{"id":1969,"date":"2025-08-20T14:40:36","date_gmt":"2025-08-20T17:40:36","guid":{"rendered":"https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/?p=1969"},"modified":"2025-08-20T14:40:36","modified_gmt":"2025-08-20T17:40:36","slug":"o-cerco-da-comunidade-ao-suspeito","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/o-cerco-da-comunidade-ao-suspeito\/","title":{"rendered":"O cerco da comunidade ao suspeito"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center\"><i>Em uma tentativa de justi\u00e7a, cerca de 200 pessoas, entre vizinhos e amigos de Sirlene, se mobilizaram para garantir que o acusado n\u00e3o fosse solt. Foto: Amanda Stafin<\/i><\/p>\n<p>Os dias que se seguiram ap\u00f3s o assassinato de Sirlene Pires foram de inquieta\u00e7\u00e3o em uma cidade acostumada a uma rotina tranquila. Era dif\u00edcil de acreditar. Op\u00e7\u00f5es como a internet era algo distante na \u00e9poca. A not\u00edcia se espalhou de boca a boca, carregada de medo e indigna\u00e7\u00e3o. Entre conversas de vizinhos e conhecidos, os burburinhos se misturavam com o medo e a indigna\u00e7\u00e3o de um crime. A pergunta que pairava era a mesma: o criminoso fora encontrado? E, se fosse preso, ficaria atr\u00e1s das grades por quanto tempo?<\/p>\n<p>Era 30 de novembro de 1988, Ernesto (nome fict\u00edcio) se apresentou na cadeia p\u00fablica e foi preso. Acompanhado por seus advogados, o autor do crime contra Sirlene confessou a autoria do delito, narrando as circunst\u00e2ncias que ocorreu e ainda noticiou e confessou outro delito, a den\u00fancia do furto simulado, relatada no <a href=\"https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/velando-o-proprio-crime-o-disfarce-do-agressor-no-velorio-da-vitima\/\">cap\u00edtulo anterior<\/a>.<\/p>\n<p>J\u00e1 havia passado mais de uma semana desde a morte da jovem. Era uma manh\u00e3 de rotina para Jo\u00e3o (nome fict\u00edcio), dono de um pequeno boteco no interior de Palmeira, que relatou acontecimentos no vel\u00f3rio da v\u00edtima. Decidiu ir at\u00e9 a delegacia para pagar a licen\u00e7a de funcionamento do estabelecimento. N\u00e3o esperava testemunhar um dos momentos mais tensos do caso. \u201cEu cheguei l\u00e1 e vi um conhecido sentado em frente \u00e0 delegacia\u201d, lembra, com indigna\u00e7\u00e3o ainda percept\u00edvel. \u201cAssim que me viu, ele falou: \u2018o bandido t\u00e1 aqui dando depoimento, aquele que matou a filha do Gilson\u2019\u201d (nome fict\u00edcio).<\/p>\n<p>A informa\u00e7\u00e3o logo se espalhou. Jo\u00e3o deixou a delegacia pouco depois e foi avisar outros conhecidos. \u201cNem lembro exatamente para quem falei, mas algu\u00e9m ligou para o Nelson\u201d (nome fict\u00edcio). Nelson, conhecido na regi\u00e3o, estava dando suporte \u00e0 fam\u00edlia de Sirlene durante as investiga\u00e7\u00f5es. Quando soube da not\u00edcia, pegou seu caminh\u00e3o e percorreu a localidade de Col\u00f4nia Maciel, avisando vizinhos e amigos. Muitos, ao receberem a not\u00edcia, embarcaram imediatamente no ve\u00edculo e seguiram com ele para o distrito policial. Em pouco tempo, a frente da delegacia estava lotada.<\/p>\n<p>\u201cEncheu de gente\u201d, relata Bernadete, outra moradora. Eram cerca de 200 pessoas aglomeradas em frente \u00e0 delegacia. Todo mundo queria ver, queria fazer alguma coisa. Segundo ela, a movimenta\u00e7\u00e3o levou o delegado a solicitar refor\u00e7o policial de Ponta Grossa, temendo uma invas\u00e3o.<\/p>\n<p>A mobiliza\u00e7\u00e3o foi r\u00e1pida e marcada por um sentimento coletivo de indigna\u00e7\u00e3o. Boatos de uma poss\u00edvel transfer\u00eancia do acusado aumentaram a tens\u00e3o. Em determinado momento, os carros que tentavam sair do p\u00e1tio da delegacia eram cercados por homens e mulheres para garantir que o suspeito n\u00e3o fosse retirado \u00e0s escondidas. \u201cO Luciano (nome fict\u00edcio), que tamb\u00e9m estava acompanhando o caso, pulou na frente de um dos carros\u201d, conta Jo\u00e3o. \u201cEle mandou abrir o porta-malas. Pensou que estavam tirando o assassino dali\u201d, diz. Sob press\u00e3o da multid\u00e3o, o motorista foi obrigado a descer e abrir o compartimento do ve\u00edculo, em uma cena constrangedora, para provar que n\u00e3o havia ningu\u00e9m escondido.<\/p>\n<p>Quando o refor\u00e7o policial chegou, o clima j\u00e1 era de revolta. Os port\u00f5es foram trancados, soldados formaram um cord\u00e3o de isolamento e a delegacia passou a ser vigiada. Do lado de fora, a multid\u00e3o permanecia em alerta, pressionando os policiais. \u201cO povo cercou o port\u00e3o. Os policiais ficaram com medo de a gente invadir. \u00c9ramos muitos l\u00e1 fora. A gente queria justi\u00e7a\u201d, lembra Jo\u00e3o.<\/p>\n<p>De acordo com a Rede de Observat\u00f3rios da Seguran\u00e7a, o linchamento n\u00e3o \u00e9 tipificado como crime no C\u00f3digo Penal, o que dificulta a produ\u00e7\u00e3o de estat\u00edsticas oficiais. Dependendo do desfecho, os epis\u00f3dios acabam sendo enquadrados como homic\u00eddio, tentativa de homic\u00eddio ou agress\u00e3o. Entre 2023 e 2024, o n\u00famero de casos saltou de 137 para 214, um aumento de 64% em apenas um ano, o equivalente a um linchamento a cada dois dias. A maioria das ocorr\u00eancias est\u00e1 ligada a crimes que chocam a comunidade local, como roubos, viol\u00eancia sexual ou assassinatos. Em comum, todos refletem um desejo perigoso: fazer justi\u00e7a com as pr\u00f3prias m\u00e3os.<\/p>\n<div id=\"attachment_1975\" style=\"width: 616px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-1975\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-1975\" src=\"https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/wp-content\/uploads\/sites\/282\/2025\/08\/AMANDA1-300x169.jpeg\" alt=\"\" width=\"606\" height=\"341\" srcset=\"https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/wp-content\/uploads\/sites\/282\/2025\/08\/AMANDA1-300x169.jpeg 300w, https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/wp-content\/uploads\/sites\/282\/2025\/08\/AMANDA1-1024x576.jpeg 1024w, https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/wp-content\/uploads\/sites\/282\/2025\/08\/AMANDA1-768x432.jpeg 768w, https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/wp-content\/uploads\/sites\/282\/2025\/08\/AMANDA1-1536x864.jpeg 1536w, https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/wp-content\/uploads\/sites\/282\/2025\/08\/AMANDA1-2048x1152.jpeg 2048w, https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/wp-content\/uploads\/sites\/282\/2025\/08\/AMANDA1-1232x693.jpeg 1232w, https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/wp-content\/uploads\/sites\/282\/2025\/08\/AMANDA1-1920x1080.jpeg 1920w\" sizes=\"(max-width: 606px) 100vw, 606px\" \/><p id=\"caption-attachment-1975\" class=\"wp-caption-text\">O port\u00e3o da delegacia se tornou uma barreira simb\u00f3lica entre a justi\u00e7a e a impunidade de um crime. Foto: Amanda Stafin<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>A pris\u00e3o preventiva<\/b><\/p>\n<p>No dia seguinte, para acalmar os \u00e2nimos, algumas pessoas foram autorizadas a entrar na delegacia e verificar se o homem acusado de matar Sirlene realmente continuava preso. Entre elas estavam Jo\u00e3o, comerciante da regi\u00e3o; Ciro, cunhado da v\u00edtima; e Nelson (nomes fict\u00edcios). \u201cNingu\u00e9m confiava. Ach\u00e1vamos que eles podiam soltar, dar um jeito de sumir com ele\u201d, explicou o comerciante.<\/p>\n<p>Eles passaram por tr\u00eas port\u00f5es de ferro antes de chegar ao fundo do corredor. Na \u00faltima cela, o acusado estava sentado, encostado na parede. \u201cEle nem olhou pra n\u00f3s. Ficou l\u00e1, de cabe\u00e7a baixa, como se estiv\u00e9ssemos invis\u00edveis\u201d. Talvez ele mesmo queria estar. \u201cMas vimos que ele estava preso mesmo. Aquilo, de certa forma, acalmou um pouco a gente\u201d, relata Jo\u00e3o.<\/p>\n<p>Este foi um dos momentos que mostra o quanto a revolta de parentes, amigos e conhecidos no cerco \u00e0 delegacia e a press\u00e3o sobre a pol\u00edcia j\u00e1 trazia um pedido por justi\u00e7a. N\u00e3o era apenas curiosidade: era um protesto silencioso, uma demonstra\u00e7\u00e3o de que a comunidade n\u00e3o permitiria que a morte de Sirlene fosse tratada como mais um caso qualquer. A morte da jovem n\u00e3o era apenas um crime, era um acontecimento que abalava a comunidade em torno de um mesmo sentimento: justi\u00e7a. Mas essa era apenas uma parte da hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Esta reportagem integra uma colet\u00e2nea de livro-reportagem investigativo. Este cap\u00edtulo trata da indigna\u00e7\u00e3o da comunidade ap\u00f3s o crime. Leia o cap\u00edtulo anterior <a href=\"https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/velando-o-proprio-crime-o-disfarce-do-agressor-no-velorio-da-vitima\/\">aqui. <\/a>Acompanhe no Peri\u00f3dico as pr\u00f3ximas publica\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Ficha t\u00e9cnica<\/b><\/p>\n<p><b>Produ\u00e7\u00e3o: <\/b>Amanda Stafin<\/p>\n<p><b>Edi\u00e7\u00e3o e publica\u00e7\u00e3o: <\/b>Eduarda Gomes<\/p>\n<p><b>Supervis\u00e3o de produ\u00e7\u00e3o: <\/b>Hendryo Andr\u00e9<\/p>\n<p><b>Supervis\u00e3o de publica\u00e7\u00e3o: <\/b>Aline Rosso e Kevin Kossar Furtado<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em uma tentativa de justi\u00e7a, cerca de 200 pessoas, entre vizinhos e amigos de Sirlene, se mobilizaram para garantir que o acusado n\u00e3o fosse solt. Foto: Amanda Stafin Os dias que se seguiram ap\u00f3s o assassinato de Sirlene Pires foram de inquieta\u00e7\u00e3o em uma cidade acostumada a uma rotina tranquila. Era dif\u00edcil de acreditar. 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