{"id":3531,"date":"2026-05-07T11:41:17","date_gmt":"2026-05-07T14:41:17","guid":{"rendered":"https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/?p=3531"},"modified":"2026-05-07T11:41:59","modified_gmt":"2026-05-07T14:41:59","slug":"eu-me-considerava-uma-pessoa-feliz-ate-23-de-dezembro-de-1995","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/eu-me-considerava-uma-pessoa-feliz-ate-23-de-dezembro-de-1995\/","title":{"rendered":"\u201cEu me considerava uma pessoa feliz at\u00e9 23 de dezembro de 1995\u201d"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><img loading=\"lazy\" class=\"size-medium wp-image-3537 aligncenter\" src=\"https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/wp-content\/uploads\/sites\/282\/2026\/05\/Arquivo-pessoal-263x300.jpg\" alt=\"\" width=\"263\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/wp-content\/uploads\/sites\/282\/2026\/05\/Arquivo-pessoal-263x300.jpg 263w, https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/wp-content\/uploads\/sites\/282\/2026\/05\/Arquivo-pessoal.jpg 624w\" sizes=\"(max-width: 263px) 100vw, 263px\" \/><\/p>\n<h6 style=\"text-align: center\"><i><span style=\"font-weight: 400\">O Brasil registrou 84.760 pessoas desaparecidas em 2025, em m\u00e9dia 232 desaparecidos por dia.<\/span><\/i><\/h6>\n<p style=\"text-align: center\">Arquivo pessoal: Ivanise Esperidi\u00e3o<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Fabiana Esperidi\u00e3o da Silva. Vista pela \u00faltima vez dois dias antes do Natal de 1995, um s\u00e1bado, \u00e0s oito da noite, em Pirituba, distrito da zona noroeste de S\u00e3o Paulo, com uma popula\u00e7\u00e3o de aproximadamente 155 mil habitantes na \u00e9poca. Usava regata, shorts e chinelo. Desde ent\u00e3o, n\u00e3o existem pistas que levem at\u00e9 o paradeiro dela. Hoje, Fabiana teria 42 anos, na \u00e9poca, apenas 13. H\u00e1 30 anos sua m\u00e3e, Ivanise Esperidi\u00e3o, procura justificativas em um destino incerto. H\u00e1 duas d\u00e9cadas, Ivanise luta pela causa do desaparecimento no Brasil.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Falar de desaparecimento \u00e9 como montar um quebra cabe\u00e7a sem saber a imagem final. Fabiana e outros diversos casos s\u00e3o hist\u00f3rias individuais. Pessoas com seus respectivos cotidianos, vidas e rela\u00e7\u00f5es. De repente, um mar de d\u00favidas: <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">onde foi vista pela \u00faltima vez? Quais roupas usava? Estava acompanhada?<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. Dentre elas, a que permanece: \u00e9 poss\u00edvel encontrar respostas? A incerteza e os questionamentos fomentam uma busca incessante por algo que n\u00e3o se sabe como ocorreu e que n\u00e3o h\u00e1 um desfecho concreto.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A defini\u00e7\u00e3o legal para desaparecimento \u00e9, segundo a Lei 13.812\/2019, todo ser humano cujo paradeiro \u00e9 desconhecido, at\u00e9 que sua localiza\u00e7\u00e3o e identifica\u00e7\u00e3o sejam confirmadas. A Lei institui a Pol\u00edtica Nacional de Busca de Pessoas Desaparecidas, que estabelece a busca por desaparecidos como prioridade nacional, em car\u00e1ter de urg\u00eancia. O registro de boletim de ocorr\u00eancia n\u00e3o precisa aguardar 24 horas do desaparecimento para ser realizado.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Nos dois primeiros meses de 2026, desapareceram 12,4 mil pessoas no Brasil, segundo dados do <\/span><a href=\"https:\/\/app.powerbi.com\/view?r=eyJrIjoiNWQ0NTdlY2UtMTI2NC00MzQ0LWI3MTQtMmYxNmY5NTZlN2VlIiwidCI6ImViMDkwNDIwLTQ0NGMtNDNmNy05MWYyLTRiOGRhNmJmZThlMSJ9\"><span style=\"font-weight: 400\">Minist\u00e9rio da Justi\u00e7a e Seguran\u00e7a P\u00fablica<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400\">. O n\u00famero de pessoas localizadas ficou em 8.017 no mesmo per\u00edodo. Fabiana \u00e9 um dos rostos que foram ocultos pela incerteza de uma vida que parou no tempo. A garota, acompanhada por sua amiga Luciana, foi dar um feliz anivers\u00e1rio para uma terceira colega. O tempo era de\u00a0 chuva severa. N\u00e3o se imaginava que dali surgiria um pesadelo que parecia n\u00e3o ter fim, e que talvez realmente n\u00e3o tenha.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Quando se fala que uma situa\u00e7\u00e3o aconteceu em quest\u00e3o de horas, se imagina algo r\u00e1pido, mas n\u00e3o que uma vida muda em quest\u00e3o de horas. Ou melhor, que uma vida tem seu futuro incerto em quest\u00e3o de horas. De repente, n\u00e3o se sabe onde, nem com quem est\u00e1. \u00c9 muito r\u00e1pido e restam apenas as d\u00favidas, do porqu\u00ea e do como. Em 1995, n\u00e3o havia celular, n\u00e3o havia a velocidade da internet de hoje. Ser\u00e1 que, em algum momento, essa hist\u00f3ria poderia ter sido diferente?\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">No dia 23 de dezembro de 1995, na casa de Fabiana estavam apenas sua irm\u00e3, Fagna, e seu pai.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><i><span style=\"font-weight: 400\">A Fabiana saiu de casa por volta das 20 horas, acompanhada de uma coleguinha que morava h\u00e1 tr\u00eas quadras da nossa casa. Elas foram visitar uma terceira colega, Damaris, que estava fazendo anivers\u00e1rio naquele dia. N\u00e3o tinha festa, elas foram somente dar um abra\u00e7o de parab\u00e9ns na colega. Quando chegaram at\u00e9 a resid\u00eancia de Damaris, nem entraram porque estava se formando uma chuva, ent\u00e3o apenas deram feliz anivers\u00e1rio do port\u00e3o e voltaram. No caminho, cada uma seguiu em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 sua casa e foi nesse trajeto que minha filha desapareceu. Eu n\u00e3o estava em casa na hora em que ela saiu, naquele dia n\u00f3s t\u00ednhamos feito faxina e deixado tudo organizado para, no dia seguinte, comemorar o Natal. Essa era uma pr\u00e1tica habitual nossa, ent\u00e3o marquei com minha cabeleireira de arrumar meu cabelo no s\u00e1bado, j\u00e1 que o sal\u00e3o n\u00e3o abria no domingo. Esperei no ponto de \u00f4nibus, ele demorou muito para passar, ent\u00e3o na hora que consegui chegar l\u00e1, o sal\u00e3o estava fechado, e depois peguei o \u00f4nibus de volta. Desci no ponto e come\u00e7aram aqueles trov\u00f5es com pingos grossos de chuva. Entrei em casa e estava apenas a minha outra filha, Fagna, que explicou onde a Fabiana estava. Perguntei o porqu\u00ea a Fagna n\u00e3o foi junto e ela me contou que Fabiana estava acompanhada de Luciana e logo estaria em casa. A chuva demorou umas duas horas para passar e, conforme ela ia aumentando, come\u00e7ou a me dar uma ansiedade muito grande. Quando a chuva parou um pouco, eu e Fagna fomos at\u00e9 a casa de Luciana, deduzi que Fabiana estava esperando l\u00e1, enquanto a chuva n\u00e3o passava para voltar para casa. Ao chegar l\u00e1 falei que vim buscar a Fabiana, e Luciana respondeu \u2018tia, a Fabiana n\u00e3o est\u00e1 aqui, ela foi embora faz tempo\u2019.\u00a0<\/span><\/i><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">O caminho que Fabiana percorreu era uma avenida reta chamada Raimundo Pereira de Magalh\u00e3es, n\u00e3o havia outro caminho alternativo que ela pudesse ter feito. Horas depois, foi feito um mutir\u00e3o de seis pessoas em busca dela, entre elas estavam, Ivanise, Fagna, Luciana, a m\u00e3e e irm\u00e3 da amiga e a dona da casa onde Ivanise morava.\u00a0\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">O relato acima \u00e9 da m\u00e3e que vive pela incerteza, uma das m\u00e3es. Um tempo que se perdeu nas m\u00e3os do destino. \u00c9 o que resta para os familiares das v\u00edtimas de desaparecimento, uma vida repleta de \u201ce se?\u201d. <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">E se tivesse sido diferente? E se eu estivesse em casa? E se minha atitude fosse outra? <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">No entanto, a cren\u00e7a de encontrar respostas, seja em dias, meses ou anos, perdura at\u00e9 essa realidade vir \u00e0 tona.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">\u201cNem lembrei o que era o Natal, procurei pela minha filha dia e noite. No dia 26, fui em hospitais e IML \u00e0 procura dela. Naquela \u00e9poca ningu\u00e9m sabia o que era o fen\u00f4meno do desaparecimento, fui me degradando f\u00edsica e psicologicamente, chegando \u00e0 beira da loucura. Nenhuma m\u00e3e est\u00e1 preparada para perder um filho dessa forma. A ferida n\u00e3o fecha, e tem dias que ela d\u00f3i mais\u201d, conta Ivanise.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Sil\u00eancio que grita<\/b><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Esta \u00e9 a primeira reportagem da s\u00e9rie<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\"> Arquivo invis\u00edvel: as faces do desaparecimento no Brasil<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, que ao longo deste ano vai tratar sobre as vidas que foram interrompidas pelo fen\u00f4meno do desaparecimento e as consequ\u00eancias que isso acarreta f\u00edsica e psicologicamente. A causa j\u00e1 foi muito invisibilizada, hoje, torna-se luta de diversos familiares e pessoas que desdobram suas vidas para mant\u00ea-la ativa e reconhecida em todo territ\u00f3rio.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Esta reportagem integra a colet\u00e2nea de livro-reportagem investigativo\u00a0 primeiro cap\u00edtulo da s\u00e9rie Arquivo Invis\u00edvel: as faces do desaparecimento no Brasil. Acompanhe no Peri\u00f3dico a continua\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Ficha t\u00e9cnica<\/b><\/p>\n<p><b>Produ\u00e7\u00e3o:\u00a0<\/b>Emanuelle Pasqualoto<\/p>\n<p><b>Supervis\u00e3o de produ\u00e7\u00e3o:\u00a0<\/b>Hendryo Andr\u00e9<\/p>\n<p><b>Edi\u00e7\u00e3o e publica\u00e7\u00e3o:<\/b> Maria Eduarda Leme e Sarah Brasil<\/p>\n<p><b>Supervis\u00e3o de publica\u00e7\u00e3o:\u00a0<\/b>Aline Rosso e Kevin Kossar Furtado<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; O Brasil registrou 84.760 pessoas desaparecidas em 2025, em m\u00e9dia 232 desaparecidos por dia. Arquivo pessoal: Ivanise Esperidi\u00e3o Fabiana Esperidi\u00e3o da Silva. 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