{"id":2985,"date":"2025-12-02T15:21:11","date_gmt":"2025-12-02T18:21:11","guid":{"rendered":"https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/?p=2985"},"modified":"2025-12-02T15:21:11","modified_gmt":"2025-12-02T18:21:11","slug":"de-crimes-de-honra-ao-feminicidio-como-a-historia-de-corina-portugal-se-repete-ate-os-dias-de-hoje","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/de-crimes-de-honra-ao-feminicidio-como-a-historia-de-corina-portugal-se-repete-ate-os-dias-de-hoje\/","title":{"rendered":"\u00a0De crimes de honra ao feminic\u00eddio: como a hist\u00f3ria de Corina Portugal se repete at\u00e9 os dias de hoje"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center\"><i><span style=\"font-weight: 400\">\u00a0Jornal <\/span><\/i><i><span style=\"font-weight: 400\">curitibano &#8220;Gazeta Paranaense&#8221; (30\/04\/1889). Foto: Arquivo.<\/span><\/i><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Corina Portugal tinha 20 anos na noite de 26 de abril de 1889, quando foi assassinada brutalmente com 32 facadas pelo marido, Alfredo Marques de Campos. O crime n\u00e3o foi repentino. Como em muitos casos, os sinais e avisos j\u00e1 se apresentavam h\u00e1 muito tempo. Alfredo era alco\u00f3latra, com v\u00edcios em apostas e agredia fisicamente a esposa, enquanto Corina n\u00e3o possu\u00eda apoio social e familiar na cidade para conseguir sair daquela situa\u00e7\u00e3o, al\u00e9m de sua forte religiosidade que condenava o div\u00f3rcio. Contudo, o assassinato n\u00e3o foi o que marcou a vida e morte de Corina, e sim o que aconteceu ap\u00f3s o crime.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Quatro dias ap\u00f3s matar a esposa, Alfredo acusou o m\u00e9dico da fam\u00edlia, Jo\u00e3o de Menezes D\u00f3ria, que j\u00e1 havia tratado Corina das agress\u00f5es f\u00edsicas do marido, de cometer adult\u00e9rio com sua esposa durante os tratamentos m\u00e9dicos. O crime de adult\u00e9rio, disposto no artigo 250 do c\u00f3digo criminal do Imp\u00e9rio \u2013 que mais tarde se tornou o artigo 240 do C\u00f3digo Penal de 7 de dezembro de 1940 \u2013 previa a pris\u00e3o da mulher ad\u00faltera e estava ligado com as pr\u00e1ticas hist\u00f3ricas e culturais de \u201ccrimes de honra\u201d, nas quais os homens matavam suas esposas em defesa da pr\u00f3pria honra. Com a acusa\u00e7\u00e3o de adult\u00e9rio, Alfredo foi absolvido do crime de assassinato, e D\u00f3ria precisou fugir de Ponta Grossa para evitar o julgamento social.<\/span><i><\/i><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Desde 2005, o crime de adult\u00e9rio foi retirado do c\u00f3digo penal brasileiro e a viol\u00eancia resultante de infidelidade, como o assassinato, \u00e9 punida como homic\u00eddio qualificado por motivo f\u00fatil. Mas mesmo com as mudan\u00e7as nas leis, a hist\u00f3ria de Corina Portugal apresenta elementos que continuam presentes nos dias de hoje, mesmo tendo ocorrido h\u00e1 136 anos. Como \u00e9 o caso de Jaine Pereira Kochanski, assassinada pelo marido ano passado em Ponta Grossa, por uma suposta trai\u00e7\u00e3o que o criminoso revelou em suas redes sociais horas ap\u00f3s o crime. Assim como Corina, Jaine foi morta por facadas dentro de casa.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A psic\u00f3loga Beatriz Marchi Scussel explica o contexto da \u00e9poca de Corina. \u201cEla viveu em uma sociedade patriarcal e conservadora, em que a mulher era vista como submissa e dependente do marido\u201d. Beatriz explica que o div\u00f3rcio era algo invi\u00e1vel na \u00e9poca, principalmente pelo julgamento social do \u201cpecado da separa\u00e7\u00e3o\u201d. Mas ao olhar para as repercuss\u00f5es do caso de Jaine, podemos ver que o julgamento social n\u00e3o foi combatido apenas com as mudan\u00e7as nas leis.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">\u201cA lei do retorno, r\u00e1pido e ligeiro\u201d. \u201cDescanse em paz, guerreiro, quem foi para o quinto do inferno foi ela\u201d. \u201cDeixou os filhos sem pais\u201d. \u201cQue hist\u00f3ria triste, realmente a trai\u00e7\u00e3o \u00e9 algo diab\u00f3lico, ele trama tudo at\u00e9 acontecer o pior\u201d. Estes s\u00e3o alguns dos coment\u00e1rios que uma mat\u00e9ria sobre o assassinato de Jaine recebeu no Instagram, produzida pela <\/span><a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/p\/C9GXBEjOKYT\/\"><span style=\"font-weight: 400\">Ra\u0301dio Itatiaia<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400\">. \u201cTrai\u00e7\u00e3o \u00e9 a pr\u00f3pria morte\u201d. \u201cMas s\u00f3 ele sabe o que passou na cabe\u00e7a dele a decep\u00e7\u00e3o de ser tra\u00eddo, s\u00f3 ele sabe o sentimento que veio nele\u201d. \u201cN\u00e3o julgo o cara\u201d. J\u00e1 esses s\u00e3o coment\u00e1rios do Instagram de outro canal de not\u00edcias, <\/span><a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/p\/C9Gl5Sdq_ev\/\"><span style=\"font-weight: 400\">Portal 6<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400\">, sobre o caso que mostram que o crime, para algumas pessoas, \u00e9 aceit\u00e1vel diante da suposta trai\u00e7\u00e3o da mulher.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A maneira que pensamos e o comportamento que temos s\u00e3o influenciados pela cria\u00e7\u00e3o desde a inf\u00e2ncia, \u00e9 o que garante<\/span> <span style=\"font-weight: 400\">a psic\u00f3loga Beatriz. \u201cSe a crian\u00e7a cresce em um ambiente de viol\u00eancia contra as mulheres, ela tende a reproduzir este comportamento na vida adulta\u201d, exemplifica. Ela afirma<\/span> <span style=\"font-weight: 400\">que o ciclo da viol\u00eancia \u00e9 mantido por v\u00e1rios fatores que est\u00e3o interligados, e por isso \u00e9 t\u00e3o dif\u00edcil de quebr\u00e1-lo.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Hoje, as leis determinam que o caso de Corina Portugal n\u00e3o foi apenas um homic\u00eddio, mas um feminic\u00eddio, um crime de \u00f3dio motivado pelo g\u00eanero feminino da v\u00edtima.<\/span> <span style=\"font-weight: 400\">A lei foi criada em 2015 e a \u00faltima altera\u00e7\u00e3o, que ocorreu em 2024, alterou a legisla\u00e7\u00e3o e transformou o feminic\u00eddio em um crime aut\u00f4nomo, com pena aumentada de 20 a 40 anos de reclus\u00e3o, al\u00e9m de estabelecer a perda do poder familiar e veda\u00e7\u00e3o para cargos p\u00fablicos ao agressor condenado.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">No Brasil, 2024 registrou um aumento de 0,7% dos casos\u00a0 e 19% nas tentativas de feminic\u00eddio. Os dados v\u00eam do Anu\u00e1rio Brasileiro de Seguran\u00e7a P\u00fablica, lan\u00e7ado este ano. \u201cMuitos profissionais relatam que os sinais de risco de feminic\u00eddio, como amea\u00e7as de morte, uso de armas, ci\u00fame obsessivo, j\u00e1 estavam presentes antes\u201d, lista a assistente social Eduarda Berbert. Foram 51.866 registros de viol\u00eancia psicol\u00f3gica no ano passado, n\u00famero que tamb\u00e9m teve aumento, 6,3%. \u201cO feminic\u00eddio \u00e9 entendido como o \u00e1pice da viol\u00eancia dom\u00e9stica e de g\u00eanero, quando todas as etapas anteriores de agress\u00e3o, amea\u00e7a e controle n\u00e3o foram interrompidas\u201d, explica Eduarda. A assistente social relata que a maioria dos crimes dessa caracter\u00edstica acontece dentro de casa e ocorre principalmente entre casais com relacionamento rom\u00e2ntico, mas tamb\u00e9m pode ocorrer entre a filha com os pais, outros membros da fam\u00edlia e at\u00e9 entre amigos.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Mesmo com as mudan\u00e7as nas leis, as viol\u00eancias contra as mulheres, pela condi\u00e7\u00e3o de serem mulheres, continuam a acontecer. A hist\u00f3ria de Corina se repete a cada. \u201cMais do que a sociedade, o meio familiar em que Corina estava inserida teve grande relev\u00e2ncia: um marido viciado em bebida, jogos e abusivo, e todos esses fatores ainda est\u00e3o propensos a acontecer nos dias de hoje\u201d, finaliza Beatriz.<\/span><\/p>\n<p><b>Servi\u00e7o<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A Central de Atendimento \u00e0 Mulher atende pelo n\u00famero 180, oferecendo servi\u00e7o gratuito e an\u00f4nimo 24 horas por dia. \u201cO papel do servi\u00e7o social \u00e9 fortalecer a autonomia da mulher, orient\u00e1-la sobre os recursos legais, oferecer acompanhamento psicossocial e lutar pelo funcionamento efetivo da rede de prote\u00e7\u00e3o\u201d, recorda Eduarda. Em Ponta Grossa, al\u00e9m da Lei Maria da Penha, as mulheres podem pedir abrigamento, medidas protetivas e ajuda na Casa das Mulheres V\u00edtimas de Viol\u00eancia Corina Portugal, pelo telefone 32201065.<\/span><\/p>\n<p><b>Ficha t\u00e9cnica\u00a0<\/b><\/p>\n<p><b>Produ\u00e7\u00e3o:<\/b><span style=\"font-weight: 400\"> Ester Roloff<\/span><\/p>\n<p><b>Edi\u00e7\u00e3o e publica\u00e7\u00e3o: <\/b><span style=\"font-weight: 400\">Julia Almeida\u00a0<\/span><\/p>\n<p><b>Supervis\u00e3o de produ\u00e7\u00e3o: <\/b><span style=\"font-weight: 400\">Hendryo Anderson Andr\u00e9\u00a0<\/span><\/p>\n<p><b>Supervis\u00e3o de publica\u00e7\u00e3o: <\/b><span style=\"font-weight: 400\">Aline Rosso e Kevin Kossar Furtado<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00a0Jornal curitibano &#8220;Gazeta Paranaense&#8221; (30\/04\/1889). Foto: Arquivo. Corina Portugal tinha 20 anos na noite de 26 de abril de 1889, quando foi assassinada brutalmente com 32 facadas pelo marido, Alfredo Marques de Campos. O crime n\u00e3o foi repentino. Como em muitos casos, os sinais e avisos j\u00e1 se apresentavam h\u00e1 muito tempo. 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