{"id":2482,"date":"2025-10-08T13:58:28","date_gmt":"2025-10-08T16:58:28","guid":{"rendered":"https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/?p=2482"},"modified":"2025-10-08T13:58:28","modified_gmt":"2025-10-08T16:58:28","slug":"adultizacao-precoce-e-a-influencia-dos-celulares","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/adultizacao-precoce-e-a-influencia-dos-celulares\/","title":{"rendered":"Adultiza\u00e7\u00e3o precoce e a influ\u00eancia dos celulares"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center\"><em><span style=\"font-weight: 400\">A restri\u00e7\u00e3o do uso de celulares nas escolas surge como tentativa de frear esse processo, mas especialistas alertam que o desafio vai al\u00e9m da sala de aula. Foto: Julia Almeida<\/span><\/em><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A inf\u00e2ncia, que deveria ser um per\u00edodo marcado pela imagina\u00e7\u00e3o, pela descoberta e por brincadeiras, tem sido cada vez mais encurtada. O fen\u00f4meno conhecido como adultiza\u00e7\u00e3o traduz essa realidade. Crian\u00e7as e adolescentes passam a adotar comportamentos, responsabilidades e padr\u00f5es de vida t\u00edpicos do mundo adulto antes do tempo. N\u00e3o se trata apenas de uma escolha individual, mas de uma press\u00e3o cultural, social e at\u00e9 comercial que empurra os pequenos para uma maturidade precoce for\u00e7ada.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Esse processo ocorre de diferentes formas. Em alguns casos, \u00e9 expl\u00edcito, quando h\u00e1 incentivo direto para que a crian\u00e7a se comporte como algu\u00e9m mais velho, seja pela cobran\u00e7a de responsabilidades que n\u00e3o condizem com sua idade, seja pelo est\u00edmulo a padr\u00f5es est\u00e9ticos. Em outros, acontece de maneira indireta, atrav\u00e9s da exposi\u00e7\u00e3o constante a conte\u00fados que antecipam etapas da vida. As redes sociais e os produtos destinados ao p\u00fablico infantil t\u00eam grande peso nisso, como bonecas que reproduzem corpos inalcan\u00e7\u00e1veis e personagens sexualizadas em filmes e programas.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A neuropsicopedagoga Luana Bach observa que o impacto desse processo n\u00e3o se restringe \u00e0 fase da inf\u00e2ncia. Segundo ela, ao assumir pap\u00e9is que n\u00e3o correspondem \u00e0 sua etapa de desenvolvimento, a crian\u00e7a carrega consequ\u00eancias que podem se prolongar pela vida adulta. \u201cEssa crian\u00e7a leva para a fase adulta responsabilidades que n\u00e3o eram dela naquele momento e isso gera traumas que muitas vezes n\u00e3o s\u00e3o tratados\u201d, afirma. A press\u00e3o est\u00e9tica e a erotiza\u00e7\u00e3o precoce s\u00e3o exemplos de fatores que deixam marcas emocionais profundas e contribuem para um quadro de ansiedade e inseguran\u00e7a.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Al\u00e9m dos efeitos psicol\u00f3gicos, a adultiza\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m afeta a forma como as crian\u00e7as lidam com o pr\u00f3prio corpo e com suas rela\u00e7\u00f5es sociais. A ideia de estar sempre \u201cpronto\u201d, \u201cperfeito\u201d ou \u201cadequado\u201d ao olhar do outro as impede de viver experi\u00eancias t\u00edpicas da inf\u00e2ncia. A brincadeira espont\u00e2nea, que deveria ser central no desenvolvimento, muitas vezes d\u00e1 lugar \u00e0 reprodu\u00e7\u00e3o de comportamentos vistos em influenciadores digitais ou personagens midi\u00e1ticos que refor\u00e7am a l\u00f3gica do consumo e da centralidade da apar\u00eancia.<\/span><\/p>\n<p><b>E como a restri\u00e7\u00e3o dos celulares impacta esse fen\u00f4meno?<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Nesse cen\u00e1rio, a discuss\u00e3o sobre o uso dos celulares em sala de aula ganha novo peso. A Lei 15.100, que restringe o aparelho dentro das escolas paranaenses, foi criada em resposta a preocupa\u00e7\u00f5es ligadas \u00e0 concentra\u00e7\u00e3o, ao rendimento escolar e at\u00e9 ao cyberbullying. Mas, para especialistas, ela tamb\u00e9m pode abrir espa\u00e7o para refletir sobre a adultiza\u00e7\u00e3o precoce. Isso porque os aparelhos funcionam como uma esp\u00e9cie de vitrine, que influencia ainda mais as crian\u00e7as a consumirem esses tipos de conte\u00fados.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Para Luana, a medida pode contribuir, mas precisa ser entendida dentro de um contexto maior. \u201cDentro da sala de aula pode colaborar, sim, mas quando se pro\u00edbe demais, os adolescentes acabam procurando sa\u00eddas em outros lugares. \u00c9 preciso que haja parceria entre escola, fam\u00edlia e sociedade para que o problema n\u00e3o apenas mude de espa\u00e7o\u201d, explica. Segundo ela, a proibi\u00e7\u00e3o sem di\u00e1logo corre o risco de transformar o celular em objeto de desejo ainda maior, associado \u00e0 ideia de liberdade absoluta.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A percep\u00e7\u00e3o de que o celular n\u00e3o pode ser tratado apenas como vil\u00e3o tamb\u00e9m aparece no relato das fam\u00edlias. Aline Gomes, m\u00e3e de Arthur, de 10 anos, reconhece que o filho faz uso di\u00e1rio do aparelho, mas sem grandes conflitos. \u201cEle utiliza algumas horas por dia. Quando \u00e9 falado pra ele parar e fazer outra atividade, n\u00e3o tenho problemas, ele \u00e9 muito tranquilo, n\u00e3o \u00e9 uma dificuldade ficar sem\u201d, relata. A rotina da crian\u00e7a inclui futebol, esportes diversos, brincadeiras ao ar livre e at\u00e9 momentos de leitura em fam\u00edlia.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Aline avalia a lei como uma resposta dura, mas necess\u00e1ria, visto que se perdeu o controle em rela\u00e7\u00e3o ao uso do celular. Para ela, a aus\u00eancia de limites havia transformado o aparelho em protagonista da vida escolar, prejudicando as atividades do dia a dia. A m\u00e3e menciona existirem pesquisas que indicam efeitos positivos j\u00e1 observados em algumas institui\u00e7\u00f5es como mais leitura, maior engajamento em esportes e maior disposi\u00e7\u00e3o para o conv\u00edvio presencial.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Encontrar equil\u00edbrio, no entanto, segue sendo o maior desafio. Para a m\u00e3e, o caminho deve seguir o di\u00e1logo constante. Ela acredita que \u00e9 preciso mostrar \u00e0s crian\u00e7as que o aparelho \u00e9 uma ferramenta indispens\u00e1vel, mas n\u00e3o deve ser a \u00fanica fonte de lazer. \u201cN\u00e3o existe f\u00f3rmula m\u00e1gica, mas tentamos controlar dentro do poss\u00edvel porque o celular tamb\u00e9m oferece muito conhecimento\u201d, explica. Em casa, esse equil\u00edbrio \u00e9 buscado com jogos de tabuleiro, momentos de leitura compartilhada e brincadeiras no parquinho pr\u00f3ximo \u00e0 resid\u00eancia.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Se, de um lado, a lei sinaliza uma tentativa de devolver \u00e0 inf\u00e2ncia um espa\u00e7o menos mediado pelas telas, de outro, especialistas e pais lembram que a responsabilidade n\u00e3o pode recair apenas sobre a escola. A adultiza\u00e7\u00e3o precoce \u00e9 um fen\u00f4meno complexo, sustentado por fatores culturais e econ\u00f4micos, e que exige um esfor\u00e7o coletivo. A restri\u00e7\u00e3o ao celular pode funcionar como um ponto de partida, mas s\u00f3 ter\u00e1 efeito duradouro se vier acompanhada de pol\u00edticas p\u00fablicas, apoio familiar e mudan\u00e7as nas pr\u00f3prias refer\u00eancias que a sociedade oferece \u00e0s crian\u00e7as.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">O debate em torno da inf\u00e2ncia e das telas revela uma disputa por tempo e experi\u00eancias. Entre a pressa de crescer e a necessidade de preservar o direito de ser crian\u00e7a, est\u00e3o os dilemas de uma gera\u00e7\u00e3o que j\u00e1 nasce conectada. A pergunta que se imp\u00f5e \u00e9 at\u00e9 onde a sociedade est\u00e1 disposta a ir para proteger esse tempo que n\u00e3o volta.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Esta reportagem integra uma colet\u00e2nea de livro-reportagem investigativo sobre a restri\u00e7\u00e3o dos celulares no ensino b\u00e1sico. Leia o cap\u00edtulo anterior <\/span><a href=\"https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/o-outro-lado-da-moeda-como-as-escolas-privadas-lidam-com-a-restricao-dos-celulares\/\"><span style=\"font-weight: 400\">aqui<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400\">. Acompanhe no Peri\u00f3dico as pr\u00f3ximas publica\u00e7\u00f5es.<\/span><\/p>\n<p><b>Ficha t\u00e9cnica<\/b><\/p>\n<p><b>Produ\u00e7\u00e3o:<\/b><span style=\"font-weight: 400\"> Jo\u00e3o Foga\u00e7a<\/span><\/p>\n<p><b>Edi\u00e7\u00e3o e publica\u00e7\u00e3o: <\/b><span style=\"font-weight: 400\">Eduarda Gomes e Julia Almeida\u00a0<\/span><\/p>\n<p><b>Supervis\u00e3o de produ\u00e7\u00e3o:<\/b><span style=\"font-weight: 400\"> Hendryo Andr\u00e9<\/span><\/p>\n<p><b>Supervis\u00e3o e publica\u00e7\u00e3o: <\/b><span style=\"font-weight: 400\">Aline Rosso e Kevin Kossar Furtado<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A restri\u00e7\u00e3o do uso de celulares nas escolas surge como tentativa de frear esse processo, mas especialistas alertam que o desafio vai al\u00e9m da sala de aula. Foto: Julia Almeida A inf\u00e2ncia, que deveria ser um per\u00edodo marcado pela imagina\u00e7\u00e3o, pela descoberta e por brincadeiras, tem sido cada vez mais encurtada. 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