
O Brasil registrou 84.760 pessoas desaparecidas em 2025, em média 232 desaparecidos por dia.
Arquivo pessoal: Ivanise Esperidião
Fabiana Esperidião da Silva. Vista pela última vez dois dias antes do Natal de 1995, um sábado, às oito da noite, em Pirituba, distrito da zona noroeste de São Paulo, com uma população de aproximadamente 155 mil habitantes na época. Usava regata, shorts e chinelo. Desde então, não existem pistas que levem até o paradeiro dela. Hoje, Fabiana teria 42 anos, na época, apenas 13. Há 30 anos sua mãe, Ivanise Esperidião, procura justificativas em um destino incerto. Há duas décadas, Ivanise luta pela causa do desaparecimento no Brasil.
Falar de desaparecimento é como montar um quebra cabeça sem saber a imagem final. Fabiana e outros diversos casos são histórias individuais. Pessoas com seus respectivos cotidianos, vidas e relações. De repente, um mar de dúvidas: onde foi vista pela última vez? Quais roupas usava? Estava acompanhada?. Dentre elas, a que permanece: é possível encontrar respostas? A incerteza e os questionamentos fomentam uma busca incessante por algo que não se sabe como ocorreu e que não há um desfecho concreto.
A definição legal para desaparecimento é, segundo a Lei 13.812/2019, todo ser humano cujo paradeiro é desconhecido, até que sua localização e identificação sejam confirmadas. A Lei institui a Política Nacional de Busca de Pessoas Desaparecidas, que estabelece a busca por desaparecidos como prioridade nacional, em caráter de urgência. O registro de boletim de ocorrência não precisa aguardar 24 horas do desaparecimento para ser realizado.
Nos dois primeiros meses de 2026, desapareceram 12,4 mil pessoas no Brasil, segundo dados do Ministério da Justiça e Segurança Pública. O número de pessoas localizadas ficou em 8.017 no mesmo período. Fabiana é um dos rostos que foram ocultos pela incerteza de uma vida que parou no tempo. A garota, acompanhada por sua amiga Luciana, foi dar um feliz aniversário para uma terceira colega. O tempo era de chuva severa. Não se imaginava que dali surgiria um pesadelo que parecia não ter fim, e que talvez realmente não tenha.
Quando se fala que uma situação aconteceu em questão de horas, se imagina algo rápido, mas não que uma vida muda em questão de horas. Ou melhor, que uma vida tem seu futuro incerto em questão de horas. De repente, não se sabe onde, nem com quem está. É muito rápido e restam apenas as dúvidas, do porquê e do como. Em 1995, não havia celular, não havia a velocidade da internet de hoje. Será que, em algum momento, essa história poderia ter sido diferente?
No dia 23 de dezembro de 1995, na casa de Fabiana estavam apenas sua irmã, Fagna, e seu pai.
A Fabiana saiu de casa por volta das 20 horas, acompanhada de uma coleguinha que morava há três quadras da nossa casa. Elas foram visitar uma terceira colega, Damaris, que estava fazendo aniversário naquele dia. Não tinha festa, elas foram somente dar um abraço de parabéns na colega. Quando chegaram até a residência de Damaris, nem entraram porque estava se formando uma chuva, então apenas deram feliz aniversário do portão e voltaram. No caminho, cada uma seguiu em direção à sua casa e foi nesse trajeto que minha filha desapareceu. Eu não estava em casa na hora em que ela saiu, naquele dia nós tínhamos feito faxina e deixado tudo organizado para, no dia seguinte, comemorar o Natal. Essa era uma prática habitual nossa, então marquei com minha cabeleireira de arrumar meu cabelo no sábado, já que o salão não abria no domingo. Esperei no ponto de ônibus, ele demorou muito para passar, então na hora que consegui chegar lá, o salão estava fechado, e depois peguei o ônibus de volta. Desci no ponto e começaram aqueles trovões com pingos grossos de chuva. Entrei em casa e estava apenas a minha outra filha, Fagna, que explicou onde a Fabiana estava. Perguntei o porquê a Fagna não foi junto e ela me contou que Fabiana estava acompanhada de Luciana e logo estaria em casa. A chuva demorou umas duas horas para passar e, conforme ela ia aumentando, começou a me dar uma ansiedade muito grande. Quando a chuva parou um pouco, eu e Fagna fomos até a casa de Luciana, deduzi que Fabiana estava esperando lá, enquanto a chuva não passava para voltar para casa. Ao chegar lá falei que vim buscar a Fabiana, e Luciana respondeu ‘tia, a Fabiana não está aqui, ela foi embora faz tempo’.
O caminho que Fabiana percorreu era uma avenida reta chamada Raimundo Pereira de Magalhães, não havia outro caminho alternativo que ela pudesse ter feito. Horas depois, foi feito um mutirão de seis pessoas em busca dela, entre elas estavam, Ivanise, Fagna, Luciana, a mãe e irmã da amiga e a dona da casa onde Ivanise morava.
O relato acima é da mãe que vive pela incerteza, uma das mães. Um tempo que se perdeu nas mãos do destino. É o que resta para os familiares das vítimas de desaparecimento, uma vida repleta de “e se?”. E se tivesse sido diferente? E se eu estivesse em casa? E se minha atitude fosse outra? No entanto, a crença de encontrar respostas, seja em dias, meses ou anos, perdura até essa realidade vir à tona.
“Nem lembrei o que era o Natal, procurei pela minha filha dia e noite. No dia 26, fui em hospitais e IML à procura dela. Naquela época ninguém sabia o que era o fenômeno do desaparecimento, fui me degradando física e psicologicamente, chegando à beira da loucura. Nenhuma mãe está preparada para perder um filho dessa forma. A ferida não fecha, e tem dias que ela dói mais”, conta Ivanise.
Silêncio que grita
Esta é a primeira reportagem da série Arquivo invisível: as faces do desaparecimento no Brasil, que ao longo deste ano vai tratar sobre as vidas que foram interrompidas pelo fenômeno do desaparecimento e as consequências que isso acarreta física e psicologicamente. A causa já foi muito invisibilizada, hoje, torna-se luta de diversos familiares e pessoas que desdobram suas vidas para mantê-la ativa e reconhecida em todo território.
Esta reportagem integra a coletânea de livro-reportagem investigativo primeiro capítulo da série Arquivo Invisível: as faces do desaparecimento no Brasil. Acompanhe no Periódico a continuação.
Ficha técnica
Produção: Emanuelle Pasqualoto
Supervisão de produção: Hendryo André
Edição e publicação: Maria Eduarda Leme e Sarah Brasil
Supervisão de publicação: Aline Rosso e Kevin Kossar Furtado
