{"id":3436,"date":"2026-04-30T11:37:52","date_gmt":"2026-04-30T14:37:52","guid":{"rendered":"https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/?p=3436"},"modified":"2026-04-30T11:57:39","modified_gmt":"2026-04-30T14:57:39","slug":"o-misterioso-casarao-no-centro-de-ponta-grossa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/o-misterioso-casarao-no-centro-de-ponta-grossa\/","title":{"rendered":"O misterioso casar\u00e3o no centro de Ponta Grossa"},"content":{"rendered":"<p>Foto: Ingrid Muller<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A cidade desperta antes do sol. \u00c0s seis da manh\u00e3, quando a luz ainda hesita entre o azul e o dourado, Ponta Grossa revela seus contornos silenciosos. As ruas vazias deixam ver aquilo que, na correria do dia, passa despercebido: as camadas de tempo que convivem sobre o mesmo ch\u00e3o. Em meio aos pr\u00e9dios modernos, fachadas comerciais e fluxos apressados, sobrevivem estruturas que lembram que a cidade n\u00e3o nasceu ontem. \u00c9 nesse intervalo entre o presente e o que insiste em permanecer que a mem\u00f3ria se instala, n\u00e3o como nostalgia, mas como testemunho.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A Mans\u00e3o Vila Hilda \u00e9 uma dessas presen\u00e7as que imp\u00f5em o olhar. Situada no cora\u00e7\u00e3o da cidade, o casar\u00e3o ergue-se como se carregasse um segredo. A arquitetura, marcada pelas influ\u00eancias do neocl\u00e1ssico franc\u00eas e do art-nouveau, faz contraste com o tr\u00e1fego cotidiano. Quem passa pela cal\u00e7ada talvez veja apenas uma casa antiga, mas ali repousa uma hist\u00f3ria que come\u00e7ou a ser escrita em 1926, quando Ponta Grossa se transformava sob os trilhos da ferrovia.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Em 1926, a cidade experimentava um tipo de crescimento que misturava ambi\u00e7\u00e3o e promessa. A ferrovia havia ampliado as conex\u00f5es comerciais e trazido movimento \u00e0s ruas, mercadorias aos armaz\u00e9ns, trabalhadores \u00e0s esta\u00e7\u00f5es. O progresso, t\u00e3o celebrado nos discursos da \u00e9poca, se traduzia tamb\u00e9m nas constru\u00e7\u00f5es, e a Mans\u00e3o Vila Hilda nasceu exatamente nesse contexto. Constru\u00edda por Alberto Thielen, industrial ligado \u00e0 Companhia Cervejaria Adri\u00e1tica, a resid\u00eancia homenageia sua esposa, Hilda, e seguia um costume elegante da \u00e9poca: batizar mans\u00f5es com o termo \u201cvilla\u201d, resid\u00eancias com jardins, refinamento e modernidade.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Mas n\u00e3o era apenas uma casa. Seus dois pavimentos, os afrescos do alem\u00e3o Paulo Wagner, os detalhes em madeira e o p\u00e9 direito monumental revelavam um desejo est\u00e9tico incomum para o interior do Paran\u00e1. A mans\u00e3o projetava, em sua estrutura, a imagem de uma Ponta Grossa que queria parecer grande, conectada ao mundo, parte de um Brasil que ensaiava sua pr\u00f3pria modernidade.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">D\u00e9cadas depois, o casar\u00e3o continuaria a acumular fun\u00e7\u00f5es e hist\u00f3rias. J\u00e1 abrigou a biblioteca p\u00fablica, j\u00e1 foi sede administrativa da Funda\u00e7\u00e3o Municipal de Cultura e, desde 1990, \u00e9 reconhecido como Patrim\u00f4nio Cultural do Paran\u00e1. Hoje integra um complexo dedicado \u00e0 preserva\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria local. Ao lado, funciona a Casa da Mem\u00f3ria Paran\u00e1, espa\u00e7o que re\u00fane fotografias, jornais, documentos e arquivos capazes de revelar outros tempos da cidade e que ser\u00e1 aprofundado em outras reportagens. Ali, um acervo amplo registra as transforma\u00e7\u00f5es urbanas, sociais e culturais do s\u00e9culo XX, e captura mudan\u00e7as que o cotidiano n\u00e3o percebe enquanto acontecem.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A casa abriga tamb\u00e9m a Escolinha do Patrim\u00f4nio, um projeto que aproxima moradores, especialmente crian\u00e7as, da hist\u00f3ria local. Livros, maquetes, objetos antigos e atividades educativas ajudam a explicar, de forma acess\u00edvel, como Ponta Grossa se formou.. Para o secret\u00e1rio de Cultura, Alberto Portugal, o objetivo \u00e9 simples, mas profundo. Ele afirma: \u201cQueremos fazer com que a popula\u00e7\u00e3o frequente o espa\u00e7o e reconhe\u00e7a, nele, parte de sua pr\u00f3pria trajet\u00f3ria.\u201d<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">O Dia de Cultura de Ponta Grossa, realizado pela Secretaria Municipal de Cultura em 4 de mar\u00e7o de 2026, promoveu uma imers\u00e3o nos espa\u00e7os que hoje preservam parte essencial da mem\u00f3ria dos Campos Gerais. A atividade, que apresentou alguns dos principais patrim\u00f4nios culturais da cidade, inspirou diretamente a produ\u00e7\u00e3o desta s\u00e9rie de reportagens. Ao visitar esses lugares, \u00e9 poss\u00edvel observar a riqueza da cultura ponta-grossense. Contar a hist\u00f3ria desses ambientes, \u00e9 lembrar para nunca esquecer.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Na Mans\u00e3o Vila Hilda, o respons\u00e1vel por contar a hist\u00f3ria do casar\u00e3o foi o roteirista Vin\u00edcius Alves, que contextualizou o per\u00edodo em que Ponta Grossa vivenciava transforma\u00e7\u00f5es profundas em sua organiza\u00e7\u00e3o urbana, social e cultural.\u00a0<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><a href=\"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/prisioneiros-da-realidade\/\">O fantasma da Mans\u00e3o Vila Hilda<\/a><\/strong><\/p>\n<div id=\"attachment_3437\" style=\"width: 310px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-3437\" loading=\"lazy\" class=\"size-medium wp-image-3437\" src=\"https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/wp-content\/uploads\/sites\/282\/2026\/04\/Aquivo_-Ponta-Grossa-historica-300x231.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"231\" srcset=\"https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/wp-content\/uploads\/sites\/282\/2026\/04\/Aquivo_-Ponta-Grossa-historica-300x231.jpg 300w, https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/wp-content\/uploads\/sites\/282\/2026\/04\/Aquivo_-Ponta-Grossa-historica.jpg 584w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><p id=\"caption-attachment-3437\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Arquivo Ponta Grossa Hist\u00f3rica<\/p><\/div>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A Mans\u00e3o Vila Hilda, em especial, carrega ainda um elemento que ultrapassa os limites da hist\u00f3ria oficial: o imagin\u00e1rio popular. Em 1999, a ent\u00e3o Editel, empresa respons\u00e1vel pelas listas telef\u00f4nicas da regi\u00e3o dos Campos Gerais, solicitou autoriza\u00e7\u00e3o da Prefeitura de Ponta Grossa para fotografar o casar\u00e3o e utiliz\u00e1-lo como imagem de capa da edi\u00e7\u00e3o daquele ano. O registro seria feito \u00e0 noite e, como n\u00e3o havia expediente no local naquele hor\u00e1rio, duas funcion\u00e1rias acompanharam a equipe, uma delas ao lado do filho. Ap\u00f3s a prepara\u00e7\u00e3o dos equipamentos e da ilumina\u00e7\u00e3o, a fotografia foi realizada.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Quando a imagem foi revelada, em uma \u00e9poca em que ainda n\u00e3o era poss\u00edvel visualizar o resultado instantaneamente, surgiu um detalhe inesperado: no vidro da porta principal, aparecia um rosto. A figura rapidamente despertou curiosidade e alimentou rumores antigos sobre a presen\u00e7a de um fantasma na mans\u00e3o. Como milhares de exemplares da lista telef\u00f4nica circularam pela cidade e regi\u00e3o, a hist\u00f3ria se espalhou com rapidez, transformando o chamado \u201cFantasma da Villa Hilda\u201d em uma das lendas urbanas mais conhecidas de Ponta Grossa.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Desde ent\u00e3o, o casar\u00e3o passou a atrair curiosos e equipes de investiga\u00e7\u00e3o paranormal de diferentes partes do pa\u00eds. No s\u00f3t\u00e3o da mans\u00e3o, grupos de &#8220;ca\u00e7a-fantasmas&#8221; realizaram visitas em busca de confirmar ou desmentir os relatos. Na <\/span><span style=\"font-weight: 400\">internet,<\/span><span style=\"font-weight: 400\"> ainda circulam mat\u00e9rias e depoimentos de pessoas que afirmam ter ouvido passos, vozes, sons de piano e at\u00e9 visto vultos nos corredores.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Moradora de Ponta Grossa h\u00e1 30 anos, Fernanda Coelli relata ter passado em frente \u00e0 casa durante a noite e visto um vulto na janela da frente. \u201cEu e minha amiga est\u00e1vamos voltando de uma festa. Depois daquele dia, nunca mais passei por aquela rua \u00e0 noite\u201d.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Alguns dizem ouvir passos, sussurros, at\u00e9 toque de piano. Outros garantem que a figura nada mais era do que o filho de uma zeladora, presente no dia do registro. Mas, como toda boa hist\u00f3ria, o mist\u00e9rio permanece. E talvez seja justamente entre mito e realidade que a mem\u00f3ria encontra terreno f\u00e9rtil.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Afinal, a cidade tamb\u00e9m se conta por meio das narrativas que inventa, das lendas e das d\u00favidas que prefere n\u00e3o resolver. A s\u00e9rie nasce do impulso de compreender como espa\u00e7os culturais ajudam a contar a hist\u00f3ria de Ponta Grossa. Cada um, \u00e0 sua maneira, guarda fragmentos de um tempo que insiste em sobreviver. Cada um ilumina um trecho da cidade que fomos, da cidade que ainda somos.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">\u201cOnde nasce a mem\u00f3ria de Ponta Grossa?\u201d \u00e9 a pergunta que inicia a investiga\u00e7\u00e3o. Cada parede, cada arquivo e cada fotografia ser\u00e1 uma pista. Porque, no fundo, contar a hist\u00f3ria de espa\u00e7os hist\u00f3ricos \u00e9 lembrar para nunca esquecer.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Esta reportagem integra uma colet\u00e2nea de livro-reportagem investigativo. Este cap\u00edtulo trata da Mans\u00e3o Vila Hilda. Acompanhe no Peri\u00f3dico as pr\u00f3ximas publica\u00e7\u00f5es.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Ficha t\u00e9cnica<\/b><\/p>\n<p><b>Produ\u00e7\u00e3o: <\/b><span style=\"font-weight: 400\">Ingrid Muller<\/span><\/p>\n<p><b>Supervis\u00e3o de produ\u00e7\u00e3o: <\/b><span style=\"font-weight: 400\">Hendryo Andr\u00e9<\/span><\/p>\n<p><b>Edi\u00e7\u00e3o e publica\u00e7\u00e3o: <\/b><span style=\"font-weight: 400\">Eduarda Leal e Pietra Gasparini<\/span><\/p>\n<p><b>Supervis\u00e3o de publica\u00e7\u00e3o: <\/b><span style=\"font-weight: 400\">Aline Rosso e Kevin Kossar Furtado<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Foto: Ingrid Muller A cidade desperta antes do sol. \u00c0s seis da manh\u00e3, quando a luz ainda hesita entre o azul e o dourado, Ponta Grossa revela seus contornos silenciosos. As ruas vazias deixam ver aquilo que, na correria do dia, passa despercebido: as camadas de tempo que convivem sobre o mesmo ch\u00e3o. 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