{"id":2557,"date":"2025-10-20T16:31:23","date_gmt":"2025-10-20T19:31:23","guid":{"rendered":"https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/?p=2557"},"modified":"2025-10-20T18:57:44","modified_gmt":"2025-10-20T21:57:44","slug":"imprensa-errou-ao-noticiar-morte-de-willian-souza","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/imprensa-errou-ao-noticiar-morte-de-willian-souza\/","title":{"rendered":"Imprensa errou ao noticiar morte de Willian Souza"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center\"><i><span style=\"font-weight: 400\">Em 2021, jornais e r\u00e1dio divulgaram vers\u00e3o policial, sem ouvir familiares ou apresentar provas<\/span><\/i><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">A justi\u00e7a de Almirante Tamandar\u00e9 julgou improcedente a a\u00e7\u00e3o movida por Claudimir Ferreira do Nascimento contra a R\u00e1dio Mundi Paran\u00e1 LTDA, empresa de comunica\u00e7\u00e3o ligada ao grupo do deputado estadual e ex-prefeito de Ponta Grossa, Marcelo Rangel. O caso envolve a cobertura jornal\u00edstica da morte do filho, Willian Lucas Souza Nascimento, em abril de 2021.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Na ocasi\u00e3o, a r\u00e1dio noticiou, com base em informa\u00e7\u00f5es divulgadas pela Pol\u00edcia Militar, que o jovem havia morrido em confronto durante uma opera\u00e7\u00e3o contra o tr\u00e1fico de drogas. A fam\u00edlia contesta a vers\u00e3o. O processo pedia indeniza\u00e7\u00e3o por danos morais e direito de resposta, alegando que a reportagem prejudicou a mem\u00f3ria do jovem e aumentou o sofrimento da fam\u00edlia. A decis\u00e3o, assinada em fevereiro de 2025, entendeu que n\u00e3o havia provas suficientes para comprovar falsidade nas informa\u00e7\u00f5es transmitidas e declarou a decad\u00eancia do direito de resposta, que precisa ser solicitado em at\u00e9 60 dias da publica\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Na senten\u00e7a, o ju\u00edzo destacou que a emissora apenas reproduziu dados oficiais da Pol\u00edcia Militar, os quais possuem presun\u00e7\u00e3o de veracidade. Al\u00e9m disso, outros ve\u00edculos de comunica\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m divulgaram a mesma vers\u00e3o do caso.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">A m\u00e3e de Willian, Rog\u00e9ria Souza Nascimento, apresenta uma narrativa diferente da que foi divulgada nos jornais. Ela lembra que a abordagem policial come\u00e7ou com intimida\u00e7\u00f5es. \u201cUm dos policiais olhou para o Willian e disse: \u2018se eu te encontrar hoje, eu te mato\u2019. Meu filho chegou a gravar o enquadro. Teve um menino que estava no bar e foi t\u00e3o espancado que precisou ser carregado pelos colegas\u201d.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Segundo Rog\u00e9ria, Willian tentou fugir para casa, mas n\u00e3o conseguiu chegar. \u201cEle j\u00e1 estava perto de casa quando atiraram nele. Eu sempre dizia: \u2018filho, carregue sempre sua identidade\u2019. E ele me respondia: \u2018m\u00e3e, n\u00e3o devo nada a ningu\u00e9m. Sei meus documentos de cabe\u00e7a\u2019\u201d. Ela afirma que sempre teve medo de que a cor da pele tornasse o filho um alvo. \u201cEu tinha muita preocupa\u00e7\u00e3o com isso, ainda mais aqui no Sul. O preconceito contra gente preta \u00e9 muito forte. Voc\u00ea, no meio dos colegas, vira o alvo perfeito se acontece alguma confus\u00e3o\u201d, diz.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">A dor da perda foi agravada no dia seguinte, quando Rog\u00e9ria leu as manchetes sobre o caso. \u201cAcordamos e j\u00e1 estava nos jornais que meu filho era traficante, que estava armado com uma pistola que custava mais caro que o nosso carro. Como assim? Da onde tiraram essa arma? \u00c9 sempre a mesma hist\u00f3ria: colocam os meninos pretos como traficantes\u201d, desabafa.\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Em muitos ve\u00edculos de comunica\u00e7\u00e3o, a vers\u00e3o da Pol\u00edcia Militar foi apresentada como fato consumado, sem que familiares, testemunhas ou especialistas fossem ouvidos. Na transmiss\u00e3o ao vivo, apresentadores chegaram a vincular a morte de Willian ao tr\u00e1fico de drogas e at\u00e9 enalteceram a a\u00e7\u00e3o policial. Marcelo Rangel chegou a declarar: \u201cponto para a pol\u00edcia\u201d.<\/span><\/p>\n<div id=\"attachment_2563\" style=\"width: 564px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-2563\" loading=\"lazy\" class=\" wp-image-2563\" src=\"https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/wp-content\/uploads\/sites\/282\/2025\/10\/Foto-Willian-pais-300x228.jpg\" alt=\"\" width=\"554\" height=\"421\" srcset=\"https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/wp-content\/uploads\/sites\/282\/2025\/10\/Foto-Willian-pais-300x228.jpg 300w, https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/wp-content\/uploads\/sites\/282\/2025\/10\/Foto-Willian-pais.jpg 570w\" sizes=\"(max-width: 554px) 100vw, 554px\" \/><p id=\"caption-attachment-2563\" class=\"wp-caption-text\">Ao lado de seus pais. Caso de jovem morto pela PM h\u00e1 quatro anos em Ponta Grossa. Arquivo: Claudimir Ferreira Nascimento.<\/p><\/div>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">O cen\u00e1rio de Ponta Grossa mostra a influ\u00eancia da concentra\u00e7\u00e3o de m\u00eddia e poder pol\u00edtico. A R\u00e1dio Mundi FM \u00e9 administrada pela fam\u00edlia Rangel, que ocupa posi\u00e7\u00f5es estrat\u00e9gicas no estado do Paran\u00e1. Al\u00e9m de Marcelo Rangel, Sandro Alex, seu irm\u00e3o, \u00e9 locutor, deputado federal licenciado e Secret\u00e1rio de Estado de Infraestrutura e Log\u00edstica do Paran\u00e1; e Nilson de Oliveira, pai deles, \u00e9 s\u00f3cio da Rede Massa, grupo vinculado ao governador Ratinho J\u00fanior.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Para a fam\u00edlia da v\u00edtima, a cobertura dos meios de comunica\u00e7\u00e3o intensificou a dor da perda. \u201cChamaram ele de bandido sem nunca nos ouvir. Ningu\u00e9m perguntou quem ele realmente era\u201d, lamenta Claudimir. Quatro anos ap\u00f3s a trag\u00e9dia, a investiga\u00e7\u00e3o sobre a morte ainda n\u00e3o apresentou respostas concretas. Enquanto isso, nas p\u00e1ginas de jornais, portais online e nas ondas da r\u00e1dio, Willian j\u00e1 havia sido julgado e condenado, n\u00e3o pelo sistema judicial, mas por uma narrativa que criminaliza jovens negros e normaliza a viol\u00eancia policial.<\/span><span style=\"font-weight: 400\"><br \/>\n<\/span> <span style=\"font-weight: 400\">No laudo oficial divulgado pela pol\u00edcia n\u00e3o consta a presen\u00e7a de nenhum aparelho celular. Entretanto, durante a cobertura jornal\u00edstica da R\u00e1dio Mundi e de outro portal local de not\u00edcias, supostamente teriam sido apreendidos quatro aparelhos.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Let\u00edcia Sim\u00f5es Gomes, doutoranda em Sociologia da Universidade de S\u00e3o Paulo e pesquisadora do N\u00facleo de Estudos da Viol\u00eancia (NEV\/USP), estuda a intersec\u00e7\u00e3o entre viol\u00eancia policial e desigualdade racial, analisando as tecnologias de policiamento preditivo em contextos de desigualdade racial. \u201cO caso do Willian Lucas \u00e9 muito parecido com outros casos de viol\u00eancia policial, na medida em que a constru\u00e7\u00e3o da imagem de criminoso, seja pela narrativa policial, seja pela narrativa midi\u00e1tica, aparece como uma forma de justifica\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia policial letal\u201d, afirma.\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Segundo Let\u00edcia, a justificativa se apresenta de duas formas. Primeiro, pela aceita\u00e7\u00e3o moral que setores da sociedade t\u00eam ao recurso de viol\u00eancia letal contra infratores (representada pela m\u00e1xima, muito disseminada, de que \u201cbandido bom \u00e9 bandido morto\u201d). Segundo, pelo fato de que a constru\u00e7\u00e3o da situa\u00e7\u00e3o como um confronto contra uma pessoa perigosa contribui para o enquadramento do evento como um caso de leg\u00edtima defesa do policial e que isso contribui para a absolvi\u00e7\u00e3o do agente. Al\u00e9m disso, depoimentos policiais desfrutam da presun\u00e7\u00e3o de veracidade, que constitui um instrumento legitimador da narrativa aos olhos dos demais operadores do direito (ju\u00edzes, promotores, advogados).<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">A equipe de reportagem entrou em contato com a R\u00e1dio Mundi para obter posicionamento sobre o caso, mas, at\u00e9 o fechamento desta mat\u00e9ria, n\u00e3o houve resposta. O epis\u00f3dio reacende a discuss\u00e3o sobre a responsabilidade dos ve\u00edculos de comunica\u00e7\u00e3o ao reproduzir vers\u00f5es oficiais sem investiga\u00e7\u00e3o adicional e sobre os limites do direito de resposta, especialmente em casos que envolvem jovens mortos em opera\u00e7\u00f5es policiais.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Esta reportagem integra uma colet\u00e2nea de livro-reportagem investigativo. Este cap\u00edtulo trata de como a imprensa errou ao noticiar a morte de Willian Lucas, ocorrida em 2021. Acompanhe no Peri\u00f3dico as pr\u00f3ximas publica\u00e7\u00f5es.<\/span><\/p>\n<p>Cr\u00e9ditos: entrevista tamb\u00e9m concedida Rede Nenhuma Vida a Menos.<\/p>\n<p>O Peri\u00f3dico mant\u00e9m o espa\u00e7o aberto para respostas e manifesta\u00e7\u00f5es da R\u00e1dio Mundi ou de outros citados na reportagem.<\/p>\n<p><b>Ficha t\u00e9cnica\u00a0<\/b><\/p>\n<p><b>Produ\u00e7\u00e3o: <\/b><span style=\"font-weight: 400\">Gabrieli Mendes<\/span><\/p>\n<p><b>Edi\u00e7\u00e3o e publica\u00e7\u00e3o: <\/b><span style=\"font-weight: 400\">Gabriela Denkwiski e Juliana Emelly Ferreira da Silva<\/span><\/p>\n<p><b>Supervis\u00e3o de produ\u00e7\u00e3o:<\/b><span style=\"font-weight: 400\"> Hendryo Andr\u00e9<\/span><\/p>\n<p><b>Supervis\u00e3o e publica\u00e7\u00e3o:<\/b><span style=\"font-weight: 400\"> Aline Rosso e Kevin Kossar Furtado<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em 2021, jornais e r\u00e1dio divulgaram vers\u00e3o policial, sem ouvir familiares ou apresentar provas A justi\u00e7a de Almirante Tamandar\u00e9 julgou improcedente a a\u00e7\u00e3o movida por Claudimir Ferreira do Nascimento contra a R\u00e1dio Mundi Paran\u00e1 LTDA, empresa de comunica\u00e7\u00e3o ligada ao grupo do deputado estadual e ex-prefeito de Ponta Grossa, Marcelo Rangel. 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