{"id":1520,"date":"2025-06-09T16:41:01","date_gmt":"2025-06-09T19:41:01","guid":{"rendered":"https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/?p=1520"},"modified":"2025-06-09T16:41:01","modified_gmt":"2025-06-09T19:41:01","slug":"caso-luciane-de-avila-crime-revela-face-da-misoginia-em-ponta-grossa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/caso-luciane-de-avila-crime-revela-face-da-misoginia-em-ponta-grossa\/","title":{"rendered":"Caso Luciane de \u00c1vila: crime revela face da misoginia em Ponta Grossa"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center\"><em>Luciane tinha tr\u00eas filhos, dois menores de idade, na \u00e9poca. Foto: arquivo pessoal.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><i><span style=\"font-weight: 400\">Mesmo ap\u00f3s 10\u00b0 ano da Lei do Feminic\u00eddio, Paran\u00e1 \u00e9 o segundo estado que mais matou mulheres em 2024<\/span><\/i><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Em Ponta Grossa, a Casa da Mulher se transformou na Casa da Mulher Brasileira, em novembro de 2024, e leva o nome de uma mulher que foi brutalmente assassinada na frente do filho de oito anos na \u00e9poca. Luciane Aparecida de \u00c1vila era m\u00e3e de tr\u00eas filhos e professora em uma escola infantil, local onde foi morta. Cinco anos se passaram desde que a \u201cProf. Lu\u201d\u00a0 conhecida carinhosamente pelos\u00a0 alunos e colegas de trabalho perdeu a vida para a misoginia. Mesmo com a dor, Lucas Cedric de \u00c1vila, filho mais velho de Luciane, hoje com 30 anos e com a guarda dos dois irm\u00e3os mais novos, n\u00e3o se cala. O luto virou uma batalha, por justi\u00e7a, pela mem\u00f3ria e por mudan\u00e7a.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">\u201cMinha m\u00e3e sempre priorizou os filhos. Suportou muita coisa por n\u00f3s\u201d, afirma Lucas, sobre os anos de abusos psicol\u00f3gicos e f\u00edsicos que a m\u00e3e dele sofreu em sil\u00eancio. \u201cEla era tensa o tempo todo, evitava situa\u00e7\u00f5es que pudessem causar ci\u00fames ou ataques dele. At\u00e9 reuni\u00f5es na igreja tornavam-se motivo de briga\u201d, relembra.\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Luciane tentou sair da situa\u00e7\u00e3o em que estava. Em 2019, viu o filho do meio, na \u00e9poca com 15 anos, sofrer com a gravidade da agress\u00e3o que ela sentia a via sentir na pele. \u201cFoi quando meu irm\u00e3o come\u00e7ou a se automutilar cortar. Ela viu que aquilo estava afetando diretamente a sa\u00fade dos filhos. Ent\u00e3o, tomou coragem e saiu de casa\u201d, comenta o Lucas. Por\u00e9m, mesmo separados, o agressor passou a usar os filhos para atingir Luciane. Escondeu o cachorro da fam\u00edlia e os amea\u00e7ava constantemente. \u201cEra tudo premeditado. Ele fingiu tentativa de suic\u00eddio, buscou atendimento psicol\u00f3gico, tudo para construir uma narrativa de insanidade\u201d, diz Lucas.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">No momento do homic\u00eddio, \u201cmesmo ferida, ela tentou proteger uma aluna. Esse era o jeito dela. At\u00e9 no \u00faltimo segundo, pensou nos outros\u201d, comenta Lucas. A como\u00e7\u00e3o pelo caso levou a cria\u00e7\u00e3o do Dia Municipal de Combate ao Feminic\u00eddio, no dia quatro de dezembro, data da morte da Prof Lu.\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">A Lei 13.104\/2015,\u00a0 tipifica o feminic\u00eddio como circunst\u00e2ncia qualificadora do homic\u00eddio, completou 10 anos. No entanto, como alerta a advogada e militante feminista Luana Ganio refor\u00e7a que a lei \u00e9 punitiva, mas n\u00e3o preventiva. Ela reconhece o assassinato de mulheres como uma quest\u00e3o de g\u00eanero, \u201co que \u00e9 fundamental, mas chega tarde demais para quem precisa de prote\u00e7\u00e3o antes\u201d, declara. Luana atua na coordena\u00e7\u00e3o do Movimento de Mulheres Olga Ben\u00e1rio e na Rede de Enfrentamento \u00e0 viol\u00eancia Ana Paula Campestrini e afirma que a maior falha da Lei \u00e9 n\u00e3o oferecer formas de sair do ciclo da viol\u00eancia. \u201cA mulher que quer sair, mas muitas vezes n\u00e3o tem para onde ir. A Casa da Mulher Brasileira \u00e9 um avan\u00e7o, mas ainda \u00e9 insuficiente\u201d, acrescenta.\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Lucas conta como foi criar os irm\u00e3os sozinho com a esposa ap\u00f3s o falecimento da m\u00e3e: \u201cFoi dif\u00edcil conquistar a confian\u00e7a deles. Eu era o novo homem da casa, e a \u00fanica refer\u00eancia que eles tinham era de algu\u00e9m que matou a pr\u00f3pria esposa\u201d, lamenta. Lucas\u00a0 aprendeu com a dor e emocionado diz que o sil\u00eancio n\u00e3o \u00e9 a melhor resposta para o sofrimento do outro. \u201cFalar, intervir, denunciar. N\u00f3s\u00a0 \u00a0 achamos que n\u00e3o \u00e9 da nossa conta. Mas pode ser sua m\u00e3e, sua irm\u00e3, sua vizinha. Quando apareceu o rosto da minha m\u00e3e no jornal, eu entendi: isso pode acontecer com qualquer uma\u201d, afirma.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><b>Feminic\u00eddio no Paran\u00e1<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">O que sobra depois dos gritos silenciados de uma mulher que perde a vida apenas por ser mulher? O luto \u00e9 constante. Desde 2015, ano de cria\u00e7\u00e3o da Lei de Feminic\u00eddio no Brasil, a conhecida Lei 13.104\/2015. Mesmo ap\u00f3s uma lei nomeada com o crime, os dados s\u00e3o cada vez mais alarmantes. Em 2025, a Lei completa uma d\u00e9cada, por\u00e9m, n\u00e3o \u00e9 motivo de comemora\u00e7\u00e3o: no Paran\u00e1, apenas entre 2023 e 2024, foram registrados 724 casos de feminic\u00eddio consumado ou tentado. O estado garante o segundo lugar no \u00edndice brasileiro e fica atr\u00e1s apenas de S\u00e3o Paulo, com 994 casos; esses dados s\u00e3o apresentados pela Lesfem \u2013 um relat\u00f3rio de dados sobre feminic\u00eddios consumados e tentados no Paran\u00e1; nos anos de 2023 e 2024, foram produzidos pelo Monitor de Feminic\u00eddios no Brasil (MFB), e s\u00e3o uma iniciativa do Laborat\u00f3rio de Estudos de Feminic\u00eddios da Universidade Estadual de Londrina (Lesfem\/UEL). Pesquisadoras do Lesfem afirmam que o aumento nos registros se deve, em parte, \u00e0 redu\u00e7\u00e3o da subnotifica\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m reflete a intensifica\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia contra meninas e mulheres. A Lesfem analisou que em metade das cidades paranaenses, ao menos uma mulher foi atacada; e em 263 desses casos, o grito n\u00e3o foi suficiente para impedir o assassinato dessas mulheres.<\/span><\/p>\n<div id=\"attachment_1539\" style=\"width: 662px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-1539\" loading=\"lazy\" class=\" wp-image-1539\" src=\"https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/wp-content\/uploads\/sites\/282\/2025\/06\/Design-sem-nome-1-1-300x150.png\" alt=\"\" width=\"652\" height=\"326\" srcset=\"https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/wp-content\/uploads\/sites\/282\/2025\/06\/Design-sem-nome-1-1-300x150.png 300w, https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/wp-content\/uploads\/sites\/282\/2025\/06\/Design-sem-nome-1-1-1024x512.png 1024w, https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/wp-content\/uploads\/sites\/282\/2025\/06\/Design-sem-nome-1-1-768x384.png 768w, https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/wp-content\/uploads\/sites\/282\/2025\/06\/Design-sem-nome-1-1-1536x768.png 1536w, https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/wp-content\/uploads\/sites\/282\/2025\/06\/Design-sem-nome-1-1-1232x616.png 1232w, https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/wp-content\/uploads\/sites\/282\/2025\/06\/Design-sem-nome-1-1-1920x960.png 1920w, https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/wp-content\/uploads\/sites\/282\/2025\/06\/Design-sem-nome-1-1.png 2000w\" sizes=\"(max-width: 652px) 100vw, 652px\" \/><p id=\"caption-attachment-1539\" class=\"wp-caption-text\">Cr\u00e9dito: Rafaela Conrado<\/p><\/div>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Segundo o MFB, Ponta Grossa contabiliza 28 casos e fica entre as tr\u00eas cidades com mais ocorr\u00eancias no Paran\u00e1, atr\u00e1s de Curitiba (72) e Cascavel (30). Desses casos, 45% das vezes o assassino foi o companheiro atual da mulher que tirou-lhe a vida. Os dados apontam que 30% dos ex-companheiros cometeram o crime contra a vida da mulher.\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Com base nos mesmos dados, em 60% desses casos, o crime foi cometido dentro da casa da v\u00edtima, ou seja, no espa\u00e7o que deveria haver prote\u00e7\u00e3o. Entre 2023 e 2024, mais de 120 familiares foram testemunha desse tipo de homic\u00eddio, destes, 32 mulheres haviam pedido ajuda antes da fatalidade acontecer.\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Para diminuir os casos ou ao menos conter os agressores, o Estado decide agir. Assim, foram criadas delegacias especializadas para mulheres, campanhas de conscientiza\u00e7\u00e3o e investimentos na seguran\u00e7a. Al\u00e9m disso, o Supremo Tribunal Federal declarou ser inconstitucional a \u201cdefesa da honra\u201d. O \u201cPacote Anti feminic\u00eddio\u201d foi sancionado em 2024. Agora o crime \u00e9 aut\u00f4nomo, com penas de 20 a 40 anos de pris\u00e3o e at\u00e9 60 anos em caso de agravantes. A Lei Maria da Penha tamb\u00e9m foi alterada, o descumprimento da medida protetiva pode ir al\u00e9m da multa e chegar a cinco anos de pris\u00e3o \u2013 uma vit\u00f3ria, mas n\u00e3o o suficiente para impedir que mulheres sejam mortas. Quantas leis s\u00e3o necess\u00e1rias at\u00e9 que nenhuma mulher precise morrer para ser ouvida? <\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">O MFB acrescentou ainda as armas utilizadas para acabar com as vidas das mulheres. Em 18% dos casos, foram utilizadas armas de fogo e 53% envolveram armas brancas. H\u00e1 algo que vai al\u00e9m da constitui\u00e7\u00e3o: crian\u00e7as e adolescentes s\u00e3o afetados diariamente e tornam-se v\u00edtimas indiretas desse tipo de assassinato, a viol\u00eancia tamb\u00e9m \u00e9 contra a fam\u00edlia.\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">O cen\u00e1rio nacional n\u00e3o \u00e9 diferente do Paran\u00e1. De acordo com o Minist\u00e9rio da Justi\u00e7a, o Brasil registrou, apenas em 2024, 1.459 casos de feminic\u00eddio, o maior n\u00famero desde a cria\u00e7\u00e3o da Lei de Feminic\u00eddio. Desde 2015, mais de 11,8 mil mulheres foram assassinadas.\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Esta reportagem integra uma colet\u00e2nea de livro-reportagem investigativo. Este cap\u00edtulo trata do feminic\u00eddio no Paran\u00e1 e do caso de Luciane de \u00c1vila em Ponta Grossa. Acompanhe no Peri\u00f3dico as pr\u00f3ximas publica\u00e7\u00f5es.<\/span><\/p>\n<p><strong>Ficha t\u00e9cnica<\/strong><\/p>\n<p><strong>Produ\u00e7\u00e3o<\/strong>: Daphinne Urtado<\/p>\n<p><strong>Edi\u00e7\u00e3o e publica\u00e7\u00e3o:\u00a0<\/strong>Larissa Oliveira, Gabriela Denkwiski e Ester Roloff<\/p>\n<p><strong>Supervis\u00e3o de produ\u00e7\u00e3o:\u00a0<\/strong>Hendryo Anderson Andr\u00e9<\/p>\n<p><strong>Supervis\u00e3o de publica\u00e7\u00e3o: <\/strong>Aline Rosso e Kevin Furtado<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Luciane tinha tr\u00eas filhos, dois menores de idade, na \u00e9poca. Foto: arquivo pessoal. 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