{"id":1511,"date":"2025-06-09T16:23:43","date_gmt":"2025-06-09T19:23:43","guid":{"rendered":"https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/?p=1511"},"modified":"2025-06-09T16:29:11","modified_gmt":"2025-06-09T19:29:11","slug":"adolescentes-sem-supervisao-online-enfrentam-seducao-da-misoginia-digital","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/adolescentes-sem-supervisao-online-enfrentam-seducao-da-misoginia-digital\/","title":{"rendered":"Adolescentes sem supervis\u00e3o online enfrentam sedu\u00e7\u00e3o da misoginia digital"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center\"><em>Estudos indicam que a exposi\u00e7\u00e3o precoce a conte\u00fados mis\u00f3ginos pode afetar o comportamento e as cren\u00e7as dos jovens. |\u00a0 Foto: Anna Perucelli<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Quase metade dos adolescentes brasileiros entre 9 e 17 anos acessa a internet sem qualquer supervis\u00e3o dos pais, de acordo com a pesquisa TIC Kids Online Brasil. Entre os jovens de 15 a 17 anos, esse n\u00famero sobe para 51%. O contato com o ambiente digital come\u00e7a cada vez mais cedo: 24% das crian\u00e7as brasileiras j\u00e1 haviam acessado a internet antes dos seis anos de idade. O que parece apenas um dado sobre conectividade revela algo mais profundo: a forma\u00e7\u00e3o de uma gera\u00e7\u00e3o vulner\u00e1vel \u00e0 cultura digital de \u00f3dio e ao discurso mis\u00f3gino que se espalha pelas redes.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Nos \u00faltimos anos, comunidades virtuais como <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">red pill<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">incels<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> e MGTOW (<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Men Going Their Own Way<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">), em portugu\u00eas \u201cHomens seguindo seu pr\u00f3prio caminho\u201d, ganharam for\u00e7a e visibilidade, se apresentando como espa\u00e7os de apoio masculino, mas promovendo, na pr\u00e1tica, a inferioriza\u00e7\u00e3o e o \u00f3dio \u00e0s mulheres.\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">A comunidade <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">red pill<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> defende uma vis\u00e3o hier\u00e1rquica entre os sexos, na qual os homens deveriam \u201cdespertar\u201d para a suposta manipula\u00e7\u00e3o feminina e retomar o controle nas rela\u00e7\u00f5es.\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">J\u00e1 os incels (celibat\u00e1rios involunt\u00e1rios) s\u00e3o formados majoritariamente por homens que culpam as mulheres por sua rejei\u00e7\u00e3o sexual, frequentemente expressando frustra\u00e7\u00e3o com discursos mis\u00f3ginos e violentos.\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Por fim, os MGTOW pregam o afastamento total de relacionamentos com mulheres, alegando que seriam sempre prejudiciais aos homens, e promovem uma vida de isolamento como forma de &#8220;prote\u00e7\u00e3o&#8221; contra o que veem como um sistema feminizado e hostil.\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Apesar de diferen\u00e7as em suas motiva\u00e7\u00f5es e estrat\u00e9gias, essas comunidades compartilham uma ret\u00f3rica antifeminista e consolidam espa\u00e7os digitais de radicaliza\u00e7\u00e3o mis\u00f3gina. As comunidades integram o que os pesquisadores chamam de \u201cmachosfera\u201d, um ecossistema online que reproduz, refor\u00e7a e radicaliza o sexismo. Estudo do <\/span><a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/netlab_ufrj\/?hl=pt\"><span style=\"font-weight: 400\">Laborat\u00f3rio de Estudos de Internet e Redes Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400\">, em parceria com o Minist\u00e9rio das Mulheres, identificou a machosfera como um dos principais vetores da dissemina\u00e7\u00e3o de estere\u00f3tipos de g\u00eanero, discursos de \u00f3dio e viol\u00eancia simb\u00f3lica.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">A comunidade <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">red pill<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> \u00e9 a mais numerosa dentro da machosfera. O nome vem do filme <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Matrix<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> e se refere \u00e0 \u201cp\u00edlula vermelha\u201d, que, no universo ficcional, revelaria a verdade oculta sobre o mundo. No contexto digital, essa \u201cverdade\u201d seria a suposta liberta\u00e7\u00e3o masculina da opress\u00e3o feminina e do feminismo. Os conte\u00fados <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">red pill<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> n\u00e3o apenas atacam o feminismo, mas tamb\u00e9m refor\u00e7am a inferioriza\u00e7\u00e3o das mulheres por meio da objetifica\u00e7\u00e3o, sexualiza\u00e7\u00e3o e desprezo intelectual. \u201cEsses grupos oferecem explica\u00e7\u00f5es simples para frustra\u00e7\u00f5es complexas e atingem justamente quem est\u00e1 em forma\u00e7\u00e3o emocional, como adolescentes entre 11 e 17 anos\u201d, explica Eloni dos Santos Perin, professora e pesquisadora na \u00e1rea de Educa\u00e7\u00e3o na Secretaria de Estado de Educa\u00e7\u00e3o do Paran\u00e1. \u201cEles vendem a ideia de que o homem foi tra\u00eddo por uma sociedade feminista e que a solu\u00e7\u00e3o \u00e9 rejeitar a mulher e exalt\u00e1-lo como superior\u201d.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">A est\u00e9tica visual agressiva, a linguagem direta e emocional, os v\u00eddeos curtos, os memes, os gestos exagerados e at\u00e9 os \u00e1udios gerados por intelig\u00eancia artificial s\u00e3o algumas das ferramentas usadas por esses grupos para capturar a aten\u00e7\u00e3o dos adolescentes. \u201cO algoritmo colabora. Quanto mais radical o conte\u00fado, mais ele gera engajamento. Isso se converte em lucro para as plataformas e em prest\u00edgio para os produtores de conte\u00fado\u201d, diz Eloni.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">O conte\u00fado mis\u00f3gino, que antes circulava em f\u00f3runs fechados, agora aparece em perfis populares e v\u00eddeos com milh\u00f5es de visualiza\u00e7\u00f5es. Influenciadores que se declaram abertamente contra as mulheres s\u00e3o seguidos por meninos em processo de forma\u00e7\u00e3o. A misoginia, muitas vezes, chega de forma sutil,\u00a0 disfar\u00e7ada de piada, conselho, provoca\u00e7\u00e3o ou ideia de \u201cmasculinidade verdadeira\u201d.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Para o especialista em ciberseguran\u00e7a Rafael Almeida, a populariza\u00e7\u00e3o desses discursos est\u00e1 diretamente relacionada ao modo como as plataformas digitais operam. \u201cAs redes permitem e favorecem a propaga\u00e7\u00e3o de conte\u00fado extremista. Os algoritmos s\u00e3o treinados para manter o usu\u00e1rio engajado pelo maior tempo poss\u00edvel, e discursos polarizados e violentos tendem a performar melhor nesse sistema\u201d, explica. Segundo ele, o fato de adolescentes passarem horas conectados sem supervis\u00e3o aumenta os riscos. \u201cEles acabam entrando em bolhas e s\u00e3o expostos repetidamente ao mesmo tipo de conte\u00fado, o que refor\u00e7a cren\u00e7as e normaliza comportamentos nocivos\u201d.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">O reflexo disso chega diretamente \u00e0s escolas. \u201c\u00c9 ali que essas ideias ganham for\u00e7a: nas piadas, nas falas sobre \u2018lugar de mulher\u2019, na rejei\u00e7\u00e3o a professoras ou colegas meninas. A misoginia cotidiana est\u00e1 presente e precisa ser enfrentada. Ela n\u00e3o nasce nas redes, nasce na sociedade e ganha visibilidade online\u201d, destaca a professora.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">A estrutura dessas comunidades digitais refor\u00e7a valores como o desprezo \u00e0s emo\u00e7\u00f5es e a cren\u00e7a de que a rejei\u00e7\u00e3o amorosa \u00e9 uma humilha\u00e7\u00e3o insuport\u00e1vel para os meninos. Frustra\u00e7\u00f5es afetivas s\u00e3o transformadas em ressentimento \u2014 e o ressentimento, em \u00f3dio.\u00a0\u00a0\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Outro agravante \u00e9 a omiss\u00e3o das plataformas diante da dissemina\u00e7\u00e3o desse tipo de conte\u00fado. No caso do <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Instagram<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, por exemplo, a empresa desativou ferramentas de checagem de fatos em determinados contextos, o que enfraqueceu os mecanismos de modera\u00e7\u00e3o e controle da desinforma\u00e7\u00e3o. Essa medida foi amplamente criticada por especialistas por priorizar interesses comerciais, como o aumento do engajamento e da monetiza\u00e7\u00e3o, em detrimento da seguran\u00e7a dos usu\u00e1rios. Com menos filtros e fiscaliza\u00e7\u00e3o, torna-se mais f\u00e1cil a propaga\u00e7\u00e3o de conte\u00fados falsos, discursos de \u00f3dio e ataques direcionados, especialmente contra grupos vulner\u00e1veis, como as mulheres.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">A misoginia digital \u00e9, tamb\u00e9m, um problema visual e semi\u00f3tico. Ela aparece nas imagens, nos gestos, nas express\u00f5es corporais dos v\u00eddeos. E muitas vezes se normaliza na linguagem cotidiana. \u00c9 essa naturaliza\u00e7\u00e3o que preocupa: a misoginia deixa de parecer uma viol\u00eancia e passa a parecer apenas \u201copini\u00e3o\u201d.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Para enfrentar esse cen\u00e1rio, Eloni defende um trip\u00e9 de a\u00e7\u00e3o: legisla\u00e7\u00f5es e pol\u00edticas p\u00fablicas que limitem o alcance desse conte\u00fado, responsabiliza\u00e7\u00e3o direta das plataformas e educa\u00e7\u00e3o cr\u00edtica desde cedo. \u201cOs jovens precisam entender que isso \u00e9 um problema social, n\u00e3o uma piada. Precisam aprender a identificar e questionar os conte\u00fados que consomem. O di\u00e1logo \u00e9 o caminho.\u201d<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Enquanto comunidades como <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">red pill<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> continuam se apresentando como um abrigo para adolescentes inseguros e refor\u00e7ando a misoginia como identidade e rebeldia, o desafio de proteg\u00ea-los exige um esfor\u00e7o coletivo, urgente e profundo.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Esta reportagem integra uma colet\u00e2nea de livro-reportagem investigativo. Este cap\u00edtulo trata da misoginia nas redes sociais. Leia o cap\u00edtulo anterior <\/span><a href=\"https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/misoginia-cresce-na-internet-e-expoe-falhas-na-protecao-as-mulheres\/\"><span style=\"font-weight: 400\">aqui<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400\">. Acompanhe no Peri\u00f3dico as pr\u00f3ximas publica\u00e7\u00f5es.<\/span><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"size-medium wp-image-1517 aligncenter\" src=\"https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/wp-content\/uploads\/sites\/282\/2025\/06\/Infografico-1-1-300x221.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"221\" srcset=\"https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/wp-content\/uploads\/sites\/282\/2025\/06\/Infografico-1-1-300x221.jpg 300w, https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/wp-content\/uploads\/sites\/282\/2025\/06\/Infografico-1-1-768x565.jpg 768w, https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/wp-content\/uploads\/sites\/282\/2025\/06\/Infografico-1-1.jpg 979w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Ficha t\u00e9cnica<\/strong><\/p>\n<p><strong>Produ\u00e7\u00e3o:<\/strong>\u00a0Anna Perucelli<\/p>\n<p><strong>Edi\u00e7\u00e3o e publica\u00e7\u00e3o:\u00a0<\/strong>Isabela Machado e Jo\u00e3o Bobato<\/p>\n<p><strong>Supervis\u00e3o de produ\u00e7\u00e3o:<\/strong>\u00a0Hendryo Anderson Andr\u00e9<\/p>\n<p><strong>Supervis\u00e3o de publica\u00e7\u00e3o:<\/strong>\u00a0Aline Rosso e Kevin Kossar Furtado<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Estudos indicam que a exposi\u00e7\u00e3o precoce a conte\u00fados mis\u00f3ginos pode afetar o comportamento e as cren\u00e7as dos jovens. |\u00a0 Foto: Anna Perucelli Quase metade dos adolescentes brasileiros entre 9 e 17 anos acessa a internet sem qualquer supervis\u00e3o dos pais, de acordo com a pesquisa TIC Kids Online Brasil. 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