{"id":3562,"date":"2026-05-12T15:24:45","date_gmt":"2026-05-12T18:24:45","guid":{"rendered":"https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/?p=3562"},"modified":"2026-05-19T15:40:16","modified_gmt":"2026-05-19T18:40:16","slug":"o-mundo-em-que-vivemos-ou-tentamos-viver","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/o-mundo-em-que-vivemos-ou-tentamos-viver\/","title":{"rendered":"O mundo em que vivemos, ou tentamos viver"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center\"><em>No Brasil, um a cada oito brasileiros moram em comunidades ou favelas<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><em>Foto: Emanueli Garcia<\/em><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">O capitalismo \u00e9 o principal sistema econ\u00f4mico no mundo e ser humano, no contexto de vida atual (capitalizado), trabalha com o objetivo de ganhar o necess\u00e1rio para a sobreviv\u00eancia e quando isso n\u00e3o \u00e9 alcan\u00e7ado, o caminho acaba se tornando a mis\u00e9ria. Enquanto escrevia esta s\u00e9rie de reportagens me perguntei: mesmo sendo de conhecimento geral, como eu posso deixar esses fatos mais evidentes? A luta n\u00e3o acaba quando se conquista uma moradia, ela \u00e9 constante.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">\u00a0Em uma entrevista com uma das personagens que irei apresentar, ela destaca que pessoas que est\u00e3o em situa\u00e7\u00e3o vulner\u00e1vel e\/ou desregular em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 moradia, est\u00e3o andando em uma corda bamba. A estabilidade financeira e o hist\u00f3rico social est\u00e3o entre os principais fatores que dificultam a vida dessas pessoas, mesmo depois de conquistar um teto, de acordo com a personagem.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">No mundo atual, a busca por estabilidade faz surgir a necessidade de ganho financeiro extra, os quais podem ir ao encontro do vulner\u00e1vel, ou n\u00e3o. Sejam esses meios bons ou ruins, por instinto de sobreviv\u00eancia, o ser humano escolhe o que lhe parece ser a melhor op\u00e7\u00e3o. As pessoas tentam viver em\u00a0 um cen\u00e1rio onde apenas os que t\u00eam um peda\u00e7o de papel, que de uma hora para outra decidimos atribuir valor, sobrevivem. Esta s\u00e9rie busca apresentar hist\u00f3rias reais, de homens e mulheres que vivem em constantes batalhas.\u00a0\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">O cen\u00e1rio pontagrossense se enquadra num dos maiores contextos de debilidade habitacional do Paran\u00e1. O Censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica (IBGE) de 2022, e dados disponibilizados pela Companhia de Habita\u00e7\u00e3o do Paran\u00e1 (Cohapar) mostram\u00a0 Ponta Grossa como l\u00edder de favelas no interior do estado, onde conta com as\u00a0 ocupa\u00e7\u00f5es Ouro Verde II, Vila Cristina, Bela Vista e Coronel Cl\u00e1udio. Na cidade s\u00e3o mais de 23 mil fam\u00edlias sem moradia, de acordo com um estudo registrado pela Universidade Estadual de Ponta Grossa, o qual analisou dados da Cohapar de 2021. O sistema municipal de habita\u00e7\u00e3o revelou que, em 2026, a cidade conta com um d\u00e9ficit habitacional de 18 mil moradias. Em um contexto mais cr\u00edtico, a Funda\u00e7\u00e3o de Assist\u00eancia Social (FASPG) afirmou que at\u00e9 o final de 2025, j\u00e1 somavam quase 900 pessoas na cidade em situa\u00e7\u00e3o de rua.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Em \u00e2mbito nacional, em 2023, a Funda\u00e7\u00e3o Jo\u00e3o Pinheiro, em Minas Gerais, apontou que o pa\u00eds possui um d\u00e9ficit habitacional de 5,97 milh\u00f5es de domic\u00edlios, uma representa\u00e7\u00e3o de 6,63% do total de moradias na \u00e9poca. Esse n\u00famero apenas mostra o aumento do d\u00e9ficit, que em 2019 era de mais de 4%. O Censo Demogr\u00e1fico de 2022, produzido pelo IBGE, mostrou que em 2023 mais de 11 milh\u00f5es de casas est\u00e3o vazias, al\u00e9m das 23 milh\u00f5es que est\u00e3o com algum tipo de desregulariza\u00e7\u00e3o. Mas qual o motivo disso? Porque h\u00e1 tantas casas e ainda assim in\u00fameras pessoas est\u00e3o sem moradia?\u00a0<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b><i>Ideias que funcionam bem no papel, mas n\u00e3o atendem \u00e0 realidade de todos<\/i><\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">No Brasil, pol\u00edticas habitacionais s\u00e3o respons\u00e1veis pela organiza\u00e7\u00e3o de iniciativas e projetos que buscam elevar a qualidade de vida da popula\u00e7\u00e3o, promovendo melhorias nas condi\u00e7\u00f5es de moradia de grupos em situa\u00e7\u00e3o de desamparo. Atualmente, em escala federal, os tr\u00eas principais programas que est\u00e3o em vigor s\u00e3o: Minha Casa, Minha Vida,Moradia Digna e Habita\u00e7\u00e3o Popular. H\u00e1 outros como Pr\u00f3-Moradia, Reforma Casa Brasil (lan\u00e7ado em 2025) e o Sistema Nacional de Habita\u00e7\u00e3o por Interesse Social s\u00e3o projetos que buscam implementar um aux\u00edlio extra aos principais programas.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">O Minha Casa, Minha Vida \u00e9 o sistema de maior relev\u00e2ncia nacional. Ele auxilia em parcelamentos e redu\u00e7\u00e3o de juros de acordo com a categoria que cada fam\u00edlia se enquadra (quanto menor a renda familiar, menores ser\u00e3o os juros) e permite ao cidad\u00e3o quitar uma casa em at\u00e9 35 anos com taxa de juros nominal de 10% ao ano. O projeto estabelece quatro tipos de faixas, sendo a \u00faltima direcionada para a classe m\u00e9dia, com o enquadramento de cada situa\u00e7\u00e3o familiar, de acordo com a renda bruta mensal, em zonas urbanas. J\u00e1 nas rurais o valor \u00e9 relacionado ao ganho anual.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">No \u00e2mbito estadual, o projeto <\/span><a href=\"https:\/\/www.cohapar.pr.gov.br\/Pagina\/Casa-Facil-Parana\"><span style=\"font-weight: 400\">Casa F\u00e1cil Paran\u00e1<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400\"> tamb\u00e9m serve para a mesma finalidade, por\u00e9m funciona como aux\u00edlio extra para a iniciativa federal com extens\u00e3o das parcelas em at\u00e9 420 vezes e redu\u00e7\u00e3o de juros. O programa oferece um subs\u00eddio de R$20 mil para a entrada do pagamento pelas casas para fam\u00edlias com renda fixa de at\u00e9 quatro sal\u00e1rios m\u00ednimos nacional, valor o qual n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1ria a devolu\u00e7\u00e3o futuramente. Al\u00e9m disso, na faixa et\u00e1ria de mais de 80 anos, o empr\u00e9stimo chega a R$80 mil.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">No cen\u00e1rio ponta-grossense, em 2025, a C\u00e2mara Municipal aprovou, mas sem implementa\u00e7\u00e3o at\u00e9 o momento de publica\u00e7\u00e3o deste texto, a <\/span><a href=\"https:\/\/leggicomunali.it\/a\/pr\/p\/ponta-grossa\/lei-ordinaria\/2025\/1561\/15610\/lei-ordinaria-n-15610-2025-institui-a-politica-municipal-de-producao-social-de-moradias-por-autogestao\"><span style=\"font-weight: 400\">Pol\u00edtica Municipal de Produ\u00e7\u00e3o Social de Moradias por Autogest\u00e3o<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400\">. Essa pol\u00edtica possui o objetivo de <\/span><span style=\"font-weight: 400\">permitir que comunidades, organizadas em associa\u00e7\u00f5es ou cooperativas, gerenciem a constru\u00e7\u00e3o de suas casas, promovendo moradia digna com custos reduzidos, com uma participa\u00e7\u00e3o popular direta e, muitas vezes, em parceria com o programa Minha Casa, Minha Vida.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Professora de Arquitetura e Urbanismo na Universidade de S\u00e3o Paulo (USP), Raquel Rolnik publicou em 2016 um <\/span><a href=\"https:\/\/diplomatique.org.br\/as-armadilhas-do-pacote-habitacional\/\"><span style=\"font-weight: 400\">artigo<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400\"> na revista <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Le Monde Diplomatique Brasil<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> criticando os projetos de habita\u00e7\u00e3o. \u201cH\u00e1 algumas armadilhas e fal\u00e1cias nesse pacote habitacional que, pelo menos no que foi aventado publicamente at\u00e9 agora, tem sido alicer\u00e7ado sobre uma pol\u00edtica de amplia\u00e7\u00e3o do acesso ao cr\u00e9dito associada a distintas formas de desonera\u00e7\u00e3o da ind\u00fastria da constru\u00e7\u00e3o, sem conex\u00e3o com qualquer estrat\u00e9gia urban\u00edstica ou fundi\u00e1ria, confundindo pol\u00edtica habitacional com pol\u00edtica de gera\u00e7\u00e3o de empregos na ind\u00fastria da constru\u00e7\u00e3o\u201d.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">No artigo, a professora ainda critica os projetos habitacionais como n\u00e3o condizentes com a realidade de todos, e que, \u00e0 procura de um lugar para morar, as pessoas iniciam ou fortalecem as constru\u00e7\u00f5es de favelas, localizadas em terrenos baratos, ou sem custo, justamente pela desregulariza\u00e7\u00e3o causada pela falta de condi\u00e7\u00f5es b\u00e1sicas como esgoto e saneamento b\u00e1sico.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Os projetos que t\u00eam como objetivo disponibilizar moradias para a popula\u00e7\u00e3o, na verdade pararam de ter como significado ajuda humanit\u00e1ria e passaram a ser um empreendimento imobili\u00e1rio. N\u00e3o h\u00e1 d\u00favidas de que a implementa\u00e7\u00e3o desses projetos geram um grande n\u00famero de empregos, no entanto o sentido da causa passou a ser outro a partir do momento que empresas respons\u00e1veis e o pr\u00f3prio governo (como ser\u00e1 abordado no pr\u00f3ximo cap\u00edtulo) come\u00e7aram a almejar a conquista de capital, a partir de causas sociais. Isto se torna vis\u00edvel quando quase 6 milh\u00f5es de fam\u00edlias est\u00e3o sem casa, mesmo que exista o dobro de domic\u00edlios vazios.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Grande parte dos locais para moradia no pa\u00eds, tendo sido constru\u00eddo ou n\u00e3o, est\u00e3o inseridos em programas habitacionais, os quais devem ser destinados \u00e0 popula\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o s\u00e3o entregues. Cen\u00e1rios assim, fazem surgir a necessidade de movimentos sociais, que levam as pessoas a ocuparem esses espa\u00e7os.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b><i>A batalha que uniu e ainda une fam\u00edlias<\/i><\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A ocupa\u00e7\u00e3o Ericson John Duarte, em Ponta Grossa, \u00e9 o maior conjunto habitacional do munic\u00edpio. Situada no Parque das Andorinhas desde o final de 2021, o movimento contava inicialmente com 60 fam\u00edlias. No final de 2025, um outro levantamento realizado apontou a exist\u00eancia de 700 grupos parentais, somando mais de 1 mil moradores atualmente.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">O terreno, que pertence \u00e0 Prefeitura Municipal, foi originalmente pensado para constru\u00e7\u00f5es habitacionais para fam\u00edlias cadastradas pela Companhia de Habita\u00e7\u00e3o de Ponta Grossa (Prolar). Por\u00e9m, desde o in\u00edcio das constru\u00e7\u00f5es em 2011, a Prefeitura deixou de investir dinheiro p\u00fablico, \u201cabandonando\u201d o projeto. Com o intuito de organizar uma mobiliza\u00e7\u00e3o, a Frente de Luta Campo e Cidade (FNL), liderada por Leandro Dias, advogado e\u00a0 militante dos direitos b\u00e1sicos, realizou a ocupa\u00e7\u00e3o do terreno.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Na hist\u00f3ria de Ponta Grossa, a cidade passou por diversos contextos de ocupa\u00e7\u00e3o. O bairro Santa B\u00e1rbara, por exemplo, existente h\u00e1 mais de 30 anos, surgiu a partir de uma mobiliza\u00e7\u00e3o habitacional motivada pela falta de entrega, por parte da prefeitura, das casas constru\u00eddas no local. Desse modo, uma quest\u00e3o em comum que se torna a principal motiva\u00e7\u00e3o para as chamadas, pejorativamente, \u201cinvas\u00f5es\u201d \u00e9 a falta de repasse de resid\u00eancias por parte de grupos governamentais. Os projetos mencionados anteriormente s\u00e3o<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">respons\u00e1veis por entregar uma casa para a popula\u00e7\u00e3o vulner\u00e1vel, mas quando essa entrega n\u00e3o ocorre, as pessoas encontram os pr\u00f3prios meios.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Esta reportagem integra uma colet\u00e2nea de livro-reportagem investigativo. Este cap\u00edtulo trata de pol\u00edticas habitacionais no Brasil. Acompanhe no Peri\u00f3dico as pr\u00f3ximas publica\u00e7\u00f5es.<\/span><\/p>\n<p><b>\u00a0Ficha t\u00e9cnica<\/b><\/p>\n<p><b>Produ\u00e7\u00e3o:<\/b><span style=\"font-weight: 400\"> Emanueli Garcia<\/span><\/p>\n<p><b>Supervis\u00e3o de produ\u00e7\u00e3o: <\/b><span style=\"font-weight: 400\">Hendryo Anderson Andre<\/span><\/p>\n<p><b>Edi\u00e7\u00e3o e publica\u00e7\u00e3o: <\/b><span style=\"font-weight: 400\">Karine Santos, Ticyane Almeida, Lucas Barbato e Mafe Sperafico<\/span><\/p>\n<p><b>Supervis\u00e3o de publica\u00e7\u00e3o: <\/b><span style=\"font-weight: 400\">Aline Rosso e Kevin Kossar Furtado<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No Brasil, um a cada oito brasileiros moram em comunidades ou favelas Foto: Emanueli Garcia O capitalismo \u00e9 o principal sistema econ\u00f4mico no mundo e ser humano, no contexto de vida atual (capitalizado), trabalha com o objetivo de ganhar o necess\u00e1rio para a sobreviv\u00eancia e quando isso n\u00e3o \u00e9 alcan\u00e7ado, o caminho acaba se tornando&nbsp;&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":948,"featured_media":3563,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[2],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3562"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/wp-json\/wp\/v2\/users\/948"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3562"}],"version-history":[{"count":11,"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3562\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3643,"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3562\/revisions\/3643"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/wp-json\/wp\/v2\/media\/3563"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3562"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3562"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3562"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}