{"id":1957,"date":"2025-08-20T14:26:31","date_gmt":"2025-08-20T17:26:31","guid":{"rendered":"https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/?p=1957"},"modified":"2025-10-06T16:14:32","modified_gmt":"2025-10-06T19:14:32","slug":"bonecas-de-luxo-maes-sem-direito-o-brasil-que-escolhe-quem-pode-cuidar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/bonecas-de-luxo-maes-sem-direito-o-brasil-que-escolhe-quem-pode-cuidar\/","title":{"rendered":"Bonecas de luxo, m\u00e3es sem direito: o Brasil que escolhe quem pode cuidar"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center\"><i>Enquanto beb\u00eas reborn movimentam encontros e geram disputas legais por privil\u00e9gios, mulheres reais enfrentam a clandestinidade e o risco de morte por decidirem sobre seus corpos. Foto: Fabricio Zvir<\/i><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Quem olha de longe, observa pais e m\u00e3es de todas as idades, uma como\u00e7\u00e3o: todos carregando nos bra\u00e7os um beb\u00ea, enxovais, ber\u00e7os e brinquedos no parque. Contudo,\u00a0 em um lugar com tantos beb\u00eas, nenhum deles chora e n\u00e3o tem pulsa\u00e7\u00e3o. Essa \u00e9 a vis\u00e3o de quem andava no Parque Ibirapuera no dia 3 de maio deste ano, onde aconteceu um encontro de beb\u00eas reborn. De um lado, \u201cm\u00e3es\u201d veem vida em quem n\u00e3o tem e, do outro, m\u00e3es que lutam pelo direito de seu pr\u00f3prio corpo.<\/p>\n<p>O reflexo da hipocrisia brasileira pode ser visto por diversas nuances. O valor de um beb\u00ea reborn pode ultrapassar facilmente a casa dos milhares de reais. Artigo de luxo, eles\u00a0 s\u00e3o bonecos feitos artesanalmente, cujo objetivo \u00e9 se assemelhar ao m\u00e1ximo com a apar\u00eancia humana real. As pol\u00eamicas que circulam esse consumo est\u00e3o no modo de uso, muitos \u201cpais\u201d de beb\u00eas reborn usam a pr\u00e1tica para fins terap\u00eauticos e de processo de luto, al\u00e9m de, claro, a divers\u00e3o. Em outro contexto, h\u00e1 casos extremos em que pessoas que t\u00eam o brinquedo se desconectam da realidade, confundindo o real e a imagina\u00e7\u00e3o como apontado pela psic\u00f3loga cl\u00ednica, Adriana Dal Bosco. \u201cNestes casos, \u00e9 aconselh\u00e1vel o aux\u00edlio psiqui\u00e1trico\u201d, aponta.<\/p>\n<p>Na Bahia, uma \u2018m\u00e3e\u2019 recorreu \u00e0 justi\u00e7a ap\u00f3s seu empregador negar o pedido de licen\u00e7a-maternidade de seu beb\u00ea reborn. Ainda no estado, no munic\u00edpio de Guanambi, uma jovem de 25 anos, levou sua boneca e teve atendimento negado em uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA). Casos como estes viralizaram e a quest\u00e3o chegou aos Senado e \u00e0s C\u00e2maras Municipais. O<a href=\"https:\/\/www.camara.leg.br\/proposicoesWeb\/prop_mostrarintegra?codteor=2907074&amp;filename=Tramitacao-PL%202320\/2025\"> Projeto de Lei (PL) 2320\/2025<\/a>, de autoria do deputado Dr. Zacharias Calil (UNI\u00c3O) est\u00e1 em tr\u00e2mite na C\u00e2mara dos Deputados, a proposta tem o objetivo de punir quem utilizar bonecas hiper-realistas para obter indevidamente benef\u00edcios destinados a crian\u00e7as de colo, aplicando san\u00e7\u00f5es administrativas e multas. A medida visa coibir fraudes e proteger a prioridade real das crian\u00e7as nos servi\u00e7os p\u00fablicos e privados.<\/p>\n<p>Enquanto isso, em outra esfera da sociedade, m\u00e3es reais enfrentam obst\u00e1culos para garantir direitos b\u00e1sicos e, muitas vezes, s\u00e3o condenadas por tentar decidir sobre seu pr\u00f3prio corpo, ter ou n\u00e3o um filho. Em um pa\u00eds onde o aborto \u00e9 cercado de estigmas e restri\u00e7\u00f5es, mulheres perif\u00e9ricas, negras e pobres sofrem as consequ\u00eancias mais severas da neglig\u00eancia estatal, como no caso na cidade de Chapec\u00f3 (SC), em que uma mulher de 35 anos morreu ap\u00f3s tentar realizar um aborto clandestinamente. \u201cO aborto \u00e9 um caso de sa\u00fade p\u00fablica e a vida da mulher o que define \u00e9 o dinheiro\u201d, pondera Ligiane de Meira, 36, integrante do Coletivo Feminismos em Luta.<\/p>\n<div id=\"attachment_1962\" style=\"width: 618px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-1962\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-1962\" src=\"https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/wp-content\/uploads\/sites\/282\/2025\/08\/Grafico-Bonecas-300x225.png\" alt=\"\" width=\"608\" height=\"456\" srcset=\"https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/wp-content\/uploads\/sites\/282\/2025\/08\/Grafico-Bonecas-300x225.png 300w, https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/wp-content\/uploads\/sites\/282\/2025\/08\/Grafico-Bonecas-768x576.png 768w, https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/wp-content\/uploads\/sites\/282\/2025\/08\/Grafico-Bonecas.png 1024w\" sizes=\"(max-width: 608px) 100vw, 608px\" \/><p id=\"caption-attachment-1962\" class=\"wp-caption-text\">\u00a0Cr\u00e9dito: Fabricio Zvir<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Dois panoramas distintos que revelam o classicismo em nosso pa\u00eds: de um lado, o privil\u00e9gio de tratar uma boneca como um beb\u00ea real; do outro, a luta por reconhecimento e dignidade na maternidade concreta. Confira o relato da m\u00e3e real, Ana Alice <i>(Nome Fict\u00edcio)<\/i>, e a realidade de uma maternidade precoce e a rela\u00e7\u00e3o com o aborto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><b>Relato<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Eu tinha 14 anos. N\u00e3o era mulher, tampouco crian\u00e7a. Estava no in\u00edcio da adolesc\u00eancia, cheia de sonhos e planos. Foi nesse per\u00edodo que me deparei com um teste de gravidez positivo. Minha primeira rea\u00e7\u00e3o n\u00e3o foi d\u00favida, nem alegria: foi medo. \u201cEu s\u00f3 pensava em tirar. Era imposs\u00edvel ser m\u00e3e naquela idade.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O aborto apareceu na minha vida como a \u00fanica sa\u00edda poss\u00edvel. N\u00e3o tinha espa\u00e7o para romantismo, s\u00f3 desespero. O apoio familiar naquele momento n\u00e3o era algo concreto e com muito medo, comecei a procurar alternativas clandestinas. Para mim era o \u00fanico caminho vi\u00e1vel para uma adolescente como eu.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Meu namorado na \u00e9poca, foi quem come\u00e7ou a correr atr\u00e1s de uma solu\u00e7\u00e3o. Diferente de muitos casos que a gente ouve por a\u00ed, ele me apoiou em qualquer decis\u00e3o. Foi ele quem conseguiu, atrav\u00e9s de uma amiga farmac\u00eautica, o contato de um m\u00e9dico que tinha uma cl\u00ednica clandestina numa cidade vizinha. O procedimento seria feito em segredo dos meus pais. Quando ele me perguntou se eu queria mesmo tirar, eu n\u00e3o hesitei: disse que sim.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Meu medo mais forte n\u00e3o era o julgamento moral, mas o risco de morrer. Cogitei tomar Cytotec, sabia que era perigoso. Eu iria ter a chance de fazer em uma cl\u00ednica clandestina, mesmo assim eu sabia que n\u00e3o seria 100% seguro. Voc\u00ea literalmente vai pra casa de algu\u00e9m que voc\u00ea nunca viu na vida, numa cidade que n\u00e3o \u00e9 sua, e s\u00f3 torce pra sair de l\u00e1 sem sequelas.Al\u00e9m do risco f\u00edsico, tinha o medo legal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Se algo desse errado e eu precisasse de atendimento m\u00e9dico, eu podia ser denunciada. Mas o tempo, meu corpo e a desconfian\u00e7a da minha m\u00e3e foram mais r\u00e1pidos que o procedimento. Ela come\u00e7ou a perceber os sinais. Em um certo dia, me fez fazer um teste na frente dela. Eu j\u00e1 sabia o resultado, mas ainda assim chorei como se fosse a primeira vez vendo aquele positivo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Achei que seria o fim: gritos, castigos, rejei\u00e7\u00e3o. Mas veio algo inesperado: apoio. Minha m\u00e3e surtou no come\u00e7o, mas depois voltou ao meu quarto e disse que ia ficar tudo bem. Meu pai, de quem eu mais temia a rea\u00e7\u00e3o, foi quem mais me acolheu. Sentou do meu lado e disse que eu n\u00e3o precisava desistir de nada, que n\u00e3o queria que eu parasse de estudar nem casasse, que eu tinha pai, tinha m\u00e3e e que n\u00e3o estaria sozinha.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Esse apoio mudou tudo. Aos poucos, fui aceitando a gravidez e comecei a construir uma nova vis\u00e3o sobre aquilo que antes parecia o fim da minha hist\u00f3ria. Meus amigos, professores e at\u00e9 a diretora da escola tamb\u00e9m me acolheram. Com essa rede, fui encontrando for\u00e7as para seguir em frente. N\u00e3o foi f\u00e1cil, mas j\u00e1 n\u00e3o era imposs\u00edvel. Entre o medo e o acolhimento, eu escolhi continuar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Se eu engravidasse hoje, com a cabe\u00e7a que tenho agora, eu tiraria. Porque hoje eu sei o que significa ser m\u00e3e. E sei tamb\u00e9m o que significa n\u00e3o estar pronta. A minha hist\u00f3ria \u00e9 s\u00f3 uma entre tantas. \u00c9 a hist\u00f3ria de uma menina for\u00e7ada a virar adulta. Mas, acima de tudo, \u00e9 sobre o direito de n\u00e3o ser m\u00e3e.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><b>Fim do relato<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A partir dali, a hist\u00f3ria seguiu um outro rumo. Mas a escolha pelo aborto deixou marcas e um entendimento profundo sobre como o sistema brasileiro obriga meninas a tomarem decis\u00f5es imposs\u00edveis, muitas vezes em sil\u00eancio e com o medo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Esta reportagem \u00e9 uma an\u00e1lise social de pautas da maternidade brasileira e faz parte de uma s\u00e9rie que est\u00e1 sendo produzida para a mat\u00e9ria de Produ\u00e7\u00e3o e Edi\u00e7\u00e3o de Textos Jornal\u00edsticos III. No pr\u00f3ximo cap\u00edtulo, vamos abordar o aborto na hist\u00f3ria da sociedade e conhecer o relato de Sandra <i>(Nome Fict\u00edcio)<\/i>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>Ficha t\u00e9cnica\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>Texto:<\/strong> Fabricio Zvir<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>Edi\u00e7\u00e3o e publica\u00e7\u00e3o:\u00a0<\/strong>Sabrina Waselcoski<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>Supervis\u00e3o de produ\u00e7\u00e3o: <\/strong>Hendryo Andr\u00e9<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>Supervis\u00e3o da publica\u00e7\u00e3o: <\/strong>Aline Rosso e Kevin Furtado<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Enquanto beb\u00eas reborn movimentam encontros e geram disputas legais por privil\u00e9gios, mulheres reais enfrentam a clandestinidade e o risco de morte por decidirem sobre seus corpos. 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