{"id":2472,"date":"2025-10-06T16:46:54","date_gmt":"2025-10-06T19:46:54","guid":{"rendered":"https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/?p=2472"},"modified":"2025-10-20T16:31:18","modified_gmt":"2025-10-20T19:31:18","slug":"um-julgamento-que-expoe-a-culpa-dois-anos-apos-o-crime-o-tribunal-expoe-a-memoria-de-sirlene","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/um-julgamento-que-expoe-a-culpa-dois-anos-apos-o-crime-o-tribunal-expoe-a-memoria-de-sirlene\/","title":{"rendered":"Um julgamento que exp\u00f5e a culpa"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center\"><i><span style=\"font-weight: 400\">\u00a0Dois anos ap\u00f3s o crime, o tribunal exp\u00f5e a mem\u00f3ria de Sirlene | Foto: Amanda Stafin<\/span><\/i><\/p>\n<p style=\"text-align: left\">No dia 27\u00a0 de setembro de 1990, \u00e0s 13h30, na Sala das Sess\u00f5es do Tribunal do J\u00fari, no edif\u00edcio do f\u00f3rum de Palmeira, aconteceu a sess\u00e3o de julgamento. Atendendo ao pedido do advogado de defesa registrado no processo, cerca de dez policiais militares acompanharam Ernesto (nome fict\u00edcio) at\u00e9 o local, convocados para garantir sua seguran\u00e7a no tribunal do j\u00fari. No banco dos r\u00e9us, l\u00e1 estava ele, 34 anos, acusado de matar Sirlene Pires, dois anos antes. O clima pesado da sala era onde, silenciosamente, se pedia por justi\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: left\">Os jurados foram sorteados. 21 ao todo; destes, sete votaram. Ernesto permanecia ali, talvez reflexivo. O juiz Iolando Munhoz presidiu a sess\u00e3o. Do outro lado, estava Gilson (nome fict\u00edcio), o pai da v\u00edtima, lavrador simples. Nas p\u00e1ginas do processo, o registro escrito de sua fala: \u201cencontrei minha filha ca\u00edda, ainda respirando. Estava viva quando cheguei. Logo depois, n\u00e3o resistiu\u201d, finaliza. Palavras que revelam os fatos, mas que naquele tribunal puderam expressar a dor da fam\u00edlia e de todos aqueles que ouviam reflexivos a dureza da cena.<\/p>\n<p style=\"text-align: left\">A promotora refor\u00e7ou que o crime fora cometido por motivo f\u00fatil, de forma brutal, sem chance de contradi\u00e7\u00e3o. A defesa, por sua vez, insistia na conversa de insanidade mental. Mas os laudos psiqui\u00e1tricos j\u00e1 haviam descartado essa possibilidade: Ernesto era plenamente capaz de entender o que fazia.<\/p>\n<p style=\"text-align: left\">Era de considerar um fato pertinente: a fuga do acusado dias ap\u00f3s o crime. No fim de novembro de 1988, enquanto a morte de Sirlene ainda estava em processo investigativo e claro na lembran\u00e7a da comunidade, Ernesto tentou despistar a pol\u00edcia. Foi at\u00e9 a delegacia e inventou uma hist\u00f3ria, j\u00e1 contada no <a href=\"https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/velando-o-proprio-crime-o-disfarce-do-agressor-no-velorio-da-vitima\/\">cap\u00edtulo 3<\/a>, de que haviam furtado uma espingarda, dinheiro e at\u00e9 torresmo de sua casa \u2013 um teatro mal encenado, que pretendia afastar as suspeitas sobre ele.<\/p>\n<p style=\"text-align: left\">No j\u00fari, esse detalhe voltou \u00e0 tona. Uma das perguntas dirigidas aos jurados era clara: <i>\u201c<\/i>no dia 24 de novembro de 1988, o r\u00e9u comunicou um crime que sabia n\u00e3o ter ocorrido, com a inten\u00e7\u00e3o de desviar as investiga\u00e7\u00f5es?\u201d A resposta veio un\u00e2nime: sim.<\/p>\n<p style=\"text-align: left\">A cada quesito lido, a senten\u00e7a se determinava com mais intensidade. \u201cO r\u00e9u matou Sirlene com golpes de pau?\u201d. Sete votos sim. \u201cFoi por motivo f\u00fatil?\u201d. Sete votos sim. \u201cA v\u00edtima p\u00f4de se defender?\u201d. Sete votos n\u00e3o. Em um julgamento, quatro votos dos jurados j\u00e1 decidem. Para este n\u00e3o houve espa\u00e7o de d\u00favida.<\/p>\n<p style=\"text-align: left\">Enquanto o j\u00fari decidia seu destino, Ernesto parecia distante. Talvez lembrasse da correria pela estrada de terra, quando perseguiu Sirlene at\u00e9 derrub\u00e1-la. Ou talvez recordasse de quando planejou sua mentira para despistar quem investigava tudo aquilo. O homem que fingiu ser v\u00edtima de furto agora ouvia, impass\u00edvel, o julgamento de sua culpa.<\/p>\n<p style=\"text-align: left\">Para entender como o p\u00fablico acompanhou a decis\u00e3o, a\u00a0 rep\u00f3rter conversou com Joaquim (nome fict\u00edcio), um dos presentes no tribunal. Sua resposta foi curta, mas reveladora: destacou apenas a unanimidade dos votos, sem acrescentar mais nada.<\/p>\n<p style=\"text-align: left\">A fala de Joaquim, embora simples, diz muito sobre o clima daquele julgamento. A unanimidade dos votos, repetidas vezes, n\u00e3o deixava espa\u00e7o para questionamentos ou nuances. \u00c9 tamb\u00e9m o que afirma Jo\u00e3o (nome fict\u00edcio), comerciante j\u00e1 citado no cap\u00edtulo anterior. \u201cToda a fuga inventada, a mentira do furto e a brutalidade do crime talvez j\u00e1 o levariam \u00e0 pris\u00e3o\u201d, relata. Isso refletia o peso da opini\u00e3o coletiva sobre a vida de uma pessoa. Essa rea\u00e7\u00e3o revela como, em determinados casos, o julgamento n\u00e3o se restringe ao tribunal: a sociedade observa, se envolve e, muitas vezes, j\u00e1 tem sua pr\u00f3pria senten\u00e7a formada antes mesmo do veredito final.<\/p>\n<p style=\"text-align: left\">Nas palavras da escriv\u00e3 Eliane Aparecida Cala\u00e7a, j\u00e1 havia ind\u00edcios claros de que o r\u00e9u tinha responsabilidade pelo crime, o que depois ficou comprovado pela forma intencional e violenta com que agiu. No processo, ela registrou: \u201cSeus antecedentes s\u00e3o bons; sua conduta social \u00e9 desconhecida; sua personalidade, no entanto, mostra-se comprometida por um car\u00e1ter considerado ruim. Os motivos do crime foram f\u00fateis, como reconheceu o Conselho de Senten\u00e7a\u201d, escreve.<\/p>\n<p style=\"text-align: left\">Quando o veredito foi anunciado, o juiz Munhoz leu a senten\u00e7a: dezenove anos de reclus\u00e3o em regime fechado, al\u00e9m de tr\u00eas meses de deten\u00e7\u00e3o. De acordo com o advogado criminalista Andr\u00e9 Lu\u00eds Mezzadri, a pena para homic\u00eddio doloso simples varia de seis a vinte anos. Ernesto recebeu uma condena\u00e7\u00e3o quase no limite m\u00e1ximo.<\/p>\n<p style=\"text-align: left\">Na avalia\u00e7\u00e3o do advogado, para a \u00e9poca, a pena pode ser considerada severa. Um dos fatores que pode ter pesado foi a repercuss\u00e3o do caso: a v\u00edtima era bastante conhecida, o que gerou forte como\u00e7\u00e3o social. Em cidades pequenas, esse tipo de rea\u00e7\u00e3o tende a influenciar mais. \u201cEm lugares maiores, onde os jurados dificilmente conhecem pessoalmente o acusado ou a v\u00edtima, o n\u00famero de absolvi\u00e7\u00f5es costuma ser maior. J\u00e1 em comunidades menores, a proximidade pesa na decis\u00e3o\u201d, explica Mezzadri.<\/p>\n<p style=\"text-align: left\">Ele lembra ainda que, entre as d\u00e9cadas de 1980 e 1990, as condena\u00e7\u00f5es por homic\u00eddio no Paran\u00e1 giravam, em m\u00e9dia, dentro de um patamar mais baixo de anos de pris\u00e3o, o que refor\u00e7a a percep\u00e7\u00e3o de que a pena aplicada a Ernesto foi dura para os padr\u00f5es da \u00e9poca.<\/p>\n<p style=\"text-align: left\"><b>A<\/b> condena\u00e7\u00e3o foi recebida. De acordo com Andr\u00e9, em setembro de 2024, o STF firmou entendimento de que r\u00e9us condenados pelo Tribunal do J\u00fari podem ser presos imediatamente ap\u00f3s o julgamento, sem aguardar tr\u00e2nsito em julgado. Isso porque a condena\u00e7\u00e3o pelo J\u00fari \u00e9 considerada soberana. Na \u00e9poca do caso, 1990, n\u00e3o se sabe ao certo se Ernesto voltou para a cela logo em seguida.<\/p>\n<p style=\"text-align: left\">Embora o criminoso tenha sido culpado pelo que fez, isso n\u00e3o significava repara\u00e7\u00e3o para a fam\u00edlia. Mesmo com a senten\u00e7a, a dor continuaria sendo uma luta di\u00e1ria e sem vit\u00f3ria. Nada traria Sirlene de volta. O choro passou a ser o \u00fanico consolo. Gilson deixou o tribunal ainda carregando as marcas do crime. A decis\u00e3o judicial n\u00e3o apagava a viol\u00eancia sofrida pela filha, mas ao menos colocava um nome e uma responsabilidade diante do que aconteceu. Ao menos foi o que se esperava da justi\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: left\">A partir do pr\u00f3ximo cap\u00edtulo, mostraremos como essa mesma justi\u00e7a se revelou fr\u00e1gil e, por vezes, injusta. Mesmo que a condena\u00e7\u00e3o tenha sido decretada dois anos ap\u00f3s a morte de Sirlene, a fuga de um criminoso exp\u00f5e o quanto a ideia de justi\u00e7a, na pr\u00e1tica, se distancia daquilo que a teoria promete.<\/p>\n<p style=\"text-align: left\">Esta reportagem integra uma colet\u00e2nea de livro-reportagem investigativo sobre a restri\u00e7\u00e3o dos celulares no ensino b\u00e1sico. Leia o cap\u00edtulo anterior <a href=\"https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/o-cerco-da-comunidade-ao-suspeito\/\">aqui<\/a>. Acompanhe no Peri\u00f3dico as pr\u00f3ximas publica\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: left\"><b>Ficha t\u00e9cnica<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: left\"><b>Produ\u00e7\u00e3o:<\/b> Amanda Stafin<\/p>\n<p style=\"text-align: left\"><b>Edi\u00e7\u00e3o e publica\u00e7\u00e3o<\/b>: Fabr\u00edcio Zvir, Gabriela Denkwiski e Juliane Goltz<\/p>\n<p style=\"text-align: left\"><b>Supervis\u00e3o de produ\u00e7\u00e3o:<\/b> Hendryo Andr\u00e9<\/p>\n<p style=\"text-align: left\"><b>Supervis\u00e3o e publica\u00e7\u00e3o: <\/b>Aline Rosso e Kevin Kossar Furtado<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00a0Dois anos ap\u00f3s o crime, o tribunal exp\u00f5e a mem\u00f3ria de Sirlene | Foto: Amanda Stafin No dia 27\u00a0 de setembro de 1990, \u00e0s 13h30, na Sala das Sess\u00f5es do Tribunal do J\u00fari, no edif\u00edcio do f\u00f3rum de Palmeira, aconteceu a sess\u00e3o de julgamento. 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