{"id":1003,"date":"2025-05-07T14:27:37","date_gmt":"2025-05-07T17:27:37","guid":{"rendered":"https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/?p=1003"},"modified":"2025-05-21T14:07:20","modified_gmt":"2025-05-21T17:07:20","slug":"misoginia-cresce-na-internet-e-expoe-falhas-na-protecao-as-mulheres","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/misoginia-cresce-na-internet-e-expoe-falhas-na-protecao-as-mulheres\/","title":{"rendered":"Misoginia cresce na internet e exp\u00f5e falhas na prote\u00e7\u00e3o \u00e0s mulheres"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center\"><i><span style=\"font-weight: 400\">Em cinco anos, den\u00fancias de viol\u00eancia digital contra mulheres saltam de 961 para 28,6 mil. | Foto: Anna Perucelli<\/span><\/i><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">O Brasil enfrenta uma epidemia de \u00f3dio online e as mulheres s\u00e3o as principais v\u00edtimas. Casos de amea\u00e7as, persegui\u00e7\u00f5es e exposi\u00e7\u00e3o de dados pessoais dispararam nos \u00faltimos anos, enquanto o sistema jur\u00eddico ainda n\u00e3o tem respostas para essa realidade. Em 2023, cart\u00f3rios de notas registraram mais de 120 mil pedidos de atas notariais (provas usadas em a\u00e7\u00f5es de bullying e cyberbullying). O maior n\u00famero j\u00e1 registrado, com alta m\u00e9dia anual de 12% desde 2007.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Entre os crimes de \u00f3dio, a misoginia lidera. Segundo a SaferNet, den\u00fancias passaram de 961 em 2017 para 28,6 mil em 2022, totalizando mais de 74 mil registros em cinco anos. A professora universit\u00e1ria e ativista feminista, Lola Aronovich, conhece essa viol\u00eancia de perto. Ela \u00e9 alvo de persegui\u00e7\u00f5es virtuais h\u00e1 mais de uma d\u00e9cada. \u201cRecebo amea\u00e7as dizendo meu nome completo, RG, endere\u00e7o. Falam que v\u00e3o me estuprar e me matar. E o pior: que sabem onde eu moro. Isso muda tudo\u201d, relatou durante palestra no 9\u00ba Col\u00f3quio Mulheres e Sociedade da Universidade Estadual de Ponta Grossa.<\/span><\/p>\n<div id=\"attachment_1010\" style=\"width: 489px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-1010\" loading=\"lazy\" class=\" wp-image-1010\" src=\"https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/wp-content\/uploads\/sites\/282\/2025\/05\/Infografico-1.jpg\" alt=\"\" width=\"479\" height=\"838\" \/><p id=\"caption-attachment-1010\" class=\"wp-caption-text\">Cr\u00e9ditos: Anna Perucelli<\/p><\/div>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Desde 2010, Lola enfrenta grupos mis\u00f3ginos organizados, como por exemplo, Red Pills e Incels, movimentos de homens que defendem a \u201cmasculinidade dominante\u201d. \u201cDurante 11 anos, espalharam mentiras sobre mim, me acusaram de crimes que nunca cometi. Um deles foi condenado, mas nunca pagou a indeniza\u00e7\u00e3o.\u201d Al\u00e9m disso, foi v\u00edtima de doxxing, que \u00e9 a pr\u00e1tica que divulga dados pessoais de forma maliciosa. \u201cColocam nossos dados em sites de pornografia, prostitui\u00e7\u00e3o, swing. \u00c9 um terror psicol\u00f3gico constante\u201d.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Diante deste cen\u00e1rio, a resposta jur\u00eddica ainda \u00e9 limitada. A advogada Zilda Mara Consalter afirma que as leis brasileiras n\u00e3o acompanham a complexidade dos crimes digitais de g\u00eanero. \u201cA misoginia \u00e9 uma avers\u00e3o sem fundamento, mas muito bem sustentada por uma estrutura social patriarcal. N\u00f3s naturalizamos muitos desses ataques porque aprendemos a deix\u00e1-los passar.\u201d<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Nos \u00faltimos anos, algumas conquistas foram feitas, como a aprova\u00e7\u00e3o da Lei do Feminic\u00eddio (2015), da Lei Carolina Dieckmann (2012) e da criminaliza\u00e7\u00e3o do cyberbullying (2024). Em 2018, ap\u00f3s o caso da professora universit\u00e1ria, foi criada a chamada Lei Lola (Lei n\u00ba 13.642\/2018), que autoriza a Pol\u00edcia Federal a investigar crimes de \u00f3dio contra mulheres que foram praticados online. No entanto, a medida \u00e9 considerada insuficiente. \u201cA Lei Lola permite apenas a investiga\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o assegura justi\u00e7a. E o projeto de lei que prop\u00f5e criminalizar a misoginia est\u00e1 parado no Congresso desde 2023\u201d, critica Zilda.<\/span><\/p>\n<div id=\"attachment_1016\" style=\"width: 4090px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-1016\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-1016 size-full\" src=\"https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/wp-content\/uploads\/sites\/282\/2025\/05\/comunidades-digitais-alimentam-a-normalizacao-da-misoginia-e-do-extremismo.-1.jpg\" alt=\"\" width=\"4080\" height=\"3060\" \/><p id=\"caption-attachment-1016\" class=\"wp-caption-text\">Comunidades digitais alimentam a normaliza\u00e7\u00e3o da misoginia e do extremismo | Foto: Anna Perucelli<\/p><\/div>\n<p><b>Responsabiliza\u00e7\u00e3o: al\u00e9m do agressor individual<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A advogada Zilda tamb\u00e9m refor\u00e7a que apesar de a responsabiliza\u00e7\u00e3o focar quase sempre no agressor direto, h\u00e1 toda uma estrutura que lucra com o \u00f3dio disseminado nas redes. \u201cAs plataformas digitais hospedam conte\u00fados que violam direitos fundamentais e ainda escapam de qualquer puni\u00e7\u00e3o. \u00c9 preciso responsabilizar tamb\u00e9m quem domina a tecnologia\u201d.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Entre 2018 e 2024, 137 canais brasileiros foram identificados como propagadores de discursos mis\u00f3ginos, com mais de 105 mil v\u00eddeos publicados e milh\u00f5es de visualiza\u00e7\u00f5es. Cerca de 80% desses canais monetizam os conte\u00fados, vendendo produtos, cursos ou apostas: um mercado do \u00f3dio altamente rent\u00e1vel.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>O perfil das v\u00edtimas e a revitimiza\u00e7\u00e3o<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">As principais v\u00edtimas desse ecossistema de viol\u00eancia t\u00eam um perfil comum: mulheres com mais de 30 anos, m\u00e3es, feministas, e as que opinam e ocupam espa\u00e7os p\u00fablicos. \u201cS\u00e3o mulheres que incomodam\u201d, resume Zilda. Muitas vezes, al\u00e9m de sofrerem os ataques, ainda s\u00e3o culpabilizadas pela sociedade e pelo Judici\u00e1rio, como no caso da &#8220;pornrevenge&#8221;, que \u00e9 a pr\u00e1tica de divulga\u00e7\u00e3o de imagens \u00edntimas sem consentimento.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">\u201cO direito ao esquecimento, por exemplo, n\u00e3o \u00e9 controle de informa\u00e7\u00e3o. \u00c9 um direito m\u00ednimo de retirada de conte\u00fado que viola a privacidade. Mas a imprensa distorceu isso e o debate foi silenciado. A mulher continua sendo culpada at\u00e9 quando \u00e9 v\u00edtima\u201d, denuncia a advogada.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Apesar do medo, da persegui\u00e7\u00e3o e das falhas do sistema, Lola Aronovich n\u00e3o pensa em recuar. \u201cSe eu cancelasse todas as palestras por causa das amea\u00e7as, n\u00e3o haveria mais palestra feminista no Brasil. O machismo \u00e9 o medo dos homens das mulheres sem medo. N\u00f3s temos que ser essas mulheres\u201d, afirma.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Especialistas refor\u00e7am que a batalha contra a misoginia exige mudan\u00e7as profundas: fortalecer a legisla\u00e7\u00e3o, responsabilizar plataformas digitais e educar a sociedade para enfrentar a viol\u00eancia de g\u00eanero em todas as esferas, sejam elas digitais e cotidianas. Hoje, a luta das mulheres n\u00e3o acontece apenas nas ruas. Ela est\u00e1 tamb\u00e9m nos coment\u00e1rios, nas den\u00fancias, nos algoritmos e nas salas de audi\u00eancia.<\/span><\/p>\n<p><strong>Ficha t\u00e9cnica<\/strong><\/p>\n<p><strong>Produ\u00e7\u00e3o:<\/strong> Anna Perucelli<\/p>\n<p><strong>Edi\u00e7\u00e3o e publica\u00e7\u00e3o: <\/strong>Eloise da Silva, Fabr\u00edcio Zvir e Fernanda Matos<\/p>\n<p><strong>Supervis\u00e3o de produ\u00e7\u00e3o:<\/strong> Hendryo Anderson Andr\u00e9<\/p>\n<p><strong>Supervis\u00e3o de publica\u00e7\u00e3o:<\/strong>\u00a0Aline Rosso e Kevin Kossar Furtado<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em cinco anos, den\u00fancias de viol\u00eancia digital contra mulheres saltam de 961 para 28,6 mil. | Foto: Anna Perucelli O Brasil enfrenta uma epidemia de \u00f3dio online e as mulheres s\u00e3o as principais v\u00edtimas. 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