“Eu nunca vou poder esquecer isso, por mais que eu faça terapia, tudo sempre vai ser um gatilho”
Foto: Agência Brasil
Lohayne Senhorinha tinha apenas 14 anos quando se relacionava com um rapaz quase cinco anos mais velho. Ele se tornou seu namorado, e com palavras bonitas e frases encantadoras, fez a adolescente se apaixonar. Entretanto, essa fachada escondia uma personalidade obscura e não demorou muito para que demonstrasse seu verdadeiro lado.
O relacionamento durou dois anos, e nesse período Lohayne sofreu diversos abusos. “Eu era muito ingênua e muito nova; Ele me manipulava, me traia e eu deixava, não sabia como lidar com a situação.” Se reclamasse de algo que ele havia feito, apanhava, e casos como esse não eram poucos. “Em uma das situações, encontrei ele na cama com uma outra menina e quando tentei ir embora, ele me chutou e bati na parede, fiquei com um hematoma por semanas”, expõe.
A manipulação se tornou mais frequente. O relacionamento era um campo minado para os piores tipos de insultos por parte do agressor. “Ele falava tantas coisas sobre mim, sobre minha aparência, sobre como eu devia ser grata… Eu me sentia horrível”. Durante o período do relacionamento, Lohayne nunca se envolveu fisicamente com o rapaz. Ela tinha inseguranças com seu corpo e pavor sobre uma possível gravidez. Entretanto, sofria chantagens. ”Ele me manipulou a mandar fotos. Eu era muito insegura com meu corpo, sofria com alguns distúrbios alimentares, mas a pressão era maior do que a insegurança que eu sentia”, ressalta.
Durante o relacionamento, Lohayne se afastou de suas amigas. Sem a presença do pai e uma relação afetada com a mãe por conta de seu padrasto, não possuía uma rede de apoio. Isso escalou para a aproximação da adolescente com a família do agressor. “Uma vez a mãe dele viu um hematoma que ele havia me causado e simplesmente falou: ‘um dia para, o pai dele fazia o mesmo comigo’. Eu só pude pensar em quando isso aconteceria”.
Após muitos esforços, Lohayne conseguiu terminar o relacionamento com seu abusador, mas os resultados foram ameaças e manipulações. “Foi a noite mais amedrontadora da minha vida. Terminei por mensagem porque não tinha coragem de vê-lo pessoalmente. Eu tinha medo que ele me batesse”. O rapaz passou a ameaçá-la com as fotos que possuía, falando que iria publicá-las. Afirmava que ninguém a amaria se não fosse ele, e depois mudava a abordagem, insinuando que nunca faria isso com a adolescente, que ela era o amor de sua vida..
No dia seguinte ao término, ele pediu para vê-la, e em um impulso, movida pelo medo e por um resquício de amor que ainda sentia por seu agressor, Lohayne foi encontrá-lo em uma rodovia. O agressor apareceu com cortes: o nome da adolescente mutilado em seus braços. “Eu não entendia como ele poderia pensar que ver aquilo poderia me fazer mudar de ideia.
Ele só me deixou apavorada”. Após decidir que não retomaria o relacionamento, o rapaz disse que a deixaria pensar por uns dias. Por medo, a adolescente consentiu. “Quando cheguei em casa, vi ele passando pelo portão, dizendo que queria me acompanhar. Entrei correndo e fechei a porta”, afirma.
Dias depois, a vítima mandou mensagem para seu agressor, afirmando estar decidida sobre sua decisão. Ele a escutou, o que a deixou aliviada. O alívio durou pouco. Ela não sabia que o pior ainda estaria por vir. “Ele me disse para buscar minhas coisas em sua casa. Eu falei que não me sentia confortável e pedi para ele trazê-las ou que minha mãe buscasse.” Porém, o rapaz a convenceu, afirmando que deveria se despedir de seus pais. “Eu não sei porque aceitei, fui ingênua, foi minha pior decisão”.
Lohayne chegou à casa do rapaz, que estava vazia. “Ficamos sentados no sofá, minhas coisas estavam em uma sacola. Quando eu disse que iria embora, ele me puxou: ‘se você não vai mais ser minha, pelo menos isso ainda vai ser meu’”. Foram os piores momentos da vida de Lohayne, e não importa o quanto ela tenha tentado fazer com que ele parasse, nada adiantou.
Quando a agressão acabou, ele se vestiu e a mandou embora. Em choque, a adolescente saiu chorando e caminhou até uma rodovia. “Sentei em um ponto de ônibus, fiquei ali por horas e em algum momento cheguei a cogitar me jogar na frente de um caminhão”. Ao chegar em casa, sua mãe perguntou se estava bem, ela disse sim, mesmo sentindo o oposto. “Fui tomar banho, fiquei cheia de hematomas pela força com que ele me segurou. Me sentia suja, de dentro para fora. Me esfreguei tanto naquele dia que minha pele ficou vermelha”, ressalta.
Após o abuso, suas inseguranças e falta de confiança a levaram a vícios. Ela começou a beber e frequentar festas até que teve que passar por uma lavagem estomacal. Quando, enfim, contou o que sofreu para sua mãe, a resposta não foi a que esperava. “Eu queria apoio, mas recebi comentários sobre a minha falta de maturidade e sobre a falta de cuidados que tive”. Lohayne reforça que a estrutura familiar influencia muito na forma que uma mulher cresce e busca apoio. “Eu nunca tive a presença frequente do meu pai, então sempre procurei homens que me lembraram dele, o que não se demonstrou algo positivo”.
Após os abusos, Lohayne teve dificuldade em se relacionar com outras pessoas. Ela afirma que um dos maiores desafios é se abrir, e que sua aceitação e tratamento só foram possíveis através da terapia. “A pior parte de ser uma vítima de abuso é a culpa, o pensamento de que fui estúpida em deixar que isso acontecesse comigo, mas eu sei que não é verdade. Entretanto, é algo difícil de aceitar”. Lohayne, hoje, tem 20 anos e continua sua vida com resiliência. Faz terapia, cursa o ensino superior e luta suas batalhas um dia após o outro.
Dados sobre vidas violadas
O Brasil registrou, em 2025, um estupro a cada seis minutos; foram mais de 83 mil casos no país. Mais da metade das vítimas são crianças e adolescentes. Os principais autores dos crimes, na maioria das vezes, mantêm convívio próximo das vítimas; são familiares, conhecidos ou pessoas de confiança, como parceiros e cônjuges.
Dados divulgados pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP) e por organizações de direitos humanos mostram um cenário alarmante em relação à violência sexual infantojuvenil, especialmente nos casos de estupro de vulnerável. Em 2025, foram registrados 59.366 mil casos de violência sexual contra crianças e adolescentes, segundo o Atlas da Violência 2026, o que representa um crescimento de 204,5% na última década.
O MJSP ressaltou que o primeiro trimestre de 2026 também apresentou números preocupantes. Até maio, foram contabilizadas 13.462 mil ocorrências de estupro de vulnerável, o equivalente a uma média de 150 casos por dia. Os dados apontam ainda que cerca de 51% das vítimas de abuso infantil têm entre 1 e 5 anos de idade, demonstrando a extrema vulnerabilidade de crianças na primeira infância diante desse tipo de violência. Em relação ao perfil das vítimas, meninas são as mais afetadas: somente em 2025, mais de 50 mil vítimas eram do sexo feminino de acordo com o Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, número quase seis vezes maior do que o registrado entre vítimas do sexo masculino.

Foto: Sindicato Nacional Andes
Representação midiática
A série Ni una más (Não nos calaremos no Brasil) retrata a violência sexual a partir do ponto de vista de Alma, uma jovem de 17 anos que denuncia um assédio sexual na escola. A obra mostra como a violência acontece não apenas no ato físico, mas na chantagem e manipulações para que a vítima não denuncie. Ni una más se diferencia das demais obras sobre violência sexual por não expor cenas explicitas e longas do abuso e, principalmente, por não romantizá-la.
Esta reportagem integra uma coletânea de livro-reportagem. Este capítulo trata da violência sexual contra crianças e adolescentes. Leia o capítulo anterior aqui. Acompanhe no Periódico as próximas publicações.
Ficha técnica
Produção: Nathália Stüpp
Supervisão de produção: Janaíne Kronbauer
Edição e publicação: Emanueli Garcia e Yasmin Salgado
Supervisão de publicação: Aline Rosso e Kevin Kossar Furtado
