a cidade\u201d.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Doutor em Geografia F\u00edsica, pela Universidade de S\u00e3o Paulo (USP), em 2009, com doutorado sandu\u00edche na Universidade de Lisboa, Gilson Cruz integra o projeto Novos Arranjos de Pesquisa e Inova\u00e7\u00e3o (NAPI) &#8211; Emerg\u00eancia Clim\u00e1tica, que envolve as sete Universidades Estaduais do Paran\u00e1, IBGE, PUC-PR e UFPR, com recursos financeiros da Funda\u00e7\u00e3o Arauc\u00e1ria.\u00a0\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Gilson Cruz tamb\u00e9m \u00e9 criador e coordenador da Esta\u00e7\u00e3o Meteorol\u00f3gica e do Laborat\u00f3rio de Climatologia e Estudos Ambientais da UEPG. Na entrevista ao <\/span><b><i>Pauta Ambiental, <\/i><\/b><span style=\"font-weight: 400\">servi\u00e7o de extens\u00e3o em Jornalismo da UEPG, o professor falou sobre as mudan\u00e7as e como elas desencadeiam desastres naturais. O pesquisador ainda explicou quais as mudan\u00e7as e desastres prop\u00edcios para a cidade de Ponta Grossa. <\/span><span style=\"font-weight: 400\">Confira a primeira parte da entrevista.\u00a0<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Quais a\u00e7\u00f5es podem ser tomadas para melhorar a situa\u00e7\u00e3o clim\u00e1tica, n\u00e3o s\u00f3 de Ponta Grossa, mas do Estado, do Brasil e do mundo?\u00a0<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Eu sempre digo que a mudan\u00e7a clim\u00e1tica pode ser global, mas ela come\u00e7a no local. No momento que queimamos gasolina, \u00f3leo, combust\u00edveis f\u00f3sseis nos autom\u00f3veis, nos \u00f4nibus, no meio de transporte, na ind\u00fastria, n\u00f3s individualmente e enquanto ind\u00fastria, empresa de transporte, estamos contribuindo para o aquecimento global e para a mudan\u00e7a clim\u00e1tica global.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Essa mudan\u00e7a clim\u00e1tica come\u00e7a no local. Quando a gente constr\u00f3i as cidades, a gente remove vegeta\u00e7\u00e3o. Muitas vezes a pessoa nem percebe. Ela j\u00e1 nasce dentro de uma cidade, \u00e0s vezes grande. Ent\u00e3o, ela n\u00e3o tem nem essa percep\u00e7\u00e3o de que um dia aquilo foi uma mata ou foi um campo. A cidade de hoje \u00e9 resultado da substitui\u00e7\u00e3o de um ambiente natural, com vegeta\u00e7\u00e3o natural para um ambiente artificial produzido pelo homem.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Isso resultou em mudan\u00e7a clim\u00e1tica. Por exemplo, quando Ponta Grossa foi constru\u00edda ou \u00e0 medida que ela vai crescendo, a gente abre um novo loteamento, derruba a mata, ocupa um espa\u00e7o natural novamente, gera uma mudan\u00e7a clim\u00e1tica naquele momento. Depois,\u00a0 essa mudan\u00e7a clim\u00e1tica fica estabelecida, consolidada. Ela n\u00e3o volta mais para as condi\u00e7\u00f5es naturais. L\u00f3gico que depende do tamanho das cidades. Mas, de uma maneira geral, as \u00e1reas urbanas s\u00e3o respons\u00e1veis por diferentes aspectos das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas. Seja pela mudan\u00e7a no uso do solo, pela substitui\u00e7\u00e3o das matas, pela queima dos combust\u00edveis f\u00f3sseis, pela produ\u00e7\u00e3o de res\u00edduos, que vai resultar nos lix\u00f5es, em metano na atmosfera, que s\u00e3o gases <\/span><span style=\"font-weight: 400\">do efeito estufa, e o di\u00f3xido de <\/span><span style=\"font-weight: 400\">carbono, no caso dos combust\u00edveis f\u00f3sseis.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A emerg\u00eancia clim\u00e1tica que estamos vivendo hoje n\u00e3o tem como a gente parar. O que vem acontecendo, que vai acontecer nesses pr\u00f3ximos anos, isso n\u00e3o muda mais. Vamos ter que nos adaptar. Ent\u00e3o, a gente precisa tornar as cidades mais resilientes, tornar as pessoas mais resilientes, mais preparadas para coisas como a enchente do Rio Grande do Sul, por exemplo, para a enchente daqui.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A gente precisa ter sistemas de alerta, fazer pesquisas, monitorar dados. \u00c9 preciso disparar alertas para que as pessoas n\u00e3o sejam surpreendidas pelas \u00e1guas, pelas cheias. Os ventos s\u00e3o mais complexos, mas \u00e9 preciso estudar, medir, analisar os ventos, entender essa din\u00e2mica dos ventos. O vento, quando ele entra na cidade, toma dire\u00e7\u00f5es totalmente aleat\u00f3rias, diferentes do que \u00e9 o vento natural.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Ent\u00e3o a gente precisa entender tudo isso para que a popula\u00e7\u00e3o sofra menos, tenha menos impacto. Precisamos pensar em constru\u00e7\u00f5es mais inteligentes, constru\u00e7\u00f5es sustent\u00e1veis, que a gente use menos energia. Quando a gente pensa em como posso reduzir o meu consumo de combust\u00edveis f\u00f3sseis, \u00e9 reduzindo o consumo de energia, diminuindo toda essa cadeia do processo industrial, embalagens descart\u00e1veis, tudo isso. Precisamos, nos dias de hoje, nos adaptar. Para o futuro, precisa mudar a matriz energ\u00e9tica, passar a utilizar combust\u00edveis menos agressivos, ser poss\u00edvel evitar os combust\u00edveis f\u00f3sseis, porque a queima dos combust\u00edveis f\u00f3sseis \u00e9 o grande respons\u00e1vel para o efeito estufa.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Ent\u00e3o, precisa de a\u00e7\u00f5es, desde a escala local, desde o indiv\u00edduo. A gente precisa atuar em todas as linhas e na educa\u00e7\u00e3o do povo como um todo. A gente vai conseguir mudar isso na esfera pol\u00edtica, naqueles que tomam a decis\u00e3o, atuando aqui, na base, porque um dia essas pessoas v\u00e3o passar ou passaram pelo sistema da educa\u00e7\u00e3o. Quando a gente consegue atingi-los, a gente consegue mudar essa hist\u00f3ria.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Uma das minhas perguntas era justamente isso. Como que a urbaniza\u00e7\u00e3o, o processo de urbaniza\u00e7\u00e3o, afeta o meio ambiente e a quest\u00e3o clim\u00e1tica? E como o senhor avalia essa situa\u00e7\u00e3o em Ponta Grossa?\u00a0<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Tem muita coisa para se falar sobre essa rela\u00e7\u00e3o da cidade com o ambiente, da cidade com o clima e as mudan\u00e7as que a gente provoca. Uma cidade como Ponta Grossa, por exemplo, que tem caracter\u00edsticas diferenciadas em rela\u00e7\u00e3o a outras cidades do mesmo porte, e uma dessas caracter\u00edsticas \u00e9 o fato da cidade estar num alto. Temos v\u00e1rios arroios, v\u00e1rios rios que nascem a partir desse centro da cidade. E o que Ponta Grossa foi fazendo com esses arroios? Ela foi transformando esses arroios em esgoto, historicamente isso aconteceu.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Com o passar do tempo, isso melhorou. Essas condi\u00e7\u00f5es mudaram at\u00e9 por toda a luta que a gente vem fazendo em fun\u00e7\u00e3o das quest\u00f5es ambientais. Desde a d\u00e9cada de [19]70, [19] 80, que a gente vem discutindo e trabalhando para que deixasse de existir os lix\u00f5es a c\u00e9u aberto, para que deixasse de poluir os arroios, os rios. Quer dizer, essa luta l\u00e1 de 40, 50 anos atr\u00e1s surtiu um certo efeito. Ponta Grossa melhorou bastante, mas praticamente todos esses arroios que nascem no centro da cidade \u2013 s\u00e3o mais ou menos em torno de nove e, se a gente levar em considera\u00e7\u00e3o o centro expandido, seria algo em torno de uns 12 a 13 arroios \u2013 est\u00e3o todos polu\u00eddos. Uns mais, outros menos, mas est\u00e3o todos polu\u00eddos.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">No impacto ambiental, quando a gente olha para Ponta Grossa, o bairro de Uvaranas, onde est\u00e1 o campus da Universidade [UEPG], \u00e9 um bairro que est\u00e1 todo voltado para abastecer o Rio Verde, que \u00e9 um rio de um tamanho razo\u00e1vel. Os afluentes da esquerda do rio come\u00e7aram a ser polu\u00eddos quando nasceu a cidade.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">O arroio Pil\u00e3o de Pedra, que \u00e9 um dos arroios afluentes do Rio Verde, nasce embaixo da Pra\u00e7a Bar\u00e3o do Rio Branco. Quando a cidade nasceu, ela j\u00e1 nasceu comprometendo a bacia do Rio Verde. E a bacia do Rio Verde pega todo esse lado do bairro Uvaranas.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Veja o quanto a gente vem comprometendo a bacia do Rio Verde. Isso para falar de uma das bacias hidrogr\u00e1ficas extremamente atingida, polu\u00edda, contaminada pelo processo de urbaniza\u00e7\u00e3o. Esse processo de urbaniza\u00e7\u00e3o, que come\u00e7ou bem devagar no centro, se espalhou para o lado do Uvaranas e para todos os outros lados da cidade.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">E os rios foram sendo cada vez mais contaminados. Essa \u00e9 uma primeira forma de a gente olhar para essa quest\u00e3o de urbaniza\u00e7\u00e3o e do impacto ambiental. Mas se olharmos para a cidade e a quest\u00e3o do clima, cada vez todo o processo de urbaniza\u00e7\u00e3o \u00e9 danoso do ponto de vista clim\u00e1tico.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Ponta Grossa \u00e9 uma cidade espalhada. Quanto mais voc\u00ea espalha a cidade, mais \u00e1reas voc\u00ea ocupa, mais voc\u00ea transforma essa paisagem. Mais voc\u00ea substitui \u00e1reas verdes por \u00e1reas constru\u00eddas. Nessa substitui\u00e7\u00e3o, a gente provoca a mudan\u00e7a do clima local. Ent\u00e3o a gente cria um clima quando a gente constr\u00f3i a cidade.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">E Ponta Grossa n\u00e3o fez diferente. O processo de verticaliza\u00e7\u00e3o que vem acontecendo agora mais recentemente \u2013 e tem aumentado os pr\u00e9dios em Ponta Grossa \u2013 provoca uma s\u00e9rie de outras consequ\u00eancias clim\u00e1ticas, mudando a dire\u00e7\u00e3o do vento, a velocidade do vento, a temperatura no entorno dos pr\u00e9dios, aumentando \u00e1reas de sombra. Ent\u00e3o, existem impactos no entorno desses edif\u00edcios e impactos destes edif\u00edcios, que se prolongam para \u00e1reas bem extensas da cidade.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Nem a urbaniza\u00e7\u00e3o, nem o processo de expans\u00e3o horizontal \u00e9 bom e nem o processo de expans\u00e3o vertical \u00e9 bom. Mas \u00e9 necess\u00e1rio. Dependemos de tudo isso para viver.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Ningu\u00e9m quer mais morar nos matos. \u00c9 verdade. Todo mundo quer morar na cidade.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">E quanto mais asfaltada, quanto mais pavimentada, melhor. S\u00f3 que, do ponto de vista ambiental, \u00e9 pior.\u00a0<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Como as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas desencadeiam desastres naturais? Por exemplo, no Rio Grande do Sul, a gente viu as enchentes. Aqui a gente tem bastante epis\u00f3dios de ventanias que acabam destelhando casas etc. Poderia explicar qual \u00e9 a caracter\u00edstica de Ponta Grossa e como essas mudan\u00e7as clim\u00e1ticas impactam e desencadeiam mais\u00a0 desastres como esses?<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Ponta Grossa \u00e9 naturalmente Ponta Grossa pela proximidade que ela tem da Escarpa Devoniana. Quando a gente vai para a Itaiacoca, a gente est\u00e1 indo para a Escarpa Devoniana. Em torno de 15 quil\u00f4metros daqui.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">\u00c9 uma regi\u00e3o de ventos. A gente tem uma condi\u00e7\u00e3o de localiza\u00e7\u00e3o em termos de altitude, de posi\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 serra, \u00e0 escarpa que \u00e9 uma posi\u00e7\u00e3o que favorece os ventos. Do ponto de vista natural, isso vai acontecer.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">\u00c0 medida que se tem a cidade nos pontos mais altos, como o centro, a avenida Carlos Cavalcanti, que vai para o Uvaranas, a avenida que vai para a Nova R\u00fassia e a que vai para a Oficinas, s\u00e3o todas vias em pontos altos da cidade. Esses pontos altos da cidade, naturalmente, eles teriam uma din\u00e2mica de aquecer durante o dia. Essas \u00e1reas mais altas t\u00eam uma tend\u00eancia de ficarem mais aquecidas. Isso faz com que tenha ventos que v\u00e3o soprar da periferia, do entorno da cidade para dentro da cidade.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Quanto mais vou intensificando isso, maiores v\u00e3o ser os impactos e mais me aproximo de eventos extremos. Soma-se isso com as din\u00e2micas clim\u00e1ticas que n\u00f3s temos aqui, de entradas de massas de ar fria, forma\u00e7\u00e3o de frentes frias. Tudo isso vai potencializar eventos com ventos fortes, o destelhamento de constru\u00e7\u00f5es e que n\u00e3o escolhe muito onde. Depende muito mais dos sistemas regionais, dos sistemas de macro escala para que a gente tenha, por exemplo, esses ventos atuando na Nova R\u00fassia ou atuando em Oficinas, ou mais para o lado de Uvaranas. A gente sempre diz que a atmosfera, do ponto de vista clim\u00e1tico, \u00e9 um caos, ela \u00e9 ca\u00f3tica.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Nesse sentido, quanto mais eu crio condi\u00e7\u00f5es para alimentar esses sistemas locais, dou muni\u00e7\u00e3o, eu crio uma condi\u00e7\u00e3o para que eventos extremos, para desastres naturais, relacionados principalmente com o vento. Mas tamb\u00e9m tivemos epis\u00f3dios no passado de inunda\u00e7\u00f5es no Arroio da Ronda, no Madureira, na Palmeirinha. A Palmeirinha ainda tem alguns eventos de cheias que atingem a popula\u00e7\u00e3o, mas no passado atingia muito mais. Com o passar do tempo, as administra\u00e7\u00f5es do munic\u00edpio foram atuando para minimizar, resolver, retirar o pessoal das \u00e1reas de risco. Voc\u00ea consegue conviver com isso, se adaptar a essas condi\u00e7\u00f5es e ir se preparando cada vez mais, porque a tend\u00eancia, em termos de futuro, \u00e9 que esses eventos v\u00e3o se tornando cada vez mais fortes e mais frequentes. \u00c9 o que a gente espera do ponto de vista das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas. E a gente d\u00e1 a contribui\u00e7\u00e3o local. A gente vai aumentando esse processo de urbaniza\u00e7\u00e3o, asfaltando mais ruas, ampliando as \u00e1reas imperme\u00e1veis. Isso s\u00f3 acelera o escoamento superficial, altera os ventos e tudo mais.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Como o senhor observa o posicionamento do poder p\u00fablico, seja da Prefeitura local ou do Estado do Paran\u00e1, sobre a emerg\u00eancia clim\u00e1tica?\u00a0<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Existem quest\u00f5es dentro da \u00e1rea ambiental que est\u00e3o muito atreladas \u00e0s quest\u00f5es pol\u00edticas. Pol\u00edtica de munic\u00edpio, pol\u00edtica estadual e pol\u00edtica nacional tamb\u00e9m. \u00c0s vezes a gente n\u00e3o percebe, mas \u00e0s vezes deputados, vereadores alteram uma determinada lei e mudam toda a forma com que voc\u00ea vai lidar com a quest\u00e3o ambiental.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A gente vai encontrar hoje uma legisla\u00e7\u00e3o muito mais frouxa do que foi no passado. A gente come\u00e7a a ver algumas a\u00e7\u00f5es \u2013 pode ser discut\u00edvel se s\u00e3o a\u00e7\u00f5es que t\u00eam um custo-benef\u00edcio \u2013 que a gente sabe que v\u00e3o resultar em impacto ambiental, que v\u00e3o aumentar os impactos ambientais, mas que acabam, muitas vezes, sendo legais por altera\u00e7\u00f5es na lei, para que, dentro dessa nova lei, aqueles empreendimentos pudessem ser realizados. Existem coisas positivas que aconteceram ao longo desse tempo. Estou h\u00e1 uns bons anos, atuando na \u00e1rea ambiental e na \u00e1rea clim\u00e1tica e n\u00e3o d\u00e1 para a gente negar que mudan\u00e7as ocorreram para o bem, inclusive.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Desde, por exemplo, a quest\u00e3o da varri\u00e7\u00e3o de rua no centro da cidade, que era uma coisa que n\u00e3o existia h\u00e1 40 anos atr\u00e1s. Isso foi se acrescentando a algumas a\u00e7\u00f5es, tornar a cidade um pouco mais limpa, diminuir a quantidade de lixo nas ruas, porque todo o lixo que a gente joga na rua, no centro, vai cair no Rio Verde. Toda polui\u00e7\u00e3o que acontece na cidade, em termos superficiais, ela acaba indo para um dos arroios ao entorno do centro.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Quando eu fiz o meu TCC de gradua\u00e7\u00e3o [1987], a gente tinha um lix\u00e3o a c\u00e9u aberto. Depois desse lix\u00e3o a c\u00e9u aberto, virou um aterro controlado. Hoje n\u00e3o temos aterro. Continuamos produzindo lixo e muito mais hoje do que produz\u00edamos no passado. Mas como encontrar uma outra forma de destino? Qual \u00e9 o custo de tudo isso,\u00a0 n\u00e3o s\u00f3 o custo financeiro, mas o custo ambiental? Na verdade, o caminho deveria ter sido, para a sociedade como um todo, reduzir a produ<\/span><span style=\"font-weight: 400\">\u00e7\u00e3o de res\u00edduos. <\/span><span style=\"font-weight: 400\">Esse deveria ser o aspecto principal, o ponto principal. Mas a gente n\u00e3o consegue reduzir os res\u00edduos, muito pelo contr\u00e1rio.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Ent\u00e3o, os munic\u00edpios precisam encontrar uma forma de conviver com isso. Ponta Grossa, dentro da op\u00e7\u00e3o que fez, conseguiu resolver em partes isso.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A gente sempre foi contra a quest\u00e3o da queima do lixo. Mas n\u00f3s temos agora uma empresa de biog\u00e1s, que faz a queima do lixo. Por que a gente sempre foi contra? Porque voc\u00ea resolve um problema e cria outro. Voc\u00ea passa a poluir o ar com gases que nem todos eles t\u00eam controle. Por mais que diga que est\u00e1 dentro das normas, est\u00e1 dentro do que \u00e9 permitido e tudo mais, existem coisas que acontecem no processo de queima que voc\u00ea muitas vezes n\u00e3o consegue controlar.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Tem o lado bom dessa hist\u00f3ria de queimar o lixo e tem o lado ruim tamb\u00e9m. Ent\u00e3o, depende dos caminhos que isso vai seguir. Existe um outro lado em toda essa quest\u00e3o de res\u00edduos.\u00a0 Por exemplo, Ponta Grossa tamb\u00e9m avan\u00e7ou nesse sentido, que \u00e9 a quest\u00e3o das associa\u00e7\u00f5es de catadores. Quando eu fiz a primeira pesquisa sobre res\u00edduos em Ponta Grossa, o pessoal catava no lix\u00e3o. Tinha gente que morava no lix\u00e3o, em cima do lix\u00e3o.\u00a0 E essa realidade foi mudando ao longo do tempo. Virou as primeiras cooperativas, depois viraram associa\u00e7\u00f5es. Esse modelo das associa\u00e7\u00f5es existe at\u00e9 hoje porque existem pessoas que dependem da cata\u00e7\u00e3o para viver.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Pessoas que est\u00e3o fora do mercado de trabalho, que n\u00e3o t\u00eam mais possibilidades de voltar para o mercado de trabalho e dependem da reciclagem. Uma das preocupa\u00e7\u00f5es quando a gente discutia a quest\u00e3o da queima de res\u00edduos era justamente isso.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Se voc\u00ea resolver queimar tudo que \u00e9 produzido lixo, inclusive os recicl\u00e1veis, que \u00e9 poss\u00edvel, voc\u00ea elimina essa possibilidade de renda dessa parte da popula\u00e7\u00e3o que est\u00e1 exclu\u00edda do mercado de trabalho. Ent\u00e3o, existem quest\u00f5es sociais, ambientais que se entrela\u00e7am em toda essa discuss\u00e3o.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Eu sempre defendi que Ponta Grossa deveria pagar para os catadores. E isso \u00e9 feito em alguns munic\u00edpios at\u00e9 menores, com um or\u00e7amento bem menor que Ponta Grossa. A cidade de Ventania paga para os catadores.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Al\u00e9m do catador receber pela comercializa\u00e7\u00e3o do res\u00edduo, ele recebe um pagamento da prefeitur<\/span><span style=\"font-weight: 400\">a. <\/span><span style=\"font-weight: 400\">N\u00e3o \u00e9 um sal\u00e1rio, porque ele n\u00e3o \u00e9 funcion\u00e1rio, mas \u00e9 uma bolsa, um repasse, que estabiliza a pessoa. A pessoa tem uma renda, independente das oscila\u00e7\u00f5es que ocorrem no mercado da reciclagem. Ventania tem, Palmital, na regi\u00e3o central do Estado, tem tamb\u00e9m.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Mas Ponta Grossa n\u00e3o tem. At\u00e9 tem a lei. Numa discuss\u00e3o que fiz, numa oportunidade, acabei conseguindo fazer com que um vereador colocasse o projeto em vota\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Foi aprovado, sancionado, mas disseram que n\u00e3o tinha verba, n\u00e3o tinha de onde tirar a verba para fazer o pagamento. A lei existe, mas ela n\u00e3o \u00e9 executada.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Os catadores desenvolvem um trabalho ambiental extremamente importante. A gente n\u00e3o consegue mensurar isso, mas o trabalho deles \u00e9 muito importante, em qualquer parte da cidade, no centro, na periferia. Deveriam receber por isso, mas n\u00e3o recebem.<\/span><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www2.uepg.br\/pauta-ambiental\/populacoes-mais-vulneraveis-vao-sentir-primeiro-e-mais-forte-os-efeitos-das-mudancas-climaticas-alerta-pesquisador-da-uepg\/\">Confira a segunda<span style=\"font-weight: 400\">\u00a0parte no site do <\/span><b><i>Pauta Ambiental<\/i><\/b><span style=\"font-weight: 400\">.\u00a0<\/span><\/a><\/p>\n<p><b>***<\/b><\/p>\n<p><b><i>Por Amanda Grzebielucka<\/i><\/b><i><span style=\"font-weight: 400\">, estudante do 3\u00ba ano de Jornalismo da UEPG, sob a orienta\u00e7\u00e3o da professora do Curso de Jornalismo da UEPG, Hebe Gon\u00e7alves, coordenadora do Servi\u00e7o de Extens\u00e3o <\/span><\/i><b><i>Pauta Ambiental.<\/i><\/b><\/p>\n<p><b><i>Foto: Pedro Moro, <\/i><\/b><i>estudante do 3\u00ba ano de Jornalismo da UEPG, bolsista <\/i><i>do <\/i><b><i>Pauta Ambiental\u00a0<\/i><\/b><\/p>\n<p><b><i>Esse conte\u00fado pode ser reproduzido, com devidos cr\u00e9ditos da autoria\/origem, na forma de incentivo ao projeto e estudantes.\u00a0\u00a0<\/i><\/b><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O professor Gilson Campos Ferreira da Cruz, do Departamento\u00a0 de Geoci\u00eancias da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), que h\u00e1 23 anos pesquisa sobre o clima, explica em entrevista exclusiva ao Pauta Ambiental\u00a0 como o processo de urbaniza\u00e7\u00e3o impacta o clima. 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