{"id":3925,"date":"2026-06-23T14:25:01","date_gmt":"2026-06-23T17:25:01","guid":{"rendered":"https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/?p=3925"},"modified":"2026-06-23T14:30:36","modified_gmt":"2026-06-23T17:30:36","slug":"quando-eu-entrei-la-dentro-conheci-o-inferno","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/quando-eu-entrei-la-dentro-conheci-o-inferno\/","title":{"rendered":"\u201cQuando eu entrei l\u00e1 dentro, conheci o inferno\u201d"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center\"><i><span style=\"font-weight: 400\">Um recorte da hist\u00f3ria de Mille, que hoje est\u00e1 em liberdade provis\u00f3ria e pretende recome\u00e7ar<\/span><\/i><\/p>\n<p style=\"text-align: center\">Foto: Pietra Gasparini \/ Ilustra\u00e7\u00e3o: Giulia Gasparini<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Mireille Let\u00edcia Ishimaru, ou Mille, 32 anos, nascida em Imba\u00fa, no interior do Paran\u00e1, come\u00e7a sua hist\u00f3ria com o encarceramento, assim como muitas mulheres, em um relacionamento abusivo. Sua primeira priva\u00e7\u00e3o de liberdade foi o c\u00e1rcere privado, em que foi mantida por seu marido.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Mille tinha 21 anos quando se casou. Trabalhava\u00a0 com panifica\u00e7\u00e3o e j\u00e1 era m\u00e3e de um filho de outro relacionamento. Dois anos depois, teve uma filha. O casamento nunca foi f\u00e1cil, mas ela tinha medo de n\u00e3o conseguir sustentar os filhos sozinha e, por isso, foi \u201cperdoando algumas atitudes\u201d.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">A rotina nessa \u00e9poca era exaustiva. Sa\u00eda de casa \u00e0s 6h30 da manh\u00e3 e voltava \u00e0s 20h30. Com o\u00a0 trabalho, casa e filhos, n\u00e3o tinha tempo para refletir sobre o comportamento do ex- marido. Ele era ciumento, mas ela n\u00e3o entendia a dimens\u00e3o disso. Ele tinha problemas com \u00e1lcool e come\u00e7ou a usar drogas. Foi quando ela tentou terminar pela primeira vez e foi agredida psicol\u00f3gica e fisicamente.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">\u201cQuando eu descobri que ele estava traficando, decidi que nunca mais ficaria com ele. Ele n\u00e3o aceitou. Queria me matar, tentou deformar meu rosto, mordeu minhas bochechas, minha boca, meu nariz. Tentou me estrangular, repetidas vezes tentou me matar\u201d.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">A viol\u00eancia aumentou a ponto de Mille ser mantida em c\u00e1rcere privado para n\u00e3o fugir da casa. Ficou tr\u00eas dias presa. \u201cEle me trancava no quarto, deixava o r\u00e1dio explodindo. E eu, fraca de tanto brigar para tentar fugir. A obsess\u00e3o dele era: \u2018eu te solto, mas voc\u00ea tem que me perdoar e prometer que vai voltar\u2019\u201d.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">A pol\u00edcia foi at\u00e9 sua casa por conta de uma bicicleta roubada, que havia sido entregue ao marido para quitar d\u00edvidas com drogas. \u201cA pol\u00edcia invadiu minha casa, viu o meu estado, toda machucada, toda roxa, com marcas no corpo inteiro, e me levou presa por ser mulher dele\u201d. Seu marido fugiu pela janela e deixou as drogas. Mille afirma que o depoimento do homem que roubou a bicicleta deixou claro que n\u00e3o havia qualquer rela\u00e7\u00e3o com ela, que nunca a tinha visto, mas, ainda assim, ela foi presa.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><b>O c\u00e1rcere\u00a0<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">A primeira deten\u00e7\u00e3o aconteceu em Tibagi, em uma cela com apenas duas mulheres, sob cust\u00f3dia de policiais homens. Um m\u00eas depois, foi transferida para Jaguaria\u00edva, onde ficava em uma ala feminina atendida por\u00a0 policiais mulheres. Foi nesse per\u00edodo que come\u00e7ou a observar o sistema por dentro. \u201cNem todo mundo que est\u00e1 preso \u00e9 culpado, como nem todo culpado est\u00e1 preso\u201d.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Ela percebeu, tamb\u00e9m, o abandono. Segundo Mille, dentro da cadeia, quem recebe visitas, comida ou apoio da fam\u00edlia ocupa um lugar privilegiado. \u201cIsso \u00e9 riqueza l\u00e1 dentro.\u201d E ela tinha esse privil\u00e9gio.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Mille tinha muita raiva e revolta. \u201cMeu cora\u00e7\u00e3o s\u00f3 desejava vingan\u00e7a do meu ex-marido. Minha filha ficou com gaguez do choque emocional. Meu filho gritava pra minha m\u00e3e: \u2018v\u00f3, v\u00e3o matar minha m\u00e3e, v\u00e3o matar ela\u2019. E do\u00eda tanto no meu cora\u00e7\u00e3o, porque os filhos de uma m\u00e3e s\u00e3o uma arma que pode ferir mais do que qualquer coisa\u201d. Ao mesmo tempo, ela se culpava e pensava que havia escolhido estar ao lado dele.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Em 2020, ap\u00f3s cinco meses presa, foi solta por excesso de prazo da audi\u00eancia. Retomou a vida, se mudou para Palmeira, come\u00e7ou a trabalhar em uma churrascaria e tinha um acordo com uma ag\u00eancia para trabalhar no Jap\u00e3o, onde tem familiares. A ideia era guardar dinheiro, ajudar a fam\u00edlia e voltar ao Brasil. Por\u00e9m, ao dar entrada no visto, descobriu que havia um mandado de pris\u00e3o em seu nome. Seu ex-marido havia recorrido da senten\u00e7a contra ele. Por ela estar ligada ao mesmo caso, o seu processo tamb\u00e9m foi reaberto e subiu para segunda inst\u00e2ncia. No dia 4 de outubro de 2022, foi presa novamente.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Dessa vez, passou por Tel\u00eamaco Borba e depois foi transferida para a Cadeia P\u00fablica de Seng\u00e9s (CPSENG). L\u00e1 havia sete celas femininas, duas de triagem e cinco de conv\u00edvio. A triagem, nos primeiros 30 dias, foi tranquila. Depois, foi transferida para uma cela de conv\u00edvio, onde estavam 16 presas, e a realidade mudou. \u201cQuando eu entrei l\u00e1 dentro, conheci o inferno. O inferno em todos os caracteres, tanto dos presos quanto dos policiais e da opress\u00e3o do sistema. Ali eu passei os piores meses da minha vida\u201d.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Ela descreve um ambiente de tens\u00e3o constante entre as presas e opress\u00e3o institucional. Havia hierarquias entre as presas, organizadas por figuras conhecidas como \u201cjet\u201d, respons\u00e1veis pela ordem dentro de cada cela. \u201cVoc\u00ea n\u00e3o podia dormir tranquilo. Estava dormindo com o teu inimigo\u201d. Ainda assim, Mille insistia no di\u00e1logo para tentar resolver os conflitos. \u201cN\u00e3o d\u00e1 para ter medo, sen\u00e3o eles se aproveitam de voc\u00ea. Se a pessoa for fraca, sofre mais ainda\u201d.\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Toda semana, o Setor de Opera\u00e7\u00f5es Especiais, respons\u00e1vel pelas revistas nas cadeias, entrava e as violentava, jogando spray de pimenta, bombas e expondo as detentas nuas no p\u00e1tio. Mille relata que foi agredida por um policial, que a levou escondida para fora da cela e a espancou com uma arma.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Ela conta que lutava contra o sistema sozinha. Quando estava machucada, pediu uma videoconfer\u00eancia com a advogada. Mostrou os ferimentos e pediu que ela tirasse print de cada um. Solicitou den\u00fancia por viola\u00e7\u00e3o de direitos humanos. \u201cEu me sentia tratada pior do que um animal\u201d. Depois disso, afirma que sua situa\u00e7\u00e3o piorou. \u201cA pol\u00edcia fez muitas detentas ficarem contra mim\u201d.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Tamb\u00e9m relata ter sido dopada com medicamentos psicotr\u00f3picos. \u201cEu cheguei a tomar tanto rem\u00e9dio que hoje eu n\u00e3o vivo sem. Se eu fico sem, tenho tremedeira, como uma pessoa dependente de \u00e1lcool. Eu me tornei dependente\u201d.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">As condi\u00e7\u00f5es estruturais da unidade agravaram seus problemas respirat\u00f3rios. A cadeia era subterr\u00e2nea, com mofo e umidade. Ela n\u00e3o podia recusar o atendimento m\u00e9dico, pois n\u00e3o podia ficar sem os medicamentos, embora a prescri\u00e7\u00e3o fosse em excesso.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Quando reclamou \u00e0 advogada, reduziram a medica\u00e7\u00e3o n\u00e3o s\u00f3 dela, mas de todas as detentas, inclusive de quem realmente precisava. Isso gerou revolta. \u201cEles usavam os pr\u00f3prios presos para punir uns aos outros\u201d.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">A consulta m\u00e9dica acontecia apenas uma vez por m\u00eas. Fora da data, n\u00e3o importa o que acontecesse, n\u00e3o havia assist\u00eancia. Ela conta que uma vez uma menina foi picada por uma aranha e quase perdeu o bra\u00e7o por necrose. \u201cPedimos e avisamos sobre o estado dela, mas ningu\u00e9m a levava ao m\u00e9dico. Precisamos fazer uma rebeli\u00e3o. Quando eles nos soltaram no p\u00e1tio para tomar sol, nos negamos a entrar at\u00e9 que a levassem para o hospital\u201d. A estrat\u00e9gia funcionou. A detenta foi levada ao hospital e o m\u00e9dico que a atendeu confirmou que, por pouco, a paciente n\u00e3o teve o bra\u00e7o amputado.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><b>A virada de chave\u00a0<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">A experi\u00eancia muda ao chegar ao Centro de Reintegra\u00e7\u00e3o Social de Piraquara (CIS), no regime semiaberto. \u201cL\u00e1 a gente era tratado como ser humano\u201d. Ela conta que para ir para o CIS passou por assistente social, defensoria p\u00fablica e pedagogia. A rotina l\u00e1 era diferente. Mille\u00a0 sa\u00eda cedo pra trabalhar, trabalhava at\u00e9 meio-dia, ia para o curso e depois voltava para o alojamento, tomava banho e ia para a escola.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Mille ficou tr\u00eas meses no CIS e conseguiu reduzir a sua pena para tr\u00eas meses com o trabalho, a realiza\u00e7\u00e3o do curso e a frequ\u00eancia \u00e0s aulas.Com a aplica\u00e7\u00e3o da chamada \u201clei das m\u00e3ezinhas\u201d, foi liberada. No total, Mille ficou um ano e cinco meses presa, e usou tornozeleira eletr\u00f4nica por oito meses\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">O apoio da fam\u00edlia foi decisivo. \u201cL\u00e1 dentro, ter fam\u00edlia \u00e9 como ser milion\u00e1rio.\u201d Recebia cartas, alimentos e apoio, embora as visitas fossem dif\u00edceis. \u201cMais de seis meses e minha m\u00e3e n\u00e3o conseguiu entrar\u201d. Via os filhos por videoconfer\u00eancia, uma vez por m\u00eas, durante meia hora.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Na \u00fanica visita presencial que teve dos filhos, conta como foi dif\u00edcil v\u00ea-los\u00a0 passarem por aquilo. \u201cMinha filha, na hora de ir embora, falou: \u2018eu vou pedir pra eles, m\u00e3e, para levar voc\u00ea para casa\u2019&#8221; . Crian\u00e7as passavam por revista \u00edntima, pela falta de scanners corporais. Isso a fazia evitar visitas presenciais, para poup\u00e1-los.\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Nesse contexto, Mille refletiu sobre o encarceramento feminino. \u201cA maioria das mulheres entra nessa por causa de homem. Assumem o B.O. de homem e ele abandona. Voc\u00ea vai numa cadeia feminina e pode contar nos dedos quantas visitas de homens t\u00eam. Numa masculina, v\u00ea quantas mulheres est\u00e3o na fila?\u201d. Ela explica que a diferen\u00e7a no acesso \u00e0 ressocializa\u00e7\u00e3o \u00e9 muito diferente para homens e para mulheres. \u201cPor que o homem tem um direito t\u00e3o alto de ressocializa\u00e7\u00e3o e a mulher que p\u00f5e o homem no mundo n\u00e3o tem?\u201d<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><b>A vontade de recome\u00e7ar\u00a0<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Mille trabalha desde os nove anos. Come\u00e7ou sendo bab\u00e1 na cidade em que morava. \u201cDeixavam uma crian\u00e7a cuidando da outra\u201d, relembra. Aos 12, trabalhava como boiafria.\u00a0 Eu era uma crian\u00e7a, levantava cedo para fazer marmita, subir na carroceria de um caminh\u00e3o, ir trabalhar e chegar de tarde\u201d. Perdeu o pai aos cinco anos, o que marcou profundamente sua vida. Mais tarde, enfrentou depress\u00e3o e tentativas de suic\u00eddio. Tamb\u00e9m perdeu um marido e um filho.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Desde 2024,\u00a0 Mille vive em liberdade provis\u00f3ria, mas ainda sob restri\u00e7\u00f5es legais. Precisa comparecer periodicamente ao f\u00f3rum e n\u00e3o pode se ausentar da cidade por mais de 15 dias sem autoriza\u00e7\u00e3o judicial.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Hoje, enfrenta outro luto, o do irm\u00e3o, falecido recentemente. <\/span><span style=\"font-weight: 400\">Ela trabalhava e morava junto com ele. Eram parceiros na vida. <\/span><span style=\"font-weight: 400\">Ele era presidente de uma cooperativa onde Mille atuava como secret\u00e1ria administrativa e<\/span><span style=\"font-weight: 400\"> foi um dos grandes apoios enquanto ela estava na pris\u00e3o.\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Agora, tenta recome\u00e7ar. Pretende cursar Administra\u00e7\u00e3o e seguir com o trabalho junto\u00a0 \u00e0 agricultura familiar. E pretende um dia poder seguir o sonho interrompido de ir morar no Jap\u00e3o. Tamb\u00e9m mant\u00e9m atua\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, com hist\u00f3rico ligado a movimentos sociais, principalmente\u00a0 ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra e ao Partido dos Trabalhadores, al\u00e9m de lutar pelos direitos das mulheres em c\u00e1rcere.\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">A\u00a0 hist\u00f3ria de Mille n\u00e3o come\u00e7a nem termina na pris\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Esta reportagem integra uma colet\u00e2nea de livro-reportagem. Este cap\u00edtulo trata da hist\u00f3ria de\u00a0 Mireille Leticia\u00a0 Ishimaru, que atualmente responde em liberdade provis\u00f3ria. Acompanhe no Peri\u00f3dico as pr\u00f3ximas publica\u00e7\u00f5es.<\/span><span style=\"font-weight: 400\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Ficha t\u00e9cnica<\/b><\/p>\n<p><b>Produ\u00e7\u00e3o:<\/b><span style=\"font-weight: 400\"> Pietra Gasparini<\/span><\/p>\n<p><b>Supervis\u00e3o de produ\u00e7\u00e3o: <\/b><span style=\"font-weight: 400\">Jana\u00edne Kronbauer<\/span><\/p>\n<p><b>Edi\u00e7\u00e3o e publica\u00e7\u00e3o: <\/b><span style=\"font-weight: 400\">Emanueli Garcia, Giulia Neves,<\/span> <span style=\"font-weight: 400\">Ticyane Almeida e Lorena Santana\u00a0<\/span><\/p>\n<p><b>Supervis\u00e3o de publica\u00e7\u00e3o: <\/b><span style=\"font-weight: 400\">Aline Rosso e Kevin Kossar Furtado<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um recorte da hist\u00f3ria de Mille, que hoje est\u00e1 em liberdade provis\u00f3ria e pretende recome\u00e7ar Foto: Pietra Gasparini \/ Ilustra\u00e7\u00e3o: Giulia Gasparini &nbsp; Mireille Let\u00edcia Ishimaru, ou Mille, 32 anos, nascida em Imba\u00fa, no interior do Paran\u00e1, come\u00e7a sua hist\u00f3ria com o encarceramento, assim como muitas mulheres, em um relacionamento abusivo. 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