{"id":3552,"date":"2026-05-12T14:07:55","date_gmt":"2026-05-12T17:07:55","guid":{"rendered":"https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/?p=3552"},"modified":"2026-05-12T17:00:25","modified_gmt":"2026-05-12T20:00:25","slug":"sem-salario-e-sem-pausa-a-rotina-invisivel-das-cuidadoras-familiares","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/sem-salario-e-sem-pausa-a-rotina-invisivel-das-cuidadoras-familiares\/","title":{"rendered":"Sem sal\u00e1rio e sem pausa: a rotina invis\u00edvel das cuidadoras familiares"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center\"><i><span style=\"font-weight: 400\">Mulheres representam 90% dos cuidadores informais do Brasil<\/span><\/i><\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><em>Arte: Karine Santos e Marina Ranzani<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Mulheres dedicam quase 10 horas semanais a mais ao trabalho de cuidado n\u00e3o remunerado que os homens, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domic\u00edlios de 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica (PNAD IBGE). \u00c9 o caso de Adriana Lara (54), que dedicava quase todas as suas horas di\u00e1rias ao trabalho de cuidado, sem nenhuma forma de remunera\u00e7\u00e3o pelo esfor\u00e7o. \u201cDesde crian\u00e7a, quando meu av\u00f4 faleceu, eu fiquei respons\u00e1vel pela minha av\u00f3\u201d. Na vida adulta, Adriana foi a principal respons\u00e1vel por Alex Francisco, seu segundo filho, diagnosticado com paralisia cerebral.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Em mar\u00e7o deste ano, o Governo do Paran\u00e1 lan\u00e7ou o Cadastro do Cuidador Paranaense, durante a abertura do III Semin\u00e1rio Paran\u00e1 Amigo da Pessoa Idosa.. A iniciativa busca mapear os cuidadores familiares do Paran\u00e1 para disponibilizar aux\u00edlio. Um <\/span><a href=\"https:\/\/www.researchgate.net\/publication\/365221396_Mulheres_cuidadoras_em_ambiente_familiar_a_internalizacao_da_etica_do_cuidado\"><span style=\"font-weight: 400\">estudo<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400\"> conduzido por pesquisadoras da Pontif\u00edcia Universidade Cat\u00f3lica do Paran\u00e1 (PUC-PR), revela que 90% dos cuidadores informais no Brasil s\u00e3o mulheres. Deste n\u00famero, a maioria s\u00e3o como Adriana: filhas, c\u00f4njuges e netas, com idade m\u00e9dia de 48 anos.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">A carga de horas dedicadas \u00e9 ainda maior entre mulheres negras, que chegam a dedicar o equivalente a quase um dia inteiro da semana, segundo o estudo<\/span><a href=\"https:\/\/www.gov.br\/mds\/pt-br\/acoes-e-programas\/brasil-que-cuida\/observatorio-do-cuidado\/publicacoes\/cartilhas\/cuidado_em_debate-3.pdf\"><span style=\"font-weight: 400\"> Pol\u00edticas para a Corresponsabilidade no Mundo do Trabalho<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400\">, lan\u00e7ado pela Organiza\u00e7\u00e3o Internacional do Trabalho (OIT), em parceria com o Minist\u00e9rio do Desenvolvimento e Assist\u00eancia Social, Fam\u00edlia e Combate \u00e0 Fome (MDS). De acordo com a Secretaria de Estado da Mulher, Igualdade Racial e Pessoa Idosa (Semipi), o Paran\u00e1 foi o primeiro Estado brasileiro a transformar o cuidado em pol\u00edtica p\u00fablica por meio de lei.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Em 1996, Adriana eAdenilson Lara tiveram Andr\u00e9, seu primeiro filho. Alex Francisco, nasceu dois anos depois. Existe, ent\u00e3o, um por\u00e9m: o casal possui incompatibilidade sangu\u00ednea e isso afetou diretamente o nascimento das duas crian\u00e7as. \u201cEu sou B- e meu marido \u00e9 A+. No primeiro nascimento, os m\u00e9dicos reconheceram o problema e fizeram a transfus\u00e3o total de sangue, o que salvou a vida de Andr\u00e9. J\u00e1 no segundo, n\u00e3o houve esse processo e meufilho teve paralisia cerebral\u201d. Quase dez anos depois, os pais de Francisco conseguiram provar na justi\u00e7a que o erro foi do hospital e do m\u00e9dico respons\u00e1vel pelo parto.\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Desde o nascimento de Francisco, conhecido por\u00a0 \u201cChic\u00e3o\u201d, a vida da fam\u00edlia nunca mais foi a mesma. Adriana destaca a import\u00e2ncia dos aux\u00edlios p\u00fablicos no tratamento do filho. \u201cTive conhecimento do Hospital Sarah em Bras\u00edlia, que atende pelo SUS. Para chegar l\u00e1, utilizei o Tratamento Fora do Domic\u00edlio\u201d. A Rede Sarah de Hospitais de Reabilita\u00e7\u00e3o \u00e9 uma institui\u00e7\u00e3o brasileira focada no tratamento de pacientes com les\u00f5es neurol\u00f3gicas e ortop\u00e9dicas.\u00a0 A Rede oferece atendimento gratuito de alta complexidade, integrado ao SUS. J\u00e1 o Tratamento Fora do Domic\u00edlio (TFD), \u00e9 um benef\u00edcio do SUS que garante transporte, alimenta\u00e7\u00e3o e hospedagem a pacientes que precisam de tratamento m\u00e9dico em outra cidade ou estado. A solicita\u00e7\u00e3o \u00e9 feita via Secretaria Municipal de Sa\u00fade, mediante laudo m\u00e9dico e agendamento confirmado.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Mesmo com o apoio no tratamento do filho, Adriana nunca recebeu nenhum aux\u00edlio como cuidadora e n\u00e3o podia trabalhar, j\u00e1 que todo o tempo era dedicado ao cuidado. \u201cQuando somos m\u00e3e, nos sentimos respons\u00e1veis, n\u00e3o pensamos em n\u00f3s mesmas\u201d. Segundo dados do IBGE, no Brasil mais de 2,5 milh\u00f5es de mulheres deixam de trabalhar para cuidar de parentes ou realizar tarefas dom\u00e9sticas. Al\u00e9m dos cuidados com Francisco, Adriana tamb\u00e9m fazia as tarefas dom\u00e9sticas de casa. A m\u00e3e conta como era a rotina em meio aos dois filhos e \u00e0 av\u00f3 para auxiliar. \u201cEu acordava muito cedo, tomava um caf\u00e9 refor\u00e7ado,\u00a0 porque n\u00e3o sabia se ia conseguir comer depois. Ficava o tempo todo \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o do meu filho. Nas horas vagas, eu realizava as tarefas dom\u00e9sticas\u201d, relata.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Assim como Adriana, Alesandra Machado tamb\u00e9m foi cuidadora n\u00e3o-remunerada por 11 anos. Com tr\u00eas filhos, um casal de g\u00eameos pequenos e uma filha mais velha, Alesandra tamb\u00e9m ficou respons\u00e1vel pelo cuidado da sogra, que teve a perna amputada por conta de uma infec\u00e7\u00e3o por bact\u00e9ria hospitalar. \u201cEu n\u00e3o recebi nenhuma ajuda externa ou da fam\u00edlia\u201d, relata. Por ser dona de casa, a fam\u00edlia delegava todas as atividades m\u00e9dicas para ela, o que envolvia acompanhamento em consultas, interna\u00e7\u00f5es, medicamentos, exerc\u00edcios da fisioterapia e curativos.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">\u201cFoi muito dif\u00edcil,\u00a0 por\u00e9m n\u00e3o tinha outra pessoa que pudesse fazer isso, era meu dever\u201d, diz. O casal de g\u00eameos de Alesandra ainda era rec\u00e9m-nascido. \u201cAl\u00e9m do cuidado constante com minha sogra, eu me desdobrava em cuidar dos beb\u00eas, minha filha maior, afazeres dom\u00e9sticos e a cozinha\u201d. Ela relata como o excesso de atividades comprometeu sua sa\u00fade. \u201cFiquei de cama muitas vezes por conta da exaust\u00e3o, tanto f\u00edsica quanto emocional. No fim, quem fica doente \u00e9 o cuidador\u201d.<\/span><\/p>\n<div id=\"attachment_3553\" style=\"width: 346px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-3553\" loading=\"lazy\" class=\" wp-image-3553\" src=\"https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/wp-content\/uploads\/sites\/282\/2026\/05\/IMG-20260430-WA0011-300x201.jpg\" alt=\"\" width=\"336\" height=\"225\" srcset=\"https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/wp-content\/uploads\/sites\/282\/2026\/05\/IMG-20260430-WA0011-300x201.jpg 300w, https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/wp-content\/uploads\/sites\/282\/2026\/05\/IMG-20260430-WA0011-1024x686.jpg 1024w, https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/wp-content\/uploads\/sites\/282\/2026\/05\/IMG-20260430-WA0011-768x514.jpg 768w, https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/wp-content\/uploads\/sites\/282\/2026\/05\/IMG-20260430-WA0011-1232x825.jpg 1232w, https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/wp-content\/uploads\/sites\/282\/2026\/05\/IMG-20260430-WA0011-272x182.jpg 272w, https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/wp-content\/uploads\/sites\/282\/2026\/05\/IMG-20260430-WA0011.jpg 1280w\" sizes=\"(max-width: 336px) 100vw, 336px\" \/><p id=\"caption-attachment-3553\" class=\"wp-caption-text\">Arquivo pessoal: Adriana Lara.<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><b>Cadastro do cuidador paranaense<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">A nova ferramenta busca mapear e identificar quem s\u00e3o as pessoas que exercem o trabalho de cuidado no Paran\u00e1, e criar um banco de dados oficial que subsidiar\u00e1 pol\u00edticas p\u00fablicas de apoio. Para Adriana Lara o novo recurso \u00e9 positivo. \u201cNa minha \u00e9poca isso n\u00e3o existia e todo nosso dinheiro ia para o tratamento do Francisco\u201d, observa.\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Alesandra reconhece a import\u00e2ncia de incentivos como este, mas afirma a necessidade de profissionais no trabalho de cuidado. \u201cSe eu tivesse ajuda de um profissional em casa com a minha sogra, seria mais f\u00e1cil equilibrar minhas responsabilidades\u201d. O pre\u00e7o m\u00e9dio de um cuidador de idosos profissional em 2026, gira em torno de R$1,6 mil a R$2 mil mensais em jornadas CLT de 40 a 44 horas semanais. Di\u00e1rias de 12 horas costumam custar entre R$170 e R$200 para aut\u00f4nomos.\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">O programa Bolsa Cuidador Familiar iniciou como teste em dezembro de 2025. Ele disponibiliza aux\u00edlio financeiro mensal de meio sal\u00e1rio m\u00ednimo (R$810,50 em 2026) para os cuidadores de idosos paranaenses. De acordo com a <\/span><a href=\"https:\/\/www.semipi.pr.gov.br\/\"><span style=\"font-weight: 400\">Secretaria da Mulher, Igualdade Racial e Pessoa Idosa<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400\"> (Semipi), s\u00e3o vinte munic\u00edpios beneficiados com 300 bolsas, totalizando quinze pagamentos por munic\u00edpio. Atualmente, 141 pessoas est\u00e3o recebendo o benef\u00edcio, que integra o programa Paran\u00e1 Amigo da Pessoa Idosa. H\u00e1 previs\u00e3o de amplia\u00e7\u00e3o do projeto conforme demanda. Os cuidadores j\u00e1 podem se cadastrar <\/span><a href=\"https:\/\/www.semipi.pr.gov.br\/cuidadoresfamiliares\"><b>aqui<\/b><\/a><span style=\"font-weight: 400\">.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><b>O custo oculto do cotidiano<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Esta \u00e9 a primeira reportagem da s\u00e9rie \u201cO custo oculto do cotidiano\u201d, que, ao longo de 2026, ir\u00e1 trazer a realidade do trabalho de cuidado n\u00e3o-remunerado aos holofotes. Busca-se valorizar esse trabalho essencial para a sociedade que possui pouco ou nenhum reconhecimento, e que \u00e9 realizado, quase completamente, por mulheres. Em meio a casa limpa e a comida na mesa, vistos como afazeres da natureza feminina, \u00e9 colocado em debate a desigualdade de g\u00eanero e o dever familiar.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Esta reportagem integra uma colet\u00e2nea de livro-reportagem investigativo. Este cap\u00edtulo trata das dificuldades do trabalho de cuidado n\u00e3o-remunerado. Acompanhe no Peri\u00f3dico as pr\u00f3ximas publica\u00e7\u00f5es.<\/span><\/p>\n<p><b>Ficha t\u00e9cnica<\/b><\/p>\n<p><b>Produ\u00e7\u00e3o: <\/b><span style=\"font-weight: 400\">Amanda Los<\/span><\/p>\n<p><b>Supervis\u00e3o de produ\u00e7\u00e3o: <\/b><span style=\"font-weight: 400\">Hendryo Andr\u00e9<\/span><\/p>\n<p><b>Edi\u00e7\u00e3o e publica\u00e7\u00e3o: <\/b><span style=\"font-weight: 400\">Lorena Santana\u00a0<\/span><\/p>\n<p><b>Supervis\u00e3o de publica\u00e7\u00e3o: <\/b><span style=\"font-weight: 400\">Aline Rosso e Kevin Kossar Furtado<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Mulheres representam 90% dos cuidadores informais do Brasil Arte: Karine Santos e Marina Ranzani Mulheres dedicam quase 10 horas semanais a mais ao trabalho de cuidado n\u00e3o remunerado que os homens, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domic\u00edlios de 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica (PNAD IBGE). \u00c9 o caso de Adriana&nbsp;&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":953,"featured_media":3554,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[2],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3552"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/wp-json\/wp\/v2\/users\/953"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3552"}],"version-history":[{"count":6,"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3552\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3596,"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3552\/revisions\/3596"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/wp-json\/wp\/v2\/media\/3554"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3552"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3552"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3552"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}