Sem salário e sem pausa: a rotina invisível das cuidadoras familiares

Mulheres representam 90% dos cuidadores informais do Brasil

Arte: Karine Santos e Marina Ranzani

Mulheres dedicam quase 10 horas semanais a mais ao trabalho de cuidado não remunerado que os homens, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios de 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (PNAD IBGE). É o caso de Adriana Lara (54), que dedicava quase todas as suas horas diárias ao trabalho de cuidado, sem nenhuma forma de remuneração pelo esforço. “Desde criança, quando meu avô faleceu, eu fiquei responsável pela minha avó”. Na vida adulta, Adriana foi a principal responsável por Alex Francisco, seu segundo filho, diagnosticado com paralisia cerebral.

Em março deste ano, o Governo do Paraná lançou o Cadastro do Cuidador Paranaense, durante a abertura do III Seminário Paraná Amigo da Pessoa Idosa.. A iniciativa busca mapear os cuidadores familiares do Paraná para disponibilizar auxílio. Um estudo conduzido por pesquisadoras da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR), revela que 90% dos cuidadores informais no Brasil são mulheres. Deste número, a maioria são como Adriana: filhas, cônjuges e netas, com idade média de 48 anos.

A carga de horas dedicadas é ainda maior entre mulheres negras, que chegam a dedicar o equivalente a quase um dia inteiro da semana, segundo o estudo Políticas para a Corresponsabilidade no Mundo do Trabalho, lançado pela Organização Internacional do Trabalho (OIT), em parceria com o Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome (MDS). De acordo com a Secretaria de Estado da Mulher, Igualdade Racial e Pessoa Idosa (Semipi), o Paraná foi o primeiro Estado brasileiro a transformar o cuidado em política pública por meio de lei.

Em 1996, Adriana eAdenilson Lara tiveram André, seu primeiro filho. Alex Francisco, nasceu dois anos depois. Existe, então, um porém: o casal possui incompatibilidade sanguínea e isso afetou diretamente o nascimento das duas crianças. “Eu sou B- e meu marido é A+. No primeiro nascimento, os médicos reconheceram o problema e fizeram a transfusão total de sangue, o que salvou a vida de André. Já no segundo, não houve esse processo e meufilho teve paralisia cerebral”. Quase dez anos depois, os pais de Francisco conseguiram provar na justiça que o erro foi do hospital e do médico responsável pelo parto. 

Desde o nascimento de Francisco, conhecido por  “Chicão”, a vida da família nunca mais foi a mesma. Adriana destaca a importância dos auxílios públicos no tratamento do filho. “Tive conhecimento do Hospital Sarah em Brasília, que atende pelo SUS. Para chegar lá, utilizei o Tratamento Fora do Domicílio”. A Rede Sarah de Hospitais de Reabilitação é uma instituição brasileira focada no tratamento de pacientes com lesões neurológicas e ortopédicas.  A Rede oferece atendimento gratuito de alta complexidade, integrado ao SUS. Já o Tratamento Fora do Domicílio (TFD), é um benefício do SUS que garante transporte, alimentação e hospedagem a pacientes que precisam de tratamento médico em outra cidade ou estado. A solicitação é feita via Secretaria Municipal de Saúde, mediante laudo médico e agendamento confirmado.

Mesmo com o apoio no tratamento do filho, Adriana nunca recebeu nenhum auxílio como cuidadora e não podia trabalhar, já que todo o tempo era dedicado ao cuidado. “Quando somos mãe, nos sentimos responsáveis, não pensamos em nós mesmas”. Segundo dados do IBGE, no Brasil mais de 2,5 milhões de mulheres deixam de trabalhar para cuidar de parentes ou realizar tarefas domésticas. Além dos cuidados com Francisco, Adriana também fazia as tarefas domésticas de casa. A mãe conta como era a rotina em meio aos dois filhos e à avó para auxiliar. “Eu acordava muito cedo, tomava um café reforçado,  porque não sabia se ia conseguir comer depois. Ficava o tempo todo à disposição do meu filho. Nas horas vagas, eu realizava as tarefas domésticas”, relata.

Assim como Adriana, Alesandra Machado também foi cuidadora não-remunerada por 11 anos. Com três filhos, um casal de gêmeos pequenos e uma filha mais velha, Alesandra também ficou responsável pelo cuidado da sogra, que teve a perna amputada por conta de uma infecção por bactéria hospitalar. “Eu não recebi nenhuma ajuda externa ou da família”, relata. Por ser dona de casa, a família delegava todas as atividades médicas para ela, o que envolvia acompanhamento em consultas, internações, medicamentos, exercícios da fisioterapia e curativos.

“Foi muito difícil,  porém não tinha outra pessoa que pudesse fazer isso, era meu dever”, diz. O casal de gêmeos de Alesandra ainda era recém-nascido. “Além do cuidado constante com minha sogra, eu me desdobrava em cuidar dos bebês, minha filha maior, afazeres domésticos e a cozinha”. Ela relata como o excesso de atividades comprometeu sua saúde. “Fiquei de cama muitas vezes por conta da exaustão, tanto física quanto emocional. No fim, quem fica doente é o cuidador”.

Arquivo pessoal: Adriana Lara.

 

Cadastro do cuidador paranaense

A nova ferramenta busca mapear e identificar quem são as pessoas que exercem o trabalho de cuidado no Paraná, e criar um banco de dados oficial que subsidiará políticas públicas de apoio. Para Adriana Lara o novo recurso é positivo. “Na minha época isso não existia e todo nosso dinheiro ia para o tratamento do Francisco”, observa. 

Alesandra reconhece a importância de incentivos como este, mas afirma a necessidade de profissionais no trabalho de cuidado. “Se eu tivesse ajuda de um profissional em casa com a minha sogra, seria mais fácil equilibrar minhas responsabilidades”. O preço médio de um cuidador de idosos profissional em 2026, gira em torno de R$1,6 mil a R$2 mil mensais em jornadas CLT de 40 a 44 horas semanais. Diárias de 12 horas costumam custar entre R$170 e R$200 para autônomos. 

O programa Bolsa Cuidador Familiar iniciou como teste em dezembro de 2025. Ele disponibiliza auxílio financeiro mensal de meio salário mínimo (R$810,50 em 2026) para os cuidadores de idosos paranaenses. De acordo com a Secretaria da Mulher, Igualdade Racial e Pessoa Idosa (Semipi), são vinte municípios beneficiados com 300 bolsas, totalizando quinze pagamentos por município. Atualmente, 141 pessoas estão recebendo o benefício, que integra o programa Paraná Amigo da Pessoa Idosa. Há previsão de ampliação do projeto conforme demanda. Os cuidadores já podem se cadastrar aqui.

O custo oculto do cotidiano

Esta é a primeira reportagem da série “O custo oculto do cotidiano”, que, ao longo de 2026, irá trazer a realidade do trabalho de cuidado não-remunerado aos holofotes. Busca-se valorizar esse trabalho essencial para a sociedade que possui pouco ou nenhum reconhecimento, e que é realizado, quase completamente, por mulheres. Em meio a casa limpa e a comida na mesa, vistos como afazeres da natureza feminina, é colocado em debate a desigualdade de gênero e o dever familiar.

Esta reportagem integra uma coletânea de livro-reportagem investigativo. Este capítulo trata das dificuldades do trabalho de cuidado não-remunerado. Acompanhe no Periódico as próximas publicações.

Ficha técnica

Produção: Amanda Los

Supervisão de produção: Hendryo André

Edição e publicação: Lorena Santana 

Supervisão de publicação: Aline Rosso e Kevin Kossar Furtado

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