{"id":3780,"date":"2026-06-11T10:44:23","date_gmt":"2026-06-11T13:44:23","guid":{"rendered":"https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/?p=3780"},"modified":"2026-06-11T10:44:23","modified_gmt":"2026-06-11T13:44:23","slug":"a-imagem-e-semelhanca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/a-imagem-e-semelhanca\/","title":{"rendered":"\u00c0 imagem e semelhan\u00e7a"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center\">\n<p style=\"text-align: center\"><i><span style=\"font-weight: 400\">Conhe\u00e7a a hist\u00f3ria de Maria Rosa Dias de Carvalho<\/span><\/i><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Maria Rosa Dias de Carvalho Louren\u00e7o tem 66 anos, \u00e9 casada com Jos\u00e9 Carlos de Oliveira Louren\u00e7o e passou por dois abortos espont\u00e2neos na juventude. Ela e o marido relatam a experi\u00eancia de perdas gestacionais. Um\u00a0 caso aconteceu em 1980 e outro em 1981, antes da cria\u00e7\u00e3o do Sistema \u00danico de Sa\u00fade.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">\u201cEu sentia c\u00f3licas e fui ao m\u00e9dico. Ele me deu rem\u00e9dio para segurar, para n\u00e3o abortar e, mesmo assim, eu perdi. Na segunda vez, j\u00e1 estavam formadas as m\u00e3ozinhas, a cabe\u00e7a j\u00e1 estava redondinha. As m\u00e3os e os dedos, bem firminhos. Eu peguei na m\u00e3o\u201d.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Maria explica que estava sozinha em casa, cuidando de afazeres dom\u00e9sticos, quando teve contra\u00e7\u00f5es. Ela n\u00e3o foi imediatamente ao hospital, e o marido estava trabalhando. As contra\u00e7\u00f5es, que na \u00e9poca Maria n\u00e3o entendia o que eram, continuavam. As dores aumentavam conforme ela caminhava at\u00e9 o sanit\u00e1rio. Ao sentar no assento, a mulher sentiu algo sair<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">, <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">em meio a mais dores e sangue. \u201cQuando eu fiz esfor\u00e7o, veio. Arrebentei o cord\u00e3o umbilical. Eu peguei na m\u00e3o e fui na vizinha. Eles chamaram o pastor e ele me levou para o m\u00e9dico\u201d.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Maria conta que ao chegar ao m\u00e9dico, ele n\u00e3o quis atend\u00ea-la. Foi preciso, segundo ela, que o marido buscasse na prefeitura uma \u201cguia\u201d, e uma declara\u00e7\u00e3o de pagamento do INSS para ser atendida. S\u00f3 ent\u00e3o ela foi internada para passar pelo processo de curetagem e raspagem do \u00fatero. Enquanto estava internada, Maria Rosa conta sobre um caso que ocorreu dentro do hospital: \u201cUma menina tinha ganhado crian\u00e7a, e eu escutei a enfermeira vir e dizer que ela queria deixar a crian\u00e7a no hospital.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A m\u00e3e dela estava junto, concordando. Veio na minha cabe\u00e7a: \u201ceu podia dizer para ela que eu t\u00f4 aqui, que queria o filho. E podia ter pegado a crian\u00e7a\u201d. O casal relata que antes de ir ao m\u00e9dico e voltar dos tr\u00eas dias de interna\u00e7\u00e3o, realizaram o enterro.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">\u201cO Carlos enterrou ela no quintal da casa. N\u00e3o tinha o que fazer. Eu coloquei numa caixinha de papel\u00e3o. Isso foi h\u00e1 43 anos. Eu tinha 22 anos na \u00e9poca; Jos\u00e9 Carlos, 19\u201d.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>A religi\u00e3o como resposta ao luto<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">\u00c0 \u00e9poca o casal fazia parte da Igreja Cristianismo Decidido, denomina\u00e7\u00e3o crist\u00e3 evang\u00e9lica centen\u00e1ria, de origem pietista e mission\u00e1ria. Por cerca de 55 anos, as igrejas eram dirigidas por mission\u00e1rios alem\u00e3es, para um grupo, na sua maioria, de descendentes alem\u00e3es. Aos 8 anos, Maria Rosa e suas irm\u00e3s foram adotadas por Friederick Dietz, mission\u00e1rio alem\u00e3o que veio ao Brasil pela igreja. O ent\u00e3o pastor esteve junto do casal ap\u00f3s a perda, ele os ajudou com consolo e ora\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">\u201cEle orou quando aconteceu a perda. Deus mostrou que \u00e9 dono da vida, e n\u00f3s somos \u00e0 imagem e semelhan\u00e7a de Deus. Ent\u00e3o, aquela n\u00e3o era a hora\u201d.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">H\u00e1 40 anos, os processos de \u201csupera\u00e7\u00e3o\u201d e abordagem com casais que passavam por abortos espont\u00e2neos se baseavam em acolhimento familiar e pastoral. Maria Rosa explica que mulheres da igreja a visitaram no hospital, mas que depois de alguns meses, o assunto do aborto n\u00e3o era mais comentado. O casal acredita que tudo que acontece na vida \u00e9 \u201cprovis\u00e3o de Deus\u201d, e todos nascem com um prop\u00f3sito. \u201cDeus \u00e9 soberano. N\u00f3s cremos nisso. E o pastor da igreja sempre foi aquele instrumento de Deus para falar as coisas para n\u00f3s. Para orientar a Rosinha, para consolar\u201d, afirma Jos\u00e9 Carlos.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Falta de informa\u00e7\u00e3o e precariza\u00e7\u00e3o do Sistema de Sa\u00fade<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">O Sistema \u00danico de Sa\u00fade foi criado em 1988, pela Constitui\u00e7\u00e3o Federal. O caso de aborto relatado na reportagem aconteceu em 1981. Todo o processo de chegada da mulher aconteceu, segundo ela, no centro do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) de Ponta Grossa.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Segundo o livro <\/span><a href=\"https:\/\/bvsms.saude.gov.br\/bvs\/publicacoes\/livreto.pdf\"><span style=\"font-weight: 400\">20 anos de pesquisas sobre aborto no Brasil<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400\">, do Minist\u00e9rio P\u00fablico, estudos com cortes populacionais da d\u00e9cada de 1980 mostram que em 20 anos houve redu\u00e7\u00e3o de at\u00e9 50% no n\u00famero de mulheres sem escolaridade com experi\u00eancia de aborto. O livro tamb\u00e9m aborda que <\/span><span style=\"font-weight: 400\">a aus\u00eancia de um sistema universal de sa\u00fade estruturado at\u00e9 o fim dos anos 1980, somada \u00e0 crise econ\u00f4mica, agravou as condi\u00e7\u00f5es de sa\u00fade reprodutiva. Maria Rosa afirma que a precariza\u00e7\u00e3o da sa\u00fade da \u00e9poca, a falta de aux\u00edlio e acompanhamento m\u00e9dico foram poss\u00edveis causas para a perda do beb\u00ea.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">\u201cQuando eu fui ao m\u00e9dico, quando eu tive o aborto, o m\u00e9dico n\u00e3o quis me atender l\u00e1. Quando eu fui fazer o pr\u00e9-natal, eu estava com c\u00f3licas. L\u00e1 ele me deu rem\u00e9dio para n\u00e3o abortar. Mas ele n\u00e3o me atendeu com jeito, n\u00e3o orientou nada. Se eu tivesse alguma assist\u00eancia, talvez tudo teria sido diferente\u201d.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Durante os 20 anos de pesquisas citados no livro, <\/span><span style=\"font-weight: 400\">a religiosidade \u00e9 um tema superficialmente analisado nos estudos de base populacional e nos estudos qualitativos com grupos reduzidos de mulheres. Uma poss\u00edvel explica\u00e7\u00e3o \u00e9 que a maioria dos estudos de base populacional foram realizados com dados de prontu\u00e1rios ou outras fontes documentais, e a informa\u00e7\u00e3o sobre religi\u00e3o est\u00e1 ausente nas fontes.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">N\u00e3o h\u00e1 registro exato da quantidade de abortos\u00a0 desde 1981, mas segundo o <\/span><a href=\"http:\/\/tabnet.datasus.gov.br\/cgi\/tabcgi.exe?sim\/cnv\/fet10uf.def\"><span style=\"font-weight: 400\">Datasus<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400\">, foram registrados 40.434 casos em 1996 (primeiro ano registrado) e 24.364 em 2024 (\u00faltimo ano registrado),\u00a0 o que representa a queda de 39,74%no n\u00famero de abortos.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Maria Rosa Dias de Carvalho Louren\u00e7o passou por tr\u00eas gesta\u00e7\u00f5es saud\u00e1veis ap\u00f3s as perdas gestacionais. Para os tr\u00eas filhos, a \u00fanica complica\u00e7\u00e3o foi a falta de dilata\u00e7\u00e3o, o que resultou em tr\u00eas ces\u00e1reas.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Esta reportagem integra uma colet\u00e2nea de livro-reportagem investigativo. Este cap\u00edtulo trata de abortos espont\u00e2neos e seus desdobramentos na comunidade evang\u00e9lica. Acompanhe no Peri\u00f3dico as pr\u00f3ximas publica\u00e7\u00f5es.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Ficha t\u00e9cnica<\/b><\/p>\n<p><b>Produ\u00e7\u00e3o: <\/b><span style=\"font-weight: 400\">Eduarda Leal<\/span><\/p>\n<p><b>Supervis\u00e3o de produ\u00e7\u00e3o: <\/b><span style=\"font-weight: 400\">Hendryo Andr\u00e9\u00a0<\/span><\/p>\n<p><b>Edi\u00e7\u00e3o e publica\u00e7\u00e3o: <\/b><span style=\"font-weight: 400\">Nath\u00e1lia St\u00fcpp, Roberto Indzejczak, Karine Santos e Sarah Brasil<\/span><\/p>\n<p><b>Supervis\u00e3o de publica\u00e7\u00e3o: <\/b><span style=\"font-weight: 400\">Aline Rosso e Kevin Kossar Furtado<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Conhe\u00e7a a hist\u00f3ria de Maria Rosa Dias de Carvalho Maria Rosa Dias de Carvalho Louren\u00e7o tem 66 anos, \u00e9 casada com Jos\u00e9 Carlos de Oliveira Louren\u00e7o e passou por dois abortos espont\u00e2neos na juventude. 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