{"id":3907,"date":"2026-06-18T11:39:25","date_gmt":"2026-06-18T14:39:25","guid":{"rendered":"https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/?p=3907"},"modified":"2026-06-18T11:52:23","modified_gmt":"2026-06-18T14:52:23","slug":"corpo-sem-permissao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/corpo-sem-permissao\/","title":{"rendered":"Corpo sem permiss\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center\"><i><span style=\"font-weight: 400\">\u201cEu nunca vou poder esquecer isso, por mais que eu fa\u00e7a terapia, tudo sempre vai ser um gatilho\u201d<\/span><\/i><\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><em>Foto: Ag\u00eancia Brasil<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Lohayne Senhorinha tinha apenas 14 anos quando se relacionava com um rapaz quase cinco anos mais velho. Ele se tornou seu namorado, e com palavras bonitas e frases encantadoras, fez a adolescente se apaixonar. Entretanto, essa fachada escondia uma personalidade obscura e n\u00e3o demorou muito para que demonstrasse seu verdadeiro lado.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">O relacionamento durou dois anos, e nesse per\u00edodo Lohayne sofreu diversos abusos. \u201cEu era muito ing\u00eanua e muito nova; Ele me manipulava, me traia e eu deixava, n\u00e3o sabia como lidar com a situa\u00e7\u00e3o.\u201d Se reclamasse de algo que ele havia feito, apanhava, e casos como esse n\u00e3o eram poucos. \u201cEm uma das situa\u00e7\u00f5es, encontrei ele na cama com uma outra menina e quando tentei ir embora, ele me chutou e bati na parede, fiquei com um hematoma por semanas\u201d, exp\u00f5e.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A manipula\u00e7\u00e3o se tornou mais frequente. O relacionamento era um campo minado para os piores tipos de insultos por\u00a0 parte do agressor. \u201cEle falava tantas coisas sobre mim, sobre minha apar\u00eancia, sobre como eu devia ser grata\u2026 Eu me sentia horr\u00edvel\u201d.\u00a0 Durante o per\u00edodo do relacionamento, Lohayne nunca se envolveu fisicamente com o rapaz. Ela tinha inseguran\u00e7as com seu corpo e pavor sobre uma poss\u00edvel gravidez. Entretanto, sofria chantagens. \u201dEle me manipulou a mandar fotos. Eu era muito insegura com meu corpo, sofria com alguns dist\u00farbios alimentares, mas a press\u00e3o era maior do que a inseguran\u00e7a que eu sentia\u201d, ressalta.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Durante o relacionamento, Lohayne se afastou de suas amigas. Sem a presen\u00e7a do pai e\u00a0 uma rela\u00e7\u00e3o afetada com a m\u00e3e por conta de seu padrasto, n\u00e3o possu\u00eda uma rede de apoio. Isso escalou para a aproxima\u00e7\u00e3o da adolescente com a fam\u00edlia do agressor. \u201cUma vez a m\u00e3e dele viu um hematoma que ele havia me causado e simplesmente falou: \u2018um dia para, o pai dele fazia o mesmo comigo\u2019. Eu s\u00f3 pude pensar em quando isso aconteceria\u201d.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Ap\u00f3s muitos esfor\u00e7os, Lohayne conseguiu terminar o relacionamento com seu abusador, mas os resultados foram amea\u00e7as e manipula\u00e7\u00f5es. \u201cFoi a noite mais amedrontadora da minha vida. Terminei por mensagem porque n\u00e3o tinha coragem de v\u00ea-lo pessoalmente. Eu tinha medo que ele me batesse\u201d. O rapaz passou a amea\u00e7\u00e1-la com as fotos que possu\u00eda, falando que iria public\u00e1-las. Afirmava que ningu\u00e9m a amaria se n\u00e3o fosse ele, e depois mudava a abordagem, insinuando que nunca faria isso com a adolescente, que ela era o amor de sua vida..<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">No dia seguinte ao t\u00e9rmino, ele pediu para v\u00ea-la, e em um impulso, movida pelo medo e por um resqu\u00edcio de amor que ainda sentia por seu agressor, Lohayne foi encontr\u00e1-lo em uma rodovia. O agressor apareceu com cortes: o nome da adolescente mutilado em seus bra\u00e7os. \u201cEu n\u00e3o entendia como ele poderia pensar que ver aquilo poderia me fazer mudar de ideia. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Ele s\u00f3 me deixou apavorada\u201d. Ap\u00f3s decidir que n\u00e3o retomaria o relacionamento, o rapaz disse que a deixaria pensar por uns dias. Por medo, a adolescente consentiu. \u201cQuando cheguei em casa, vi ele passando pelo port\u00e3o, dizendo que queria me acompanhar. Entrei correndo e fechei a porta&#8221;, afirma.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Dias depois, a v\u00edtima mandou mensagem para seu agressor, afirmando estar decidida sobre sua decis\u00e3o.\u00a0 Ele a escutou, o que a deixou aliviada. O al\u00edvio durou pouco. Ela n\u00e3o sabia que o pior ainda estaria por vir. \u201cEle me disse para buscar minhas coisas em sua casa. Eu falei que n\u00e3o me sentia confort\u00e1vel e pedi para ele traz\u00ea-las ou que minha m\u00e3e buscasse.\u201d Por\u00e9m, o rapaz a convenceu, afirmando que deveria se despedir de seus pais. \u201cEu n\u00e3o sei porque aceitei, fui ing\u00eanua, foi minha pior decis\u00e3o\u201d.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Lohayne chegou \u00e0 casa do rapaz, que estava vazia. \u201cFicamos sentados no sof\u00e1, minhas coisas estavam em uma sacola. Quando eu disse que iria embora, ele me puxou: \u2018se voc\u00ea n\u00e3o vai mais ser minha, pelo menos isso ainda vai ser meu\u2019\u201d. Foram os piores momentos da vida de Lohayne, e n\u00e3o importa o quanto ela tenha tentado fazer com que ele parasse, nada adiantou.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Quando a agress\u00e3o acabou, ele se vestiu e a mandou embora. Em choque, a adolescente saiu chorando e caminhou at\u00e9 uma rodovia. \u201cSentei em um ponto de \u00f4nibus, fiquei ali por horas e em algum momento cheguei a cogitar me jogar na frente de um caminh\u00e3o\u201d. Ao chegar em casa, sua m\u00e3e perguntou se estava bem, ela disse sim, mesmo sentindo o oposto. \u201cFui tomar banho, fiquei cheia de hematomas pela for\u00e7a com que ele me segurou. Me sentia suja, de dentro para fora. Me esfreguei tanto naquele dia que minha pele ficou vermelha\u201d, ressalta.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Ap\u00f3s o abuso, suas inseguran\u00e7as e falta de confian\u00e7a a levaram a v\u00edcios. Ela come\u00e7ou a beber e frequentar festas at\u00e9 que teve que passar por uma lavagem estomacal. Quando, enfim, contou o que sofreu para sua m\u00e3e, a resposta n\u00e3o foi a que esperava. \u201cEu queria apoio, mas recebi coment\u00e1rios sobre a minha falta de maturidade e sobre a falta de cuidados que tive\u201d. Lohayne refor\u00e7a que a estrutura familiar influencia muito na forma que uma mulher cresce e busca apoio. \u201cEu nunca tive a presen\u00e7a frequente do meu pai, ent\u00e3o sempre procurei homens que me lembraram dele, o que n\u00e3o se demonstrou algo positivo\u201d.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Ap\u00f3s os abusos, Lohayne teve dificuldade em se relacionar com outras pessoas. Ela afirma que um dos maiores desafios \u00e9 se abrir, e que sua aceita\u00e7\u00e3o e tratamento s\u00f3 foram poss\u00edveis atrav\u00e9s da terapia. \u201cA pior parte de ser uma v\u00edtima de abuso \u00e9 a culpa, o pensamento de que fui est\u00fapida em deixar que isso acontecesse comigo, mas eu sei que n\u00e3o \u00e9 verdade. Entretanto, \u00e9 algo dif\u00edcil de aceitar\u201d. Lohayne, hoje, tem 20 anos e continua sua vida com resili\u00eancia. Faz terapia, cursa o ensino superior e luta suas batalhas um dia ap\u00f3s o outro.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><b>Dados sobre vidas violadas<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">O Brasil registrou, em 2025, um estupro a cada seis minutos; foram mais de <\/span><a href=\"https:\/\/share.google\/eDS5TrlPqKhixk7FI\"><span style=\"font-weight: 400\">83 mil casos no pa\u00eds.<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400\"> Mais da metade das v\u00edtimas s\u00e3o crian\u00e7as e adolescentes. Os principais autores dos crimes, na maioria das vezes, mant\u00eam conv\u00edvio pr\u00f3ximo das v\u00edtimas; s\u00e3o familiares, conhecidos ou pessoas de confian\u00e7a, como parceiros e c\u00f4njuges.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Dados divulgados pelo Minist\u00e9rio da Justi\u00e7a e Seguran\u00e7a P\u00fablica (MJSP) e por organiza\u00e7\u00f5es de direitos humanos mostram um cen\u00e1rio alarmante em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 viol\u00eancia sexual infantojuvenil, especialmente nos casos de estupro de vulner\u00e1vel. Em 2025, foram registrados <\/span><a href=\"https:\/\/www.cnnbrasil.com.br\/nacional\/brasil\/violencia-sexual-contra-criancas-cresceu-mais-de-quatro-vezes-em-11-anos\/\"><span style=\"font-weight: 400\">59.366 mil casos de viol\u00eancia sexual contra crian\u00e7as e adolescentes<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400\">, segundo o <\/span><a href=\"https:\/\/forumseguranca.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/atlas-violencia-2026-relatorio-completo.pdf\"><span style=\"font-weight: 400\">Atlas da Viol\u00eancia 2026<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400\">, o que representa um crescimento de 204,5% na \u00faltima d\u00e9cada.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">O MJSP ressaltou que o primeiro trimestre de 2026 tamb\u00e9m apresentou n\u00fameros preocupantes. At\u00e9 maio, foram contabilizadas 13.462 mil ocorr\u00eancias de estupro de vulner\u00e1vel, o equivalente a uma m\u00e9dia de 150 casos por dia. Os dados apontam ainda que cerca de 51% das v\u00edtimas de abuso infantil t\u00eam entre 1 e 5 anos de idade, demonstrando a extrema vulnerabilidade de crian\u00e7as na primeira inf\u00e2ncia diante desse tipo de viol\u00eancia. Em rela\u00e7\u00e3o ao perfil das v\u00edtimas, meninas s\u00e3o as mais afetadas: somente em 2025, <\/span><a href=\"https:\/\/www.fadc.org.br\/noticias\/violencia-sexual-dados-2026\"><span style=\"font-weight: 400\">mais de 50 mil v\u00edtimas eram do sexo feminino<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400\"> de acordo com o Minist\u00e9rio dos Direitos Humanos e da Cidadania, n\u00famero quase seis vezes maior do que o registrado entre v\u00edtimas do sexo masculino.\u00a0<\/span><\/p>\n<div id=\"attachment_3909\" style=\"width: 528px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-3909\" loading=\"lazy\" class=\" wp-image-3909\" src=\"https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/wp-content\/uploads\/sites\/282\/2026\/06\/SINDICATO-NACIONAL-ANDES-300x153.png\" alt=\"\" width=\"518\" height=\"264\" srcset=\"https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/wp-content\/uploads\/sites\/282\/2026\/06\/SINDICATO-NACIONAL-ANDES-300x153.png 300w, https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/wp-content\/uploads\/sites\/282\/2026\/06\/SINDICATO-NACIONAL-ANDES.png 710w\" sizes=\"(max-width: 518px) 100vw, 518px\" \/><p id=\"caption-attachment-3909\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Sindicato Nacional Andes<\/p><\/div>\n<p><b>Representa\u00e7\u00e3o midi\u00e1tica<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A s\u00e9rie <\/span><a href=\"https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/critica-de-ponta-161\/\"><i><span style=\"font-weight: 400\">Ni una m\u00e1s<\/span><\/i><\/a><span style=\"font-weight: 400\"> (N<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">\u00e3o nos calaremos<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> no Brasil) retrata a viol\u00eancia sexual a partir do ponto de vista de Alma, uma jovem de 17 anos que denuncia um ass\u00e9dio sexual na escola. A obra mostra como a viol\u00eancia acontece n\u00e3o apenas no ato f\u00edsico, mas na chantagem e manipula\u00e7\u00f5es para que a v\u00edtima n\u00e3o denuncie. <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Ni una m\u00e1s<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> se diferencia das demais obras sobre viol\u00eancia sexual por n\u00e3o expor cenas explicitas e longas do abuso e, principalmente, por n\u00e3o romantiz\u00e1-la.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Esta reportagem integra uma colet\u00e2nea de livro-reportagem. Este cap\u00edtulo trata da viol\u00eancia sexual contra crian\u00e7as e adolescentes. Leia o cap\u00edtulo anterior <\/span><a href=\"https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/o-que-consumimos-nos-consome\/\"><span style=\"font-weight: 400\">aqui<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400\">. Acompanhe no Peri\u00f3dico as pr\u00f3ximas publica\u00e7\u00f5es.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: left\"><b>Ficha t\u00e9cnica<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: left\"><b>Produ\u00e7\u00e3o: <\/b><span style=\"font-weight: 400\">Nath\u00e1lia St\u00fcpp<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: left\"><b>Supervis\u00e3o de produ\u00e7\u00e3o: <\/b><span style=\"font-weight: 400\">Jana\u00edne Kronbauer<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: left\"><b>Edi\u00e7\u00e3o e publica\u00e7\u00e3o: <\/b><span style=\"font-weight: 400\">Emanueli Garcia e Yasmin Salgado<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: left\"><b>Supervis\u00e3o de publica\u00e7\u00e3o: <\/b><span style=\"font-weight: 400\">Aline Rosso e Kevin Kossar Furtado<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cEu nunca vou poder esquecer isso, por mais que eu fa\u00e7a terapia, tudo sempre vai ser um gatilho\u201d Foto: Ag\u00eancia Brasil &nbsp; Lohayne Senhorinha tinha apenas 14 anos quando se relacionava com um rapaz quase cinco anos mais velho. 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