{"id":3653,"date":"2026-05-26T16:04:39","date_gmt":"2026-05-26T19:04:39","guid":{"rendered":"https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/?p=3653"},"modified":"2026-05-26T16:04:39","modified_gmt":"2026-05-26T19:04:39","slug":"eu-vivo-um-luto-sem-corpo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/eu-vivo-um-luto-sem-corpo\/","title":{"rendered":"\u201cEu vivo um luto sem corpo\u201d"},"content":{"rendered":"<p><i><span style=\"font-weight: 400\">Ivanise busca Fabiana h\u00e1 30 anos e j\u00e1 ajudou a encontrar 6 mil outros desaparecidos<\/span><\/i><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">\u201cVai pra casa, m\u00e3ezinha, se at\u00e9 amanh\u00e3 ela n\u00e3o aparecer, a\u00ed a senhora volta aqui\u201d, foi o que Ivanise ouviu do delegado \u00e0s tr\u00eas horas da manh\u00e3 do dia 24 de dezembro de 1995. \u201cA sua filha deve estar por a\u00ed com algum namoradinho, at\u00e9 o dia amanhecer ela j\u00e1 volta para casa\u201d, reafirmou o agente.\u00a0\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">\u201cDoutor, uma m\u00e3e que d\u00e1 liberdade pra uma adolescente de 13 anos ficar na rua at\u00e9 essa hora da madrugada n\u00e3o vem na sua delegacia pedir ajuda\u201d, respondeu Ivanise. \u201cE quem disse que m\u00e3e conhece o filho? Quando os pais viram as costas, o comportamento deles \u00e9 totalmente diferente\u201d, rebateu o delegado. Palavras faladas para uma m\u00e3e quando a filha estava desaparecida h\u00e1 sete horas.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A neglig\u00eancia encontrada nos detalhes dessa hist\u00f3ria colide com a dificuldade de Ivanise Esperidi\u00e3o de ter quaisquer pistas sobre o paradeiro de Fabiana Esperidi\u00e3o da Silva. Em meio a estat\u00edsticas e buscas incessantes, uma m\u00e3e convive h\u00e1 30 anos com a perda, que pode n\u00e3o ser vis\u00edvel, mas \u00e9 sentida na alma todos os dias, h\u00e1 quase 11 mil dias. \u201cO delegado falou que n\u00e3o ia perder tempo, porque j\u00e1 estava acostumado com essas ocorr\u00eancias e que eu precisava esperar as 24 horas\u201d, conta.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Esperar um dia inteiro para, no fim, na noite daquela v\u00e9spera de Natal, a \u00fanica diferen\u00e7a para a manh\u00e3 \u00e9 que agora Ivanise tinha em m\u00e3os um papel que falava que Fabiana estava desaparecida e que descrevia a forma <\/span><a href=\"https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/eu-me-considerava-uma-pessoa-feliz-ate-23-de-dezembro-de-1995\/\"><span style=\"font-weight: 400\">como ela sumiu<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400\">. \u201cUm balde de \u00e1gua fria\u201d, relembra, em 2026, o descaso enfrentado na \u00e9poca.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: left\"><b>Destino com espinhos<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Normalmente, quando se perde uma pessoa, a \u00faltima mem\u00f3ria que se tem de algu\u00e9m \u00e9 dentro de um caix\u00e3o em um vel\u00f3rio. O corpo humano e suas milh\u00f5es de sinapses t\u00eam diversas rea\u00e7\u00f5es para a dor f\u00edsica, mas e para a dor psicol\u00f3gica, mais especificamente, a dor da perda, como se manifesta essa rea\u00e7\u00e3o?<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">O luto j\u00e1 passou pela vida de Ivanise de diversas maneiras. Ela vem de uma fam\u00edlia composta por dez irm\u00e3os, origin\u00e1ria de S\u00e3o Lu\u00eds do Quitunde, cidade localizada na regi\u00e3o norte de Alagoas, a 57 quil\u00f4metros de Macei\u00f3. No munic\u00edpio com cerca de 30 mil habitantes moravam os irm\u00e3os e os pais de Ivanise.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A m\u00e3e de Fabiana mudou-se para S\u00e3o Paulo aos 18 anos. Ela se casou em 1980 \u2013 \u00e9 divorciada desde pouco tempo ap\u00f3s o desaparecimento da filha \u2013 e, logo que chegou ao novo estado, quis ser m\u00e3e. As filhas t\u00eam apenas 11 meses de diferen\u00e7a. \u201cMinha primeira gesta\u00e7\u00e3o era de g\u00eameos. Eu perdi, tive um aborto espont\u00e2neo. Depois engravidei da Fabiana e, logo ap\u00f3s, da Fagna\u201d, retrata.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Os irm\u00e3os dela permaneceram morando em Alagoas, ao lado dos pais. Antes do desaparecimento, ela j\u00e1 fazia tratamento para depress\u00e3o. Ivanise era a filha mais velha por parte de pai e, quando ele faleceu, foi a \u00fanica que n\u00e3o p\u00f4de se despedir. \u201cT\u00ednhamos uma rela\u00e7\u00e3o muito grande, minha m\u00e3e disse que ele morreu pedindo para me ver\u201d.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Foi a \u00e9poca na qual ela apresentou in\u00edcio de depress\u00e3o. A descoberta foi em uma consulta no reumatologista. Ao observ\u00e1-la com olhos vermelhos, o m\u00e9dico perguntou se ela havia dormido \u00e0 noite: \u201cDoutor, eu n\u00e3o durmo h\u00e1 dias, n\u00e3o tenho vontade nem de tomar banho \u201d. Foi assim que Ivanise recebeu encaminhamento para um Centro de Aten\u00e7\u00e3o Psicossocial (Caps) e iniciou o tratamento. A \u00fanica pessoa que podia ajud\u00e1-la naquela ocasi\u00e3o era ela mesma.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Dois anos depois, quando Fabiana desapareceu, o quadro se agravou. Um dia, durante as buscas, Ivanise foi ao Instituto M\u00e9dico Legal (IML) e viu cinco corpos, cinco meninas que foram assassinadas das formas mais brutais poss\u00edveis. \u201cPor que Deus estava me usando? Por que estava me castigando usando a minha filha? Eu falei: \u2018Senhor, eu j\u00e1 vivi o bastante\u2019\u201d.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Ap\u00f3s a perda dos g\u00eameos, do pai e o desaparecimento da filha, uma vida que j\u00e1 tinha um destino guiado pelas dores da incerteza, teve mais uma prova\u00e7\u00e3o. \u201cO m\u00e9dico chamou a mim e a minha irm\u00e3 e disse que minha m\u00e3e n\u00e3o iria durar mais do que 20 dias, porque ela estava tendo fal\u00eancia m\u00faltipla dos \u00f3rg\u00e3os\u201d. H\u00e1 12 anos, Ivanise desembarcou em Alagoas no dia 17 de agosto e no dia 6 de setembro, a m\u00e3e dela morreu. Ela acompanhou a \u00faltima parte dos tr\u00eas meses de luta contra uma doen\u00e7a que fez a m\u00e3e dela perder todos os movimentos do corpo e, nos \u00faltimos dias, ficar totalmente dependente de outras pessoas.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">\u201cAquilo para mim foi um choque, uma realidade muito triste, porque estava acostumada a chegar l\u00e1 e ver minha m\u00e3e uma mulher sempre disposta\u201d, relembra. Naquele momento Ivanise vivia uma dualidade do luto. Com ou sem corpo, a dor que fica \u00e9 uma ferida que nunca vai se fechar.<\/span><\/p>\n<p><b>Luto inacabado<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">\u201cA dor do luto da morte \u00e9 diferente da dor da incerteza\u201d, explica Ivanise, que tem experi\u00eancia nas duas faces. \u201cQuando voc\u00ea tem o protocolo para fazer a despedida daquele corpo, vela, com fam\u00edlia e amigos, voc\u00ea enterra e sabe que a pessoa n\u00e3o vai mais voltar\u201d. Algu\u00e9m que perdeu o pai e a m\u00e3e e, ao mesmo tempo, tem uma filha desaparecida, faz uma reflex\u00e3o sobre como \u00e9 viver um luto amb\u00edguo, no qual n\u00e3o existe concretude do acontecimento.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A psic\u00f3loga Aline Ingrid Zanoni, especializada em perdas e luto, fundamenta o conceito de perda amb\u00edgua. \u201c\u00c9 um conceito desenvolvido na d\u00e9cada de 1970 pela psic\u00f3loga Pauline Boss para descrever perdas sem uma confirma\u00e7\u00e3o clara, como no caso de pessoas desaparecidas, onde h\u00e1 a aus\u00eancia do corpo e uma forte presen\u00e7a psicol\u00f3gica daquela pessoa que est\u00e1 desaparecida\u201d. Este fen\u00f4meno dificulta quest\u00f5es como o fechamento emocional, sofrimento prolongado, al\u00e9m de dificultar o in\u00edcio do processamento\u00a0 da perda.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Ao longo do tempo podem surgir ansiedade cr\u00f4nica, culpa persistente, sensa\u00e7\u00e3o de estagna\u00e7\u00e3o, sintomas de estresse p\u00f3s-traum\u00e1tico e dificuldade de reorganizar a vida. \u201cTamb\u00e9m h\u00e1 maior risco de depress\u00e3o e isolamento\u201d, segundo\u00a0 a psic\u00f3loga.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A profissional explica que quando n\u00e3o existe a confirma\u00e7\u00e3o efetiva da perda, esse processo pode ficar \u201ccongelado\u201d, gerando grande sofrimento aos entes que ficaram, diferente do concreto, quando a pessoa pode reconstruir um significado para aquela perda e \u00e9 capaz de se direcionar para a reorganiza\u00e7\u00e3o da vida, construir novos v\u00ednculos, retomar tarefas, entre outras etapas.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">\u201cA psicoterapia do luto \u00e9 um suporte importante no caso do luto amb\u00edguo, com foco em aumentar a toler\u00e2ncia \u00e0 incerteza, validar a experi\u00eancia, favorecer a constru\u00e7\u00e3o de rituais simb\u00f3licos de despedida e fortalecer a rede de apoio\u201d, explica Zanoni sobre o acompanhamento psicol\u00f3gico mais adequado.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Ivanise Esperidi\u00e3o conviveu com a dor de todas as formas e particularidades. Para permanecer lutando diariamente, ela precisou se reinventar. <\/span><span style=\"font-weight: 400\">\u201cT\u00ednhamos v\u00e1rios planos e projetos para as nossas vidas, tudo aquilo foi por \u00e1gua abaixo. Mas eu tive que aprender a conviver com essa dor, ou eu aprendia ou eu morria\u201d.<\/span><span style=\"font-weight: 400\"> Atualmente, Ivanise transforma a dor em causa e luta at\u00e9 os dias de hoje. Os desaparecidos encontrados pela organiza\u00e7\u00e3o <\/span><a href=\"https:\/\/www.maesdase.org.br\/\"><span style=\"font-weight: 400\">M\u00e3es da S\u00e9<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400\">, fundada por ela como forma de tornar-se ativista da causa, j\u00e1 somam mais de 6 mil pessoas.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Esta reportagem integra uma colet\u00e2nea de livro-reportagem investigativo. Este cap\u00edtulo trata da hist\u00f3ria de Ivanise que enfrenta a dor do desaparecimento de sua filha desde 1995. Leia o cap\u00edtulo anterior <\/span><a href=\"https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/eu-me-considerava-uma-pessoa-feliz-ate-23-de-dezembro-de-1995\/\"><span style=\"font-weight: 400\">aqui.<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400\"> Acompanhe no Peri\u00f3dico as pr\u00f3ximas publica\u00e7\u00f5es.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Ficha t\u00e9cnica<\/b><\/p>\n<p><b>Produ\u00e7\u00e3o: <\/b><span style=\"font-weight: 400\">Emanuelle Pasqualotto<\/span><\/p>\n<p><b>Supervis\u00e3o de produ\u00e7\u00e3o: <\/b><span style=\"font-weight: 400\">Hendryo Andr\u00e9<\/span><\/p>\n<p><b>Edi\u00e7\u00e3o e publica\u00e7\u00e3o:<\/b><span style=\"font-weight: 400\"> Mafe Sperafico, Maria Tlumaski e Eduarda Leal<\/span><\/p>\n<p><b>Supervis\u00e3o de publica\u00e7\u00e3o: <\/b><span style=\"font-weight: 400\">Aline Rosso e Kevin Kossar Furtado<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ivanise busca Fabiana h\u00e1 30 anos e j\u00e1 ajudou a encontrar 6 mil outros desaparecidos \u201cVai pra casa, m\u00e3ezinha, se at\u00e9 amanh\u00e3 ela n\u00e3o aparecer, a\u00ed a senhora volta aqui\u201d, foi o que Ivanise ouviu do delegado \u00e0s tr\u00eas horas da manh\u00e3 do dia 24 de dezembro de 1995. \u201cA sua filha deve estar por&nbsp;&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":936,"featured_media":3654,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[2,28],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3653"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/wp-json\/wp\/v2\/users\/936"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3653"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3653\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3655,"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3653\/revisions\/3655"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/wp-json\/wp\/v2\/media\/3654"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3653"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3653"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3653"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}