Mariely Mysczak Afonso tem 29 anos, é estudante de odontologia na rede privada e passou por duas perdas gestacionais. Ela, o marido e o filho participam de uma igreja evangélica . Sua história começa em fevereiro de 2025, quando descobriu a gravidez, na segunda-feira. Logo após o teste dar positivo, Mariely contou para o marido, Leandro, e para o filho Bernardo, de 7 anos. Felizes, a família anunciou a gravidez para amigos, sem imaginar que os planos seriam frustrados em menos de uma semana.
Na quinta-feira, três dias depois do teste positivo, Mariely teve sangramentos. A estudante diz ficar assustada, pois na gestação do primeiro filho isso não havia acontecido. Ao chegar ao hospital, ela realizou o ultrassom. O feto ainda estava lá, com batimentos cardíacos. Aliviada, embora ainda confusa, Mariely foi para casa, e o sangramento não cessou. Dois dias depois, de volta ao hospital e com o mesmo processo de ultrassom, os batimentos não eram audíveis. No domingo da mesma semana, o corpo expeliu o feto.
“Então, foi muito ‘curioso’, porque… eu não entendi o porquê que eu quis fazer tudo rápido, sabe? Mas eu acho que foi algo, assim, pra marcar mesmo nossa vida. Às vezes até eu falo que agora eu tenho mais um filho.”
A estudante diz que após a perda gestacional, passou por um tempo de dúvida e questionamento, não sobre a existência de Deus, mas por que tudo aquilo estava acontecendo. Apesar de ter uma caminhada cristã consolidada, Mariely lutou contra a tristeza, e a solidão que parecia cada vez mais confortável, se apegando à bíblia.
“Com o tempo fui entendendo que aquilo era para um amadurecimento, um aprendizado mesmo. E também em buscar Deus, né? Em espírito. Em ver que mesmo eu passando por toda aquela dor ali, ele se fez presente. Foi o momento em que eu me aprofundei muito mais em estudar a palavra, em buscar consolo. Diferente daquilo que eu já vivia antes.”
Cinco meses passaram. A sensação era que a família já estava curada epronta para uma nova fase. O mês de junho chegou com um novo teste positivo. Mariely descobriu a terceira gravidez. Nervosos e aflitos, o casal foi até o médico, que os tranquilizou dizendo para não projetar a perda novamente. Com seis semanas e cinco dias, ela realizou um ultrassom, mas não foi possível ouvir os batimentos.
“O médico falou que aquilo poderia ser normal, que não era pra se preocupar. Que era pra repetir o ultrassom daqui duas semanas, porque, às vezes, onde o feto estáno útero, a posição, talvez não fosse possível ouvir os batimentos. Aquilo já trouxe um pouco de nervoso. Falei, meu Deus, de novo não, né? Deus não iria deixar isso acontecer comigo de novo.”
Foram semanas de aflição e de espera que pareciam passar devagar até de mais. Não havia sangramentos, mas mesmo assim, Mariely sentia que algo estava errado. Com quase nove semanas de gestação, o ultrassom, novamente, não mostrou batimentos cardíacos. Três meses de espera e planejamento se colidiram com um aborto retido. O médico deu a ela duas opções: fazer a curetagem ou deixar o corpo expelir. Caso o corpo não expelisse o feto em 30 dias, seria necessária a retirada do feto por meio do processo de raspagem. Como o casal ainda não havia desistido da ideia de engravidar, Mariely optou por esperar. Segundo ela, não conseguiria “tirar” algo que sempre quis. Foram 40 dias tristes e de muita dor, emocional e física.
“Não tinha vida dentro de mim. E foi um luto, assim, que só a gente passa, né? Por mais que o Leandro sempre me acompanhou, sempre perto de mim… mas, é algo que não tem como você transmitir para outra pessoa. Eu me sentia muito culpada. Eu pensava, meu Deus, será que o problema sou eu?”
No 40º dia de espera, ela relata dores e sangramento intenso. Na maternidade, Mariely passou pelo parto do segundo bebê sem vida. Apesar do feto não ter se desenvolvido, as dores para expelir o feto se assemelham às do parto normal. No caso dela , nenhum medicamento estava ajudando com a dor, nem mesmo morfina.
“Aguentar aquilo e ficar sem resposta, foi muito difícil. Porque eu perguntava pro médico, mas por que isso? O que que é? Tem alguma coisa de errado? E você não tem resposta. Nem o médico tem uma resposta certa pra te dar. E nem você.”
A dúvida foi algo presente na vida de Mariely pelos próximos meses. Apesar de receber palavras de conforto, o processo do luto e da cura foi algo pessoal para ela. A estudante diz passar por um tempo de proximidade com Deus, e que Ele foi a única coisa que a fortalecia ao lutar contra a tristeza e a vontade de desistir. Mariely sabia que precisava se manter firme para cuidar de si mesma, e do filho mais novo que também passava por esse processo de luto e perda.
A descoberta e a resposta
Em outubro do mesmo ano, Mariely e o marido começaram exames para descobrir se havia algo para explicar os abortos. O casal deu início aos exames pela rede particular, porque segundo a estudante, o SUS encaminharia para acompanhamento apenas após três perdas gestacionais. Após tanto esperar, finalmente a resposta: trombofilia.
A trombofilia é uma condição em que o sangue tem maior tendência a formar coágulos (trombos), aumentando o risco de obstrução em veias e artérias. A trombofilia pode ser hereditária, quando existe alguma alteração genética que aumenta essa tendência à coagulação, ou adquirida.
O médico e ginecologista Fábio Goossen, explica como a trombofilia pode afetar a gravidez.
“O principal exemplo da forma adquirida é uma síndrome que a pessoa já tem, que é chamada de síndrome antifosfolípide, uma doença autoimune. Sobre a gravidez, algumas trombofilias, principalmente a da síndrome antifosfolípide, ela pode estar relacionada sim a perdas gestacionais e algumas outras complicações da gestação também.”
A complicação da gestação pela trombofilia acontece pela formação de pequenos trombos dentro dos vasos e da circulação sanguínea, e pode comprometer a circulação da placenta. Ele ressalta que ter trombofilia, não significa passar por perdas gestacionais.
“É importante deixar claro que a trombofilia, na verdade, não significa que a mulher vai de forma obrigatória perder a gestação. Existem tratamentos e cuidados para que a gestação possa evoluir de forma satisfatória. Então, a trombofilia agiria mais como um risco no final da gestação.”
Antes de fechar o diagnóstico, no dia 1º de janeiro, Mariely abriu a bíblia. Se deparou com o livro de Isaías, capítulo 43. Na passagem, o profeta fala sobre coisas serem feitas novas e um novo tempo sobre a terra. Com a passagem ainda em seu coração, no dia 2 de janeiro, o casal viu um arco-íris, símbolo atrelado a gravidez após perdas gestacionais. Os dias passaram. Dia 21 de janeiro, ela arriscou mais um teste de gravidez. E novamente, o resultado positivo.
A profecia da gravidez
Mariely e o marido, participam de uma igreja evangélica. A comunidade cristã evangélica tem sede em Ponta Grossa, e em outras cidades do estado. A igreja possui viés neopentecostal ou de foco contemporâneo, ou seja, não é configurada de forma conservadora. Tatiane Joslin é pastora da igreja na cidade, e em suas redes sociais, posta conteúdos sobre maternidade. Apesar da estrutura moderna, nas redes sociais Tatiane demonstra opinião rígida sobre assuntos progressistas.
Quando tratada a gravidez, a igreja possui movimentos proféticos, ações de declarações sobre as mulheres que estão grávidas, ou querem engravidar. Mariely relata que antes de descobrir a última gravidez, passou por um momento como este, com palavras proféticas e orações para que pudesse engravidar. No Instagram, a pastora Tatiane postou a seguinte frase: “A gestante é o maior instrumento de Deus na terra”, reafirmando a cultura da igreja de priorizar e construir família.
Atualmente, Laura, bebê recém nascida de Mariely está com 21 dias de vida. Ela tratou a trombofilia com injeções diárias anticoagulantes, desde o início da gestação até o dia do parto.
“Não vos lembreis das coisas passadas, nem considereis as antigas. Eis que faço uma coisa nova, agora sairá à luz; porventura não a percebeis? Eis que porei um caminho no deserto, e rios no ermo.”
Isaías 43:19

Foto: Mariely Mysczak Afonso
Série de reportagem
Este texto faz parte do livro-reportagem “Do luto à festa”, série de reportagem que aborda abortos espontâneos e seus desdobramentos dentro de comunidades evangélicas.
Ficha técnica
Produção: Eduarda Leal Vaz
Supervisão de produção: Hendryo André
Edição e publicação: Ingrid Muller, Lucas Jolondek, Roberto Indzejczak e Yasmin Aguilera
Supervisão de publicação: Aline Rosso e Muriel Amaral
