À imagem e semelhança

Conheça a história de Maria Rosa Dias de Carvalho

Maria Rosa Dias de Carvalho Lourenço tem 66 anos, é casada com José Carlos de Oliveira Lourenço e passou por dois abortos espontâneos na juventude. Ela e o marido relatam a experiência de perdas gestacionais. Um  caso aconteceu em 1980 e outro em 1981, antes da criação do Sistema Único de Saúde. 

“Eu sentia cólicas e fui ao médico. Ele me deu remédio para segurar, para não abortar e, mesmo assim, eu perdi. Na segunda vez, já estavam formadas as mãozinhas, a cabeça já estava redondinha. As mãos e os dedos, bem firminhos. Eu peguei na mão”.

Maria explica que estava sozinha em casa, cuidando de afazeres domésticos, quando teve contrações. Ela não foi imediatamente ao hospital, e o marido estava trabalhando. As contrações, que na época Maria não entendia o que eram, continuavam. As dores aumentavam conforme ela caminhava até o sanitário. Ao sentar no assento, a mulher sentiu algo sair, em meio a mais dores e sangue. “Quando eu fiz esforço, veio. Arrebentei o cordão umbilical. Eu peguei na mão e fui na vizinha. Eles chamaram o pastor e ele me levou para o médico”.

Maria conta que ao chegar ao médico, ele não quis atendê-la. Foi preciso, segundo ela, que o marido buscasse na prefeitura uma “guia”, e uma declaração de pagamento do INSS para ser atendida. Só então ela foi internada para passar pelo processo de curetagem e raspagem do útero. Enquanto estava internada, Maria Rosa conta sobre um caso que ocorreu dentro do hospital: “Uma menina tinha ganhado criança, e eu escutei a enfermeira vir e dizer que ela queria deixar a criança no hospital. 

A mãe dela estava junto, concordando. Veio na minha cabeça: “eu podia dizer para ela que eu tô aqui, que queria o filho. E podia ter pegado a criança”. O casal relata que antes de ir ao médico e voltar dos três dias de internação, realizaram o enterro. 

“O Carlos enterrou ela no quintal da casa. Não tinha o que fazer. Eu coloquei numa caixinha de papelão. Isso foi há 43 anos. Eu tinha 22 anos na época; José Carlos, 19”.

 

A religião como resposta ao luto

À época o casal fazia parte da Igreja Cristianismo Decidido, denominação cristã evangélica centenária, de origem pietista e missionária. Por cerca de 55 anos, as igrejas eram dirigidas por missionários alemães, para um grupo, na sua maioria, de descendentes alemães. Aos 8 anos, Maria Rosa e suas irmãs foram adotadas por Friederick Dietz, missionário alemão que veio ao Brasil pela igreja. O então pastor esteve junto do casal após a perda, ele os ajudou com consolo e oração.

“Ele orou quando aconteceu a perda. Deus mostrou que é dono da vida, e nós somos à imagem e semelhança de Deus. Então, aquela não era a hora”.

Há 40 anos, os processos de “superação” e abordagem com casais que passavam por abortos espontâneos se baseavam em acolhimento familiar e pastoral. Maria Rosa explica que mulheres da igreja a visitaram no hospital, mas que depois de alguns meses, o assunto do aborto não era mais comentado. O casal acredita que tudo que acontece na vida é “provisão de Deus”, e todos nascem com um propósito. “Deus é soberano. Nós cremos nisso. E o pastor da igreja sempre foi aquele instrumento de Deus para falar as coisas para nós. Para orientar a Rosinha, para consolar”, afirma José Carlos.

 

Falta de informação e precarização do Sistema de Saúde

O Sistema Único de Saúde foi criado em 1988, pela Constituição Federal. O caso de aborto relatado na reportagem aconteceu em 1981. Todo o processo de chegada da mulher aconteceu, segundo ela, no centro do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) de Ponta Grossa. 

Segundo o livro 20 anos de pesquisas sobre aborto no Brasil, do Ministério Público, estudos com cortes populacionais da década de 1980 mostram que em 20 anos houve redução de até 50% no número de mulheres sem escolaridade com experiência de aborto. O livro também aborda que a ausência de um sistema universal de saúde estruturado até o fim dos anos 1980, somada à crise econômica, agravou as condições de saúde reprodutiva. Maria Rosa afirma que a precarização da saúde da época, a falta de auxílio e acompanhamento médico foram possíveis causas para a perda do bebê.

“Quando eu fui ao médico, quando eu tive o aborto, o médico não quis me atender lá. Quando eu fui fazer o pré-natal, eu estava com cólicas. Lá ele me deu remédio para não abortar. Mas ele não me atendeu com jeito, não orientou nada. Se eu tivesse alguma assistência, talvez tudo teria sido diferente”.

Durante os 20 anos de pesquisas citados no livro, a religiosidade é um tema superficialmente analisado nos estudos de base populacional e nos estudos qualitativos com grupos reduzidos de mulheres. Uma possível explicação é que a maioria dos estudos de base populacional foram realizados com dados de prontuários ou outras fontes documentais, e a informação sobre religião está ausente nas fontes.

Não há registro exato da quantidade de abortos  desde 1981, mas segundo o Datasus, foram registrados 40.434 casos em 1996 (primeiro ano registrado) e 24.364 em 2024 (último ano registrado),  o que representa a queda de 39,74%no número de abortos. 

Maria Rosa Dias de Carvalho Lourenço passou por três gestações saudáveis após as perdas gestacionais. Para os três filhos, a única complicação foi a falta de dilatação, o que resultou em três cesáreas. 

Esta reportagem integra uma coletânea de livro-reportagem investigativo. Este capítulo trata de abortos espontâneos e seus desdobramentos na comunidade evangélica. Acompanhe no Periódico as próximas publicações.

 

Ficha técnica

Produção: Eduarda Leal

Supervisão de produção: Hendryo André 

Edição e publicação: Nathália Stüpp, Roberto Indzejczak, Karine Santos e Sarah Brasil

Supervisão de publicação: Aline Rosso e Kevin Kossar Furtado

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