A leitura, nem sempre, é para todos

Foto: Pedro Moro

Com altos preços, leitores recorrem a sebos e à pirataria para garantir a leitura

O hábito de leitura não diz respeito apenas ao prazer pelo contato com as palavras, mas também está relacionado a questões econômicas. O 2º Painel do Varejo de Livros no Brasil, divulgado pelo Sindicato Nacional dos Editores de Livros (SNEL), aponta que o setor iniciou 2026 com crescimento de 14,9% no volume de vendas, totalizando 4,8 milhões de exemplares comercializados. Enquanto o faturamento alcançou R$ 268,7 milhões, alta de 11,6% em relação ao mesmo período do ano anterior. O crescimento continuou no primeiro trimestre, de acordo com divulgados pelo PublishNews, com base na pesquisa da Nielsen BookData e do Sindicato Nacional dos Editores de Livro (SNEL).

Indicador 1º trimestre 2026 Crescimento
Exemplares vendidos 16,4 milhões +16,2%
Faturamento R$ 892,6 milhões +14,5%
3º período/trimestre – vendas 5,9 milhões +20,2%
3º período/trimestre – receita R$ 306,3 milhões +23,5%

Fonte: 2°Painel do Varejo de Livros do Brasil

Crédito: Yasmin Aguilera

Se por um lado, o mercado editorial está a todo vapor, o hábito de leitura ainda esbarra em empecilhos como o alto valor por exemplar. De acordo com o relatório do Painel do Varejo de Livros no Brasil referente ao 3º período de 2026, o preço médio do livro chegou a R$ 52,11, com alta de 2,8%. Embora abaixo do pico observado em 2024, quando o valor médio ultrapassou os R$54, o custo continua sendo um obstáculo para parte dos leitores, especialmente para estudantes e famílias com renda mais baixa. Para ter um panorama mais próximo da realidade local, o Portal Periódico identificou a realidade municipal ao realizar uma pesquisa por amostragem com 35 pessoas participantes, entre os dias 25 de maio e 02 de julho, de forma virtual. O diagnóstico aponta que os preços pesam no bolso dos leitores. A maioria dos entrevistados foram jovens de 19 a 25 anos de idade (75%) e estudantes da rede pública (75%). Metade dos entrevistados considera os livros “muito caros” e outros 44,4% os avaliam como “um pouco caro”. O reflexo desses valores aparece no hábito de consumo: 91,7% afirmaram que o preço já foi motivo de desistir da compra.

​Além disso, o levantamento sinaliza uma possível mudança importante no comportamento do leitor brasileiro, a ficção tornou-se uma das principais forças do crescimento editorial, impulsionada por clubes de leitura, redes sociais e criadores de conteúdo literário. Obras recomendadas em plataformas digitais passaram a ocupar espaço relevante nas vendas e ajudaram a aproximar novos públicos da literatura. 

Gráfico: Yasmin Aguilera

Mesmo com os altos preços, há saídas. Quase metade dos pesquisados pela reportagem recorrem aos exemplares comercializados em sebos e quase 94,4% dos consultados acreditam que estes espaços podem democratizar a leitura. Essa percepção é vivenciada por Ademir Iglesias, proprietário de um sebo em Ponta Grossa. ​Para Ademir, o espaço funciona como um ponto de inclusão e um respiro diante do ritmo frenético da atualidade. ​”O sebo dispõe de um acervo variado com preços bem acessíveis, o cliente pode fazer trocas para aquisição de novos livros, dando oportunidades a todos ao acesso à leitura”, avalia. ​O público, segundo ele, é plural, englobando desde crianças até idosos que buscam a leitura por escolha própria ou que frequentam o ambiente atraídos pelo garimpo de CDs e discos de vinil e, claro, de livros.

A possibilidade dos sebos serem mais acessíveis e democráticos  foi o que motivou Líbia Cosati a frequentá-los. Professora de matemática da rede estadual, ela reconhece que o valor dos exemplares podem pesar no orçamento familiar de seus alunos. ​”Para muitas famílias, um livro de R$ 50 ainda pesa no orçamento. Mesmo quando existe interesse, muitas vezes há outras prioridades financeiras”, pontua. Para a professora, o hábito de leitura favorece também na interpretação das questões de Matemática e também nos relacionamentos escolares. “Já presenciei situações em que alunos demonstraram frustração ou insegurança por terem mais dificuldade para acompanhar atividades de leitura e interpretação. Alguns acabam ficando mais quietos, evitando participar ou expondo menos suas dúvidas por vergonha”, relata Líbia.

Por outros caminhos

Que os preços de livros são altos, talvez não seja novidade, e que os sebos são possibilidades para driblar essa realidade, é  uma ideia quase unânime. Entretanto,  existem caminhos não muito seguros, e que  podem ferir os direitos autorais, como a pirataria. Dados da Associação Brasileira de Direitos Reprográficos estimam que a pirataria editorial gerou prejuízo de R$ 1,2 bilhão ao setor em 2024. No cenário local mapeado por esta reportagem, a pirataria digital aparece como ferramenta de acesso para 33,3% dos respondentes. Quando questionados sobre o principal motivo para o consumo de cópias ilegais, a barreira financeira foi a principal dos participantes, 61,1% apontaram o preço como fator determinante, enquanto 16,7% indicaram a falta de acesso por vias tradicionais.

A reportagem não quer condenar, acusar qualquer pessoa ou participante da pesquisa, todavia abre para reflexão sobre para quem destina a leitura. Se os preços são altos e o acesso nem sempre é possível, há quem escolha possíveis saídas para manter a leitura e engrandecer a experiência com a imaginação e a criatividade.

Ficha técnica

Produção: Yasmin Aguilera

Supervisão de produção: Janaíne Kronbauer dos Santos

Edição e publicação: Pedro Moro, Luis Cruz, Matheus de Lara e Marina Ranzani

Supervisão de publicação: Aline Rosso e Muriel Emídio Pessoa do Amaral

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