{"id":1465,"date":"2025-06-04T14:46:39","date_gmt":"2025-06-04T17:46:39","guid":{"rendered":"https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/?p=1465"},"modified":"2025-06-11T21:33:07","modified_gmt":"2025-06-12T00:33:07","slug":"a-volta-para-casa-o-crime-que-tirou-a-vida-de-sirlene-pires","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/a-volta-para-casa-o-crime-que-tirou-a-vida-de-sirlene-pires\/","title":{"rendered":"A volta para casa: O crime que tirou a vida de Sirlene Pires"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center\"><em> O que parecia um dia comum no interior transformou-se em um marco de dor e desconfian\u00e7a. Foto: Amanda Stafin<\/em><\/p>\n<p>Era 22 de novembro de 1988. Em Col\u00f4nia Maciel, comunidade rural de Palmeira, no Paran\u00e1, o dia amanheceu como qualquer outro. \u201cEra um dia normal, como todos os outros\u201d, relembra Joelma, (nome fict\u00edcio) irm\u00e3 de Sirlene. Naquela manh\u00e3, Sirlene Pires, de apenas 20 anos, acordou cedo como de costume. Planejava ir at\u00e9 o centro da cidade resolver pend\u00eancias: faria um financiamento no banco e aproveitaria para fazer compras. Vestiu-se com uma cal\u00e7a e uma camisa de algod\u00e3o azul e seguiu a p\u00e9 at\u00e9 o ponto da linha Estrela do Sul &#8211; \u00f4nibus que ligava as comunidades rurais \u00e0 \u00e1rea urbana.<\/p>\n<p>\u201cEla disse que voltava no mesmo hor\u00e1rio de sempre\u201d, conta Joelma. Era uma rotina . Muitas vezes com a aus\u00eancia de transporte pr\u00f3prio, as pessoas do interior dependiam mais dos \u00f4nibus intermunicipais. \u201cTanto a Sirlene como todos os irm\u00e3os sempre nos viramos sozinhos, n\u00e3o tinha outro jeito\u201d, refor\u00e7a a irm\u00e3. A vida da fam\u00edlia exigia autonomia desde cedo. Ir at\u00e9 a cidade era tarefa habitual e Sirlene sabia o caminho de cor.<\/p>\n<p>Ernesto, (nome fict\u00edcio), lavrador de 32 anos, segundo depoimento para a pol\u00edcia, saiu de casa por volta das 16h40 pilotando uma moto com destino \u00e0 lavoura de feij\u00e3o. Segundo relato, foi encontrar seu s\u00f3cio, que n\u00e3o estava no local, ent\u00e3o, Ernesto por volta das 17h iria at\u00e9 a casa de seu irm\u00e3o e vizinho, a fim de emprestar uma carpideira &#8211; um implemento de tra\u00e7\u00e3o animal para limpar terrenos. Mas, no caminho parou pr\u00f3ximo a uma jabuticabeira.<\/p>\n<p>Enquanto isso, Sirlene retornava com suas duas primas M\u00e1rcia e Jussara (nomes fict\u00edcios), as quais desembarcaram a cerca de tr\u00eas quil\u00f4metros do local em que a jovem desceria. \u00c0s 17h, o \u00f4nibus deixou Sirlene na estrada de terra que liga a BR-277 \u00e0 sua comunidade, ela seguiu a p\u00e9, em um caminho de aproximadamente 1 km at\u00e9 sua casa, carregando um pacote com compras. O percurso era rodeado por mata fechada em alguns trechos. Caminhar sozinha por ali nunca foi motivo de medo. Era o comum e cotidiano. \u201cEla nem imaginava que algu\u00e9m podia estar esperando\u201d, diz Joelma.<\/p>\n<div id=\"attachment_1470\" style=\"width: 612px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-1470\" loading=\"lazy\" class=\" wp-image-1470\" src=\"https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/wp-content\/uploads\/sites\/282\/2025\/06\/Legenda_-Local-do-crime-300x225.png\" alt=\"\" width=\"602\" height=\"452\" srcset=\"https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/wp-content\/uploads\/sites\/282\/2025\/06\/Legenda_-Local-do-crime-300x225.png 300w, https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/wp-content\/uploads\/sites\/282\/2025\/06\/Legenda_-Local-do-crime-768x576.png 768w, https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/wp-content\/uploads\/sites\/282\/2025\/06\/Legenda_-Local-do-crime.png 1024w\" sizes=\"(max-width: 602px) 100vw, 602px\" \/><p id=\"caption-attachment-1470\" class=\"wp-caption-text\">A estrada que liga a BR-277 \u00e0 comunidade onde o crime ocorreu, permanece preservada, lembrando o caminho tr\u00e1gico da tarde de novembro de 1988. Foto: Amanda Stafin<\/p><\/div>\n<p>Segundo relato em depoimento oficial, Ernesto estava \u201cchupando jabuticaba\u201d quando viu Sirlene na estrada. Ele se aproximou e a jovem n\u00e3o recuou. \u201cEla o conhecia, ele era vizinho, por qual motivo ela iria fugir? Ningu\u00e9m fazia ideia do que ele seria capaz\u201d, relata a irm\u00e3. Ao se aproximar, Ernesto abordou Sirlene e questionou sobre um boato que, segundo ele, teria chegado ao seus ouvidos: a jovem estaria dizendo que ele havia roubado uma cachorra da fam\u00edlia. Sirlene teria confirmado a acusa\u00e7\u00e3o e, segundo o pr\u00f3prio relato de Ernesto, o provocou ao arremessar um pacote de compras em sua dire\u00e7\u00e3o, antes de sair correndo. Ele reagiu imediatamente: correu atr\u00e1s dela, agarrou-a pela roupa e a derrubou nas margens da estrada, pr\u00f3ximo a um barranco. Foi nesse momento que, segundo a investiga\u00e7\u00e3o, Ernesto iniciou a agress\u00e3o f\u00edsica contra a jovem.<\/p>\n<div id=\"attachment_1468\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-1468\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-1468\" src=\"https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/wp-content\/uploads\/sites\/282\/2025\/06\/Legenda_-Atualmente-o-local-do-crime-se-encontra-dividido-por-uma-cerca.-Porem-a-jabuticabeira-ainda-pode-ser-vista-do-local-do-crime-300x225.jpeg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"450\" srcset=\"https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/wp-content\/uploads\/sites\/282\/2025\/06\/Legenda_-Atualmente-o-local-do-crime-se-encontra-dividido-por-uma-cerca.-Porem-a-jabuticabeira-ainda-pode-ser-vista-do-local-do-crime-300x225.jpeg 300w, https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/wp-content\/uploads\/sites\/282\/2025\/06\/Legenda_-Atualmente-o-local-do-crime-se-encontra-dividido-por-uma-cerca.-Porem-a-jabuticabeira-ainda-pode-ser-vista-do-local-do-crime-1024x768.jpeg 1024w, https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/wp-content\/uploads\/sites\/282\/2025\/06\/Legenda_-Atualmente-o-local-do-crime-se-encontra-dividido-por-uma-cerca.-Porem-a-jabuticabeira-ainda-pode-ser-vista-do-local-do-crime-768x576.jpeg 768w, https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/wp-content\/uploads\/sites\/282\/2025\/06\/Legenda_-Atualmente-o-local-do-crime-se-encontra-dividido-por-uma-cerca.-Porem-a-jabuticabeira-ainda-pode-ser-vista-do-local-do-crime-1536x1152.jpeg 1536w, https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/wp-content\/uploads\/sites\/282\/2025\/06\/Legenda_-Atualmente-o-local-do-crime-se-encontra-dividido-por-uma-cerca.-Porem-a-jabuticabeira-ainda-pode-ser-vista-do-local-do-crime-1232x924.jpeg 1232w, https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/wp-content\/uploads\/sites\/282\/2025\/06\/Legenda_-Atualmente-o-local-do-crime-se-encontra-dividido-por-uma-cerca.-Porem-a-jabuticabeira-ainda-pode-ser-vista-do-local-do-crime-1440x1080.jpeg 1440w, https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/wp-content\/uploads\/sites\/282\/2025\/06\/Legenda_-Atualmente-o-local-do-crime-se-encontra-dividido-por-uma-cerca.-Porem-a-jabuticabeira-ainda-pode-ser-vista-do-local-do-crime.jpeg 1600w\" sizes=\"(max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><p id=\"caption-attachment-1468\" class=\"wp-caption-text\">Atualmente o local do crime se encontra dividido por uma cerca. Por\u00e9m, a jabuticabeira ainda pode ser vista por quem passa na regi\u00e3o. Foto: Amanda Stafin<\/p><\/div>\n<p>De acordo com documento oficial, ele a atingiu inicialmente com socos. A jovem segurou sua camisa de cor rosa clara, fazendo tr\u00eas bot\u00f5es se soltarem. Ele continuou a golpe\u00e1-la at\u00e9 que ela desmaiasse. Ent\u00e3o, puxando-a pelos bra\u00e7os, arrastou a v\u00edtima cerca de 10 metros para o mato, jogando seu corpo entre folhas secas e galhos quebrados. Quando percebeu que ela ainda se mexia, pegou uma tora de madeira de aproximadamente 60 cm &#8211; encontrada depois pela per\u00edcia com manchas de sangue &#8211; e, com ela, desferiu violentos golpes na cabe\u00e7a e no corpo. Segundo coment\u00e1rios da \u00e9poca, Ernesto a jogaria dentro de um po\u00e7o pr\u00f3ximo, mas mesmo percebendo que ela ainda respirava, preferiu fugir. Deixou Sirlene sangrando no local at\u00e9 a morte. Voltou para casa, onde lavou a camisa suja de sangue, numa tentativa de apagar os rastros de seu crime.<\/p>\n<p>Por volta das 18h, tempo suficiente para ter cometido o crime e retornado, Ernesto pegou a moto e seguiu at\u00e9 a casa de seu irm\u00e3o, onde era o seu destino inicial, para buscar a carpideira, e retornou \u00e0s 19h30. No caminho, encontrou com seu vizinho, que contou que Sirlene havia sido encontrada morta.<\/p>\n<p>Mas, se a morte de Sirlene parece, \u00e0 primeira vista, um descontrole por parte de um homem tomado pela raiva, o desdobramento revela outra dimens\u00e3o. O mesmo homem, que diante da pol\u00edcia relata que \u201cn\u00e3o teve inten\u00e7\u00e3o de matar Sirlene\u201d se contradiz em seu pr\u00f3prio depoimento ao relatar a\u00e7\u00f5es tomadas ap\u00f3s o crime: s\u00e3o marcas de frieza e planejamento de um agressor que, ao ter conhecimento que est\u00e1 sendo investigado, esconde a espingarda e simula um furto em sua pr\u00f3pria resid\u00eancia. Inventou uma vers\u00e3o dos fatos, tentou confundir os investigadores e desviou o foco da apura\u00e7\u00e3o. Durante esta investiga\u00e7\u00e3o, tive acesso aos autos do processo criminal e pude constatar: n\u00e3o se trata de um crime ocasional, mas de uma tentativa de manter as apar\u00eancias. O processo n\u00e3o revela apenas a viol\u00eancia de um ato, mas o c\u00e1lculo de quem, mesmo depois do ocorrido, optou por encobrir sua responsabilidade. De quem teve a calma de voltar para casa, tomar banho, vestir-se, e seguir para o vel\u00f3rio da sua pr\u00f3pria v\u00edtima. No cap\u00edtulo seguinte esta rep\u00f3rter relata a sequ\u00eancia dos seus atos.<\/p>\n<p>Esta reportagem integra uma colet\u00e2nea de livro-reportagem investigativo. Este cap\u00edtulo trata da hist\u00f3ria do assassinato de Sirlene Pires. Leia o cap\u00edtulo anterior <a href=\"https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/entre-sirlene-e-vitoria-quatro-decadas-de-feminicidios-no-brasil\/\">aqui<\/a>. Acompanhe no Peri\u00f3dico as pr\u00f3ximas publica\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Ficha t\u00e9cnica<\/b><\/p>\n<p><b>Produ\u00e7\u00e3o: <\/b>Amanda Stafin<\/p>\n<p><b>Edi\u00e7\u00e3o e publica\u00e7\u00e3o: <\/b>Eduarda Gomes<\/p>\n<p><b>Supervis\u00e3o de produ\u00e7\u00e3o: <\/b>Hendryo Andr\u00e9<\/p>\n<p><b>Supervis\u00e3o de publica\u00e7\u00e3o: <\/b>Aline Rosso e Kevin Kossar Furtado<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O que parecia um dia comum no interior transformou-se em um marco de dor e desconfian\u00e7a. Foto: Amanda Stafin Era 22 de novembro de 1988. 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