{"id":1203,"date":"2025-05-14T14:48:20","date_gmt":"2025-05-14T17:48:20","guid":{"rendered":"https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/?p=1203"},"modified":"2025-05-14T14:48:20","modified_gmt":"2025-05-14T17:48:20","slug":"familia-luta-ha-quatro-anos-por-esclarecimentos-sobre-morte-de-willian-lucas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/familia-luta-ha-quatro-anos-por-esclarecimentos-sobre-morte-de-willian-lucas\/","title":{"rendered":"Fam\u00edlia luta h\u00e1 quatro anos por esclarecimentos sobre morte de Willian Lucas"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center\"><em>Willian tinha 25 anos e foi morto durante uma a\u00e7\u00e3o policial na Vila Francelina. Arquivo: Claudimir Ferreira Nascimento<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: left\">Em 2023, quase 90% das pessoas mortas por policiais no Brasil eram negras, segundo dados do F\u00f3rum Brasileiro de Seguran\u00e7a P\u00fablica. O relat\u00f3rio da Rede de Observat\u00f3rios da Seguran\u00e7a refor\u00e7a essa desigualdade ao revelar que, em m\u00e9dia, sete pessoas negras foram assassinadas por dia no pa\u00eds. Esses n\u00fameros escancaram a profunda disparidade racial presente nas a\u00e7\u00f5es policiais e ajudam a contextualizar casos emblem\u00e1ticos, como o de Willian Lucas Souza Nascimento.<\/p>\n<p>No dia 17 de abril de 2021, a vida do jovem, de 25 anos, foi interrompida de forma tr\u00e1gica. Willian era morador da Vila Francelina, no bairro Uvaranas, onde foi morto por policiais militares a poucos metros de sua casa. Quatro anos se passaram e, at\u00e9 hoje, a fam\u00edlia aguarda respostas. Willian era montador de estruturas met\u00e1licas, pai de um menino de tr\u00eas anos, e estava construindo planos ao lado da esposa. Segundo os familiares, ele era um filho amoroso, sincero e respons\u00e1vel. \u201cEle era simples, mas de grande car\u00e1ter. Nunca mentia, mesmo quando estava errado\u201c<i>,<\/i> lembra seu pai, Claudimir Ferreira Nascimento.<\/p>\n<p>Na noite do ocorrido, Willian foi revistado por policiais enquanto estava em um bar, mas liberado logo em seguida. Horas depois, foi encontrado morto. A vers\u00e3o oficial alega que ele teria trocado tiros com a pol\u00edcia de cima de um muro pontiagudo e com uma arma defeituosa. O laudo oficial, assinado pela perita criminal Val\u00e9ria Cardoso Pereira, descreve m\u00faltiplas feridas por arma de fogo no corpo de Willian, sem indicar disparos \u00e0 queima-roupa. J\u00e1 um laudo particular, encomendado pela fam\u00edlia, aponta execu\u00e7\u00e3o com tiro \u00e0 curta dist\u00e2ncia, contrariando a vers\u00e3o de confronto.<\/p>\n<p>Para a p\u00e1gina <a href=\"https:\/\/www.redenenhumavidaamenos.com\/\">Rede Nenhuma Vida a Menos<\/a>, que acompanha e denuncia casos de viol\u00eancia policial no Paran\u00e1, o sil\u00eancio das institui\u00e7\u00f5es diante da morte de Willian representa um padr\u00e3o. \u201cA gente vive em um estado que autoriza a pol\u00edcia a matar, principalmente quando \u00e9 um corpo preto, perif\u00e9rico. O Willian teve a hist\u00f3ria dele contada pela vers\u00e3o de quem o matou. E a imprensa, na maioria das vezes, s\u00f3 replica isso. Nossa luta \u00e9 para que essas vidas n\u00e3o sejam esquecidas nem apagadas pela narrativa policial\u201d, afirma Patr\u00edcia Herman, integrante da iniciativa.<\/p>\n<p>A dor dos familiares n\u00e3o se restringe \u00e0 perda, mas tamb\u00e9m \u00e0 aus\u00eancia de respostas concretas. Eles afirmam que, mesmo ap\u00f3s quatro anos, ainda aguardam por justi\u00e7a. Relatam ainda que o sentimento de indigna\u00e7\u00e3o se agravou pela forma como o caso foi noticiado na imprensa, uma vez que, segundo eles, apenas a vers\u00e3o da pol\u00edcia foi publicada, sem que a fam\u00edlia fosse ouvida. Claudimir, parente da v\u00edtima, ressalta que essa falta de espa\u00e7o na m\u00eddia \u201cmachuca muito\u201d.<\/p>\n<p><b>A viol\u00eancia letal nas periferias\u00a0<\/b><\/p>\n<p>O caso de Willian \u00e9 mais um entre tantos que escancaram a viol\u00eancia letal da pol\u00edcia contra jovens das periferias no Paran\u00e1, especialmente homens negros. Segundo o F\u00f3rum Brasileiro de Seguran\u00e7a P\u00fablica, a popula\u00e7\u00e3o negra no estado \u00e9 respons\u00e1vel por uma propor\u00e7\u00e3o significativa das v\u00edtimas de homic\u00eddios, representando 75% do total, o que destaca uma disparidade racial preocupante tamb\u00e9m observada em outras partes do Brasil.<\/p>\n<p>Willian portava o celular de sua m\u00e3e e, ao come\u00e7ar a filmar a atua\u00e7\u00e3o policial, entrou em discuss\u00e3o com um dos agentes. Apesar do desentendimento, ele foi liberado logo em seguida. Minutos depois, Willian deixou o bar e seguiu em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 sua casa. Durante o trajeto, foi visto correndo por testemunhas. Pouco tempo depois, foi surpreendido em um terreno da regi\u00e3o e alvejado com pelo menos oito disparos, concentrados nos bra\u00e7os e nas costas. Um dos tiros foi efetuado \u00e0 queima-roupa. O laudo da necropsia n\u00e3o identificou sinais de troca de tiros. A pol\u00edcia afirma que Willian n\u00e3o obedeceu a uma ordem de parada, mas a vers\u00e3o entra em conflito com os relatos de moradores da regi\u00e3o e com os pr\u00f3prios documentos da investiga\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<div id=\"attachment_1212\" style=\"width: 598px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-1212\" loading=\"lazy\" class=\" wp-image-1212\" src=\"https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/wp-content\/uploads\/sites\/282\/2025\/05\/39858b73-8963-4c7c-990e-d090a6b6494b.jpg\" alt=\"\" width=\"588\" height=\"448\" \/><p id=\"caption-attachment-1212\" class=\"wp-caption-text\">Legenda: Ao lado de seus pais. Caso de jovem morto pela PM h\u00e1 quatro anos em Ponta Grossa. Arquivo: Claudimir Ferreira Nascimento<\/p><\/div>\n<p>Al\u00e9m de Willian, outro homem com o mesmo nome foi detido na mesma opera\u00e7\u00e3o, portando uma arma. A rela\u00e7\u00e3o entre os dois casos n\u00e3o foi oficialmente estabelecida, mas os inqu\u00e9ritos foram posteriormente reunidos.<\/p>\n<p>A advogada da fam\u00edlia entrou com uma peti\u00e7\u00e3o para esclarecer o paradeiro do celular usado por Willian. A pol\u00edcia afirma que n\u00e3o apreendeu o aparelho, mas uma mat\u00e9ria publicada na \u00e9poca traz uma foto que mostra quatro celulares recolhidos na opera\u00e7\u00e3o. A peti\u00e7\u00e3o foi protocolada ainda em fevereiro de 2024, e, no dia 29 de outubro, os inqu\u00e9ritos constam que, apesar de ter sido fotografado com outros objetos recolhidos na cena, o aparelho n\u00e3o consta entre os materiais apreendidos oficialmente.<\/p>\n<p>Relatos de moradores da regi\u00e3o tamb\u00e9m indicam que o jovem foi visto correndo e ajudando uma pessoa ferida pouco antes de ser morto. Depois dos disparos, teria havido movimenta\u00e7\u00e3o do corpo, como apontam marcas de sangue em dois locais diferentes. O processo est\u00e1 sob segredo de justi\u00e7a. Os policiais envolvidos j\u00e1 respondem a processos e, at\u00e9 o momento, apenas apresentaram suas vers\u00f5es de forma individual e a determina\u00e7\u00e3o segue de forma pessoal.<\/p>\n<p><b>O caso que exige respostas<\/b><\/p>\n<p>Na data do crime, o jovem passou o dia trabalhando com o pai. \u00c0 noite, saiu para encontrar amigos e esteve em um bar da regi\u00e3o, onde acontecia uma opera\u00e7\u00e3o policial. Testemunhas afirmam que houve agress\u00f5es f\u00edsicas e verbais por parte dos policiais. O jovem foi revistado e liberado, mas usou o celular da m\u00e3e para filmar a abordagem, o que teria motivado novas amea\u00e7as. Cerca de 30 minutos depois ele foi encontrado morto.<\/p>\n<p>Os laudos apontam que ele foi atingido por diversos disparos nas costas, pernas e gl\u00fateos, um deles \u00e0 queima-roupa, indicando que n\u00e3o houve confronto direto. Fragmentos de proj\u00e9teis retirados do corpo s\u00e3o compat\u00edveis com armamento da pol\u00edcia, como fuzis calibre 5.56 mil\u00edmetros. A arma atribu\u00edda \u00e0 v\u00edtima, uma pistola 9 mil\u00edmetros com carregador de calibre diferente, n\u00e3o corresponde aos disparos identificados, e a retirada desse armamento do corpo, antes da per\u00edcia, comprometeu a cadeia de cust\u00f3dia. A forma como os disparos foram distribu\u00eddos sugere que Willian pode ter sido atingido por mais de um atirador ou que os tiros partiram de diferentes posi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Em meio aos dados alarmantes que revelam a elevada mortalidade de jovens negros em confrontos policiais no Brasil, o pesquisador Paulo C\u00e9sar Ramos, doutor em Sociologia pela Universidade de S\u00e3o Paulo e coordenador de pesquisas no Afro, destaca a liga\u00e7\u00e3o direta entre essas mortes e o racismo estrutural. Segundo Ramos, em seu estudo, \u201cAs mortes de pessoas negras em confrontos policiais s\u00e3o a face mais cruel do racismo estrutural no Brasil\u201d.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o estamos falando de excessos isolados, mas de um padr\u00e3o que se repete ano ap\u00f3s ano, com v\u00edtimas que t\u00eam cor, idade e endere\u00e7o bem definidos. A juventude negra \u00e9 tratada como inimiga, e isso se reflete na forma como o Estado age nos territ\u00f3rios perif\u00e9ricos. Quando a pol\u00edcia entra, muitas vezes n\u00e3o entra para proteger, entra para eliminar. E isso s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel porque a sociedade ainda naturaliza a ideia de que a vida negra vale menos\u201c, explica.<\/p>\n<p>Segundo o pai de Willian, a esposa vive h\u00e1 quatro anos com dores cr\u00f4nicas constantes. \u201cEla j\u00e1 procurou diversos m\u00e9dicos, exames e especialistas, mas nenhum conseguiu dar um diagn\u00f3stico ou al\u00edvio definitivo para essa dor que, para ela, s\u00f3 aumenta com a sensa\u00e7\u00e3o de impunidade&#8221;, desabafa o pai. Para a fam\u00edlia, a dor f\u00edsica e emocional se entrela\u00e7am na espera por justi\u00e7a.<\/p>\n<p>H\u00e1 quatro anos, a investiga\u00e7\u00e3o sobre a morte de Willian segue sem conclus\u00e3o. O caso permanece sem desfecho claro, enquanto a fam\u00edlia lida diariamente com a aus\u00eancia e o sentimento de impunidade.<\/p>\n<p>Esta reportagem integra uma colet\u00e2nea de livro-reportagem investigativo. Este cap\u00edtulo resgata dados e introduz a hist\u00f3ria de Willian Lucas, jovem morto pela pol\u00edcia em 2021. Acompanhe no Peri\u00f3dico as pr\u00f3ximas publica\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p><strong>Ficha t\u00e9cnica<\/strong><\/p>\n<p><strong>Produ\u00e7\u00e3o: <\/strong>Gabrieli Mendes<\/p>\n<p><strong>Edi\u00e7\u00e3o e publica\u00e7\u00e3o: <\/strong>Amanda Stafin, Gabriela Denkwiski e Juliana Emelly<\/p>\n<p><strong>Supervis\u00e3o de produ\u00e7\u00e3o:<\/strong> Hendryo Anderson Andr\u00e9<\/p>\n<p><strong>Supervis\u00e3o de publica\u00e7\u00e3o:<\/strong> Aline Rosso e Kevin Kossar Furtado<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Willian tinha 25 anos e foi morto durante uma a\u00e7\u00e3o policial na Vila Francelina. Arquivo: Claudimir Ferreira Nascimento Em 2023, quase 90% das pessoas mortas por policiais no Brasil eram negras, segundo dados do F\u00f3rum Brasileiro de Seguran\u00e7a P\u00fablica. 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