{"id":3699,"date":"2026-06-02T15:09:16","date_gmt":"2026-06-02T18:09:16","guid":{"rendered":"https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/?p=3699"},"modified":"2026-06-02T15:12:16","modified_gmt":"2026-06-02T18:12:16","slug":"a-cidade-que-esqueceu-a-propria-historia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/a-cidade-que-esqueceu-a-propria-historia\/","title":{"rendered":"A cidade que Esqueceu a Pr\u00f3pria Hist\u00f3ria"},"content":{"rendered":"<p><i><span style=\"font-weight: 400\">Rota Preta PG destaca locais e hist\u00f3ria da popula\u00e7\u00e3o negra do munic\u00edpio<\/span><\/i><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Que Ponta Grossa era considerada um grande polo ferrovi\u00e1rio para o Paran\u00e1 n\u00e3o \u00e9 novidade. Por\u00e9m, pouco se fala sobre os trabalhadores das ferrovias, quem fazia a cidade girar e era respons\u00e1vel por grande parte do crescimento urbano de uma das maiores cidades interioranas do Paran\u00e1, os negros rec\u00e9m-libertos. Eles eram os principais respons\u00e1veis pela manuten\u00e7\u00e3o das linhas f\u00e9rreas, dos vag\u00f5es e do maquin\u00e1rio. Essa popula\u00e7\u00e3o fazia o trabalho bra\u00e7al, principalmente na fundi\u00e7\u00e3o de ferro.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">A sankofa \u00e9 um s\u00edmbolo gr\u00e1fico que faz parte da cultura tradicional africana, especificamente dos povos de l\u00edngua ac\u00e3. A palavra une os termos \u201csan\u201d, que significa voltar; \u201cko\u201d, que significa ir; e \u201cfa\u201d, que quer dizer buscar. Quando criado, o s\u00edmbolo n\u00e3o tinha a ver somente com a palavra, e sim com o prov\u00e9rbio na l\u00edngua ac\u00e3 \u201c<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">se wo were fi na wosankofa a yenkyi<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">\u201d, que pode ser traduzido como \u201cvoc\u00ea pode voltar atr\u00e1s e buscar aquilo que esqueceu\u201d ou \u201cnunca \u00e9 tarde para voltar e apanhar aquilo que ficou para tr\u00e1s\u201d. O dito pode ser representado por um p\u00e1ssaro com a cabe\u00e7a voltada para tr\u00e1s segurando um ovo em seu bico ou por arcos estilizados e espelhados que lembram um cora\u00e7\u00e3o, segundo Ivanildo Carvalho no artigo<\/span> <a href=\"https:\/\/chc.org.br\/artigo\/para-o-alto-com-sankofa\/\"><i><span style=\"font-weight: 400\">Para o alto com sankofa!<\/span><\/i><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Conheci esse grafismo na manh\u00e3 de um s\u00e1bado durante um trajeto do projeto <\/span><a href=\"https:\/\/www2.uepg.br\/museu\/rota-preta-pg\/\"><span style=\"font-weight: 400\">Rota Preta PG<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400\">. Quando crian\u00e7a, eu amava visitar museus. Sou natural de Castro, cidade tur\u00edstica conhecida pela produ\u00e7\u00e3o de leite e pela col\u00f4nia holandesa. Da <\/span><a href=\"https:\/\/www.camposgeraisdoparana.com.br\/cidades\/castro\/casa-de-sinhara\/\"><span style=\"font-weight: 400\">Casa de Sinhara<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400\"> ao <\/span><a href=\"https:\/\/www.camposgeraisdoparana.com.br\/cidades\/castro\/museu-do-tropeiro\/\"><span style=\"font-weight: 400\">Museu do Tropeiro<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400\">, o pequeno Jo\u00e3o se encantava com a hist\u00f3ria por tr\u00e1s daqueles locais e da pr\u00f3pria cidade.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Os arcos com o s\u00edmbolo da sankofa podem ser facilmente encontrados na arquitetura ponta-grossense, principalmente no centro, nas redondezas da catedral. Como o pr\u00f3prio significado diz, eles simbolizam o \u201colhar para tr\u00e1s\u201d e o \u201cn\u00e3o esquecer\u201d. <\/span> <span style=\"font-weight: 400\">\u00c9 curioso pensar que uma classe social t\u00e3o violentada e reprimida at\u00e9 os dias atuais foi a respons\u00e1vel por consolidar Ponta Grossa e sua rede ferrovi\u00e1ria como destaque no estado. Hoje, muitas vezes, essas hist\u00f3rias s\u00e3o esquecidas, reprimidas e descartadas. O pr\u00f3prio p\u00e1tio ferrovi\u00e1rio e os barrac\u00f5es, localizados no bairro de Oficinas,\u00a0 ao lado do est\u00e1dio Germano Kr<\/span><span style=\"font-weight: 400\">\u00fc<\/span><span style=\"font-weight: 400\">ger, est\u00e3o com o futuro incerto. H\u00e1 ind\u00edcios de que a \u00e1rea se tornar\u00e1 um jardim bot\u00e2nico, segundo a <\/span><a href=\"https:\/\/www.pontagrossa.pr.gov.br\/2026\/01\/27\/prefeitura-recebe-area-da-uniao-para-construir-jardim-botanico-de-21-mil-m%C2%B2\/\"><span style=\"font-weight: 400\">prefeitura municipal<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400\">. Enquanto edif\u00edcios de matriz colonial, como a Mans\u00e3o Vila Hilda, s\u00e3o reconhecidos como patrim\u00f4nio e recebem manuten\u00e7\u00e3o, os locais ocupados majoritariamente pelos negros s\u00e3o esquecidos e descartados.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Conheci o trabalho de<\/span> <a href=\"https:\/\/www2.uepg.br\/museu\/trajetorias-da-producao-cultural-em-ponta-grossa\/\"><span style=\"font-weight: 400\">Merylin Ricieli dos Santos<\/span><\/a> <span style=\"font-weight: 400\">em 2025, durante uma caminhada do Rota Preta, projeto vinculado ao <\/span><a href=\"https:\/\/www2.uepg.br\/museu\/o-museu\/\"><span style=\"font-weight: 400\">Museu Campos Gerais<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400\">. Merylin \u00e9 doutora em Hist\u00f3ria pela Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc). Desde 2010, ela resgata e pesquisa essas hist\u00f3rias. A iniciativa consiste em mapear e realizar rotas hist\u00f3ricas por uma perspectiva afrocentrada e analisar a presen\u00e7a negra em Ponta Grossa. Mais de 60 pontos da cidade integram o projeto.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Desde 2024 Merylin atribui sentidos e perspectivas a edif\u00edcios e territ\u00f3rios j\u00e1 conhecidos em Ponta Grossa, como a <\/span><a href=\"https:\/\/www2.uepg.br\/dicion\/casa-do-divino\/\"><span style=\"font-weight: 400\">Casa do Divino<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400\">, o <\/span><a href=\"https:\/\/www2.uepg.br\/dicion\/clube-treze-de-maio-espaco-de-sociabilidade-cultura-e-resistencia-negra-em-ponta-grossa\/\"><span style=\"font-weight: 400\">Clube 13 de Maio<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400\">, e toda a <\/span><a href=\"https:\/\/www2.uepg.br\/dicion\/ferrovias-e-urbanizacao-em-ponta-grossa\/\"><span style=\"font-weight: 400\">linha f\u00e9rrea<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400\">, que possui uma enorme narrativa pelos trilhos do trem. Para a historiadora, \u00e9 indispens\u00e1vel olhar \u00e0 popula\u00e7\u00e3o negra e sua hist\u00f3ria. Afinal, a escravid\u00e3o foi for\u00e7a motriz de Ponta Grossa em um per\u00edodo de crescimento urbano da cidade, segundo ela. \u201cPara mim, \u00e9 muito significativo pesquisar isso n\u00e3o s\u00f3 porque sou uma mulher negra, mas porque eu sou constitu\u00edda na e pela democracia\u201d, afirma.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Al\u00e9m de uma realiza\u00e7\u00e3o pessoal, Merylin traz a pr\u00f3pria viv\u00eancia para a pesquisa. Descendente ind\u00edgena e negra, ela n\u00e3o conheceu os av\u00f3s e bisav\u00f3s e n\u00e3o sabe qual a origem de seus antepassados. Ela buscou informa\u00e7\u00f5es, mas nunca obteve resultados concretos. Achou apenas informa\u00e7\u00f5es fragmentadas. \u201cCom esse projeto, eu sei que estou deixando algo para as futuras gera\u00e7\u00f5es\u201d, ressalta a pesquisadora.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Esta reportagem integra uma colet\u00e2nea de livro-reportagem investigativo. Este cap\u00edtulo trata do Rota Preta PG. Acompanhe no Peri\u00f3dico as pr\u00f3ximas publica\u00e7\u00f5es.<\/span><\/p>\n<p><b>Ficha t\u00e9cnica<\/b><\/p>\n<p><b>Produ\u00e7\u00e3o: <\/b><span style=\"font-weight: 400\">Jo\u00e3o Pimentel<\/span><\/p>\n<p><b>Supervis\u00e3o de produ\u00e7\u00e3o:<\/b><span style=\"font-weight: 400\"> Hendryo Andr\u00e9<\/span><\/p>\n<p><b>Edi\u00e7\u00e3o e publica\u00e7\u00e3o:<\/b><span style=\"font-weight: 400\"> Karine Santos, Roberto Indzejczak e Maria Eduarda Leme<\/span><\/p>\n<p><b>Supervis\u00e3o de publica\u00e7\u00e3o: <\/b><span style=\"font-weight: 400\">Aline Rosso e Kevin Kossar Furtado<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Rota Preta PG destaca locais e hist\u00f3ria da popula\u00e7\u00e3o negra do munic\u00edpio Que Ponta Grossa era considerada um grande polo ferrovi\u00e1rio para o Paran\u00e1 n\u00e3o \u00e9 novidade. 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