{"id":2147,"date":"2025-09-03T14:29:33","date_gmt":"2025-09-03T17:29:33","guid":{"rendered":"https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/?p=2147"},"modified":"2025-09-03T14:29:33","modified_gmt":"2025-09-03T17:29:33","slug":"pericia-aponta-indicios-de-execucao-em-morte-de-jovens-pela-pm-no-parana","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/pericia-aponta-indicios-de-execucao-em-morte-de-jovens-pela-pm-no-parana\/","title":{"rendered":"Per\u00edcia aponta ind\u00edcios de execu\u00e7\u00e3o em morte de jovens pela PM no Paran\u00e1"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center\"><i><span style=\"font-weight: 400\">Familiares de mortos durante abordagem da ROTAM contestam vers\u00e3o policial e apontam irregularidades na investiga\u00e7\u00e3o<\/span><\/i><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Negros seguem sendo os principais alvos da viol\u00eancia policial no Brasil, segundo dados do novo Anu\u00e1rio Brasileiro de Seguran\u00e7a P\u00fablica de 2025. A maioria das v\u00edtimas da letalidade policial \u00e9 composta por homens jovens: 99,2% das pessoas mortas em a\u00e7\u00f5es policiais no ano passado eram do sexo masculino, com maioria dos casos nas faixas et\u00e1rias mais baixas. O \u00edndice de letalidade chega a 2,3 mortes a cada 100 mil adolescentes entre 12 e 17 anos. Entre os jovens de 18 a 24 anos, a cada 100 mil habitantes, 9,6 pessoas s\u00e3o mortas. A taxa cai para 7,3 na faixa de 25 a 29 anos e diminui conforme a idade avan\u00e7a.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Dos mais de 6 mil casos de mortes causadas por policiais em 2024, pouco mais de 4,7 mil foram identificados. Segundo o Anu\u00e1rio Brasileiro de Seguran\u00e7a P\u00fablica, a maior parte dos estados n\u00e3o forneceu todos os dados, o que dificulta a transpar\u00eancia sobre as a\u00e7\u00f5es das corpora\u00e7\u00f5es. Entre os registros com autoria confirmada, 91,4% foram atribu\u00eddos a policiais militares em servi\u00e7o, representando 4.378 mortes. Outros 186 casos ocorreram fora do hor\u00e1rio de trabalho, tamb\u00e9m envolvendo Pol\u00edcia Militar.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Por que a pol\u00edcia ainda mata? Essa pergunta ainda se faz presente em comunidades perif\u00e9ricas de todo o Brasil. Para compreender a viol\u00eancia policial que atinge, principalmente, a popula\u00e7\u00e3o negra, \u00e9 necess\u00e1rio voltar ao per\u00edodo colonial. Durante a escravid\u00e3o, os chamados capit\u00e3es do mato tinham a fun\u00e7\u00e3o de perseguir, capturar e punir pessoas negras que tentavam fugir da escravid\u00e3o. Atuavam armados, com autoriza\u00e7\u00e3o dos senhores e usavam da for\u00e7a para manter a ordem do sistema escravocrata. Mais de um s\u00e9culo ap\u00f3s a aboli\u00e7\u00e3o, especialistas apontam que as pr\u00e1ticas de controle e repress\u00e3o n\u00e3o desapareceram apenas se adaptaram e os alvos seguem sendo os mesmos.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><b>Caso Elaine e Matheus\u00a0<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Na noite do dia 29 de junho de 2022, na PR-445, entre Irer\u00ea e Guaravera, no interior de Londrina, dois jovens foram mortos no asfalto. Elaine da Silva, de 28 anos, e Matheus Felipe Pereira, de 22 anos, estavam ca\u00eddos de costas\u00a0 com marcas de m\u00faltiplos disparos de arma de fogo na regi\u00e3o frontal do corpo, peito, t\u00f3rax e flancos. N\u00e3o havia sinais de tiros nas costas, nas m\u00e3os ou nos bra\u00e7os, nem qualquer ind\u00edcio de rea\u00e7\u00e3o, fuga ou resist\u00eancia f\u00edsica. Foram alvejados de frente, de forma direta e letal.\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">A posi\u00e7\u00e3o dos corpos, aliada \u00e0s les\u00f5es descritas no Laudo Pericial n\u00ba 63.373\/2022, nega a hip\u00f3tese de confronto em movimento ou troca de tiros. N\u00e3o havia sinal de que Matheus ou Elaine dispararam qualquer arma. As armas apresentadas pelos policiais foram um rev\u00f3lver .38 e uma pistola<\/span> <span style=\"font-weight: 400\">.380 que estavam descarregadas, sem cartuchos iniciados, sem digitais comprovadas e sequer foram encontradas nas m\u00e3os ou pr\u00f3ximas aos corpos.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">No local, o \u00fanico proj\u00e9til coletado pela per\u00edcia foi de calibre .40, compat\u00edvel com a arma usada pela Pol\u00edcia Militar. Nenhum vest\u00edgio de disparos de calibre .38 ou .380, que seriam os supostos armamentos das v\u00edtimas. N\u00e3o h\u00e1 tamb\u00e9m registro de ferimentos por disparos aos policiais.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">O carro em que Matheus e Elaine estavam, um Ford Fiesta branco, n\u00e3o apresentava marcas de colis\u00e3o, tiros laterais, nem sinais de persegui\u00e7\u00e3o. J\u00e1 a viatura da ROTAM tinha apenas uma pequena perfura\u00e7\u00e3o no para-choque dianteiro.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"size-medium wp-image-2157 aligncenter\" src=\"https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/wp-content\/uploads\/sites\/282\/2025\/09\/ad5ef7c1-fce1-49f3-ad43-e16f0f328d68-225x300.jpg\" alt=\"\" width=\"225\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/wp-content\/uploads\/sites\/282\/2025\/09\/ad5ef7c1-fce1-49f3-ad43-e16f0f328d68-225x300.jpg 225w, https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/wp-content\/uploads\/sites\/282\/2025\/09\/ad5ef7c1-fce1-49f3-ad43-e16f0f328d68.jpg 720w\" sizes=\"(max-width: 225px) 100vw, 225px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><span style=\"font-weight: 400\"><em>Matheus e Elaine, v\u00edtimas de uma a\u00e7\u00e3o policial que terminou em morte. A fam\u00edlia contesta a vers\u00e3o da pol\u00edcia e cobra justi\u00e7a.<\/em> Cr\u00e9dito: Marli Martins<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Com base nesses elementos t\u00e9cnicos, a posi\u00e7\u00e3o dos corpos, dire\u00e7\u00e3o dos tiros, aus\u00eancia de disparos por parte das v\u00edtimas e aus\u00eancia de sinais de luta, a cena reconstitu\u00edda se aproxima mais de uma execu\u00e7\u00e3o do que de uma troca de tiros. Os alvos indicam que os dois foram interrompidos em movimento, rendidos ou surpreendidos e mortos com disparos no peito.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">A m\u00e3e, Marli Martins, se emociona ao falar do filho. \u201cNa \u00e9poca, Matheus estava em Santos, gravando uma m\u00fasica com um DJ. Tinha planos, projetos e o sonho de construir sua casa e criar os filhos ao seu lado. \u201cElaine acompanhava ele em todas as viagens, assessorava ele\u201d, relembra Marli. \u201cSa\u00edmos de madrugada, eu e meu marido, desesperados na estrada, rumo a Guaravera, para reconhecer o corpo. Uma coisa absurda. Meu filho parecia um animal que foi abatido\u201d, lamenta.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">A vers\u00e3o oficial \u00e9 de que houve confronto, mas Marli contesta:<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\"> \u201d<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">eu n\u00e3o acredito nisso. Confronto? Ele foi alvejado de frente e sem nenhuma marca de defesa\u201d. O caso est\u00e1 sob responsabilidade do delegado Mauro Martins. Marli comenta que o casofoi arquivado sem que ela fosse informada formalmente. \u201cEu preciso saber o que aconteceu. Os filhos dele e da Elaine t\u00eam esse direito.\u201d<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Marli conta que a trag\u00e9dia destruiu toda a fam\u00edlia. Em 2016, ela j\u00e1 havia perdido o filho mais velho. \u201cDesde ent\u00e3o, tento trabalhar para ocupar a cabe\u00e7a. Criei o Matheus sozinha e n\u00e3o recebi apoio de ningu\u00e9m. Nada. A filha dele tem problemas na vis\u00e3o, precisa de cirurgia e ainda lidamos com essa aus\u00eancia brutal como se a vida dele n\u00e3o importasse. Foi como virar uma estat\u00edstica e pronto\u201d. Ela segue lutando por respostas. \u201cMinhas netas ficaram \u00f3rf\u00e3s de pai. N\u00e3o \u00e9 justo n\u00e3o descansar enquanto n\u00e3o souber a verdade\u201d.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Para Mauro Martins, a justi\u00e7a encaminhou \u00e0 Procuradoria da Justi\u00e7a o procedimento relacionado \u00e0 morte de uma mulher em 29 de junho de 2022. O caso, que envolvia um suposto confronto com a pol\u00edcia, foi arquivado sem que a principal testemunha fosse intimada a prestar depoimento. A decis\u00e3o do arquivamento partiu do Minist\u00e9rio P\u00fablico, mesmo com lacunas apontadas por familiares e advogados da v\u00edtima.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Segundo a pol\u00edcia, as v\u00edtimas teriam fugido em alta velocidade e estariam armadas. No entanto, de acordo com Mauro Martins, esse padr\u00e3o de justificativa \u00e9 comum em epis\u00f3dios semelhantes. \u201cA experi\u00eancia mostra que, em situa\u00e7\u00f5es como essa, dificilmente os jovens est\u00e3o armados. Se voc\u00ea est\u00e1 fugindo, ainda em uma BR, \u00e9 porque est\u00e1 com medo\u201d, afirma.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Mauro comenta que, se os envolvidos fossem membros de organiza\u00e7\u00f5es criminosas, estariam armados com fuzis, o que n\u00e3o era o caso. \u201cEsse \u00e9 um dos pontos que torna evidente que n\u00e3o houve confronto. H\u00e1 ind\u00edcios claros de execu\u00e7\u00e3o no caso espec\u00edfico, a jovem foi morta por ter testemunhado outra execu\u00e7\u00e3o cometida anteriormente\u201d, comenta o advogado. Durante a abordagem, foram apreendidos apenas quatro reais e uma moeda de dez centavos com as v\u00edtimas. Para Mauro, isso refor\u00e7a a suspeita de que n\u00e3o havia envolvimento com o crime organizado. \u201cA Procuradoria tem desarquivado alguns casos recentemente. Muitos casos ainda seguem restritos \u00e0 vers\u00e3o apresentada pela pol\u00edcia. Isso levanta in\u00fameras d\u00favidas, n\u00e3o s\u00f3 neste caso, mas em v\u00e1rios outros semelhantes\u201d.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">\u00a0<\/span> <span style=\"font-weight: 400\">Segundo o documento pericial (Laudo n\u00ba 63.373\/2022), os corpos foram encontrados no acostamento da rodovia. Elaine apresentava duas les\u00f5es p\u00e9rfuro-contusas por disparos de arma de fogo na regi\u00e3o do t\u00f3rax, uma na face anterior e outra na face lateral direita da regi\u00e3o mam\u00e1ria, al\u00e9m de uma terceira perfura\u00e7\u00e3o, com formato irregular, na parte central do t\u00f3rax. O corpo dela tamb\u00e9m apresentava manchas hipost\u00e1ticas, ac\u00famulo de sangue ap\u00f3s a morte e uma tatuagem na regi\u00e3o do peito.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Matheus foi encontrado com quatro perfura\u00e7\u00f5es causadas por arma de fogo, todas na parte superior do corpo. Os tiros atingiram a lateral direita e esquerda do t\u00f3rax. Uma das les\u00f5es indicava poss\u00edvel disparo a curta dist\u00e2ncia. Ele tamb\u00e9m apresentava manchas hipost\u00e1ticas. O corpo estava deitado, com os bra\u00e7os estendidos e pernas flexionadas, sem ind\u00edcios de que estivesse em posi\u00e7\u00e3o de ataque ou fuga no momento do disparo.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Esta reportagem integra uma colet\u00e2nea de livro-reportagem investigativo. No pr\u00f3ximo cap\u00edtulo, ser\u00e1 apresentado o caso de Willian Lucas, jovem negro morto pela pol\u00edcia em Ponta Grossa, no Paran\u00e1. A reportagem investigar\u00e1 os detalhes al\u00e9m das vers\u00f5es apresentadas pelas autoridades e os questionamentos feitos pela fam\u00edlia e por movimentos sociais. Ser\u00e1 feita uma an\u00e1lise cr\u00edtica sobre como a imprensa local tratou o caso, revelando padr\u00f5es de silenciamento e a aus\u00eancia de questionamento \u00e0 vers\u00e3o oficial da pol\u00edcia.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Ficha T\u00e9cnica<\/b><\/p>\n<p><b>Produ\u00e7\u00e3o: <\/b><span style=\"font-weight: 400\">Gabrieli Mendes<\/span><\/p>\n<p><b>Edi\u00e7\u00e3o e publica\u00e7\u00e3o: <\/b><span style=\"font-weight: 400\">Gabriela Denkwiski e Jo\u00e3o Foga\u00e7a\u00a0<\/span><\/p>\n<p><b>Supervis\u00e3o de produ\u00e7\u00e3o: <\/b><span style=\"font-weight: 400\">Hendryo Andr\u00e9<\/span><\/p>\n<p><b>Supervis\u00e3o de publica\u00e7\u00e3o: <\/b><span style=\"font-weight: 400\">Aline Rosso e Kevin Kossar<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Familiares de mortos durante abordagem da ROTAM contestam vers\u00e3o policial e apontam irregularidades na investiga\u00e7\u00e3o Negros seguem sendo os principais alvos da viol\u00eancia policial no Brasil, segundo dados do novo Anu\u00e1rio Brasileiro de Seguran\u00e7a P\u00fablica de 2025. 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