{"id":1320,"date":"2025-05-21T14:59:39","date_gmt":"2025-05-21T17:59:39","guid":{"rendered":"https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/?p=1320"},"modified":"2025-06-11T21:43:23","modified_gmt":"2025-06-12T00:43:23","slug":"entre-sirlene-e-vitoria-quatro-decadas-de-feminicidios-no-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/entre-sirlene-e-vitoria-quatro-decadas-de-feminicidios-no-brasil\/","title":{"rendered":"Entre Sirlene e Vit\u00f3ria: quatro d\u00e9cadas de feminic\u00eddios no Brasil"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center\"><em>Mais de quatro d\u00e9cadas de diferen\u00e7a, dois crimes de feminic\u00eddio que mostram a persist\u00eancia da viol\u00eancia contra a mulher no Brasil<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Ela tinha nome, identidade, rotina. Tinha 17 anos e carregava consigo os sonhos de uma juventude que mal havia come\u00e7ado a ser vivida. Mas, como tantas outras meninas e mulheres no Brasil, teve sua vida interrompida de forma brutal. O assassinato de Vit\u00f3ria Regina de Sousa, em Cajamar, S\u00e3o Paulo, n\u00e3o foi um caso isolado. Foi mais um entre os 1,5 mil homic\u00eddios que vitimam mulheres todos os anos no pa\u00eds. De acordo com o F\u00f3rum Brasileiro de Seguran\u00e7a P\u00fablica (FBSP), em 2023, foram registrados 1.463 casos de feminic\u00eddio, o que equivale a uma mulher assassinada a cada seis horas no Brasil. O dado corresponde a um aumento de 1,6% em rela\u00e7\u00e3o a 2022 e \u00e9 o maior desde a cria\u00e7\u00e3o da lei que caracteriza esse crime. E por tr\u00e1s de cada n\u00famero h\u00e1 uma hist\u00f3ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Na noite de 26 de fevereiro de 2025, Vit\u00f3ria voltava do trabalho em um shopping da cidade. Em mensagens trocadas com uma amiga, relatou estar com medo: percebia que estava sendo seguida. Pouco depois de descer do \u00f4nibus, foi vista por testemunhas sendo acompanhada por um carro com quatro homens. Ent\u00e3o desapareceu. Por dias, sua fam\u00edlia e a comunidade se mobilizaram em uma busca desesperada. Drones, c\u00e3es farejadores, agentes de seguran\u00e7a e volunt\u00e1rios vasculharam cada canto de Cajamar. A esperan\u00e7a, no entanto, foi substitu\u00edda pelo luto no dia 5 de mar\u00e7o, quando seu corpo foi encontrado em uma \u00e1rea de mata, em avan\u00e7ado estado de decomposi\u00e7\u00e3o e com sinais claros de viol\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A hist\u00f3ria de Vit\u00f3ria \u00e9 tamb\u00e9m a hist\u00f3ria de muitas outras, muitas vezes, tratadas como mais um dado em boletins policiais. Thais Gabriely Aniskievicz, Assistente Social do N\u00facleo Maria da Penha (Numape-UEPG), revela a viol\u00eancia de g\u00eanero no contexto hist\u00f3rico brasileiro. \u201cUm crime de feminic\u00eddio \u00e9 mais um reflexo de algo profundo e estrutural numa sociedade marcada pelo machismo e pelo patriarcado, que historicamente colocam a mulher em uma posi\u00e7\u00e3o de submiss\u00e3o, controle e silenciamento\u201d, destaca a profissional.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A hist\u00f3ria parte de Vit\u00f3ria Regina de Sousa, crime ocorrido em 2025, para lan\u00e7ar luz sobre uma trag\u00e9dia que se repete de formas distintas, todos os dias. Muito antes de Vit\u00f3ria, em 1988, outra jovem teve sua hist\u00f3ria brutalmente interrompida: Sirlene Pires, de apenas 20 anos, moradora do interior de Palmeira (PR), longe das manchetes nacionais, das redes sociais e de outros recursos tecnol\u00f3gicos. Mais de tr\u00eas d\u00e9cadas anteriores ao caso Vit\u00f3ria, em uma \u00e9poca em que o feminic\u00eddio nem tinha nome, mas carrega marcas assustadoramente parecidas com casos atuais. As duas hist\u00f3rias revelam o quanto a viol\u00eancia contra a mulher continua sendo naturalizada ao longo do tempo. \u00c9 preciso um caso como o de Sirlene acontecer para surgirem as demais v\u00edtimas.<\/p>\n<div id=\"attachment_1326\" style=\"width: 1034px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-1326\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-1326 size-full\" src=\"https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/wp-content\/uploads\/sites\/282\/2025\/05\/A-partir-da-criacao-da-Lei-do-Feminicio-os-casos-de-homicidios-apresentaram-queda-porem-nos-anos-seguintes-o-percentual-continua-crescendo.png\" alt=\"\" width=\"1024\" height=\"768\" \/><p id=\"caption-attachment-1326\" class=\"wp-caption-text\"><em>Cr\u00e9dito: Amanda Stafin<\/em><\/p><\/div>\n<p style=\"text-align: justify\">De acordo com o Mapa da Viol\u00eancia, em 1980 o Brasil registrou 1.353 homic\u00eddios de mulheres, o equivalente a uma taxa de 2,3 mortes violentas a cada grupo de 100 mil habitantes. Esse \u00edndice subiu para 4,8 em 2013. O Atlas da Viol\u00eancia 2017 (IPEA e F\u00f3rum Brasileiro de Seguran\u00e7a P\u00fablica) revela que em 2015, quando o feminic\u00eddio passou a ser reconhecido como crime, a taxa total de homic\u00eddios de mulheres foi de aproximadamente 4,4 por 100 mil. Dez anos depois, em 2024, esse n\u00famero chegou a 1,4 de v\u00edtimas. \u201cEssa lentid\u00e3o em adaptar leis, pr\u00e1ticas institucionais e pol\u00edticas p\u00fablicas auxiliou a naturaliza\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia e a inser\u00e7\u00e3o da mulher no ciclo da viol\u00eancia por d\u00e9cadas.\u201d, relata Thais.<\/p>\n<p><b>A fa\u00edsca da investiga\u00e7\u00e3o: do boato \u00e0 busca por respostas<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Foi em uma conversa familiar que surgiu, pela primeira vez, o nome de Sirlene Pires, assassinada em 22 de novembro de 1988, no interior do munic\u00edpio de Palmeira, no Paran\u00e1. A escolha do caso n\u00e3o foi por acaso. A conex\u00e3o pessoal com a hist\u00f3ria se revelou logo no in\u00edcio da apura\u00e7\u00e3o: Joelma (nome fict\u00edcio), irm\u00e3 da v\u00edtima, aceitou relatar o que viveu. A conversa abriu caminho para novas fontes, como Romildo,(nome fict\u00edcio) conhecido da fam\u00edlia e testemunha pr\u00f3xima dos acontecimentos da \u00e9poca.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Com base nessas entrevistas iniciais, a investiga\u00e7\u00e3o tomou forma. O ponto central do trabalho passou a ser o processo criminal arquivado no Cart\u00f3rio Criminal do F\u00f3rum de Palmeira. Mesmo sem vers\u00e3o digital, o acesso ao processo f\u00edsico, fotografado p\u00e1gina por p\u00e1gina, possibilitou uma an\u00e1lise aprofundada dos documentos. Entre os pap\u00e9is amarelados pelo tempo, est\u00e3o laudos periciais, depoimentos e fotografias do caso, registros que sobrevivem como testemunhas silenciosas de uma hist\u00f3ria ainda pouco contada.<\/p>\n<div id=\"attachment_1601\" style=\"width: 993px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-1601\" loading=\"lazy\" class=\" wp-image-1601\" src=\"https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/wp-content\/uploads\/sites\/282\/2025\/05\/WhatsApp-Image-2025-06-11-at-21.27.11-300x225.jpeg\" alt=\"\" width=\"983\" height=\"737\" srcset=\"https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/wp-content\/uploads\/sites\/282\/2025\/05\/WhatsApp-Image-2025-06-11-at-21.27.11-300x225.jpeg 300w, https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/wp-content\/uploads\/sites\/282\/2025\/05\/WhatsApp-Image-2025-06-11-at-21.27.11-1024x768.jpeg 1024w, https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/wp-content\/uploads\/sites\/282\/2025\/05\/WhatsApp-Image-2025-06-11-at-21.27.11-768x576.jpeg 768w, https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/wp-content\/uploads\/sites\/282\/2025\/05\/WhatsApp-Image-2025-06-11-at-21.27.11-1536x1152.jpeg 1536w, https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/wp-content\/uploads\/sites\/282\/2025\/05\/WhatsApp-Image-2025-06-11-at-21.27.11-1232x924.jpeg 1232w, https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/wp-content\/uploads\/sites\/282\/2025\/05\/WhatsApp-Image-2025-06-11-at-21.27.11-1440x1080.jpeg 1440w, https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/wp-content\/uploads\/sites\/282\/2025\/05\/WhatsApp-Image-2025-06-11-at-21.27.11.jpeg 1600w\" sizes=\"(max-width: 983px) 100vw, 983px\" \/><p id=\"caption-attachment-1601\" class=\"wp-caption-text\">O processo com mais de 100 p\u00e1ginas revelam arquivos de 1988 a 2018. Imagem borrada para preservar a identidade das pessoas envolvidas no processo. Foto: Amanda Stafin<\/p><\/div>\n<p style=\"text-align: justify\">A apura\u00e7\u00e3o parte desses registros para reconstruir o que aconteceu na manh\u00e3 de novembro. Depoimentos colhidos \u00e0 \u00e9poca, por vezes contradit\u00f3rios, se cruzam com novas conversas realizadas com familiares, vizinhos e moradores que ainda se lembram do crime. A inten\u00e7\u00e3o \u00e9 reconstruir uma linha do tempo que percorra desde o dia do assassinato at\u00e9 o desfecho judicial. Importante ressaltar que, para preservar a privacidade e a integridade dos envolvidos, os nomes e identidades das fontes mencionadas s\u00e3o fict\u00edcios, criados para proteger aqueles que participaram da investiga\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Al\u00e9m da reconstru\u00e7\u00e3o factual, a narrativa prop\u00f5e um olhar mais amplo, refletindo sobre o contexto de viol\u00eancia contra a mulher e as limita\u00e7\u00f5es investigativas da \u00e9poca. Para isso, ser\u00e3o abordadas legisla\u00e7\u00f5es posteriores ao crime, a Lei Maria da Penha (n\u00ba 11.340\/2006) e Lei do Feminic\u00eddio (n\u00ba 13.104\/2015) Mais do que recontar um crime, a proposta \u00e9 fazer justi\u00e7a \u00e0 mem\u00f3ria de Sirlene. Revisitar sua trajet\u00f3ria \u00e9 tamb\u00e9m questionar o sil\u00eancio institucional que paira sobre casos como o dela. Esta reportagem integra uma colet\u00e2nea de livro-reportagem investigativo. Este cap\u00edtulo trata das primeiras investiga\u00e7\u00f5es do caso Sirlene Pires. Acompanhe no Peri\u00f3dico as pr\u00f3ximas publica\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Ficha t\u00e9cnica<\/b><\/p>\n<p><b>Produ\u00e7\u00e3o: <\/b>Amanda Stafin<\/p>\n<p><b>Edi\u00e7\u00e3o e publica\u00e7\u00e3o: <\/b>Juliane Goltz e Gabriele Proen\u00e7a<\/p>\n<p><b>Supervis\u00e3o de produ\u00e7\u00e3o: <\/b>Hendryo Andr\u00e9<\/p>\n<p><b>Supervis\u00e3o de publica\u00e7\u00e3o: <\/b>Aline Rosso e Kevin Kossar Furtado<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Mais de quatro d\u00e9cadas de diferen\u00e7a, dois crimes de feminic\u00eddio que mostram a persist\u00eancia da viol\u00eancia contra a mulher no Brasil Ela tinha nome, identidade, rotina. Tinha 17 anos e carregava consigo os sonhos de uma juventude que mal havia come\u00e7ado a ser vivida. 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